terça-feira, 26 de maio de 2009

Wilson Simonal - da glória ao ostracismo, a trajetória de um dos maiores cantores brasileiros

Em pleno começo dos anos 1970 no Brasil, a situação política não era nada boa. O AI-5 chegara em 1968 para instaurar a repressão e legitimar a tortura dentro dos porões do regime militar. Políticos progressistas eram cassados, artistas tropicalistas como Caetano e Gil expulsos do país e, das artes ao jornalismo, a censura mostrava suas garras. A máquina de propaganda do governo clamava solene: "Brasil, ame-o ou deixe-o" e havia toda uma polarização entre setores de esquerda e de direita. Quem se manifestasse neutro era logo tachado de "alienado", um verdadeiro xingamento para a época. Outra acusação à qual ninguém queria estar ligado era a de "dedo-duro" dos órgãos da repressão política. Pois foi justamente uma acusação dessas que caiu como uma bomba sobre os ombros de um dos maiores cantores brasileiros no começo daquela década.

Mesmo com toda a repressão, havia uma genuína alegria vinda de uma bela voz que entretinha os brasileiros pelo rádio, pela televisão e em estádios por toda a América Latina. Não à toa, "Alegria, alegria" (1, 2, 3 e 4) eram títulos de uma série de discos gravados pelo dono dessa voz. Quem cantava essas canções alegres e românticas era um jovem chamado Wilson Simonal. Simonal havia começado a cantar quando ainda servia o exército, nos bailes do 8º Grupo de Artilharia da Costa. Participou do programa de rádio "Os brotos comandam", de Carlos Imperial e trabalhava como crooner em boates de Copacabana quando foi levado pela dupla Miéle e Bôscoli para apresentar-se no Beco das Garrafas, antigo reduto da bossa nova. Daí para a ascenção meteórica foi um passo.

De repente, um lance em falso e Simonal viu toda sua carreira e um futuro promissor irem por água abaixo. Após descobrir um desfalque na sua produtora, o cantor acusou seu contador de tê-lo roubado e, em vez de simplesmente ir à polícia prestar queixa, contratou dois policiais para darem uma surra no funcionário. O problema era que os policiais eram do Dops, a delegacia de repressão política. Rapidamente se espalhou o boato de que Simonal seria um alcaguete do regime militar. O jornal O Pasquim acusou-o de dedo-duro. Começava ali o declínio do cantor.

Seus discos foram retirados de circulação, artistas e amigos começaram a evitá-lo, seus contratos musicais reduziram-se terrivelmente. Anos mais tarde, no final dos anos 80, já debilitado pelo alcoolismo, o cantor desabafou para a esposa: "Eu não existo na história da música brasileira!" A história da ascenção e queda deste grande ídolo popular está contada no filme em cartaz "Simonal: ninguém sabe o duro que dei", dirigido pelo casseta Cláudio Manoel e os cineastas Calvito Leal e Micael Langer.

Para quem se interessa por música brasileira e também pelo comportamento de grande parte da sociedade nos anos 1970, não dá pra perder o filme. Seu maior mérito está em reabilitar o talento de um grande cantor que estava praticamente esquecido. Com o lançamento, muito já se falou e está sendo discutido sobre a trajetória de Simonal. Após uma infância pobre, o cantor viu-se atirado à fama da noite para o dia e aproveitou ao máximo a onda de sucesso, ainda que fugaz. No auge do sucesso, o cantor negro colecionava namoradas louras e tinha três mercedes na garagem (o dono da Globo tinha um). Fazia um estilo por vezes abusado ("eu sempre fui mascarado", diz o cantor numa entrevista a um repórter de televisão no filme), o que incomodava muita gente. Tom Jobim dizia que no Brasil "o sucesso é ofensa pessoal". O cantor pagou por sua vaidade, mas nunca delatou ninguém, e no fim da vida conseguiu provar a verdade. Mas para quê, se ninguém lembrava mais dele - e mesmo aqueles que lembravam insistiam em ignorá-lo?

Por isso, eu queria mesmo era falar um pouco aqui de seu imenso talento como showman (ou entertainner, como os americanos gostam de dizer) brasileiro. Há dúvidas se Simonal foi realmente o maior cantor brasileiro, mas de uma coisa ninguém parece discordar: ninguém conseguia magnetizar de tal forma as plateias em shows como ele.



Dois momentos do filme me pareceram emblemáticos. No começo, quando Simonal, usando uma faixa na testa que mais parecia uma gravata amarrada, faz o Maracanãzinho em peso cantar "Meu limão meu limoeiro", em estado de delírio. A apresentação seguinte - e então atração principal - seria de Sérgio Mendes, que quase cancela sua entrada em cena devido ao sucesso estrondoso de Simonal. Corta para a apresentação do cantor levando a mesma música num auditório mais comportado - mas com a mesma animação do público. Entra em cena o depoimento de Chico Anysio, que diz ter encontrado com o artista calmamente tomando um cafezinho nos bastidores do show. Ao notar a reação espantada de Chico, Simonal teria dito, rindo: "Deixei a plateia cantando o limoeiro lá no auditório e dei um pulinho aqui dentro para um café!" Atitudes de quem comandava a massa como queria.

Ao final do filme, já nos tempos de ostracismo, somos levados ao depoimento dos filhos de Simonal, Max de Castro e Wilson Simoninha, ao revelarem que o artista, quando ia ao show dos filhos, ficava escondido atrás das pilastras para que ninguém notasse que o "ex-delator" estivera ali. Corta para a cena em que Simonal canta um dos seus grande sucessos, "País tropical", de Jorge Ben, para um público reduzidíssimo dentro de um local não identificado de uma cidade do interior. Me lembrou cena do filme "Letra e música", no qual o personagem vivido por Hugh Grant, um ex-componente de uma banda pop de sucesso nos anos 80 e agora no ostracismo, é obrigado a se apresentar em parques de diversões em subúrbios para se manter. Porém, a situação de Simonal era bem pior.

No livro "Chega de saudade", de Ruy Castro, o autor mostra que Simonal era um artista completo já no começo da carreira: "Quando o cantor surgiu no Beco da Garrafas, Simonal era o máximo para o seu tempo: grande voz, um senso de divisão igual ao dos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou apelar para os scats fáceis". Essa capacidade sublime de cantar fácil seduziu não só os brasileiros, mas também cantores americanos, como Sarah Vaughan.





Há alguns anos a TV Globo copiou o modelo de sucesso do American Idol e lançou o programa Fama, um reality-show no qual aspirantes ao estrelato eram submetidos a vários treinamentos e testes para obterem uma melhor performance no palco e conquistarem os jurados. Ao contrário de seu primo americano, até hoje um sucesso na televisão dos Estados Unidos, aqui o Fama não obteve o sucesso de audiência esperado, e só durou duas temporadas.

Talvez a razão do fracasso esteja no fato de que dom e talento são coisas que não se aprendem em casa nem programas de televisão. Simonal tinha talento para cantar e entreter de sobra. Muitas vezes a comunicação com o público dos candidatos no programa global era forçada. Já em Simonal essa interação era genuína (e não é qualquer um que podia se dar ao luxo de deixar o público cantando e sair sorrateiramente do palco para "tomar um cafezinho").

Nos palcos em que se apresentava, Simonal era cantor, ator, palhaço, humorista - um showman. No palco da vida real, foi liquidado por uma patrulha ideológica ávida em atacar o regime militar - e não teve final feliz.

Mas com o sucesso do filme - e para aqueles que nunca ouviram falar neste grande artista - em algum lugar o artista deve estar enfim, rindo, e comandando, lá em cima, um auditório de anjos ao som de "Meu limão meu limoeiro".

Mesmo que por vezes ele saia de fininho, pilantramente, para bater um papo com São Pedro...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

De Vanderbilt a Moraes, pouca coisa mudou no trato com o público

Dois momentos históricos distintos. Duas opiniões dramaticamente semelhantes, sobre como poderosos costumam tratar a sociedade a qual deveriam prestar contas:

"O público que se dane!" - William Henry Vanderbilt, empresário americano, 1882.

"Estou me lixando para a opinião pública!" - Sérgio Moraes, deputado do PTB, 2009.

Sigamos com o contexto. O milionário norte-americano Vanderbilt proferiu a infeliz frase no final do século XIX, em meio à emergência de diversas lutas sindicais nos Estados Unidos. A América vivia a consolidação de seu capítalismo. O jornalismo deixava o processo artesanal para abraçar a penny press (imprensa barata) e atingir o grande público. O desenvolvimento industrial propiciou também a formação de massas de trabalhadores e, com elas, as primeiras associações e sindicatos com ideias socialistas, comunistas ou anarquistas. Segundo Maristela Mafei, no livro "Assessoria de imprensa: como se relacionar com a mídia", foi aí que surgiram os primeiros jornais independentes, escritos pelos próprios empregados. Como os grandes empresários não queriam a proliferação de ideias contrárias aos seus interesses, responderam criando os primeiros jornais internos que se têm notícia - os house organs, hoje comuns nas empresas que se preocupam em construir uma boa comunicação interna com seus funcionários.

Mas é claro que nem todos os empresários estavam dispostos a ceder às reivindicações da crescente massa de trabalhadores agora alfabetizados e trabalhando nas indústrias. Por isso, quando questionado e cobrado pela péssima qualidade dos serviços prestados por suas rodovias, Vanderbilt cunhou a frase acima, que entraria para a história ao ilustrar como as empresas lidavam com os interesses do público.

Foi então que alguns homens de imprensa viram que poderiam ganhar um bom dinheiro intermediando as relações entre grandes empresários e a imprensa. Um destes espertos homens foi Ivy Lee, ex-jornalista de economia de Nova York, que criou em 1906 o primeiro escritório de relações públicas a ostentar esse nome. Lee passou a oferecer aos jornais um serviço então inédito: informações empresariais que as próprias empresas autorizavam ser apuradas e divulgadas. Tudo com tratamento jornalístico - ou seja, com credibilidade e o devido interesse público. A informação passada aos meios de comunicação era gratuita e de uso facultativo pela imprensa. Com isso, Lee conseguiu melhorar a imagem antes bastante ruim de seus assessorados.

A partir de então o serviço de RP não parou de crescer e seria usado de forma ideológica nas duas grandes guerras mundiais, estimulando o patriotismo, arrecadando dinheiro para a campanha militar, além de ser usado como máquina de propaganda pelo nazi-fascismo na Europa e outras partes do mundo.

No Brasil, a atividade de assessor de imprensa foi muito criticada até pouco tempo atrás pelos jornalistas dentro das redações. Uma das razões está no período da ditadura militar, no qual a imprensa sob censura recebia uma avalanche de press releases oficiais, com adjetivos enaltecendo o regime e quase sempre sem notícias de interesse público. Uma fase classificada por pesquisadores como releasemania, ou seja, a falta de critério em estabelecer o que seria realmente notícia digna de ser publicada.

No entanto, hoje em dia as assessorias cresceram e se tornaram grandes agências de comunicação. Com o enxugamento das redações, a crise proporcionada pelo aumento do preço do papel e a entrada em cena da internet, além de outros fatores, a influência das assessorias na pauta de um grande jornal aumentou bastante. E a maioria deles realmente não pode mais prescindir deste serviço. O jornalista deixou de decidir sozinho o que é de interesse para a opinião pública e tudo ficou mais complexo.

Voltemos agora ao ano de 2009 e o comentário do nobre deputado Sérgio Moraes, até então um ilustre desconhecido pela opinião pública a que ele raivosamente diz se lixar. Mais de um 100 anos separam a declaração de Vanderbilt do comentário de Moraes, e as décadas que se passaram não foram suficientes para mudar as relações dos poderosos com a sociedade. Com as devidas, exceções, é claro, estas continuaram variando entre o desprezo e o escárnio.

Ao dizer com todas as letras que "estava se lixando para a opinião pública", o deputado pareceu confundir o sentido da expressão "opinião pública". O comentário posterior foi: "Estou me lixando para o que sai nos jornais. Vocês batem, mas a gente se reelege". Opinião pública, devemos explicar ao deputado, não é o que sai nos jornais; opinião pública é o conjunto de opiniões predominantes de uma sociedade. Estas opiniões podem estar em sintonia ou não com o que é publicado nos jornais - este meio de comunicação que ele parece tanto deplorar.

Winston Churchill dizia que não existe opinião pública, e sim opinião publicada. Ótima frase, mas não é bem assim. Há um nítido jogo de interesses em torno da questão. Muitas vezes a opinião da sociedade e dos meios de comunicação andam juntas, outras não. No primeiro caso podemos destacar a instauração do golpe militar em 1964, apoiado pela sociedade, temerosa do "terror comunista", e, também, pela grande imprensa, que não via com bons olhos as inclinações reformistas do governo João Goulart. Jornalistas independentes que ousaram firmar uma posição contrária ao golpe, como Carlos Heitor Cony, ou foram demitidos ou afastados de suas funções. Mas também a opinião pública pode ser contrária àquela dos meios de comunicação, e um exemplo recente é a sempre questionada (pela mídia) ideia de usar o exército para combater o tráfico nas favelas ou "proteger" os morros da violência - atitude apoiada até hoje por grande parte da população. Ou seja, neste caso, opinião pública e jornais estão em lados opostos.

É claro que, ao longo das décadas, movidos por interesses vários, os jornais buscaram estar ao lado da opinião pública, considerando-se como seus legítimos representantes na sociedade. Também é verdade que o assédio de grupos variados aos meios de comunicação só cresce, pois todos querem conquistar a visibilidade - essa palavra tão em moda hoje - só amplificada pelo poder da mídia. A opinião pública é algo difuso, não é facilmente reconhecível, o que a leva a ser por vezes vítima de grupos de interesse que buscam sempre manipulá-la conforme seus reais objetivos. Uma opinião pública bem articulada, no entanto, em sintonia com a mídia, é capaz de derrubar até mesmo presidentes da república. Por isso, há que se pensar duas vezes ao condenar a opinião pública, atitude que faltou ao deputado gaúcho.

No tempo de Vanderbilt a imprensa ainda se encontrava em processo de modernização, daí uma frase insolente como "o público que se dane" não ter tido grande repercussão à época nem causado grandes danos na imagem do empresário. Mas hoje a internet está servindo para dar mais força à opinião do público que o nobre deputado insistem em se lixar. É como escreveu a jornalista Ruth de Aquino em crônica da revista Época,"Quem tem medo da opinião pública?": "agora entrou no roteiro um novo personagem: o rolo compressor da opinião pública virtual e nacional. Nunca antes na história deste país os leitores comentaram tanto e com tanta agilidade. Nunca antes as críticas foram tão contumazes e abundantes. O povo na rua virtual tem empurrado os políticos a recuar de decisões e pensar rápido - às vezes, a se precipitar, como foi o caso do quase desconhecido Sérgio Moraes".

Moraes, constantemente reeleito por via de "currais eleitorais" no Sul, acreditou que podia vangloriar-se ao escarnecer da opinião pública. Seu afastamento do papel de relator do Conselho de Ética no caso do "deputado do Castelo" é um indício que a sociedade está mais alerta, mesmo que a cada dia o número de escândalos nos deixe mais e mais indignados.

Com certeza, há ainda muitos vanderbilts e moraes rondando por aí, que não estão ligando a mínima para a opinião pública. Mas pelo menos a maior participação e interação da sociedade nas críticas virtuais (ou não) demonstra que eles devem agora tomar mais cuidado com suas infelizes declarações falastronas.

Mais interação pode significar maior reação.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O jornalista e seus pseudônimos - parte 2

Como vimos, o pseudônimo pode ser escolhido pelo próprio jornalista, assim como pode ser imposto por algum editor, ou também ser um recurso para enfrentar censores e adversários protegido por um nome fictício. Aqui mesmo na blogosfera, há uma infinidade de blogueiros que preferem escrever através de pseudônimos. Que o digam nomes como Gravataí Merengue, Nemo Nox e muitos outros.

Zózimo (nome de batismo) deu sorte de possuir um nome "diferente" e que servia para assinar uma coluna social. Já no teatro nomes "comuns" são bastante indesejáveis. Que o digam Ariclenes Venâncio (Lima Duarte), Antonio de Carvalho Barbosa (Tony Ramos) e Arlette Pinheiro da Silva (Fernanda Montenegro). Ou seja, o artista já começa a representar a partir do pseudônimo. Há exemplos também dentro da música popular, é óbvio. Para driblar os censores na época da ditadura militar, Chico Buarque criou a figura de Julinho da Adelaide, que passou a constar como "autor" de músicas em seus discos. Deu tão certo que até hoje há pessoas que confundem quem é quem. Já ouvi mais de uma vez locutoras dessas rádios FMs "adulto contemporâneo" anunciarem: "vocês acabaram de ouvir a música Jorge Maravilha, de Chico Buarque e Julinho da Adelaide"(!).

O uso de pseudônimos na esfera jornalística sem dúvida já rendeu muitas histórios curiosas. Uma delas foi contada recentemente por Luís Fernando Verissimo, em deliciosa crônica reminiscente de seus primeiros tempos dentro de um jornal ("Eu, repórter"). Segundo o cronista, no começo da carreira, quando faltavam artigos para a página de opinião do jornal Zero Hora, ele mesmo os escrevia, usando nomes fictícios: "Certa vez dois dos meus pseudõnimos polemizaram violentamente, pois tinham opiniões radicalmente opostas sobre determinado assunto. Eu também fazia um guia de bares e restaurantes da cidade e vez que outra inventava personalidades que os frequentavam (o conde italiano Ettore Fanfani, o empresário e bom vivant Aldo Gabarito) e davam seus palpites. Quer dizer, nada menos sério e mais longe da reportagem do que minha enclausurada atividade jornalística na época".

Outra história, ainda mais divertida. Em recente ciclo de debates sobre Jornalismo Literário no CCBB do Rio, com as presenças de Luiz Carlos Maciel e Matinas Suzuki, Maciel contou que nos anos 1960, na Bahia, ele, Glauber Rocha e João Ubaldo Ribeiro criaram Galileu, um personagem dado a escrever artigos opinativos e provocadores. Galileu (esqueci o sobrenome, mas como é fictício mesmo, vamos adiante) adorava polemizar com intelectuais baianos e até mesmo com outros articulistas do mesmo jornal. Para se ter uma ideia do clima de galhofa, uma vez, Glauber cismou em fazer uma citação do filósofo Hegel, em alemão. Único problema: nenhum dos três falava o idioma. Então, Glauber e Maciel perguntaram a Ubaldo se ele tinha algum livro, texto ou artigo escrito em alemão em casa. "Não tenho!". Disseram então que servia qualquer coisa. Depois de pensar um pouco, João Ubaldo disse:

- Até tenho algo escrito em alemão em casa. Mas é o Manual da Wolkswagen...
- Serve!!!, responderam juntos Glauber e Maciel.

Foi então que a Bahia acordou no dia seguinte com um artigo do polemista Galileu no qual, para variar, esculhambava com a intelectualidade local, citando "Hegel" - na verdade, trechos de um manual alemão ensinando como usar um fusca....

Perguntado se ninguém descobriu a galhofa, Maciel, rindo, disse apenas: "Acho que naquela época ninguém falava alemão na Bahia!"

Como vimos, todos aqueles que já usaram pseudônimos tem uma boa história pra contar. Qual a sua?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O jornalista e seus pseudônimos - parte 1

"Por mais incrível que pareça o meu nome é Pelópidas. Meu nome de batismo é Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo. Segui a vida inteira carregando o nome de Pelópidas, no colégio, na faculdade...até que resolvi entrar para o teatro. E no teatro, "Pelópidas Gracindo" soava muito mal, ninguém realmente acertava o meu nome. Me chamavam de "Zé Lopes", de "Petrópolis" e, uma vez, uma empregada me chamou de "Envelope". Foi então que eu resolvi definitivamente tirar o Pelópidas e colocar um nome simples: Paulo"

O trecho acima faz parte do ótimo documentário em cartaz "Paulo Gracindo: o bem amado", sobre um dos maiores artistas brasileiros, cuja trajetória se confunde com a história da comunicação de massa no Brasil durante o século XX. Paulo Gracindo trabalhou nos anos 1940 na Rádio Nacional (a Rede Globo da época), atuou em grandes filmes, como "Terra em transe", e fez participações inesquecíveis em várias telenovelas. Será que se ele mantivesse o nome de batismo "Pelópidas" teria conquistado tanta fama entre os brasileiros? Isso me faz lembrar que, também entre os jornalistas, o uso de pseudônimos é uma prática recorrente, ainda que por motivos diversos.

Vamos lá. O que teriam em comum nomes como João do Rio, Artur da Távola e Stanislaw Ponte Preta? Bem, além do fato de que os três escreveram durante muitos anos na imprensa, Paulo Barreto, Paulo Alberto Monteiro de Barros e Sérgio Porto escolheram, em determinada fase de suas carreiras, escrever através de pseudônimos - e foi com os nomes escolhidos que eles se consagraram no jornalismo brasileiro. Muitos escolhem pseudônimos pela imponência do nome ("Artur da Távola" realmente chama bem mais atenção do que Paulo Alberto, não é mesmo?); outros por pura gaiatice ou desculpa para assumir uma personalidade humorística (no caso de Stanislaw). E também temos aqueles nomes que brotam na redação e o jornalista nem escolhe, como foi o caso de um jovem e talentoso cartunista mineiro chamado Henrique Filho, que ao dizer seu nome ao editor do jornal Estado de Minas, o escritor Roberto Drummond, ouviu: "Esse nome não dá!". Depois, Drummond apenas juntou as primeiras três letras do nome e sobrenome do jovem e inventou o pseudônimo daquele que seria um dos grandes gênios do desenho brasileiro: Henfil.

O Brasil tem uma longa tradição de uso de pseudônimos na imprensa. Vejamos; Em 1808, há o surgimento do primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense, de Hipólito da Costa, o qual, devido à censura, era editado em Londres e chegava ao Brasil clandestinamente. No mesmo ano, temos a instituição da Imprensa Régia e a fundação da Gazeta do Rio de Janeiro, jornal pró-monarquia, que obviamente só publicava o que interessava ao governo português. Nada se imprimia sem a censura prévia do governo, até a divulgação do Decreto Regencial de 1822, no ano da independência. A partir daí, a história brasileira verá o surgimento de uma série de jornais radicais e panfletários. Eram pregadores que escreviam dentro do estilo que predominou no jornalismo político da primeira metade do século XIX. Entre os donos destes panfletos (também chamados por mais de um pesquisador de "jornais incendiários") estavam políticos que usavam seus jornais como libelos para trocar acusações e desaforos com seus adversários. Foi a época dos “insultos impressos”, na definição da historiadora Isabel Lustosa.

Um exemplo. O que diriam da autoria deste desaforo: “O senhor há de ferver em pulgas!”; ou desta série de insultos, “Testa-de-ferro dos atrapalhadores da causa basílica, pedante, pedaço d’asno maroto, pé-de-chumbo, inchado, bazófio...”. Todos eles foram escritos por Dom Pedro I, através de pseudônimos para atacar figuras da oposição. O nível do discurso chegava aos insultos pessoais, "às vezes de uma virulência destruidora só possível em um momento de indefinição política", lembra Silvana Gontijo, no livro "O mundo em Comunicação: "a imprensa se fez independente antes do próprio país, mais por falta de regras para o jogo democrático do que pelo esforço, através da pressão cidadã, para conquistar instrumentos legais que garantissem a liberdade de imprensa”.

Já no século XX, uma classe de jornalistas iria abusar dos pseudônimos na imprensa: os colunistas sociais. Era quase uma norma dentro do estilo a escolha de um nome "literário", "importante", uma alcunha que chamasse a atenção logo de cara. Colunistas eram vistos por muitos de seus pares e leitores como senhores "afetados" e especialistas em frivolidades. O criador da moderna coluna social brasileira, em 1945, Manuel Bernardez Müller (apelidado Maneco Müller pelos coleguinhas) ao ser convidado para escrever uma coluna social no extinto Diário Carioca, teria ouvido esta proposta do editor:

- Você vai trabalhar como cronista social.
- Não quero. É coisa de viado.
- Só temos este cargo.

Após pensar um pouco, Maneco topou a empreitada, mas para se proteger da avacalhação geral, impôs uma condição: escreveria sob pseudônimo. O jornalista escolheu então um personagem de Eça de Queiróz - Jacinto de Thormes - para assinar a coluna. Foi um sucesso estrondoso. Mais do que escrever uma coluna social, Maneco criou um personagem. Enquanto o autor da coluna era um jovem que adorava futebol e boxe, cosmopolita e com amigos em todas as camadas sociais, Jacinto era petulante, blasé, esnobe e dono de uma ironia cortante. Num tempo em que não havia televisão, em que o termo "celebridade" nem era comum, Jacinto dava destaque às figuras da emergente burguesia que surgia com a industrialização levada a cabo pelo governo Vargas - uma classe que começava a deixar de lada os perfumes franceses pelas delícias de consumo made in USA, como Cadillacs, produtos de "matéria plástica" (grande novidade à época), o cinema de James Dean e Brando, o rock n' roll petulante de Elvis e Chuck Berry. Gostava de realçar o sobrenome dos colunáveis no texto ("Jorginho, que também é Guinle"), mas ao mesmo tempo provocava a burguesia ao eleger, por exemplo, o sambista Ataulfo Alves entre os "dez mais elegantes do ano". Ao lado da coluna, havia uma caricatura de um homem em trajes de pijama e fumando um cachimbo - os leitores achavam que se tratava do próprio Maneco. Possuía ainda um cachorro - personagem real de suas crônicas - chamado William Shakespeare Júnior - que de tão famoso virou capa de revista. Vale a pena uma visita ao site do jornalista Geneton Moraes Neto, que conseguiu entrevistar o lendário colunista.

Maneco não era um deslumbrado com os jantares e recepções que deveria cobrir (só aceitou a coluna por causa do salário): anunciava a festa que deveria ir e concluía com um "depois eu conto"...que nunca contava! Mas, ao mesmo tempo em que debochava das figuras do high-society carioca, encontrava tempo para frequentar o Senado e a Câmara dos Deputados (lembremos que o Rio da época ainda era a capital da República) e, aos poucos foi inserindo notinhas sobre política, economia e até esportes em sua coluna. Maneco criou um embrião das modernas colunas jornalísticas brasileiras, hoje entre os espaços nobres dos jornais diários. Ajudou a revolucionar a imprensa, mas nunca conseguiu se desvencilhar do pseudônimo que o acompanharia como uma sombra pela vida inteira.

O pseudônimo é capaz de se incorporar à figura do jornalista de tal forma que alguns lutam para se verem livre dele. O colunista Zózimo, titular da coluna Carlos Swann (personagem inspirado em Proust), do Globo, ao aceitar a oferta de assinar uma coluna no Jornal do Brasil com seu nome, ouviu de Roberto Marinho: "Mas meu filho, você está prestes a fazer uma grande tolice. Todo mundo sabe quem é Carlos Swann e ninguém sabe quem é Zózimo". Ao que o colunista respondeu: "Dr. Roberto, o senhor está me dando um ótimo argumento a meu favor: está na hora de as pessoas saberem quem é Zózimo Barrozo do Amaral".

Ironia dos pseudônimos. Enquanto o jovem Pelópidas trocava de nome para conhecer a fama, o jovem Zózimo apostava todas as suas fichas em seu nome de batismo para assinar uma coluna. Aliás, pensando bem, "Pelópidas Gracindo" é um nome que poderia funcionar muito bem assinando uma coluna social...

terça-feira, 28 de abril de 2009

A última loja de discos

Minha loja chama-se Championship Vinyl. Vendo punk, blues, soul e R&B, um pouco de ska, algum material independente, um pouco de pop dos anos sessenta - tudo para o colecionador de discos exigente, como reza o ironicamente antiquado letreiro na vitrine. Ficamos numa rua calma de Holloway, cuidadosamente localizada para atrair o mínimo de atenção de fregueses casuais; não há razão alguma para se vir aqui, a não ser que você more aqui, e as pessoas que moram aqui não parecem terrivelmente interessadas em meu Stiff Little Fingers com selo branco (vinte cinco paus para você - paguei dezessete por ele em 1986) ou na minha reprodução em mono de Blonde on Blonde.
"Alta fidelidade", Nick Hornby


Na série "Life on Mars", versão americana inspírada no seriado original inglês (e com a mesma canção tema de David Bowie), toda quinta-feira no canal a cabo FX, um policial de 2008 é atropelado e, quando acorda, vai parar no ano de 1973. Confuso, desnorteado, ele vai agora procurar saber como foi parar ali e como fazer para voltar ao futuro, ao mesmo tempo em que tenta se adaptar a uma sociedade sem CDs e DVDs, sem computadores pessoais, sem telefones celulares... Logo no primeiro capítulo, ao buscar uma pista sobre um criminoso, nosso herói acaba entrando numa loja de discos de vinil, com centenas de exemplares, além de cabines para a escuta dos "long-playings". Maravilhado, ele diz a um colega policial que de onde ele vem lojas assim já não existem mais; e conclui, olhando para os LPs: "Tenho que me lembrar de levar alguns destes quando voltar".

Lembrei da cena ao ler semana passada, dia 18, uma notinha bem escondida no Segundo Caderno do jornal O Globo: naquele dia estaria sendo comemorado nos Estados Unidos o "Dia da Loja de Discos". E que, para marcar a data, o cantor e compositor Tom Waits estava lançando um disco (em vinil!). O compacto simples (nos Estados Unidos, single) fora gravado ao vivo no Fox Theatre, em Atlanta, em julho de 2008, e trazia duas músicas: "Lucinda" e "Ain't going down the well". Ainda segundo a nota, Tom Waits teria comentado o que achava da data: "As lojas de discos são um lugar mágico onde vou alimentar meus ouvidos. Não podemos deixar que elas acabem."



"Não podemos deixar que elas acabem". Sábias palavras, Tom. Apesar de possuir uma boa quantidade de músicas baixadas em MP3, confesso que sou um apaixonado pelos discos de vinil e até hoje os coleciono. Durante algum tempo, nos últimos anos, cheguei a pensar que as lojas pelas quais passei boa parte de minha adolescência e vida adulta iriam desaparecer - uma a uma elas foram sumindo, primeiro trocando os vinis por CDs; depois cedendo seu lugar para as grandes redes de departamentos, onde o vinil e o CD eram apenas alguns dos inúmeros produtos postos à venda. A lojinha da esquina, aquele lugar mágico onde eu ia alimentar meus ouvidos e experimentar novas sensações, não existia mais. Seria o fim?

Cada um de nós, apaixonados por música, sempre gostou de passar bons momentos dentro de uma boa loja de discos. Quem nunca deixou a namorada esperando e reclamando, enquanto pedia só mais um tempinho ali dentro, apenas para ouvir a última canção dos Smiths, o mais novo disco do Caetano, aquele disco fora de catálogo de David Bowie perdido no final de uma prateleira ou o caixote caríssimo de discos com gravações raras de Bob Dylan? Creio que todos temos, ou tivemos em algum momento de nossas vidas, aquela loja de discos de estimação, que era pra onde íamos quando sobrava algum dinheiro, pois estávamos sempre sem grana.

Minha loja de discos de estimação era perto de minha casa. Ficava na rua Uranos, na altura de Olaria, no subúrbio do Rio. Eu ficava ansioso por juntar uns trocados suficientes para ir lá. Numa época em que os CDs começavam a expulsar os discos de vinil das lojas, esta loja orgulhava-se de manter uma bela coleção de centenas de LPs. Ali eu encontrei pérolas como o primeiro disco da Banda Black Rio (que depois viraria item de colecionador nas feiras antenadas de Londres), além de clássicos de Neil Young, Creedence, Beach Boys, Buddy Holly, Billie Holiday e vários outros sons que fizeram parte de minha vida. Aos sábados de manhã um grupo de fãs idosos de rock n' roll se reunia ali para trocar ideias sobre música pop dos anos 50. Uma vez apareci por lá nesse dia, e acabei levando um LP de Jerry Lee Lewis depois de uma animadíssima conversa com os velhinhos roqueiros.

Um tarde dos anos 1990, não me lembro mais qual ano, passei em frente à loja num dia de semana. Ela estava fechada. Voltei na semana seguinte e tive a certeza - era o fim. Ela era um delicioso anacronismo em pleno subúrbio carioca, mas não resistira e fechara suas portas. Meu escape pelo delicioso mundo das sensações musicais daquela lojinha que se orgulhava de não chamar a atenção de ninguém que não fosse fã de música havia acabado.

Mas, que bom, não era o fim das lojas de discos. Elas estão voltando, aos poucos, bem lentamente. E a gravadora Deck Disk já anunciou que vai reabrir a última fábrica de vinis do brasil, em Belford Roxo. Parece que com a emergência das novas mídias, há espaço também para aquele objeto redondo, "preto com um buraco no meio" (como dizia Keith Richards a jornalistas que perguntavam como seria o próximo disco dos Stones) que nós, fetichistas do vinil, sempre curtimos. É mais ou menos como naquele filme do Woody Allen, "Igual a tudo na vida" em que a personagem de Christina Ricci seduz um rapaz dizendo mais ou menos que "não há como curtir uma gravação de Billie Holiday se não for num velho disco de vinil".

Por isso, a importância de um "Dia da loja de discos". E nos Estados Unidos, país que mais sofreu com os downloads de músicas na internet, que perdeu megalojas como a Tower Records (verdadeiro santuário dos fãs de música) e a Virgin Records de Nova York (esta transformada recentemente numa grande loja de roupas a preços módicos). Mas também o mesmo país em que só no ano passado mais de 2 milhões de discos de vinil foram vendidos. Apostando na onda dos produtos "vintage", artistas já lançam há algum tempo tiragens limitadas de seus discos em vinil, alguns contendo músicas não disponíveis no formato CD. Os fãs do formato agradecem.

Aqui no Brasil a notícia do "record store day", tirando alguns comentários em blogs e sites sobre música, como o da MTV, passou em brancas nuvens. Uma pena, mas é bom saber que ainda há lugares em que os discos resistem, seja num sebo como o Baratos da Ribeiro, seja na grande Modern Sound, a melhor loja do Rio e que continua de vento em popa. Estive em Belo Horizonte mês passado e fiquei deliciado com a ótima Disco Play, na rua Tupis, bem no Centro. E há muitas outras espalhadas em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza etc.

De minha parte, enquanto existirem estas lojas, eu as continuarei frequentando. Mesmo que um dia eu entre na última loja de discos que sobrar, peça ao vendedor aquela cópia do "Sticky Fingers", dos Rolling Stones, com a capa original cujo design e charme original - com aquele fecho ecler de verdade - nenhum arquivo baixado na rede pode chegar perto, e reservarei alguns momentos para ir à cabine e deixar que a música satisfaça minha alma, minha mente, meu espírito.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O incrível, o bizarro, o inesperado nos contos de Roald Dahl

Você não acharia estranho se um gato que cruzou seu caminho e lhe seguiu até sua casa demonstrasse uma estranha fixação em música clássica, a ponto de deixar suspeitas inusitadas? Pois leia um trecho desta história:

"O animal, que havia poucos segundos dormia tranquilamente sobre o sofá, sentava-se agora absolutamente ereto, muito tenso, o corpo todo tremendo, orelhas em pé e olhos arregalados, olhando fixamente para o piano.(...)Louisa levou as mãos ao teclado e começou, de novo, a tocar Vivaldi. Dessa vez o gato estava preparado, e o que aconteceu, a princípio, foi que seu corpo ficou ainda mais tenso. Mas, à medida que a música crescia e se acelerava, naquele ritmo excitante da introdução à fuga, um olhar estranho, quase de êxtase, começou a se apoderar do rosto da criatura. As orelhas, até então eriçadas para cima, recuaram lentamente, as pálpebras se fecharam, a cabeça inclinou-se para um lado, e, naquele momento, Louisa poderia jurar que o animal estava, de fato, deleitando-se com a peça."

Estranho, não? Poderíamos até dizer que se trata de algo bizarro, inacreditável até. Sim, pois são adjetivos afins que podem, a princípio, definir os contos do escritor Roald Dahl, pouco conhecido no Brasil, mas dono de uma imensa popularidade na Inglaterra, onde viveu até sua morte, em 1990. Dahl era um mestre em mostrar como o ser humano era capaz de levar a cabo as atitudes mais perturbadoras para conseguir seus objetivos. Mas não estamos falando de um escritor de literatura de "terror". Qualquer rótulo soaria apressado para definir este exímio contista, capaz de escrever histórias recheadas de humor e ironia. O trecho que você leu acima é parte integrante de um dos onze contos do livro "Beijo,", lançado pela Editora Barracuda em 2008.

Se consultarmos o verbete da Wikipedia sobre Dahl, poderemos constatar que a imaginação do escritor, nascido no País de gales e filho de noruegueses, "foi muito estimulada pelas histórias que sua mãe contava sobre os trolls, as míticas criaturas das lendas norueguesas". Ouvir histórias fantasiosas e recheadas de suspense é um hábito milenar do homem. Há centenas de anos atrás, ainda na Idade Média, bem antes da invenção da escrita, era comum que pessoas se reunissem à noite, ao redor da fogueira, para ouvir de alguém histórias em que o fantástico, o suspense e o inesperado predominavam. Na história da literatura, este período literário é conhecido como a fase oral. Os primeiros contos publicados inspiraram-se nestas histórias curtas, soturnas e instigantes, geralmente com uma passagem inesperada ao final. Em "Beijo,", Roald Dahl leva ao leitor uma desconcertante seleção de contos que nos lembram os primórdios do estilo. Suas histórias são tão sedutoras e misteriosas que nos dão a sensação de reviver os momentos em volta da fogueira.

O autor é mais conhecido por seus livros para crianças, em especial "Charlie e a fábrica de chocolates", que daria origem ao filme "A fantástica fábrica de chocolates", levado aos cinemas por duas vezes, a última em 2005 por Tim Burton, com Johnny Depp no papel de Willy Wonka, o dono da misteriosa fábrica a qual nunca ninguém era visto entrando e saindo. A primeira versão, de 1971, com Gene Wilder como Wonka, e roteirizada pelo próprio escritor, é hoje um cult movie dos cinéfilos brasileiros. Quem viu, até hoje não esquece da história encantadora, mas com alguns momentos bem perturbadores.

Já em "Beijo,", lançado originalmente em 1960, o público adulto é o prestigiado com onze contos intrigantes e muito bem escritos. Não procure aqui alguma "mensagem", "ideologia" ou a busca por um estilo linguístico que rompa com algum padrão. Dahl interessa-se apenas em contar uma boa história, seja ela fantasiosa - como o conto em que um homem desenvolve uma estranha fixação por abelhas, a ponto de tentar curar a filha recém-nascida e doente com geléia real e, aos olhos da mulher, ir ficando estranhamente parecido com o animal; ou demasiadamente humana, como em "O prazer do pastor", no qual um vendedor de móveis antigos faz-se passar por um pastor para ludibriar moradores do campo e comprar destes móveis caríssimos a preços irrisórios. O final deste conto, no qual a ganância do falso pastor cairá por terra de forma hilariante, é genial.

Alguns contos, mais macabros, poderiam estar perfeitamente entre aqueles selecionados por Alfred Hitchcock para sua famosa série de televisão "Suspense", como "A dona da pensão" e "Porco". Mas os melhores são mesmo aqueles em que o humor e a ironia do escritor são a deixa para vinganças pessoais de maridos traídos ("A sra. Bixby e o casaco do coronel"), mulheres aparentemente submissas ("William e Mary") e ladrões que arquitetam o plano perfeito ("O campeão do mundo").

São nestes contos que Dahl demonstra sua maestria em desnudar o ser humano, ora atraído pelo ridículo, ora genial e muitas vezes capaz das atitudes mais inesperadas, como a esposa que, mesmo viúva, vinga-se do marido que em vida a proibia dos prazeres mais prosaicos. Agora, com o marido "morto", mas mantido consciente através de um experimento científico, dentro de uma bacia, apenas com um cérebro e um olho artificial, Mary tem sua chance. Segue a descrição:

Ao passar pela mesa, ela parou e se inclinou, uma vez mais, sobre a bacia: "A Mary está indo embora agora, amorzinho", disse. "Mas não se preocupe com nada, viu? Assim que for possível, nós vamos levá-lo de volta para casa, onde poderemos cuidar direitinho de você. E ouça, querido..." Nesse momento ela fez uma pausa e levou o cigarro aos lábios, para dar uma tragada.
Imediatamente, o olho brilhou.
Ela olhava diretamente para ele nesse momento e,bem ao centro, viu um ponto de luz pequenino mas brilhante, e a pupila contraída em uma minúscula cabela de alfinete, negra, em absoluta fúria.
(...) Então, muito lentamente, deliberadamente, ela pôs o cigarro entre os lábios e deu uma longa tragada. Inalou profundamente e segurou a fumaça nos pulmões por três ou quatro segundos; depois, de repente, fuuu, expeliu-a pelas narinas em dois jatos finos que se chocaram contra a água da bacia e espalharam-se sobre a superfície em uma densa nuvem azulada, envolvendo o olho.


Bem, no momento não lembro de outra vingança mais bizarra ou divertida...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A escola vai ao cinema

O filme francês "Entre os muros da escola", ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes e ainda em cartaz em algumas cidades do Brasil, é ótima oportunidade para uma reflexão sobre filmes que expuseram ao público um pouco do dia-a-dia de uma escola. Desde o clássico "Zero em comportamento", de Jean Vigo, cineastas de todo o mundo buscaram nos ambientes escolares a matéria-prima necessária para suas inquietações artísticas. Por hora, queria lembrar de três filmes, de cinemas e culturas diversas, que trataram deste universo: o inglês "Ao mestre, com carinho", o brasileiro "Pro dia nascer feliz" e o já citado francês "Entre os muros da escola".

Filmado em 1967, "Ao mestre com carinho" ("To Sir, with Love") talvez seja o mais popular entre os filmes a abordar a relação entre mestres e alunos. Lembro-me de tê-lo visto há muitos anos, ainda adolescente, numa "Sessão da Tarde" da Globo. O roteiro conta a história do engenheiro Mark Thackeray, que aceita lecionar em um colégio do subúrbio londrino, enquanto não surge um emprego em sua área. A escola onde irá dar aulas fica numa região pobre, com tensões racistas e para onde alunos problemáticos são mandados. O professor, que é negro (vivido por Sidney Poitier) terá que enfrentar estas situações e ensinar os alunos - que a princípio o veem com desconfiança -a necesssidade do respeito e dignidade entre as pessoas.

A tarefa não é fácil, mas aos poucos o professor consegue conquistar os alunos antes hostis, surpreendendo outros professores do mesmo colégio, que se resignavam com a brutalidade entre os mais rebeldes. Mark vai conhecendo também a vida pessoal de alguns deles, e há até espaço para um flerte entre o professor e uma aluna. Um sequência inesquecível é a hora em que Poitier leva a turma para conhecer um museu num daqueles ônibus londrinos de dois andares. As cenas no interior do estabelecimento são mostradas em forma de fotos, como numa sequência de slides, com os alunos aprendendo e se divertindo. Ao fundo, a música-título do filme, "To sir, with love", de grande sucesso à época, cantada por Lulu, que também atua no filme como uma das alunas de Poitier.




"Ao mestre, com carinho" é um filme deliciosamente datado e típico dos anos 1960, no qual as rebeliões juvenis que correram o mundo e mudaram os costumes de toda uma geração são transplantadas para a sala de aula. A ação é quase toda passada em Londres, um dos epicentros das rebeliões juvenis - os meninos fumam e ouvem rock, enquanto as meninas usam a minissaia inventada poucos anos antes por Mary Quant. No fundo, o filme apresenta um verniz conservador, pois mostra um grupo de alunos "selvagens e desajustados" sendo domados por alguém mais velho, que surge na figura de um professor, marcado pela grande interpretação de Sidney Poitier.

Enquanto "Ao mestre, com carinho" é cinema clássico-narrativo em sua melhor forma, o brasileiro "Pro dia nascer feliz" (2006), de João Jardim - diretor de "Jornada da Alma" -, rompe com a ficção para levar ao público um documentário sobre o panorama estudantil brasileiro em três cidades: Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. O filme conquistou nove prêmios, entre eles o de melhor documentário na Mostra de Cinema de São Paulo (Jurí oficial e popular). No site oficial temos a definição do filme feita pelo diretor, como um "diário de observação da vida do adolescente no Brasil em seis escolas". Entre elas, temos a escola da cidade de Manari, em Pernambuco, um dos municípios mais pobres do Brasil; outra, de nível médio em Duque de Caxias, no Rio; além de duas escolas de diferentes perfis em São Paulo, a primeira, particular, de classe média alta no bairro de Alto de Pinheiros, e a segunda, pública, em condições precárias na região de Itaquaquecetuba.

A intenção do filme é mostrar um retrato da juventude brasileira através de sua relação com o ambiente escolar. Há depoimentos de diversos professores e alunos, cenas feitas dentro e fora das salas de aula, onde os "personagens" entrevistados refletem suas angústias sobre o dia-a-dia, que várias vezes extrapola o ambiente estudantil e reflete a situação sócio-econômica brasileira - visível nos contastes entre a rica escola particular de Alto de Pinheiros, em São Paulo, e o colégio público de Duque de Caxias, onde quase todo dia alunos voltam pra casa porque um ou mais professores faltaram. Não por acaso, talvez a cena mais comentada na época de sua exibição nos cinemas tenha sido o caso da menina de uma escola pública que esfaqueou até uma ex-amiga até a morte, dentro do corredor escolar, depois de ter sido barrada na sua festinha de aniversário. O depoimento, em off, da assassina confessa, impressiona por ela não demonstrar nenhum arrependimento e ainda dizer que não ficaria na cadeia muito tempo, por que era menor, e, "no Brasil, de menor não pega nada - três anos passam rápido". (No Brasil, três anos é o tempo máximo que alguém com menos de 18anos fica preso, qualquer que tenha sido seu crime.)

Apesar deste viés desesperançado que muitas vezes o filme nos mostra, o tom é otimista (a começar pelo título, inspirado na canção de Cazuza) e se reflete na bela cena final, com a inteligentíssima aluna pernambucana (a ponto de, segundo ela, alguns dos professores duvidarem da autoria de suas redações), do cenário mais pobre retratado pelo documentário, recitando uma bela poesia feita por ela num exercício de intertextualidade, inspirada na clássica "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.




Se "Ao mestre com carinho" é cinema clássico hollywoodiano, com um tom escapista, e "Pro dia nascer feliz" é seu oposto, um documentário franco e direto sobre a educação brasileira, que busca o olhar crítico do espectador, o filme francês "Entre os muros da escola" (2007), do diretor Laurent Cantet, pode ser situado num meio termo entre a ficção e o documentário. Esta, talvez, tenha sido a característica que levou o filme a ganhar a tão disputada Palma de Ouro - misturar os estilos, romper com o que é ficção e o que é documentário, desvendando o interior de uma escola na periferia de Paris.

O filme é baseado no livro de François Begaudeáu, ex-cantor de uma banda punk, ex-professor, hoje escritor. Begaudeáu faz ele mesmo o papel do professor que leciona para uma problemática turma de nível médio. O diretor também convocou, para os aliunos do professor, diversos jovens sem nenhuma experiência dramática, mas que viveram papéis proximos àqueles que desenvolvem na vida real. Fica claro como a onda dos programas televisivos em estilo reality, com pessoas comuns protagonizando dramas diversos, que vão desde a uma troca de famílias à busca de um prêmio de um milhão de dólares, influenciou também o cinema. O espectador, portanto, não deve esperar um cinema narrativo clássico para assistir e "digerir" o filme francês.






Frequentada por uma França dividida entre diversas culturas - depois dos franceses, há ali alunos de vários países do continente africano, além de árabes, japoneses etc - a escola retratada no filme (e a turma para a qual o professor dá aulas) são o retrato de uma França multifacetada. Para nós, brasileiros, acostumados com nosso eterno complexo de vira-latas, é de se espantar ver ali retratada uma realidade tão parecida (em termos de dificuldades do ensino) como a nossa. Não sei se Cantet viu o filme de João Jardim, mas há entre os dois filmes traços que os unem de forma peculiar. No filme de Jardim, alguém da equipe pergunta (fora de cena) para um aluno o que ele havia aprendido durante o ano. "Nada", é a resposta. Em "Entre os muros da escola", o professor faz a mesma pergunta a uma de suas alunas no último dia de aula do ano, e recebe a mesma resposta. Enquanto no filme brasileiro há a informação de que "não foram permitidas filmagens dos conselhos de classe", o filme francês chega a mostrar uma longa sequência - importantíssima pra a trama - em que um conselho de professores discute a educação dos alunos. E há em ambos os filmes, já no final, a cena da sala de aula vazia, sem alunos e sem professor.

Há também contrastes interessantes entre os três filmes. Se, em "Ao mestre, com carinho", temos a presença de um ator famoso como Sidney Poitier e a trilha sonora pop e envolvente, no filme francês, como vimos, não há astros e a trilha resume-se aos ruídos do ambiente estudantil. E o documentário brasileiro ainda acompanha os passos pós-escolares de alguns dos alunos entrevistados. Em comum, são filmes que procuram no ambiente escolar o cenário ideal para demonstrar as angústias e inquietações dessa fase da vida tão atribulada que é a juventude.