sexta-feira, 17 de junho de 2016

"1 milhão de dólares de contrato para ir à Disney? Obrigado, mas tô fora": Bill Plympton


Começo dos anos 1990. Mostra Anima Mundi no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio. É uma das primeiras edições da mostra, e boa parte do público ainda se confunde com os filmes em exibição. Muitos chegam ao CCBB com os filhos. Mesmo sendo alertados de que determinados filmes não são propriamente "para crianças" insistem em conferir às sessões. Alguns sairão de lá revoltados com cenas de sexo, violência ou outra excentricidade; outros ficariam extasiados com o melhor da produção independente em cinema animado. de várias partes do mundo. Foi numa dessas sessões que entrei em contato pela primeira vez com o chamado "rei da animação independente": o americano Bill Plympton.

Lembro que poucas vezes vi tanta gente rindo dentro de uma sala de cinema como na exibição do curta "How to kiss".  Era uma sessão especial, com a presença do próprio animador americano, que foi entrevistado por um grupo de jornalistas e animadores brasileiros. Lembro que achei Plympton muito parecido com o presidente americano de então, Bill Clinton, e na hora que abriram as perguntas ao público, fiquei tentado a perguntar se os nomes e aparência parecidas eram propositais...mas minha timidez e meu medo de ser mal-entendido na ironia me deixaram quieto.

"How to kiss", o curta-metragem, era uma deliciosa e engraçadíssima aula de como beijar, enfocando os mais diversos e malucos tipos de beijo. Gargalhadas infinitas da plateia a cada situação absolutamente inusitada, provocada pelos desenhos mais divertidos e pintados a mão! (Plympton faz questão de desenhar tudo quadro a quadro) Traços e desenhos geniais, sem rebuscamento, mas extremamente pensados para dialogar e provocar o público. Num país como o Brasil, que vivia uma dieta de filmes de animação nos cinemas quase sempre ligada às indústrias Disney, o cinema independente de Plympton provava que a verdadeira animação podia ser muito mais subversiva do que achávamos.

Achei um trecho de "How to kiss", entremeado com outro. Curtam:


O próprio título "rei da animação independente" foi dado por ele mesmo, e colou. No começo dos anos 1990, os filmes de Bill Plympton já faziam muito sucesso no circuito alternativo quando foi sondado por executivos da Disney. Eles o queriam para participar da produção de um longa-metragem. A oferta era sedutora: um milhão de dólares para se juntar à equipe de desenhistas de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo. Não era algo para se recusar.

Mas Bill Plympton disse não.

Os executivos ofereceram o contrato na hora, e o puseram à frente do artista. Plympton perguntou se iria poder dirigir algum filme. Disseram que não. perguntou se teria autonomia criativa na produção de seus projetos. Novamente, a resposta foi não. Ele nem precisou de tempo para pensar. Agradeceu a conversa, mas disse que recuava o convite.

Mais tarde Plympton descobriu que seu trabalho era para contribuir com a arte do filme "Aladin", famoso pelo gênio da lâmpada azul em animação. "Teria sido divertido", ele comentaria mais tarde, rindo. "Aladin é um belo filme. Mas procurei manter minha independência".

O homem que recusou um milhão de dólares dos estúdios Disney continuou fazendo seus filmes. Enveredou pelos longa-metragens, desenhou animações para videoclipes, sátiras independentes e engraçadíssimas como a série "Guide dog", entre outros trabalhos. Este ano ele esteve no Brasil para mostras no Rio e em São Paulo em sua homenagem. Fui a uma das sessões na Caixa Cultura, quando assisti a alguns curtas e ao genial longa "Hair high", uma louca história de amor, morte e...mortos-vivos.

Não tinha muita gente no pequeno cinema da Caixa. Mas quem esteve lá não se decepcionou. Estiveram em contato com a obra de um dos maiores mestres do cinema de animação autoral da atualidade. O verdadeiro rei da produção independente.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bowie - Turn and face the strange

Não é legal começar uma semana, uma segunda-feira cinzenta, mesmo estando de férias, e verificar no smartphone que um de seus ídolos morreu. Não foi nem um pouco legal saber que David Bowie havia morrido de câncer aos 69 anos.

Passei hoje o dia ouvindo Bowie, lendo sobre ele na internet, vendo as resenhas nos telejornais (com um doc ótimo no Canal Bis) e escutando seus discos. Era o mínimo que podia fazer como homenagem a um dos artistas mais instigantes e inovadores da história da música pop.

Comecei a ouvir Bowie, pelo que me lembro, como a maioria dos brasileiros que eram adolescentes no começo do anos 80: através do sucesso "Let's Dance". Logo depois tornei-me ouvinte assíduo da rádio Fluminense FM, e ali descobri as canções de Bowie em sua melhor fase: os anos 70. Creio que foi ali e também no saudoso "Rock Festival", da 98 FM, que ouvi pela primeira vez grandes músicas como "Life on Mars", "Space Oddity", "Ziggy Stardust" e "Young Americans". Eu me perguntava como havia ficado tanto tempo sem ouvir aquela obra tão inovadora e estimulante.

A paixão permaneceu intacta. Aos poucos fui comprando seus discos, assistindo os filmes do qual Bowie participava, aguardando suas novas empreitadas artísticas. Estive na Apoteose para o show que o artista trouxe ao Rio no começo dos anos 90, prejudicado por uma péssima acústica, mas com momentos emocionantes, como a empolgação de todos em "Modern Love".Recentemente, foi muito bom ver dois filmes ótimos que usaram suas músicas na trilha sonora, como "As vantagens de ser invisível"(Heroes) e "Walter Mitty" (Space Oddity).

Só posso dizer que nunca vi ou ouvi um artista da música tão inquieto e eclético que tenha  influenciado tanta gente, até na moda. A lista é imensa e as resenhas já deram conta de tudo. No mais, se algo fica para as novas gerações é a lição de que para ser um verdadeiro artista é preciso ousadia. Ou como cantou ele em "Changes" um de seus clássicos..."mude e encare o estranho"

Segue abaixo uma de suas grandes metamorfoses: quando ele largou a Inglaterra e a fama de artista ligado ao  glam rock para se reinventar nos Estados Unidos como ...cantor de soul. No mais, obrigado, Bowie



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Livros para colorir? Não, obrigado.

Lendo o jornal dia desses, não pude deixar de me divertir com a charge de Bruno Drumond, publicada na Revista do Globo. Em um restaurante, o garçom recebe o pedido de um casal e aponta para o menino que está com eles. "Quer que eu traga um desenho para colorir?". Os pais escutam e, felicíssimos, respondem juntos à pergunta endereçada ao filho: "Queremos!!!".

O mercado editorial está comemorando ao atual boom dos livros para colorir...feitos para adultos. Para sobreviver num país que quase não lê, nossa indústria editorial lança mãos das mais inusitadas ferramentas. Já houve a onda dos livros de gastronomia, dos livros de auto-ajuda, dos livros ligados ao espiritismo etc. Mas, vamos combinar, livro pra colorir destinado a adultos é um pouco demais, não?Já há inclusive livros para colori mais específicos, procurando diversos públicos: mandalas pra colorir, árvores de natal pra colorir, gatos pra colorir, profissões pra colorir etc.

Sou a favor de quaisquer tipos de leitura, sem preconceito. Não sou adepto das listadas acima, mas entendo que pelo menos a leitura deles tornem a pessoa mais articulada e com chances de se ver livre do analfabetismo funcional. Agora, de novo...livros pra colorir?!



Não dá. Outro dia mesmo tive que me segurar na mesa do jantar entre amigo porque, quando fui criticar este tipo de leitura (?) duas professoras a defenderam. Só não parti pra cima delas porque ambas eram do curso de Design. Compreende-se.

Mas e as outras pessoas que compram muito felizes este tipo de literatura (?) e argumentam que funciona como uma forma de "terapia" ao cotidiano corrido e à realidade que nos cerca.

Desculpe, mas não me convencem.

Se a questão é o escapismo, há excelente literatura capaz de empreender as maiores viagens para um ser humano que se disponha a mergulhar no universo da ficção ou da não-ficção.  

Acho mesmo que ocorre uma infantilização do público leitor no Brasil, algo universal mas que num país iletrado toma grandes proporções. Não falo apenas da literatura. Confira a lista dos filmes mais vistos: salvo exceções, são todos produções norte-americanas relacionadas a super-heróis ou comédias rasteiras e vulgares abusando da escatologia. A grande maioria dos filmes voltados ao público adolescente, hoje o maior público-alvo da indústria. Creio que um grande filme de época como "O poderoso chefão", adulto e excelente, seria algo inviável para as novas plateias.

Uma vez me diverti com uma entrevista feita com um livreiro carioca, o qual argumentava que os livros de gastronomia eram mais comprados do que aqueles de grandes filósofos, que vendiam razoavelmente até os anos 1970: "Trocou-se a filosofia por um risoto", dizia ele.

No caso dos livros para colorir, trocou-se a inteligência pela preguiça.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Um filme, uma canção, uma cena (ou porque ainda vale a pena ir ao cinema)

Certos filmes valem a ida ao cinema apenas por uma cena. Ela tem de ser suficientemente forte para que não saia da mente do espectador após o fim dos créditos. Ela tem que ser de tal forma especial que o fará lembrar dela sempre, nas situações mais diversas. A trama do filme pode, ao longo dos anos, ir se perdendo na memória, como em grande parte dos filmes. Mas aquela cena não. Ela tem que possuir algo que mexerá de alguma forma com o público.

Numa palavra, ela tem que lhe arrebatar.

Foi o que senti recentemente, ao assistir o filme alemão "Phoenix", dirigido por Christian Petzold e estrelado por uma atriz em ascensão, Nina Hoss. A história é um drama de suspense sobre uma cantora de cabaré judia, Nelly, que durante um atentado, é desfigurada na face ao final da Segunda Guerra. Internada, ela recebe a ajuda de um cirurgião plástico que a ajuda a ter um novo rosto - mas não igual ao que ela tinha. Apenas parecido.


A troca de rosto da personagem é uma metáfora para sua nova identidade. Perdida numa Alemanha derrotada, num pós-guerra difícil e conflituoso, Nelly encontra abrigo na casa de uma amiga, que a acompanha antes e durante a operação e deseja que ela aceite ir para a Palestina (Israel ainda não havia sido criado). Contudo, Nelly só pensa em reencontrar o marido, Johnny, também músico, e vaga pelas ruas à noite, adentrando os cabarés em busca do homem que ama.



Numa das casas noturnas, apropriadamente chamada Phoenix (tal como na lenda do pássaro que ressuscita), ela finalmente encontrará o marido, mas ele não a reconhece. Johnny acha a mulher parecida com Nelly, mas para ele não há dúvidas de que a esposa está morta. Enquanto Nelly busca coragem para fazer com que o marido acredite ser ela de fato, Johnny arma um plano para que ela finja ser sua esposa, apenas para ganhar uma indenização do novo governo. 

Aos poucos, Nelly se vê morando com o marido e disposta a aceitar o plano de Johnny, apenas para estar perto dele. Alimenta a esperança, sem sucesso, de que o marido caia em si e a reconheça, mesmo com outro rosto. Pior, há indícios de que Johnny teve alguma culpa em relação ao atentado que a desfigurou. Mas Nelly resiste a esse pensamento. Quer voltar àquela antiga vida junto ao homem que acredita amar.

Pausa para falar de Weil e sua obra. Compositor judeu e alemão, ficou famoso por suas canções e pela sua parceria com o dramaturgo Bertold Brecht, como a "Ópera dos três vinténs". Com a ascensão do nazismo, emigra para os Estados Unidos, onde irá compor músicas que serão letradas agora em inglês, por parceiros americanos. "Speak low" é uma parceria com o letrista Ogden Nash, composta originalmente para o musical da Broadway "A touch of Venus".  

Com o tempo, o musical não passaria de uma nota de rodapé na história da Broadway, mas "Speak Low" se tornaria um clássico. Logo, aquela melodia sinuosa  elegante, com uma letra em que as palavras "low" e "love" caminham juntas, num crescendo de intimidade entre um casal ("Speak low, when you speak low, our moment is swift, like shifts adrift were swept apart") seria gravada por inúmeros cantores, como Billie Holiday, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, além de grandes do jazz instrumental. A primeira vez em que eu ouvi "Speak Low"foi na voz de uma brasileira, Marisa Monte, em 1989. Era a última faixa do primeiro disco de Marisa, meio obscurecida no LP após o megasucesso de "Bem que se quis", mas bonita o bastante pra não passar desapercebida. 

"Speak low", enfim, é uma música sobre amantes que sabem que dependem do tempo para amar. O tempo é tão velho, e o amor é tão leve; o amor é ouro puro, e o tempo é um ladrão, susurra a letra. Ao desistir de emigrar para a Palestina, Nelly encontra forças nesta canção, que a faz reincorporar sua porção cantora. E é também o clássico de Weil que iluminará o clímax do filme - a cena final.

O plano de Johnny, aparentemente, dá certo, mas o casal tem que fingir para amigos e parentes que Nelly realmente havia sido resgatada, e somente agora iria ao encontro de seu grande amor. Há a chegada na estação de trem, diante de amigos, onde o casal representa um reencontro, com poucas palavras. Há a ida à casa de um deles, onde, após um jantar, pedem para Nelly cantar, acompanhada ao piano por Johnny.

E então...Nelly escolhe cantar "Speak low".

Ela caminha lentamente para a frente do piano, onde Johnny já está sentado. Johnny toca os primeiros acordes. Nelly, nervosa, mas segura, inicia os versos iniciais da canção. Alguns dos presentes estranham a tensão presente entre os dois músicos. Súbito, através do canto de Nelly, Johnny para de tocar. Parece finalmente perceber não estar diante de uma impostora. Ele olha para a mulher e parece perceber tudo. Seria ela a Nelly verdadeira?

Não. A Nelly de antes da guerra não existe mais. Morreu, e tal qual a fênix, ressuscitou com um novo rosto e uma nova identidade. Finalmente a máscara impostora do marido cai, enquanto Nelly, lentamente, deixa a sala, o piano e as pessoas ali presentes. Sai para viver sua nova vida

Alguns dias antes de assistir ao filme, vi num programa de televisão um comentarista falar: "após a cena final de 'Phoenix', você nunca mais escutará determinada canção da mesma forma".

Ele estava certo. E lembre-se: quando escutar de novo aquela canção, speak low.












sexta-feira, 17 de julho de 2015

Bourbon Paraty Festival ou O diabo na carne de Miss Jones

Meio do ano chegando, comecei a receber informações sobre a FLIP, o maior e mais conhecido evento literário do Rio de Janeiro e um dos maiores do Brasil. Acabei não indo, depois de alguns anos comparecendo sempre, mas não fiquei chateado. Isso porque em recentemente outro evento me fez visitar a cidade: o Bourbon Paraty Festival, dedicado à música, em especial o blues, o soul e o jazz.

Na verdade, o que me fez viajar quatro horas de carro para Paraty numa sexta-feira de maio foi apenas uma atração em especial: a grande estrela da soul music, miss Sharon Jones.

O Bourbon costuma espalhar suas atrações por palcos e ruas da cidade, em especial seu belíssimo centro histórico. Há o palco da Matriz, o maior de todos e responsável pelas mais esperadas atrações. Ha também o palco Santa Rita, em frente à igreja de Santa Rita e que recebia as atrações da tarde. E, last but not least, as deliciosas atrações de rua, como a Orleans Street Jazz, de São Paulo, que costuma atrair sempre um grande número de pessoas com seu som inspirado no jazz tradicional de Nova Orleans. Bem, não tão tradicional assim: os músicos paulistas levantaram a galera mesmo com sucessos pop de Tim Maia e Jorge Ben Jor, adaptados ao som do jazz. Uma delícia de ouvir.

As atrações são várias e muitas no mesmo horário, o que faz o fã de música ter que se decidir ali mesmo, na mesma hora, qual estilo de som ouvir e presenciar. Perdi Leo Gandelman e Torcuato Mariano no sábado á tarde, mas conferi meu amigo Jefferson Gonçalves, um dos melhores gaitistas de blues do Brasil - e o One Man Band Vasco Faé, músico que toca sozinho, nas ruas, bumbo, gaita, guitarra e ainda canta! Muito bom.

As atrações do Palco Matriz estiveram dentro do esperado. O guitarrista Mike Stern mostrou não ter sido por acaso que acompanhou monstros como Miles Davis. Muito simpático, levantou a galera com clássicos de Jimi Hendrix e músicas de sua safra. Destaque para o saxofonista gordinho Skinny (magrinho, em inglês). ou seja, boa música, simpatia e ironia nas doses certas. A sexta encerrou com as charmosas cantoras do Cluster Sisters, meninas que já haviam chamado a atenção na primeira edição do programa Superstar, da Globo, ao cantar um jazz inspirado no swing das big bands dos anos 30 e 40 do século passado.  

Mas o melhor ainda estava por vir...e chegaria no sábado à noite, após uma chuva intensa em Paraty: a ex-carcereira e talvez a maior cantora de soul da atualidade, miss Sharon Jones.

Quem achou que a galera se dispersaria após a chuva intensa, se enganou. Parecia que todo o sul fluminense estava naquela noite em Paraty. Encontramos com meu irmão e esposa, que moram em Angra, e a todo momento um deles apontava um conhecido...de Angra, cidade que fica a 1h30 de Paraty. O Palco Matriz ficou pequeno para receber tanta gente. Para chegar ao local da plateia, tive que desdobrar esforços e escapar de diversos empurrões e cotoveladas. Nada que não fosse recompensado pelo calor que emanou do palco após a entrada de Sharon.



O show começa com as duas ótimas backing vocals da cantora esquentando a plateia. Elas cantam acompanhadas dos Dap-Kings, a banda de apoio de Sharon Jones, só com músicos excelentes de blues e soul. Após três números, entra Sharon, de vestido azul, colar e sandálias de salto, os cabelos ainda curtos após o tratamento de quimioterapia realizado em 2014, que a livrou de um câncer. Com apenas dois minutos no palco ela já mostra a todos - eu já sabia - que valera a pena ter ido à Paraty.

No palco, Sharon é uma força da natureza. Ela não apenas canta muito bem, mas também dança vários números ao ritmo dos Dap-Kings. Em certo momento, Sharon começa a cantar um número mais acelerado. O público se anima. Ela então tira as sandálias e, descalça, dança como se estivesse com o diabo no corpo. Delírio na plateia.  Por mais duas vezes ela repetiria o gesto, sempre levando todos nós, que espremidos porém felizes, sentíamos que aquele vulcão no palco aos poucos nos arrebatava.

Em certo momento, mas calmo, Sharon começa a apresentar um por um os excelentes músicos dos Dap Kings, com direito a um solinho de cada um em seu instrumento. O baixista, que já anunciara a entrada de Sharon no palco e espécie de líder dos músicos, faz um gesto crítico, "mas pra quê?". A cantora olha-o rapidamente, faz um gesto de "aqui mando eu" e continua a apresentar os músicos. Apenas o momento para logo depois nos arrebatar novamente com seus números.

"I learn the hard way" é o nome de um dos sucessos de Sharon, e poderia funcionar bem como "cartão de visitas" da cantora. Nada foi fácil para esta diva negra que trabalhou em presídios, atingiu o sucesso tardiamente, teve um câncer quando suas músicas ameaçavam estourar, venceu a doença e volta agora aos palcos esfuziante e cantando como nunca. Um dia antes de viajar para Paraty, Sharon fez show no palco do Vivo Rio, no Aterro do Flamengo. Ao final, convocou as mulheres da plateia para subirem no palco e dançarem um sucesso de outra grande cantora: Tina Turner. Não foram poucos que se embriagaram com a performance da cantora. Na edição daquela semana do Ronca Ronca, Maurício Valladares, celebrava a espantosa performance de palco da cantora.

Pra quem duvida, uma história contada pela própria cantora, no Jornal da Globo da semana anterior a sua vinda ao Brasil. Certa vez, quando trabalhava num presídio repleto de prisioneiros perigosos, um homem perguntou-a o que ela fazia ali, naquele antro de marginais. "Sou cantora", respondeu. Ele então pediu que Sharon cantasse. Ali mesmo, na frente de um grupo grande criminosos, Sharon entoou um velho sucesso de Whitney Houston, "I will always love you". Aparentemente, sua performance na cadeia agradou. Um mês depois, quando uma rebelião implodiu e guardas foram feitos de reféns, o mesmo homem que a perguntara porque estava ali, não deixou que nada acontecesse com ela.

Fez bem. Se Sharon já entusiasmara um grupo de criminosos cantando a capella dentro de uma cadeia, imagine o que ela não é capaz de fazer num palco, com um microfone e uma ótima banda por trás. Alguns dos maiores cantores da chamada soul music, como Ray Charles, Sam Cooke e Aretha Franklin, souberam dosar libidinosamente o cantar gospel aprendido em igrejas negras dos Estados Unidos com os apelos profanos dos amores arrebatados, que exalavam luxúria em letras de forte conotação sexual, Sharon Jones é uma cantora que consegue juntar os dois mundos. Quando canta uma canção de amor, lembra uma diva negra com uma aura impenetrável. Quando tira as sandálias e, com os pés descalços, começa a se retorcer e dançar compulsivamente, liberta os demônios que uma vida difícil lhe trouxeram  


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Essa música me lembra uma história: "Sinhá"

Dias atrás, num jantar entre amigos, alguém lembrou de uma grande música composta recentemente por Chico Buarque e João Bosco: Sinhá. Se não fosse a fragmentação causada pela internet e a consequente perda de força das rádios musicais, não tenho dúvidas de que que ela seria considerada aquilo que chamávamos anteriormente de "clássico instantâneo".

Sinhá é a última música do último disco de Chico Buarque, intitulado apenas "Chico".



A letra da música conta uma história passada no tempo dos engenhos, num Brasil marcado pela escravidão, este flagelo que nosso país pode se envergonhar de ter sido a última nação das Américas a abolir. Os versos de Chico poderiam poderiam muito bem estar numa passagem de Casa Grande e Senzala, o clássico livro de Gilberto Freire que nos fez deixar de ver a miscigenação como uma característica ruim do Brasil.

A música é uma conjunção muito bem feita entre o Chico Buarque ficcionista, autor de romances, e o músico, aqui em parceria com João Bosco, que faz o coro de "lamento" do negro preso e torturado, acusado de "olhar Sinhá" tomando banho. Atitude altamente punível, já que Sinhá era a mulher do dono da fazenda, o patriarca que mandava em todos.  

Mas nem tudo é o que parece. Ao longo da canção, temos o lamento do negro tentando argumentar que não fizera nada com Sinhá: Se a dona se despiu, Eu já andava além, Estava na moenda, Estava para Xerém. Frente à ameaça e a realidade de ter seu corpo talhado e os olhos perfurados por tão vil procedimento, o escravo chega a apelar para o deus cristão, rogando ao senhor que chora em iorubá, mas ora por Jesus. O senhor não se comove e ao escravo é tirada a luz: cegam-no.

Mas, uma ouvida mais atenta da canção suscita uma pergunta: será que o escravo realmente não fez nada com Sinhá?

Há dois anos, lecionei a disciplina Realidade Sócio-Política e Cultural Brasileira para alunos do curso de Publicidade e Propaganda da faculdade em que dou aulas. Certo dia, o tema da aula era justamente o livro de Gilberto Freire. Ao discorrer sobre o cotidiano das grandes fazendas brasileiras dos séculos XVII e XVIII, resolvi mostrar para a turma o vídeo postado aqui, com Chico Buarque e João Bosco interpretando "Sinhá". Mas a letra deveria vir junto. Então, após mostrar o vídeo à turma, discuti com a  turma a letra, falando que, na verdade, se prestarmos atenção, não fora o escravo que inadvertidamente "olhara" Sinhá. Mas sim ela, Sinhá, a mulher do todo-poderoso da fazenda, que ao olhar para o escravo ficara "excitadíssima".  Para abstrair-se da tentação, ela própria o denuncia. O escravo é pego e torturado até ficar cego.

Acabei a explicação e vi que muita gente estava embasbacada. Até que um garoto mais atrás comentou:

- Se a gente escreve essa palavra na sua prova [excitadíssima] você ia tirar pontos?

(Lembrei agora que, num país marcado pelo forte racismo como os Estados Unidos - em que até meados do século XX o casamento inter-racial era proibido - muitos negros foram perseguidos, presos e até linchados por brancos justamente pelo crime de "olharem" mulheres brancas. O fato inspirou o professor e poeta judeu Abel Meeropol a compor a canção Strange fruit, que se tornaria um dos principais clássicos do repertório de Billie Holyday. As "estranhas frutas" as quais se referia o poeta eram os corpos dos negros linchados, presos nos galhos de árvores na região sul daquele país).

Voltando à mesa com amigos. Uma amiga, psicóloga, sustentou que o escravo não só mexera com a libido de Sinhá, como eles teriam tido relações sexuais. Para expurgar seu "pecado", a própria sinhá o entrega ao dono do engenho...para ser torturado.

Um homem poderoso, o "feroz senhor do engenho", patriarca de uma sociedade machista e dono de tudo e de todos ali. Um homem que certamente não ia para cama apenas com Sinhá, mas com várias escravas, se considerarmos a descrição do cotidiano nas senzalas, segundo Freire. E que, possivelmente, a julgar pelos últimos versos da canção, teria torturado e cegado um de seus próprios filhos:

 E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá

Espertamente, Chico e João Bosco não deixam claro na canção se Sinhá e o escravo chegaram às vias de fato. Apenas insinuam, deixando o resto com a imaginação de quem a ouve. A tragédia exposta na trama é saber que, durante o tempo da escravidão, não só ter relações sexuais proibidas, mas simplesmente olhar o corpo de alguém em condições hierárquicas superiores, era algo punível com a tortura ou mesmo a morte.




quinta-feira, 14 de maio de 2015

Pare o mundo que eu quero descer!!!

Dia desses eu e minha namorada estávamos vendo o programa de Serginho Groisman, temático sobre a axé music. A certa hora minha namorada faz um comentário sintomático: "Você notou que não chamaram o Luiz Caldas? Aquela música "Fricote" fez um sucesso danado!" poderia estar aqui, né mesmo?" Concordei, Em seguida ela mesmo continuou: "Se bem que aquela música era bem racista, né? E cantarolou os versos iniciais que diziam..."Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear". Rimos juntos. Ah, a praga do politicamente correto...

Semana passada, eu lia a coluna Gente Boa, do jornal Globo (29/04), a qual trazia traz duas notas sobre um problema no Rio de Janeiro envolvendo a música Fricote: "Música de Luiz Caldas gera discussão em festa". Veja o texto:

A música “Fricote”, de Luiz Caldas (“Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear...”) provocou reação negativa em parte do público que estava numa festa, domingo, no Morro da Conceição. DJ convidado, Gustavo Calani foi abordado por pessoas que se sentiram ofendidas com a letra, considerada por elas racista e machista.
Gustavo não chegou a tocar a canção até o fim. “Interrompi para tentar conversar com o grupo, mas os ânimos estavam alterados”, contou. "Uma das meninas que veio falar comigo disse que eu não podia avaliar o que era racista ou não, por ser branco. Achei um ponto de vista forte e pertinente, mas não dava para ser debatido ali", completou.

Produtor de festas de black music, Julio Barroso considerou o episódio exagerado. “Eu, como negro, não me sinto nem um pouco ofendido. Se a música fosse do Bolsonaro, sim. Mas Luiz Caldas não é racista. É preciso analisar o contexto social em que essas obras foram feitas”, disse. “Nunca imaginei que o século 21 pudesse ser tão careta”.
Um dos organizadores da festa, o coletivo Quermesse pediu desculpas a quem se ofendeu com a música. “Desculpas, primeiro pela ofensa e, depois, pelo desgaste de terem que nos apontar o que já deveríamos saber”, escreveram na página do evento no Facebook.

Como este blog adora uma boa provocação, meu lado marginal se inclinaria a mandar essa turminha politicamente correta, que se alarma com uma simples música de carnaval baiano, plantar batatas (optei por uma ofensa bem leve, embora para alguns eu possa estar ofendendo o agricultor de batatas); enquanto meu lado conservador ficaria ao lado dos que reclamaram com tão importante questão numa festa de fim de semana. Ora, onde já se viu em 2015 uma música que faz chacota de pessoas negras e com cabelo duro, num país tão miscigenado como o Brasil?! Quem esse DJ pena que é?

Concordo com a frase do produtor de festas: nunca imaginei que o século 21 pudesse ser tão careta. O sucesso de Luiz Caldas nos anos 80 faz referência a outro sucesso, "Nega do cabelo duro" de , composto por David Nasser e Rubens Soares em 1942, um grande sucesso com o grupo Anjos do Inferno, que satirizava a moda feminina da época, de frisar os cabelos: "Quando tu entras na roda / O teu corpo serpenteia / Teu cabelo está na moda: / Qual é o pente que te penteia?"

A se ponderar o contexto de correção política de hoje, supõe-se que não só a música de Nasser e Soares seria rechaçado pelos patrulheiros de plantão como também o nome do grupo que a transformou num grande sucesso: Anjos do Inferno - onde já se viu? Ora, se até a cor vermelha do logo da novela "Babilônia", na Globo, teve de ser mudada para branca, sob pressão de grupos evangélicos, o que você acha que aconteceria hoje com grandes sucessos do rádio que tinham a liberdade de espinafrar o que fosse, e mesmo assim todo mundo cantava?

A continuar na patrulha do que é certo ou errado, não seria o caso de banir dos bailes de Carnaval o grande sucesso de Lamartine Babo e Irmãos Valença, "O teu cabelo não nega"? "O teu cabelo não nega/ mulata/ porque és mulata na cor/ mas como a cor não pega/ mulata quero o teu amor.” Até hoje, gerações de foliões continuam cantando a deliciosa marchinha.

Não seria também o caso de proibir a veiculação da engraçadíssima "Mulher indigesta", de Noel Rosa - "Ah, que mulher indigesta, merece um tijolo na testa!", por supostamente pregar a agressão contra as mulheres?



Ou de proibir os sambas de Martinho da Vila, já que ele compôs um samba intitulado "Você não passa de uma mulher", pra reclamar daquelas mulheres que estudavam e largavam a condição de meras donas de casa, Como pode isso, em pleno século 21?

O produtor tem razão: tudo está muito mais careta. Pare o mundo que eu quero descer!