quinta-feira, 19 de novembro de 2009
"(500) Dias com ela" - um filme pra quem já se apaixonou
Se você correr aos cinemas, verá um filme em cartaz que, a princípio, poderia ser confundido com o estilo. Olhe nas sinopses dos jornais e estará escrito: "comédia romântica". Mas "(500) Dias com ela" (do inglês "(500) Days of Summer") vai além do gênero, constituindo uma das mais agradáveis supresas desta primavera cinematográfica. Quais os motivos? Talvez por apresentar personagens não estereotipados. Talvez por sua estrutura de mostrar os dias de forma aleatória, onde passado, presente e futuro se juntam. Ou então pela frase do narrador logo ao começo: "Acredite, esta não é uma história romântica". Pois bem: fique com a primeira opção. "(5oo) dias com ela" é um filme que apresenta personagens reais, que amam, sofrem, choram e se divertem. É um filme pra quem já se apaixonou e, principalmente, pra quem já sofreu por amor.
"(500) dias com ela" já começa subvertendo certo senso comum e clichê cinematográfico. Ouvimos dizer sempre que mulheres se apaixonam fácil, e homens não querem compromisso. No entanto, é a garota, Summer (Zooey Deschanel) que, apesar de interessada no rapaz, Tom (Joseph Gordon-Levitt) não quer saber de compromisso. Logo no início ficamos sabemos que aquele casal vai namorar - e também que eles não acabarão juntos. Mas a engenhosidade do roteiro nos convida a conhecer aquele princípio, meio e fim de um romance - os tais quinhentos dias juntos.
Ainda no início, temos a sequência em que Tom leva um fora de Summer. Arrasado, ele tenta relembrar momentos do namoro, para entender o que teria levado a não dar certo. As sequências dos dias de namoro entre o casal são mostradas de forma fragmentada, em cenas nas quais o número do dia de namoro - 57, 102, 244 etc - vão aparecendo na tela.
Tom não é o narrador. Há outro, uma voz em off que aparece pouquíssimo, mas faz comentários cruciais para a trama, ainda que irônicos. Desde o dia em que conhece Summer (verão, em inglês, uma menina com nome de estação do ano) Tom, que trabalha num escritório especializado em criar mensagens de cartões de presente, se interessa por ela. Mas a paixão só surge mesmo, avassaladora, dentro de um elevador, quando, Tom está distraído escutando uma música ao fone de ouvido e Summer, ao escutar aquele som, puxa conversa e pergunta se ele gosta de Smiths. Ele, surpreso, diz que sim. "Eu adoro essa música", diz Summer, e cantarola um trecho para o pobre rapaz se apaixonar de vez: "to die by your side is such a heavenly way to die"...
"Morrer ao seu lado seria um jeito divino de morrer", da belíssima canção "There's a light that never goes out". A sublime ironia desta cena logo se mostrará adiante, quando o casal começar a se envolver e Summer começar a esbofetear metaforicamente Tom com frases como "histórias de amor são fantasia", "amores não duram para sempre", "eu não quero que nosso caso seja sério". O interessante aqui é que Summer, mesmo "não querendo nada sério", gosta de verdade de Tom, a ponto de namorá-lo, mas sempre mantendo uma certa distância da paixão. Situação que leva Tom a espasmos de suprema felicidade, entrecortados com momentos de depressão profunda, nas muitas brigas que terá com Summer.
Ora, quem nunca imaginou a mesma coisa a respetido do ser amado? Quem nunca pensou "será que ela gosta de mim do mesmo jeito que eu a amo?". É isso que torna o filme brilhante em vários momentos. Às vezes "500 dias com ela" toma partido de Tom e sofremos junto com ele. Noutras, os homens são mostrados como imaturos e sem a menor noção de como conquistar uma mulher. Alguns dos melhores momentos de humor do filme está no contraste entre os dois melhores amigos de Tom - ambos totalmente ingênuos e imaturos em matéria de amor - e a pequena Rachel (Chloe Moretz), adolescente e grande amiga de Tom, que passa o filme lhe dando os conselhos mais sensatos sobre amor e paixão.
Uma das melhores cenas - e pra mim o melhor momento do filme - está na sequência em que, algum tempo depois de mais uma separação, Summer encontra Tom e o convida para uma recepção em seu apartamento novo. Claro que o apaixonado Tom se animará bastante com a hipótese de uma reconciliação. Com a chegada de Tom ao prédio de Summer, a tela se divide em duas e temos, de um lado, sob o título "expectativa", o que Tom esperava que acontecesse, ou seja, Summer passando a noite com ele. No outro quadro, sob o título "realidade", vemos o que realmente acontece: Summer o trata apenas como mais um amigo e um dos muitos convidados de sua festa. Tom não suporta a "realidade" e vai embora, arrasado.
São momentos como este, criativos, bem escritos, inesperados (ou nem tanto, para quem já viveu algo parecido, e não são poucas pessoas, tenham certeza) que tornam "(500) dias com ela" um filme que merece ser conferido. Por trazer às telas momentos de uma história de amor genuína, o brotar de uma paixão real, sem apelações nem apelos a chavões para ganhar o público. Somos conquistados por se identificarmo-nos em algum momento com aqueles dois personagens comuns, que por 500 dias estiveram envolvidos numa história de amor que poderia acontecer com qualquer de um de nós.
Ao final do filme, já ciente de que aquele romance não tem mais volta, o ainda apaixonado Tom recebe mais um dos sábios conselhos de Rachel:"Lembre-se também dos momentos ruins que passou com ela". Este apelo à razão (sentimento que detonamos quando apaixonados), junto com uma reviravolta profisional na vida de Tom, o fará crer que, apesar de tudo, aida está vivo e que uma nova paixão pode estar mais próxima do que ele imagina.
Depois daqueles 500 dias tormentosos, uma nova estação se inicia.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Previsões para o Brasil Olímpico
Em homenagem a esse grande evento que com certeza mudará a vida da cidade maravilhosa, seguem algumas previsões sobre fatos que fatalmente podem vir a ocorrer. Marginal Conservador não é o autor das previsões, eu me apresso em dizer. Apenas recebi o texto hoje, sem autoria, e não poderia deixar de compartilhar com vocês alguns dos principais trechos. Aí vai:
DE 2010 A 2015
1) ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro publico. Ninguém será preso ou indiciado.
2) Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: vou pegar na tua tocha e você põe na minha pira.
3) Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando “Barão de Coubertin” com “sol da manhã”. Gilberto Gil virá no ultimo carro alegórico vestido de douradas representando o “espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitoria”.
4) Haverá um concurso pra nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como: “Zé do Olimpo”, “Chico Tochinha” e “Kaíque Maratoninha”.
5) Luciano Huck vai eleger a Musa dos jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.
ABERTURA DOS JOGOS
1)A tocha olímpica será roubada ao passar pela baixada fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência pro carnavalesco da Beija flor.
2)Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana pra comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho terá que ficar a pelo menos 500 metros da tocha.
3) Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê GALVAO FILMA NÓIS, 100% FAVELA DO RATO MOLHADO.
4)Pelé vai errar o nome do presidente do COI e ao final vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.
5) Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o “Hino das Olimpíadas” composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para aparecer mais na TV.
6) Durante o Hino Nacional Brasileiro a platéia vai errar a letra, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.
7)Durante os jogos de tênis a platéia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silencio 774 vezes. Como ele pedirá em inglês ninguém vai entender e vai continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.
8)Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia.
9)O cãozinho será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.
10) Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do maracanã por “dois real”.
DURANTE OS JOGOS
1)Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.
2)Uma modelo-manequim-piranha-atriz-ex-BBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.
3)No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 74.
4) Faltando 3 dias para o fim dos jogos, o Brasil terá 3 medalhas de bronze e 1 de ouro, esta ganha por atletas desconhecidos no esporte “caiaque em dupla”. Eles vão ser idolatrados por 15 minutos (somando todas as emissoras abertas e a cabo) como exemplos de força e determinação, a Hebe vai dizer que eles são “uma gracinha” ao posar mordendo a medalha, e nunca mais se ouvirá deles.
5)A seleção brasileira de futebol comanda por Ronaldo Fenômeno vai chegar como favorita. Passara fácil pela primeira fase e entrará de salto alto na fase final, perdendo para seleção de Sumatra.
6)A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.
7) Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.
8) Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 74º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra onde se lê : JARDIM MATILDE NA VEIA.
9) Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no inicio da competição. Suas provas serão reprisadas em slow motion e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.
APÓS OS JOGOS
1)Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô pra pagar as despesas que teve pra estar nos jogos e não obteve patrocínio.
2) Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são "exemplos de profissional" tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos etc.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Cuidado: ao chegar aos EUA, você pode se transformar num "imigrante ilegal alienígena"
No, it's no fun being an illegal alien
Genesis
Vejamos:
1 - Alienígenas vistos pelo cinema mainstream hollywoodiano. Estou num cinema no final dos anos 90. O filme na tela é o blockbuster "Homens de preto" ("Men in black"), um grande sucesso no Brasil. Os tais homens de preto são agentes de uma corporação ultra-secreta cujo objetivo é caçar alienígenas que se disfarçam em corpos de humanos. Logo no começo, os agentes interceptam um caminhão na fronteira do México com os Estados Unidos, repleto de imigrantes ilegais. Há a suspeita de que, na verdade, aqueles homens são alienígenas disfarçados. Não dá outra: após uma tentativa de fuga, os ETs são capturados pelos homens de preto.
2 - Aliens também são fashion! Junho de 2001. Num passeio breve pelas ruas de Maastrich, em férias na Holanda, impressiona a decoração das vitrines e mesmo o interior das lojas. Há bonecos de ETs para crianças, como objetos de decoração, como estampa de camisas e até como porta-cannabis (estamos na Holanda, remember). Conclusão: ETs estão na moda na Europa.
3 - Monstros X Alienígenas. Setembro de 2009. Um dos momentos preferidos que tenho junto ao meu filho é assistir com ele a trechos de desenhos e filmes na telinha do youtube. Mas neste dia ele só quer saber de um desenho: "Ben 10 Força Alienígena". Pra quem não sabe (ou não tem filhos pequenos), o desenho preferido de 10 entre 10 garotos até 10 anos narra a história de Ben, um jovem que possui um relógio de origem extraterrena e que tem poder de transformá-lo em 10 monstros. O monstro preferido de meu filho é o Chama, um híbrido de Tocha-Humana com alienígena.
4 - Alienígenas vistos pelo cinema alternativo. Outubro de 2009. No cinema, assisto ao lançamento de "Distrito 9". Num futuro não muito distante, alienígenas que sobrevoam a Terra enfrentam uma pane na nave especial que os acomodava, deixando-os parados bem no centro de Johannesburgo, África do Sul. Após dois meses, os humanos retiram os alienígenas da nave e os alocam num imenso terreno, denominado Distrito 9. Em pouco tempo, o distrito transforma-se numa imensa favela, e os ETs são objeto de preconceito e intolerância dos humanos em seu entorno. Com o crescimento da população alienígena, o governo decide realocá-los para outro distrito, mais distante e insalubre, assemelhando-se a um campo de concentração. Mas algo dará errado.
5 - Alienígenas sim, imigrantes não. Outubro de 2009. A grande sensação de vendas entre os jovens para o Halloween deste ano não foram as fantasias de bruxa, de esqueleto ou vampiro, mas sim de "Imigrante ilegal alienígena". Segundo o jornal O Globo de 25 de outubro, a fantasia consiste de uma máscara de extraterrestre, um uniforme laranja de presidiário americano e um cartão de plástico escrito "green card" (o visto permanente de entrada nos EUA). Vendeu bem até a grita da comunidade hispânica, que forçou as lojas a paralisarem as vendas. Veja abaixo a fantasia da discórdia:
Tenho sentido saudades dos tempos em que seres de outro planeta só eram lembrados em filmes B de Hollywood (quando todos os ETs já aportavam em nosso planeta, curiosamente, falando inglês), nas montagens toscas de pratos virados nas primeiras páginas de jornais sensacionalistas (e que realmente enganavam muita gente) ou nas páginas de ficção e poesia de artistas mundo afora. Mas desconfio que nosso imaginário sobre os ETs esteja mudando.
Fascínio eles sempre nos causaram. Fascínio, curiosidade e medo, como leu quem acompanha esse blog, sobre a "brincadeira" criada em 1938 por Orson Welles ao transmitir pelo rádio o clássico "Guerra dos Mundos" em formato jornalístico, como se a invasão marciana inventada por H.G. Wells fosse verdadeira. Se o outro, o exótico, nos atrai sobremaneira, o que dizer de seres que nem temos certeza se existem ou não?
Nos anos 50, em plena Guerra Fria, Hollywood não tardou a ver que os seres de outro planeta poderiam constituir uma bela metáfora de quaisquer inimigos dos Estados Unidos. O "perigo comunista" foi levado aos cinemas onde os comunas eram personificados por diversas formas de monstros, alguns patéticos, outros sinistros. E havia também os espertalhões produtores de filmes B, que não estavam nem aí para ideologias e queriam mesmo era faturar com produções de baixíssimo orçamento destinadas aos jovens teenagers. Presentes em 90% destes filmes: monstros e alienígenas.
Como vimos, o cinema difundiu a cultura americana nos quatro cantos do planeta. Os aliens viraram objeto de consumo nas ruas da Holanda e de qualquer grande centro e são celebridades cuja fama ultrapassou em muito os 15 minutos definidos por Warhol. Ídolos vão e vem, alguns ficam na memória, outros caem num ostracismo total. Mas extraterrestres sempre retornam como campeões de audiência. Quem não se emocionou com "ET", o clássico filme de Spielberg, que atire a primeira pedra. E mesmo hoje o desenho "Ben 10", com o garoto que se transforma em monstros alienígenas é o campeão de audiência do Cartoon Network.
No entanto, o uso dos aliens como tema pode também render práticas duvidosas de "homenagens" a comunidades vítimas de intolerância. "Homens de preto", de 1997, já continha em sua sequência inicial uma mensagem subliminar de preconceito contra os latinos, embora amortizada à época, pois o filme era uma comédia muitas vezes bem escrachada e contava com um ídolo negro (Will Smith) como um dos protagonistas.
Uma década depois, porém, a retirada das prateleiras da vestimenta de "imigrante ilegal alienígena" detonou uma serie de debates e provocações entre a direita conservadora e progressistas. Leio no jornal O Globo que Associações de imigrantes como a League of United Latin American Citizens (Lulac) acusaram a fantasia de "uso do Halloween para ensinar as pessoas a odiarem os latinos". Os conservadores reagiram, e grupos como a Americans for Legal Immigration (Alipac), que faz lobby em Washington em favor da expulsão de imigrantes ilegais dos EUA, pediram o imediato retorno da fantasia às lojas, a fim de acabar com "mais uma tentativa de restringir a liberdade de expressão no país".
É curioso costatar como a repressão a atividades francamente abjetas e criminosas, como a ostentação de símbolos neo-nazistas, o homofobismo, a misoginia ou simnplesmente o ódio às minorias, quando reprimidos, são logo declarados por grupos reacionários como atentados à liberdade de expressão. O que estava em jogo na venda da fantasia que provocou tanta discórdia não era, porém, a liberdade de expressão, mas simplesmente a humilhação sobre uma comunidade cujo preconceito só fez aumentar com a crise econômica de 2008. Não é ensinando às crianças que o vizinho latino pode ser um ET disfarçado que se conseguirá construir um bom dálogo no futuro.
Eu receitaria para estes grupos conservadores e ultradireitistras o filme "Distrito 9", originalíssimo filme produzido por Peter Jackson (diretor da trilogia "O senhor dos anéis"), que mostra extraterrrestres subjugados pelos seres humanos, numa imensa favela onde o conflito é iminente. Não à toa, o filme é passado na África do Sul, país que até as últimas décadas do século XX envergonhou o mundo com uma dos mais nefastos regimes de segregação racial: o apartheid. Além da clara metáfora dos dos negros e minorias como alienígenas explorados, ali os vilões são os humanos de uma corporação multinacional de fabricantes de armas, que roubam a tecnologia dos extraterrestres no campo, ao mesmo tempo que os usam para experiências genéticas que resultam na morte dos aliens. Tudo muda quando um dos líderes dos humanos, designado para comandar a retirada dos milhares de extraterrestres para fora do Distrito 9, é afetado por um líquido dentro de um barraco que inspecionava, e começa aos poucos se tornar ele mesmo um alienígena.
Seria interessante que a tal liga conservadora que prega a expulsão dos imigrantes dos Estados Unidos experimentasse viver algum tempo como hispânicos e provassem do preconceito que os imigrantes ilegais já conhecem. Talvez assim não fosse mais preciso criar as tais fantasias de "imigrantes ilegais alienígenas". E então, o imaginário sobre os extraterrestres talvez voltasse a ser apenas com considerações acerca da existência ou não destes seres.
Finalizando, sou daqueles que acreditam que pode sim haver vida em outros planetas, embora não fique por aí procurando por discos voadores. Mas concordo inteiramente com uma frase que li num cartum antigo do personagem de quadrinhos Calvin. Dizia mais ou menos assim:
"A maior prova de que existe vida inteligente em outros planetas é o fato de que eles jamais fizeram contato conosco".
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Uma foto e uma lição de jornalismo

Líderes políticos gostam de ser fotografados em grandes momentos. Se possível, cobertos de medalhas e condecorações, acenando para as multidões etc. Não gostam de fotos inesperadas, aquelas que involuntariamente revelam o que ele não quer. A inusitada foto do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, dormindo na embaixada brasileira com seu chapelão característico, rodou o mundo e já é uma das imagens do ano, por seu alto grau de simbolismo. É fotojornalismo no que tem de melhor: um instantâneo do mesmo nível daquele tirado do ex-presidente Jânio Quadros, com as pernas retorcidas, pouco antes de sair de cena e mudar a história do Brasil.
Ao registrar Zelaya deitado, com as pernas para o alto e dormindo, em pleno território brasileiro no exterior, o fotógrafo Edgard Garrido conseguiu demonstrar toda a empáfia de um governante prostrado e ciente de que arrumou uma bela confusão. Não resisti e transcrevo a seguir a reportagem escrita pelo fotógrafo (republicada esta semana pelo JB), que ainda está na embaixada brasileira de Honduras, e seu retrato dos dias lá dentro.
Se a imagem retratada é um excelente momento do fotojornalismo, o texto demonstra que, melhor que qualquer noticiário copiado de agências internacionais, nada substitui a presença in loco do repórter. E faz o jornalismo honrar a definição de Gay Talese, como a "arte de sujar os sapatos", ou seja: ir aonde a notícia está, seja ela onde estiver.
"Dormi com o dedo no obturador"
Edgard Garrido FOTÓGRAFO DA REUTERS EM TEGUCIGALPA.
Há duas semanas, durmo com o dedo no botão do obturador, a poucos metros do lugar onde o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, se refugia à espera de uma eventual volta ao poder.
Como fotógrafo da Reuters em Honduras, fui um dos poucos jornalistas que conseguiram se infiltrar na Embaixada do Brasil quando Zelaya ali buscou refúgio, depois de voltar clandestinamente do exílio para onde fora enviado por militares golpistas em 28 de junho.
Duas semanas depois, Zelaya continua entrincheirado na embaixada, que está cercada por soldados e policiais hostis a ele. E eu também continuo – privilegiado por levar imagens ao mundo, mas lutando com a escassez de comida, a falta de sono e a montanha-russa de emoções.
Conseguir uma imagem de Zelaya dormindo com o seu famoso chapéu de boiadeiro sobre o rosto foi um ponto alto, e a foto correu o mundo.
Mas estou cansado de dormir no chão e de comer mal, e meus nervos foram abalados pela intimidação das tropas no lado de fora e pela incerteza sobre quando isto vai acabar.
Zelaya e o presidente de fato Roberto Micheletti se preparam para negociações que podem acabar com o impasse. Mas Zelaya insiste em voltar ao poder, enquanto Micheletti diz que ele deveria ser julgado por traição. Assim, não está claro quando a crise irá acabar, e com ela esta minha pauta excepcional e desconfortável.
Tudo começou com um boletim informativo dando conta da volta de Zelaya.
Dei um beijo de despedida na minha mulher e no meu filho e corri para fora de casa com tanta pressa que até esqueci de calçar as meias.
“Tchau, vejo vocês logo mais!”, disse à minha família.
Mal sabia eu.
Depois de irmos atrás de um falso rumor de que Zelaya estaria em um prédio da ONU, um grupo de seguidores e jornalistas correu para a embaixada brasileira, que funciona num modesto sobrado. Não foi difícil entrar.
Disseram-me que Zelaya estava na sala ao lado, onde permanece até hoje. As pessoas entrando e saindo da sala confirmavam sua presença, mas eu precisava vê-lo. Uma porta se abriu, e lá estava eu. Tirei duas fotos e mandei meu primeiro despacho.
Tensões noturnas Zelaya decidiu acampar bem onde estava. Seus seguidores comemoraram, e eu dormi do lado de fora. Com o chão de cimento como colchão e a mochila como travesseiro, não conseguia dormir em meio aos gritos e cânticos.
O governo reagiu rapidamente, com soldados e policiais dissolvendo as manifestações pró-Zelaya em frente à embaixada e usando um dispositivo de alta frequência para incomodar quem estava do lado de dentro.
A tensão cresceu, e tememos que ocorresse uma ação militar para ocupar a embaixada.
Dormi com o dedo praticamente no botão do obturador, preparado para o que parecia ser uma intervenção iminente, preparado para me proteger, preparado para disparar.
Depois de dois dias dentro da embaixada, já não havia comida, não havia telefone, não havia descanso, não havia banho e não havia roupas limpas.
À noite, os soldados batiam nos seus escudos. Tornou-se uma guerra de nervos. Pedras caíam no teto enquanto o hino hondurenho era tocado a todo volume perto da embaixada.
Aí vieram as acusações de um ataque com gás. Zelaya afirma que mercenários estariam tentando expulsá-lo usando um gás tóxico. Algumas pessoas na embaixada tinham sangramentos nasais. Do lado de fora, as autoridades diziam que os odores eram de uma equipe de faxina nos arredores. Não estava claro o que realmente acontecia.
Depois, pelo menos, a tática de pressão arrefeceu, e eu comecei a receber comida, roupas limpas e um colchão inflável dos meus colegas do lado de fora, embora parte de um pacote tenha sido comido pelos policiais que prometeram entregá-lo.
Zelaya soube que a foto que eu fiz dele dormindo estava sendo publicada no mundo todo, e me chamou. Elogiou a foto, mas discordamos sobre como autoridades públicas podem ser fotografadas e sobre o valor documental das imagens.
Duas semanas depois do início do impasse, desenvolvemos novas rotinas para ter acesso a alimentos, água e até ao banheiro.
Zelaya, sua família e seus amigos mais íntimos têm mais confortos, mas há apenas dois chuveiros para as outras 70 pessoas dentro da embaixada.
Agora recebemos comida entregue por amigos do lado de fora, mas isso pode ser caótico. Fabriquei uma colher a partir de um copo plástico, e pago a um seguidor de Zelaya para lavar minhas roupas.
Os simpatizantes comem qualquer coisa que a ONU mandar. Zelaya come sua própria comida, e eu como a comida da Reuters. Invejam-nos pelos colchões de ar.
Ao final de cada dia, recebo um telefonema. Minha esposa diz: “Nosso filho está bem, te vemos em breve”.
Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O rádio em nossas vidas
Por isso colo meu ouvido no radinho de pilha
Pra te sintonizar
Sozinha...numa ilha
(Sonífera ilha, Titãs)
Sexta passada comemorou-se o dia do rádio. Mesmo atrasado, este blog não poderia deixar de falar um pouco sobre este veículo de comunicação tão importante. "Alguém ainda ouve rádio?", poderia logo perguntar algum apressadinho amante das chamadas "novas mídias", entre elas esta internet a qual você se debruça neste momento, caro leitor.
Ora ora, eu respondo que sim, o rádio está vivo e não vai acabar - apenas irá se reinventar e segmentar sua programação a fim de atingir um novo público. Exemplo claro desta reinvenção são as inúmeras rádios online aqui no território da internet - agora, além de agregarem ao som digital imagens, podcasts e interatividade (em muitas emissoras você pode montar sua programação particular), há a vantagem de podermos escutar nossa rádio preferida em qualquer lugar do mundo.
Pessoas em todos os lugares escutam diariamente as rádios e suas programações. Assim como os jornais impressos (outro meio de comunicação visto pelos apocalípticos de plantão como um meio fadado à extinção), os rádios tiveram sua época áurea, e na primeira metade do século XX foram com certeza - junto com o cinema - o maior veículo de entretenimento das grandes massas. Nos anos 1930, o rádio era sinônimo de espetáculo: era diante de um grande aparelho valvulado, ou seja, um rádio, que as famílias se reuniam, na sala, antes do advento da televisão. Era na rádio que os artistas de maior prestígio surgiam, que os cantores de maior sucesso atuavam, que os programas de auditório e novelas arrebanhavam multidões de ouvintes.
Um fato real do poder de fogo do rádio nesta época aconteceu nos Estados Unidos, mais precisamentre a partir das nove horas da noite de 1938. Foi nesse momento que os americanos começaram a ouvir a transmisão radiofônica da obra "A Guerra dos Mundos", do escritor H.G.Wells. A obra tratava de uma fictícia invasão da Terra por marcianos, mas o condutor do programa e adaptador da obra - um jovem e já genial Orson Welles - levou ao ar uma obra em formato jornalístico, como se a invasão estivesse realmente acontecendo. Foi o bastante para levar milhares de pessoas ao desespero, como mostra este trecho do artigo de Giusela Ortriwano, do livro "Rádio e Pânico":
Todas as características do radiojornalismo usadas na época – às quais os ouvintes estavam habituados e nas quais acreditavam – se faziam presentes: reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emotividade dos envolvidos, inclusive dos pretensos repórteres e comentaristas, davam a impressão de um fato, que estava indo ao ar em edição extraordinária, interrompendo outro programa, o radioteatro previsto. Na realidade, tratava-se do 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas por Orson Welles e o Radioteatro Mercury que explorava as técnicas jornalísticas com a ambientação sonora requerida pela linguagem específica do rádio.
A CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade passaram a sintonizá-lo quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão tomaram a dramatização como fato, acreditando que estavam mesmo acompanhando uma reportagem extraordinária. E, desses, meio milhão tiveram certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico e agindo de forma a confirmar os fatos que estavam sendo narrados: sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente as comunicações, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc. O medo paralisou três cidades. Pânico ocorreu principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e Welles situou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores de Newark e Nova York (além de Nova Jersey), que sofreram a invasão virtual dos marcianos da história.
O episódio, até hoje lembrado e discutido por estudiosos da Comunicação, marcou o apogeu do rádio e seu poder de influência. A partir de então políticos, homens de marketing e publicitários viram que estavam diante de um instrumento que poderia influenciar milhões, e não por acaso o rádio foi bastante usado como máquina de propaganda nos anos anteriores e durante a Segunda Guerra, tanto por nazistas como aliados, os dois lados em guerra dispostos a manipular corações e mentes em prol de uma ideologia vencedora.
A história mostra que a chegada de uma nova mídia não necessariamente implica no fim das anteriores. Com a chegada da televisão, o rádio perde seu apogeu e poder de influência. O baque foi profundo, mas ele se reinventou escorando-se no tripé jornalismo/prestação de serviços, esportes e entretenimento - este último representado pela música gravada, já que, como a transferência das verbas publicitárias para a televisão, as rádios perderam seus fabulosos castings, atraídos agora pelos programas de auditório televisivos, que pagavam melhor. A partir de então, o veículo teve que investir na segmentação, reformulando suas programações para atingir cada público-alvo em particular, tornando-se quase um "amigo íntimo" de quem estava em casa ou no trabalho - até hoje o rádio e seus locutores são a única companhia de milhares de solitários mundo afora, que abrandam a solidão ao escutar seus programas favoritos.
Hoje temos rádios com as mais diversas linhas de programação, Há desde as emissoras em FM cujo foco é a música, até aquelas que se propõem a levar uma programação 24 horas de notícias, também chamadas de "all news". Pra quem duvida do poder de influência das rádios, elas ainda hoje são bastante procuradas por políticos interessados num "upgrade" em suas carreiras, e há muitas emissoras cujos donos são deputados e senadores, que utilizam o espaço no dial como uma espécie de palanque eletrônico. Há também as inúmeras rádios arrendadas por igrejas evangélicas na busca midiática pelo aumento dos fiéis. Tudo isto só comprova que as ondas sonoras do rádio ainda estão vivas e fortes junto à população.
Marginal conservador aproveitará este tema tão rico para tecer em outros artigos comentários sobre a programação radiofônica, assim como alguns programas em especial. Quem gosta de ouvir rádio, deixo um recado no estilo dos bons locutores: fique ligado!
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Cê tá pensando que eu sou Loki, bicho?
O filme, dirigido pelo cineasta Paulo Henrique Fontenelle, é o primeiro a ser produzido pelo Canal Brasil e já ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, conquistando nos festivais do Rio e de São Paulo os prêmios do Jurí Popular e o de melhor documentário no Festival de Nova York. Kurt Cobain, que aparece no filme declarando sua paixão pelos Mutantes, se vivo estivesse, adoraria ter conferido a sessão.
Marginal conservador é fã de Arnaldo Batista e dos Mutantes. Vale a pena conferir a vida deste grande talento, desde a infância em São Paulo, o sucesso arrasador com os Mutantes - ainda hoje a banda mais revolucionária do rock brasileiro - a parceria com a ex-mulher Rita Lee, os períodos de ostracismo e barra-pesada (causado por drogas e a depressão que o levou a tentativas de suicídio e internações em sanatórios), até a volta por cima; o reencontro com o irmão mutante Sérgio Dias, a apoteose da volta do grupo em Londres e os dias atuais em Juiz de Fora. É lá que o músico preenche os dias com sua nova paixão, a pintura, e planeja novos voos solo. Longa vida a este ser eternamente inquieto e mutante.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A censura apresenta suas armas: sites jornalísticos, blogs e imprensa sob vigilância e intimidações
Passaram-se as décadas e a imprensa livre continua incomodando aqueles que estão no poder, que gostariam mesmo é de vê-la domesticada, sem denúncias, sem fiscalizar os poderes, sem a busca incessante da verdade para auxiliar na construção da opinião pública. Ideologias de direita ou esquerda, ditaduras ou governos autoritários travestidos de democracias, todos eles têm em comum a intenção de cooptar, controlar ou calar os meios de comunicação. Alguns exemplos recentes tem tido destaque na mídia, como a tentativa de controlar a campanha eleitoral no meio online. Ora, definitivamente a classe política brasileira não parece compreender a internet como um território livre.
Como diria o Barão, há alguma coisa no ar, além dos aviões de carreira. Depois de muitas idas e vindas, a Câmara dos Deputados recuou de seu primeiro projeto de reforma eleitoral - que liberava totalmente o debate político no ambiente virtual - e seguiu as modificações aprovadas pelo Senado na noite de terça-feira, dia 15/09. A partir de agora, mesmo não sendo, como os rádios e as TVs, concessões públicas, veículos de comunicação social na internet terão de seguir as mesmas regras de debate aplicadas à TV e ao rádio. Ou seja, quebra-se a autonomia da empresa de comunicação que possui um site em decidir qual candidato participará de alguma entrevista online - ela deverá chamar ao menos dois terços dos candidatos para participar de debates eleitorais, sob pena de multa ou ter o site tirado do ar.
A Câmara manteve a liberdade de blogs, redes sociais, sites e programas de mensagens instantâneas (até o msn neguinho quer vigiar!), mas com ressalvas. Ressalvas um tanto inusitadas: o direito democrático de cada blogueiro em expressar sua opinião por um ou outro candidato está liberado, mas caberá o direito de resposta e a proibição do anonimato em artigos e reportagens. Ufa!, sobre o anonimato não preciso temer, mas será que algum dos 350 (estou sendo bonzinho hoje) apadrinhados do Sarney em empresas do governo vão querer direito de resposta por eu já tê-lo criticado por aqui?
Como afirmou o Xexéo outro dia no programa da CBN "Liberdade de Expressão" (atentem para esta expressão, senhores), parece que nossa classe política ainda não sabe lidar bem com a internet. Vejamos: caso a emenda seja aprovada, os sites jornalísticos continuarão proibidos de “dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique”. Que tipo de privilégios a proposta se refere? E o quê um fato político precisa para virar “motivo jornalístico”, no entender dos nobres deputados?
Adiante: direito de resposta para blogs?!?! Ora, os blogs estão entre os meios mais democráticos da internet, pois o "direito de resposta" já é algo inerente a eles, na ideia dos comentários que qualquer leitor pode fazer após a leitura das postagens. É isso que torna a internet 2.0 única. Aqui, o leitor também tem vez: cada post tem espaço para comentários, elogios, críticas, "direitos de resposta" etc. E há também a flexibilidade: podemos sempre "corrigir" textos já escritos, acrecentando algo ou cortando eventuais tropeços. Quando um blog obstrui a participação/interação do internauta, aí sim, deixa-nos em dúvida se é realmente um blog, como é o caso do recente Blog do Planalto.
Sobre este blog, já apelidado o "blog do Lula", fica difícil levá-lo à sério após constatarmos que ele não permite comentários após as postagens. Ou seja, é um monólogo, uma via de mão única à qual o leitor internauta não foi convidado a manifestar-se e exercer seu direito de cidadão, apenas ler (ou, no máximo, clicar num ridículo "gostou ou não gostou?" após o post. Longe de resignarem-se, internautas mais atentos já criaram um "clone" do Blog do Planalto, à sua imagem e semelhança. A única diferença, muito importante, é que ali os comentários são liberados.
Enquanto isso, a imprensa vem sofrendo mais perseguições no Brasil e América do Sul. Enquanto aqui temos a censura ao jornal Estado de São Paulo, impedido de denunciar um esquema de corrupção envolvendo o filho de Sarney (olha ele aí de novo), na Venezuela, Chavez (que já fechou uma TV bastante popular) ameaça com o fim da concessão pública inúmeras rádios e TVs locais. E como se não bastasse, semana passada a redação do jornal Clarín, um dos mais críticos ao governo de Cristina Kirchner, foi invadida por um grupo de agentes da AFIP a Receita Federal argentina), sob a acusação de "problemas com a receita federal". Ora, por que dona Cristina não mandou que invadissem as mansões dos ricos argentinos que sonegam impostos?
Aliás, é interessante notar a cara de pau destes políticos ao tentarem explicar o incontornável: na Argentina, madame Kirchner afirmou que nunca houve tanta liberdade de expressão como agora. No entanto, a invasão à redação do Clarín, coincidentemente, se deu no mesmo dia em que o jornal denuciou irregularidades na entrega de um subsídio de US$ 2,5 milhões a uma empresa por um órgão estatal ligado à AFIP. No Brasil, Sarney foi a tribuna do Senado declarar que os parlamentares - e não a imprensa - seriam os "legítimos representantes do povo", porque, eles sim, "agem às claras". Bom, no caso específico do presidente do senado, não parece ter sido este o caso ao nomear secretamente uma infinidade de parentes, namorados de netas, mordomos, amigos de amigos...
Em algum lugar, longe deste Brasil pândego de hoje, Aparício Torelly deve estar rindo a valer com essas situações absurdas e dando graças a Deus por já ter morrido. Por enquanto, resta-nos lutar sempre contra estes desmandos da classe política e as novas formas disfarçadas (ou não) de censura aos meios de comunicação. Caso contrário, como diria o Barão de Itararé, de onde menos se espera...daí é que não sai nada mesmo.