quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Lides imperdíveis

Marginal Conservador começa este fevereiro inaugurando uma nova seção: "Lides imperdíveis". Quem estuda Comunicação, em especial Jornalismo, sabe que o lide (do inglês lead) é o começo da matéria, o primeiro parágrafo de uma notícia ou grande reportagem. Algo que deve ser levado bastante em consideração pelo bom jornalista, pois é ali, no comecinho do texto, que o jornalista deverá escrever linhas atraentes o bastante para que o leitor se interesse em o texto até o final. Parafraseando Cortázar ao se referir aos contos, um bom texto inicial deve levar o leitor a nocaute - um nocaute prazeroso, que o tire da pressa ou da distração e o leve a ler com atenção as próximas linhas.

Na década de 1940 foram introduzidas no Brasil as famosas regras da objetividade, influenciadas pelo jornalismo norte-americano. O Brasil deixava aos poucos a influência do jornalismo francês para adotar o estilo jornalístico dos EUA como parâmetro. Havia uma regra básica para os leads, como foram escritos por décadas: o jornalista deveria sempre responder, no primeiro parágrafo, a seis perguntas essenciais: o quê, quem, quando, como, onde e por quê? Ou seja, o mais importante deveria vir sempre no começo da reportagem, para facilitar a leitura.

Dois pesos, duas medidas. O lide ajudou vários candidatos a jornalistas não literatos a ingressarem na profissão, pois, qualquer um, com um pouco de treino em redações, poderia escrever um primeiro parágrafo seguindo o padrão imposto. Por outro lado, até hoje há profissionais de imprensa que abominam as regras da objetividade e a obrigação de responder às seis perguntas sempre, alegando serem estas regras uma "camisa de força" contra a criatividade do jornalista.

Já ouvi de uma conhecida dizer que o "lide já não é mais usado em nossa imprensa há mais de dez anos". Bem, ela me falou isso há exatamente dez anos e o lide ainda está por aí. Como professor, posso falar de cadeira que ele não só pode ser visto em grande parte de nossa mídia impressa, como ainda é ensinado nas faculdades de jornalismo em todo o Brasil. O que não há mais é tanta exigência de impor as regras da objetividade em todas as reportagens. O jornalismo se sofisticou e abraçou novas liberdades estilísticas.

Daí a ideia desta nova seção. Aqui, serão encontrados sempre lides muito bem escritos - que respondem ou não às seis perguntas básicas das regras da objetividade. Meu interesse será apenas publicar no blog lides que me chamaram a atenção recentemente, aliado a outros de reportagens históricas que fizeram a glória do jornalismo.

Começo a série com um exemplo bem recente: a excelente reportagem "Próxima parada: subúrbio", do jornalista Renato Lemos, publicada no último domingo, dia 6, na Revista do Globo, que sai encartada sempre aos domingos no jornal O Globo. Como morador da Zona Norte do Rio (onde fica o subúrbio), posso dizer que poucas vezes vi um retrato da área suburbana tão bem feito como nas linhas abaixo, escritas com estilo e espirituosidade.Vamos ao lide:

Não é fácil definir exatamente o que é um subúrbio carioca - nem a prefeitura tem dados precisos que ajudem a traçar seus limites -, mas é provável que não exista subúrbio de verdade sem linha do trem, pipa voada, cadeira na calçada, vizinha fofoqueira, botequim da esquina, fiado só amanhã, sacolé, pelada, top de lycra, carro lavado na rua, churrasquinho, escola de samba, caça-níquel, quintal, cigarro, Cosme e Damião, mangueira e amendoeira, um monte de van, um monte de camelô, bíblia, beata, macumba, favela, aquelas garotas de shortinho apertado, chinelo de dedo, suor, funk, cerveja e muito calor. É possível também que subúrbio que é subúrbio mesmo tenha nome e sobrenome, como Ricardo de Albuquerque, Vicente de Carvalho, Quintino Bocaiúva, Oswaldo Cruz, Magalhães Bastos e Bento Ribeiro. Há ainda os que defendam que o subúrbio, mais que um conceito geográfico, é um estado de espírito: a pessoa pode deixar o subúrbio, mas o subúrbio jamais a deixará. São pistas a seguir. Desde que a ação da polícia no Complexo do Alemão - aliada às bençãos de um onipresente São Jorge - trouxe mais paz à região, o carioca voltou a ter a chance de descobrir do que, afinal, é feito o subúrbio.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A história de Caramelo: publique-se a lenda

É divertida uma história contada nas crônicas de Nelson Rodrigues, sobre o passarinho no incêndio. Lembrando: segundo o dramaturgo, certa vez, na década de 1930, houve um grande incêndio numa casa do subúrbio carioca, na qual a imprensa foi devidamente acionada. Um dos colegas do jornal em que Nelson trabalhava, porém, acabou chegando no final, quando o fogo já havia destruído tudo em volta. Mas o intrépido jornalista não queria voltar para a redação sem uma boa história. No dia seguinte, os leitores se emocionaram com a reportagem que mencionava o passarinho na gaiola da varanda incendiada, o qual, segundo a matéria, teria cantado plenamente até o último suspiro, vindo a morrer pelas labaredas lançadas. O curioso, segundo Nelson, é que mais tarde, mais de um repórter teria usado a mesma história do passarinho em outro incêndio. Um típico caso de apropriação da lenda alheia.

Fiquei pensando nessa história ao ler e me comover com o cão Caramelo, que emocionou a todos que vêm acompanhando o resgate das vítimas das chuvas fortes na região serrana do Rio. Sua imagem, repousando ao lado do túmulo de sua suposta dona correu o Brasil - jornais, TVs, sites, rádios, todos publicaram ou fizeram menção ao amor do cão pela dona que teria morrido nas enchentes. Pois bem: sabe-se agora que a história não passou de uma tremenda barriga (notícia falsa), que o cão ao lado do túmulo não se chama Carqamelo e na verdade pertence a um funcionário do cemitério. Quem denunciou a farsa foi um jornalista de Teresópolis.



Agora fica pergunta: trata-se de mais um caso de má apuração ou "apenas" a sofreguidão de nossa imprensa em conseguir personagens e histórias emocionantes, unicamente com o intuito de alavancar a audiência? Lembro que uma vez estava assistindo na TV a um programa sobre escolha de profissões, e naquele dia o tema era justamente jornalismo. Dois universitários da profissão - um garoto e uma garota - visitavam a redação de um jornal e eram acompanhados pelo repórter do programa e o editor, que informava aos jovens como realizar uma boa apuração. Entre as várias dicas, havia esta: "vocês devem procurar bons personagens".

Notem bem: ele não falou por "fontes", mas sim "personagens". Ou seja, algo mais ligado à ficção do que ao relato testemunhal de um fato.

Sim, tudo indica que nesta triste história da tragédia na região serrana, a gana de nossa imprensa em encontrar boas histórias deu origem a essa barriga fenomenal do cãozinho. Aliás, é sintomático lembrar que outro cão esteve presente em uma das histórias mais comoventes - esta sim, real, pois filmada pela TV - desta tragédia: o resgate de Dona Elair pelos vizinhos. Todos lembram que dona Elair, ao saltar no rio presa a uma corda, tentou primeiramente levar seu cão, Bethoven, junto. Pobre Bethoven: a força da água era tão forte que dona Elair não conseguiu levá-lo junto e o cãozinho morreu, tragado pela força das águas. Elair perdeu seu cão; o verdadeiro Caramelo (onde estará?) perdeu sua dona.

Por estes dias também acompanhei uma reportagem sobre a tragédia das chuvas em que cães eram novamente os personagens principais. Segundo a matéria, vários cães perdidos ou abandonados por donos que perderam tudo na enxurrada,e que haviam sido transferidos para um pequeno clube improvisado, teriam, por ordem da prefeitura, que ser transferidos. A alegação era de que os animais poderiam transmitir doenças para a população, mesmo com veterinários prometendo vacinar todos em breve...

A sorte dos cães abandonados na região é ainda pior do que a dos humanos, que no momento recebem toda a carga de solidariedade em forma de doações vindas de todo o estado. Não seria bom um pouco de solidariedade também com os bichos?

Semana passada, enquanto as chuvas só faziam aumentar o número de mortes em Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, levei o cão de meu pai, Zeca, um cocker spaniel, a uma veterinária perto de casa. Seus olhos estavam brancos e havia o presentimento de que ele estaria com catarata. O diagnóstico foi pior: Zeca está cego. No momento aguardamos o resultado de um exame de sangue que poderá dizer o que levou um cocker de 7 anos, com pedigree e muito bem tratado a contrair a cegueira. E também ficamos no aguardo de que nossas autoridades não fiquem tão cegas à tragédias anunciadas como esta na região serrana, que deixou o verão do Rio de Janeiro mais triste neste começo de 2011.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Cinema (na favela) é a maior diversão!



Para quem achava que o cinema tinha virado um entretenimento definitivamente elitizado, confinado em shoppings e com preços proibitivos, a presença de público num cinema recém-inaugurado no Rio parece demonstrar o contrário. Leio em matéria do Globo desta semana sobre o sucesso do Cinecarioca Nova Brasília, com 85% de presença de público desde sua inauguração, em 24 de dezembro. Sim, meus caros, 85% - quando a média nacional de público pagante nos cinema brasileiros não passa de 40%. Só pra lembrar: o Cinecarioca fica dentro da favela Nova Brasília, em pleno Complexo do Alemão.

A inauguração do cinema, ainda no fim do ano passado, quase um mês depois da invasão do Complexo pela polícia e as Forças Armadas, que pacificaram a região antes tomada pelo tráfico, é uma conquista altamente simbólica. Trata-se do primeiro cinema em 3D dentro de uma favela no Brasil. Algo que, obviamente, merece ser comemorado. Não basta somente "pacificar" uma região antes estigmatizada pelo domínio de traficantes e por muito tempo abandonada pelo poder público. Há que se criar uma atmosfera de trabalho e oportunidades, para que as pessoas dali possam se sentir plenamente integradas, para que todos se sintam cidadãos da cidade. Como cantaram os Titãs, eles não querem só comida, mas também diversão e arte.

No entanto, parece que nem todos curtiram a ideia de um cinema em 3D em plena favela - e com preço de 8 reais (4 reais para o morador da favela!). Notícias do começo do ano deram conta de que o cinema foi parcialmente apedrejado há duas semanas atrás (suspeita-se que teriam sido ordens de traficantes ainda escondidos na região). Os responsáveis pelo cinema logo repuseram os vidros quebrados e as sessões continuaram sem problemas. Foi apenas um susto.

Mais que o batido slogan de "a melhor diversão", o Cinecarioca Nova Brasília tem servido para estimular uma espécio de auto-estima cultural nos moradores do entorno. Segundo a matéria do Globo, mais de 90% dos novos frequentadores nunca haviam ido ao cinema. O contato dos moradores da região - e, que fique bem claro, não só na favela, mas em todo o subúrbio e periferia do Rio de Janeiro - com os lançamentos cinematográficos era em grande parte feito em aluguéis de DVDs ou em compras de cópias piratas em barraquinhas de camelôs. A promessa do governo de criar novas salas em outras favelas (a próxima deve ser a de Manguinhos), longe de constituir uma atitude eleitoreira e oportunista, é uma saída bem bolada para se constuituir um novo público de cinema. Um público que, ao descobrir o prazer que é ver um filme dentro de uma tela de cinema de verdade, tenderá a abandonar os filmes comprados em camelôs.

Ora, quem gosta de cinema de verdade sabe que a chamada "fruição cinematográfica" - ou seja, todo aquele ritual de ir ver um filme no cinema, desde a escolha da roupa que irá, a condução até o local, a compra dos bilhetes, a entrada na sala ainda acesa, o apagar das luzes, os trailers, o tão esperado filme na tela grande (algo que nem o blu-ray mais moderno ainda é capaz de superar) - é um dos grandes baratos do cinema. Sem contar dos inúmeros casais que começaram a namorar dentro de uma sala de cinema.

Apesar de eu não ser um grande entusiasta do 3D, sei o fascínio que causa em muita gente, principalmente em crianças. Semana passada, numa sessão de "Enrolados", a que estive com meu filho, deu pra ver o prazer que meu filho sentia em tentar alcançar as lanternas iluminadas lançadas ao céu pelo pai da personagem principal, numa das mais bonitas cenas do filme. Com a ajuda da técnica, as lanternas pareciam estar na nossa frente.

Arte, técnica e cultura para o povo. Vida longa ao Cinecarioca Nova Brasília. E que venham outros!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal em tempo de mídias digitais

É Natal!! O ano está terminando e chega a hora de fazer um balanço do que fizemos ou deixamos de fazer. Dos desejos que concretizamos e daqueles que não se cumpriram. Dos amigos que ganhamos e aqueles que se foram. Os amores começados e terminados. Os momentos juntos daqueles que amamos. Enfim, o fim do ano é sempre tempo de lembrar que a vida é mais valiosa do que pensamos.

Uma das boas coisas pelas quais passei em 2010 foi ter voltado a dar aulas presenciais. Comecei em agosto a trabalhar como professor do UniFOA, Centro Universitário de Volta Redonda, nos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Já me acostumei com a rotina de subir a serra toda semana para o convívio com professores e alunos. A quebra em minha antiga rotina fez com que eu deixasse este blog um bom tempo desatualizado, e pretendo consertar isso em breve, com pelo menos um post semanal. Este é apenas um dos desejos que propus a mim mesmo para 2011!

A todos os leitores deste blog e em especial à turma do 8º periodo de Jurnalismo da FOA, a qual tive a oportunidade de lecionar a disciplina Mídias Digitais, deixo aqui um vídeo extremamente criativo sobre o Natal, que se baseia numa perguntinha simples: como teria sido o nascimento de Jesus em tempos digitais?

Aproveito para desejar a todos boas festas e um Feliz Natal!

Confiram:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Toyota Hylux 2010: a história que inspirou o comercial

Como fazer uma propaganda criativa a fim de chamar a atenção das pessoas, num tempo de mídias digitais, avalanche de informações vindas de todos os cantos e atenções dispersas? Dia desses, assistindo à TV, me chamou a atenção o anúncio de um carro da Toyota, o modelo Hylux 2010 - "Hylux Invencível". Gostaria aqui de fazer um breve comentário sobre o comercial, cuja história foi inspirada num fato real acontecido no Brasil do século passado: uma época sem internet, sem televisão, e no qual a mídia mais poderosa era o rádio.

Dê uma olhada no comercial abaixo. Um homem, pilotando um pequeno avião (daqueles que, até bem pouco tempo, chamaríamos de teco-teco), enfrenta uma grande tempestade. Ele deseja aterrisar, mas não há nenhum aeroporto à vista. O que fazer? Ele faz contato com alguém, que imediatamente aciona um grupo de ajudantes - todos eles dirigindo o tal "Hylux invencível". As cenas seguintes mostram os carros desbravando um território irregular (sim, para chegar ao local que desejam, eles não dirigem por estradas convencionais, mas por morros e descampados). Enfim, chegam a um local no qual, enfileirados, deixam os faróis ligados. Do céu, o piloto consegue ver a iluminação deixada pelos carros e consegue aterrisar no local, seguido de grande comemoração. Slogan da publicidade: "Você não sabia que uma pick-up poderia percorrer tantos caminhos".



Corta para a década de 1940. O rádio vivia sua era de ouro. No começo da década, o governo Vargas emcampa a Rádio Nacional, o primeiro veículo com um grande poder de penetração em todas as grandes regiões brasileiras. Era a "TV Globo" da época. Seu poder e alcance seria posto à prova numa noite, na qual um avião da Força Aérea Brasileira - um Boeing b-17 - depois de cruzar a Floresta Amazônica com 14 pessoas, viu-se sem conseguir pousar no aeroporto de Campo Grande, devido à queda de energia no local. Alertado sobre o drama do avião sem local para pousar, um oficial da base aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, telefona para a Rádio Nacional e pede que o locutor transmita uma mensagem aos moradores da região:

"Atenção, Campo Grande! Atenção, Campo Grande, em Mato Grosso! Uma fortaleza voadora da FAB precisa aterrisar, mas o campo de pouso está às escuras. Os moradores da cidade devem ir com seus automóveis para o aeroporto a fim de iluminarem as pistas de pouso com seus faróis."

Aquele pedido, feito no estúdio da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, atravessou as regiões e chegou aos moradores de Campo Grande, que acataram o pedido. Apenas meia hora depois, o Boeing da Força Aérea conseguiu pousar em uma pista do aeroporto, iluminada por faróis de dezenas de automóveis.

Obviamente não eram todos utilitários como o modelo da Toyota. Estávamos na década de 1940, lembram? Com certeza a maioria dos motoristas que ouviu o locutor pelas ondas do rádio também não precisou subir montes e caminhos inóspitos para chegar ao local, preferindo pegar a rodovia local. Essas liberdades poéticas só estão no anúncio da Toyota e no mundo da publicidade. O caso real de Campo Grande, porém, virou lenda e foi contado de pai pra filho nas décadas posteriores (a história pode ser conferida no livro Rádio - veículo, história e técnica, de Luiz Carlos Ferrareto). Até chegar certamente aos ouvidos de um publicitário no ano de 2010, que utilizou o fato como inspiração para um criativo comercial.

Duas lições ficam para quem se interessa por comunicação: primeiro, que tenham ciência do grande poder de penetração do rádio na primeira metade do século XX. Segundo, que boas histórias - ainda que aumentadas ou "distorcidas" para conseguir um resultado mais sedutor -, serão sempre fortes componentes para a indústria da propaganda e o entretenimento.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meus passeios com Tuco: no CCBB, junto ao "poço dos desejos"

Pra quem ainda não foi ao CCBB visitar a imperdível exposição do Islã - a mostra se encerra no dia 26 de dezembro, então corram! - um artefato da decoração, logo no hall de entrada, chama a atenção. Trata-se da reprodução de um pequeno chafariz com os traços da cultura islâmica. Há ali também o cenário de uma entrada de mesquita, que atrai jovens e adultos para tirarem fotos. Mas o que tem mais atraído a atenção da molecada é o tal chafariz, com água de verdade e...repleto de moedinhas dentro. Seria um poço dos desejos?

Não sei quem jogou a primeira moedinha dentro do "poço" e fez um desejo, nem tenho certeza se a ideia do poço dos desejos, dentro de nosso imaginário ocidental, veio da cultura islâmica. O interessante é que o tal poço, desde o começo da exposição, revelou-se um grande sucesso, e chegou até a virar notícia dia desses no Globo, que chamava atenção para o fato de que não só crianças, mas também adultos, ao adentrarem o hall do CCBB, reservavam uma moedinha para jogar no poço e fazer um desejo. Prova de que, em tempos nos quais o realismo invade nosso cotidiano de forma violenta, na forma de invasões de favelas e carros incendiados, não há nada de errado em apelar um pouco (nem que seja só um pouquinho...rs) para que nossos desejos se concretizem: sejam eles de paz, de mais grana, um novo emprego, a busca por um novo amor etc.

Confesso que resisti à tentação de jogar uma moeda no poço. Só que, quando meu filho olhou para aquelas moedinhas dentro do local e quis saber qual o motivo, insistiu para jogar uma moeda também. Gostei da brincadeira e coloquei a mão no bolso. Havia apenas uma moeda: de 1 real. A maioria das moedas no poço decorativo não chegava a 25 centavos...mas, ora, qual o pai há de resistir a brincadeira tão lúdica?

Expliquei ao Tuco para antes fechar os olhos, pensar num desejo e jogar a moeda.
Antes, ainda olhei para ele e brinquei: "cuidado com o que vai pedir, heim! papai te deu a melhor moeda".

Tuco fez direitinho o que ensinei: se aproximou do poço, fechou os olhos (um tanto rápido demais) e jogou a moeda de 1 real lá dentro. Voltou feliz. Dei a mão a ele para continuarmos andando. Mas não resisti à tentação de perguntar-lhe o que havia pedido.

"Um salsichão".
"O quê?!"
"Sim, papai. Pedi um salsichão!"
"Mas com tanta coisa pra pedir, Arthur, você me vem com um salsichão!"
"Mas eu gosto de salsichão..."

Foi aí que percebi que seria demais pedir desejos "mais elevados" a uma criança de 5 anos, que adora brincar, ir à piscina, ver desenhos de super-heróis e...comer salsichão!

Naquele dia nem vimos a exposição completa. Era a primeira semana e o CCBB estava lotado. Mas, como sempre, valeu o passeio. No fim de semana, renidos à mesa, na casa de meus pais (que se divertiram com a história), contei de novo para minha irmã, que estava ali com sua filha Juju, de 4 anos. Minha irmã riu muito e chegou a dizer, olhando para o Arthur, "Só você, Tuco, só você...rs".

Só ele? Será? Não resisti e perguntei à Juju, que ficou interessada na história do poço dos desejos, qual seria o pedido dela, quando visitasse a exposição.

Julinha nem pensou muito: "um queijinho no espeto!". Olhei para minha irmã, que também riu com a resposta da filha.

E seguimos com nosso fim de semana. Afinal, nada como o desejo inocente de uma criança - um desejo ainda livre de tanta brutalidade e banalidade cotidiana - para nos permitir um pouco de felicidade numa tarde quente do Rio.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Flanando pelo Centro do Rio, com Keith Haring e o "grande líder".

Quarta-feira de outubro. Final do Festival do Rio. Perambulo pelo Centro da cidade, visando conferir a exposição de Keith Harring e pelo menos algum filme do festival. Confiro o trabalho de Keith, um grande artista que levou seus desenhos aos metrôs e depois às ruas de Nova York, morto em decorrência da aids em 1990. Genial. Haring era uma talentoso desenhista, nascido na Pensilvânia, que virou um grande artista ao mudar-se para Nova York e ingressar na School of Visual Arts. Observando a efervescente e alternativa comunidade artística, Haring encontrou nos corredores do metrô de NY o espaço ideal para aumentar seu público: ali, ao notar painéis de publicidade vazios, cobertos por papel preto fosco, pensou: é ali que vou deixar minha arte. Aos poucos as pessoas começaram a parar, entre a espera de um trem e oputro, para observar aquele rapaz tímido, que às vezes chegava a pintar quarenta "desenhos de metrô" num só dia, segundo o belo livrinho que é dado ao visitante na exposição, "O livro da vida".

Keith Haring morreu cedo, aos 31 anos. O artista se foi, mas sua arte, que pulou os muros da universidade e invadiu ruas e metrôs, está viva em exposições e também no cenário livre das ruas de Nova York, como o famoso painel Crack is Wack.



Saio da Caixa Cultural, onde rola a exposição, e caminho em direção ao Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia. É meu refúgio em período de festivais: ali sempre tem filmes razoáveis e com lotação não esgotada - quem mora na Zona Norte e decide conferir um bom filme em Botafogo sabe que a chance de voltar pra casa após dar com um "esgotado" na fila do cinema é bastante grande.

O filme que quero ver já foi escolhido com antecedência. Trata-se de "Um espetáculo para o grande líder", documentário em tom fake dinamarquês que retrata a viagem de um grupo de atores à Coreia do Norte com o objetivo de apresentar uma peça, visando um intercâmbio cultural entre os dois países. No entanto, o tal "intercâmbio" é apenas um pretexto para penetrar num dos regimes mais fechados do mundo: a proposta do diretor Mads Brügger(e também narrador do filme), é apenas uma: expor e denunciar a ditadura coreana ao resto do mundo. Como? Através daquela que para ele é uma grande forma de contestação: a comédia.




Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2010, o filme é na verdade um exercício de estilo no qual qualquer menção à objetividade ou imparcialidade deve ser jogada de lado. O tal espetáculo a ser preparado para o grande líder é uma comédia no estilo do teatro bufão, onde os únicos atores são dois jovens, Jacob e Simon, de origem coreana e que foram adotados por dinamarqueses desde cedo. Assim, o diretor e sua troupe conseguem entrar sem problemas na Coréia do Norte.

Sem problemas, mas com vigilância total. É escalada uma senhora que irá seguir os passos do grupo por onde forem. A senhora se afeiçoa por Jacob, o mais jovem dos atores, que também é deficiente, algo a princípio não tolerado na Coreia. Há uma cena hilária logo no começo, quando os dois atores se apresentam num parque coreano para uma comitiva de burocratas norte-coreanos - todos estes fazendo cara de pasmo total ante a bufonaria apresentada no palco, com direito até à versão de "Wonderwall", do Oasis, ao final. Pressentindo a tragédia, o diretor começa a falar em fazer as malas e voltar para a Dinamarca, quando...o espetáculo é aprovado!

Mas, na Coréia do Norte, nada é tão simples. Sob pretexto de tornar a peça mais palatável para o público norte-coreano, os burocratas do partido começam a dar palpites recorrentes no espetáculo, até quase o desfigurarem por completo. Apesar das tentativas de argumentação, o diretor segue as recomendações dos burocratas. Chega uma hora em que todos da equipe parecem estar representando: os dois atores, que preparam a peça sob vigilância, o diretor e equipe, que seguem seu roteiro de visitas aos marcos da ditadura norte-coreana, e até os burocratas, que representam, fidedignamente seu respeito supremo ao "grande líder", o ditador norte-coreano Kim Jong-il.

O mais impactante está por vir. Muito bem tratado pelo povo norte-coreano, o deficiente Jacob (de raízes coreanas, vale repetir) identifica-se com o povo e começa a questionar as reais intenções do diretor, que pelo menos na narração em off, trata sempre de desmistificar o cenário norte-coreano e sua ditadura socialista. Ao serem convidados a assistir uma marcha gigantesca de soldados coreanos, "em homenagem ao grande líder e contra o imperialismo norte-americano" Jacob recusa-se a bater palmas e a saldar com a mão estendida e punhos cerrados a marcha, deixando o diretor desconcertado. Os dois chegam a discutir: o ator manda o cineasta parar de mentir; ao que o diretor retruca que deve continuar mentindo, "para o bem do filme".

Ao final a peça finalmente é apresentada, com todos os cortes, modificações e censura efetuados pela equipe de burocratas. É um sucesso. Na despedida, a senhora responsável por acompanhar diariamente a equipe ensaia um choro e abraça Jacob. O diretor ainda deixa uma cartada final para este últimos momentos, ao tentar fazer Jacob perguntar à senhora norte-coreana onde ele poderia encontrar deficientes como ele, já que em toda a passagem pelo país ele não havia visto nenhum. Mas Jacob deixa a pergunta pela metade, e a senhora coreana dá uma resposta evasiva. Ao subirem os créditos, uma pergunta incômoda não pode deixar de ser feita: quem manipula quem na obra de arte? E na vida real?

Saí do cinema satisfeito com o instigante filme e com uma pequena dúvida: seria possível a arte de um artista como Keith Haring - homossexual, e que representou muito de sua arte nas ruas? Não teria sido mais um a ser perseguido pelos acólitos do "grande líder"? Fica a questão. A história já demonstrou que a arte pode se desenvolver em qualquer espaço, mesmo em regimes totalitários. Mas para que ela floresça de verdade e alcançe o público, é sempre bom optar pela democracia. Mesmo sendo esta, a exemplo da arte, sujeita às mais diversas "representações".