Não posso mais viver assim do seu ladinho
Por isso colo meu ouvido no radinho de pilha
Pra te sintonizar
Sozinha...numa ilha
(Sonífera ilha, Titãs)
Sexta passada comemorou-se o dia do rádio. Mesmo atrasado, este blog não poderia deixar de falar um pouco sobre este veículo de comunicação tão importante. "Alguém ainda ouve rádio?", poderia logo perguntar algum apressadinho amante das chamadas "novas mídias", entre elas esta internet a qual você se debruça neste momento, caro leitor.
Ora ora, eu respondo que sim, o rádio está vivo e não vai acabar - apenas irá se reinventar e segmentar sua programação a fim de atingir um novo público. Exemplo claro desta reinvenção são as inúmeras rádios online aqui no território da internet - agora, além de agregarem ao som digital imagens, podcasts e interatividade (em muitas emissoras você pode montar sua programação particular), há a vantagem de podermos escutar nossa rádio preferida em qualquer lugar do mundo.
Pessoas em todos os lugares escutam diariamente as rádios e suas programações. Assim como os jornais impressos (outro meio de comunicação visto pelos apocalípticos de plantão como um meio fadado à extinção), os rádios tiveram sua época áurea, e na primeira metade do século XX foram com certeza - junto com o cinema - o maior veículo de entretenimento das grandes massas. Nos anos 1930, o rádio era sinônimo de espetáculo: era diante de um grande aparelho valvulado, ou seja, um rádio, que as famílias se reuniam, na sala, antes do advento da televisão. Era na rádio que os artistas de maior prestígio surgiam, que os cantores de maior sucesso atuavam, que os programas de auditório e novelas arrebanhavam multidões de ouvintes.
Um fato real do poder de fogo do rádio nesta época aconteceu nos Estados Unidos, mais precisamentre a partir das nove horas da noite de 1938. Foi nesse momento que os americanos começaram a ouvir a transmisão radiofônica da obra "A Guerra dos Mundos", do escritor H.G.Wells. A obra tratava de uma fictícia invasão da Terra por marcianos, mas o condutor do programa e adaptador da obra - um jovem e já genial Orson Welles - levou ao ar uma obra em formato jornalístico, como se a invasão estivesse realmente acontecendo. Foi o bastante para levar milhares de pessoas ao desespero, como mostra este trecho do artigo de Giusela Ortriwano, do livro "Rádio e Pânico":
Todas as características do radiojornalismo usadas na época – às quais os ouvintes estavam habituados e nas quais acreditavam – se faziam presentes: reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emotividade dos envolvidos, inclusive dos pretensos repórteres e comentaristas, davam a impressão de um fato, que estava indo ao ar em edição extraordinária, interrompendo outro programa, o radioteatro previsto. Na realidade, tratava-se do 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas por Orson Welles e o Radioteatro Mercury que explorava as técnicas jornalísticas com a ambientação sonora requerida pela linguagem específica do rádio.
A CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade passaram a sintonizá-lo quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão tomaram a dramatização como fato, acreditando que estavam mesmo acompanhando uma reportagem extraordinária. E, desses, meio milhão tiveram certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico e agindo de forma a confirmar os fatos que estavam sendo narrados: sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente as comunicações, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc. O medo paralisou três cidades. Pânico ocorreu principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e Welles situou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores de Newark e Nova York (além de Nova Jersey), que sofreram a invasão virtual dos marcianos da história.
O episódio, até hoje lembrado e discutido por estudiosos da Comunicação, marcou o apogeu do rádio e seu poder de influência. A partir de então políticos, homens de marketing e publicitários viram que estavam diante de um instrumento que poderia influenciar milhões, e não por acaso o rádio foi bastante usado como máquina de propaganda nos anos anteriores e durante a Segunda Guerra, tanto por nazistas como aliados, os dois lados em guerra dispostos a manipular corações e mentes em prol de uma ideologia vencedora.
A história mostra que a chegada de uma nova mídia não necessariamente implica no fim das anteriores. Com a chegada da televisão, o rádio perde seu apogeu e poder de influência. O baque foi profundo, mas ele se reinventou escorando-se no tripé jornalismo/prestação de serviços, esportes e entretenimento - este último representado pela música gravada, já que, como a transferência das verbas publicitárias para a televisão, as rádios perderam seus fabulosos castings, atraídos agora pelos programas de auditório televisivos, que pagavam melhor. A partir de então, o veículo teve que investir na segmentação, reformulando suas programações para atingir cada público-alvo em particular, tornando-se quase um "amigo íntimo" de quem estava em casa ou no trabalho - até hoje o rádio e seus locutores são a única companhia de milhares de solitários mundo afora, que abrandam a solidão ao escutar seus programas favoritos.
Hoje temos rádios com as mais diversas linhas de programação, Há desde as emissoras em FM cujo foco é a música, até aquelas que se propõem a levar uma programação 24 horas de notícias, também chamadas de "all news". Pra quem duvida do poder de influência das rádios, elas ainda hoje são bastante procuradas por políticos interessados num "upgrade" em suas carreiras, e há muitas emissoras cujos donos são deputados e senadores, que utilizam o espaço no dial como uma espécie de palanque eletrônico. Há também as inúmeras rádios arrendadas por igrejas evangélicas na busca midiática pelo aumento dos fiéis. Tudo isto só comprova que as ondas sonoras do rádio ainda estão vivas e fortes junto à população.
Marginal conservador aproveitará este tema tão rico para tecer em outros artigos comentários sobre a programação radiofônica, assim como alguns programas em especial. Quem gosta de ouvir rádio, deixo um recado no estilo dos bons locutores: fique ligado!
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Cê tá pensando que eu sou Loki, bicho?
É hoje! pra quem perdeu nos cinemas, estreia logo mais no Canal Brasil o longa-metragem "Loki", biogragia cinematográfica de um dos maiores músicos brasileiros, o ex-mutante Arnaldo Batista.
O filme, dirigido pelo cineasta Paulo Henrique Fontenelle, é o primeiro a ser produzido pelo Canal Brasil e já ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, conquistando nos festivais do Rio e de São Paulo os prêmios do Jurí Popular e o de melhor documentário no Festival de Nova York. Kurt Cobain, que aparece no filme declarando sua paixão pelos Mutantes, se vivo estivesse, adoraria ter conferido a sessão.
Marginal conservador é fã de Arnaldo Batista e dos Mutantes. Vale a pena conferir a vida deste grande talento, desde a infância em São Paulo, o sucesso arrasador com os Mutantes - ainda hoje a banda mais revolucionária do rock brasileiro - a parceria com a ex-mulher Rita Lee, os períodos de ostracismo e barra-pesada (causado por drogas e a depressão que o levou a tentativas de suicídio e internações em sanatórios), até a volta por cima; o reencontro com o irmão mutante Sérgio Dias, a apoteose da volta do grupo em Londres e os dias atuais em Juiz de Fora. É lá que o músico preenche os dias com sua nova paixão, a pintura, e planeja novos voos solo. Longa vida a este ser eternamente inquieto e mutante.
O filme, dirigido pelo cineasta Paulo Henrique Fontenelle, é o primeiro a ser produzido pelo Canal Brasil e já ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, conquistando nos festivais do Rio e de São Paulo os prêmios do Jurí Popular e o de melhor documentário no Festival de Nova York. Kurt Cobain, que aparece no filme declarando sua paixão pelos Mutantes, se vivo estivesse, adoraria ter conferido a sessão.
Marginal conservador é fã de Arnaldo Batista e dos Mutantes. Vale a pena conferir a vida deste grande talento, desde a infância em São Paulo, o sucesso arrasador com os Mutantes - ainda hoje a banda mais revolucionária do rock brasileiro - a parceria com a ex-mulher Rita Lee, os períodos de ostracismo e barra-pesada (causado por drogas e a depressão que o levou a tentativas de suicídio e internações em sanatórios), até a volta por cima; o reencontro com o irmão mutante Sérgio Dias, a apoteose da volta do grupo em Londres e os dias atuais em Juiz de Fora. É lá que o músico preenche os dias com sua nova paixão, a pintura, e planeja novos voos solo. Longa vida a este ser eternamente inquieto e mutante.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A censura apresenta suas armas: sites jornalísticos, blogs e imprensa sob vigilância e intimidações
"Entre sem bater". Pouca gente sabe que a protocolar frase estampada à frente de centenas de portas de repartições públicas e escritórios Brasil afora foi na verdade inventada pelo Barão de Itararé, pseudônimo de Aparício Torelly, genial jornalista e humorista, vereador e provocador profissional. Conta-se que em 1934, após publicar em fascículos a saga do marinheiro João Cândido e sua Revolta da Chibata, Torelly recebeu na redação de seu jornal a visita indesejada de um grupo (nunca identificado), que lhe teria aplicado uma bela surra, revoltado com a apologia ao almirante negro. Dias depois, já recuperado, o Barão afixava o lembrete irônico à porta de seu escritório.
Passaram-se as décadas e a imprensa livre continua incomodando aqueles que estão no poder, que gostariam mesmo é de vê-la domesticada, sem denúncias, sem fiscalizar os poderes, sem a busca incessante da verdade para auxiliar na construção da opinião pública. Ideologias de direita ou esquerda, ditaduras ou governos autoritários travestidos de democracias, todos eles têm em comum a intenção de cooptar, controlar ou calar os meios de comunicação. Alguns exemplos recentes tem tido destaque na mídia, como a tentativa de controlar a campanha eleitoral no meio online. Ora, definitivamente a classe política brasileira não parece compreender a internet como um território livre.
Como diria o Barão, há alguma coisa no ar, além dos aviões de carreira. Depois de muitas idas e vindas, a Câmara dos Deputados recuou de seu primeiro projeto de reforma eleitoral - que liberava totalmente o debate político no ambiente virtual - e seguiu as modificações aprovadas pelo Senado na noite de terça-feira, dia 15/09. A partir de agora, mesmo não sendo, como os rádios e as TVs, concessões públicas, veículos de comunicação social na internet terão de seguir as mesmas regras de debate aplicadas à TV e ao rádio. Ou seja, quebra-se a autonomia da empresa de comunicação que possui um site em decidir qual candidato participará de alguma entrevista online - ela deverá chamar ao menos dois terços dos candidatos para participar de debates eleitorais, sob pena de multa ou ter o site tirado do ar.
A Câmara manteve a liberdade de blogs, redes sociais, sites e programas de mensagens instantâneas (até o msn neguinho quer vigiar!), mas com ressalvas. Ressalvas um tanto inusitadas: o direito democrático de cada blogueiro em expressar sua opinião por um ou outro candidato está liberado, mas caberá o direito de resposta e a proibição do anonimato em artigos e reportagens. Ufa!, sobre o anonimato não preciso temer, mas será que algum dos 350 (estou sendo bonzinho hoje) apadrinhados do Sarney em empresas do governo vão querer direito de resposta por eu já tê-lo criticado por aqui?
Como afirmou o Xexéo outro dia no programa da CBN "Liberdade de Expressão" (atentem para esta expressão, senhores), parece que nossa classe política ainda não sabe lidar bem com a internet. Vejamos: caso a emenda seja aprovada, os sites jornalísticos continuarão proibidos de “dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique”. Que tipo de privilégios a proposta se refere? E o quê um fato político precisa para virar “motivo jornalístico”, no entender dos nobres deputados?
Adiante: direito de resposta para blogs?!?! Ora, os blogs estão entre os meios mais democráticos da internet, pois o "direito de resposta" já é algo inerente a eles, na ideia dos comentários que qualquer leitor pode fazer após a leitura das postagens. É isso que torna a internet 2.0 única. Aqui, o leitor também tem vez: cada post tem espaço para comentários, elogios, críticas, "direitos de resposta" etc. E há também a flexibilidade: podemos sempre "corrigir" textos já escritos, acrecentando algo ou cortando eventuais tropeços. Quando um blog obstrui a participação/interação do internauta, aí sim, deixa-nos em dúvida se é realmente um blog, como é o caso do recente Blog do Planalto.
Sobre este blog, já apelidado o "blog do Lula", fica difícil levá-lo à sério após constatarmos que ele não permite comentários após as postagens. Ou seja, é um monólogo, uma via de mão única à qual o leitor internauta não foi convidado a manifestar-se e exercer seu direito de cidadão, apenas ler (ou, no máximo, clicar num ridículo "gostou ou não gostou?" após o post. Longe de resignarem-se, internautas mais atentos já criaram um "clone" do Blog do Planalto, à sua imagem e semelhança. A única diferença, muito importante, é que ali os comentários são liberados.
Enquanto isso, a imprensa vem sofrendo mais perseguições no Brasil e América do Sul. Enquanto aqui temos a censura ao jornal Estado de São Paulo, impedido de denunciar um esquema de corrupção envolvendo o filho de Sarney (olha ele aí de novo), na Venezuela, Chavez (que já fechou uma TV bastante popular) ameaça com o fim da concessão pública inúmeras rádios e TVs locais. E como se não bastasse, semana passada a redação do jornal Clarín, um dos mais críticos ao governo de Cristina Kirchner, foi invadida por um grupo de agentes da AFIP a Receita Federal argentina), sob a acusação de "problemas com a receita federal". Ora, por que dona Cristina não mandou que invadissem as mansões dos ricos argentinos que sonegam impostos?
Aliás, é interessante notar a cara de pau destes políticos ao tentarem explicar o incontornável: na Argentina, madame Kirchner afirmou que nunca houve tanta liberdade de expressão como agora. No entanto, a invasão à redação do Clarín, coincidentemente, se deu no mesmo dia em que o jornal denuciou irregularidades na entrega de um subsídio de US$ 2,5 milhões a uma empresa por um órgão estatal ligado à AFIP. No Brasil, Sarney foi a tribuna do Senado declarar que os parlamentares - e não a imprensa - seriam os "legítimos representantes do povo", porque, eles sim, "agem às claras". Bom, no caso específico do presidente do senado, não parece ter sido este o caso ao nomear secretamente uma infinidade de parentes, namorados de netas, mordomos, amigos de amigos...
Em algum lugar, longe deste Brasil pândego de hoje, Aparício Torelly deve estar rindo a valer com essas situações absurdas e dando graças a Deus por já ter morrido. Por enquanto, resta-nos lutar sempre contra estes desmandos da classe política e as novas formas disfarçadas (ou não) de censura aos meios de comunicação. Caso contrário, como diria o Barão de Itararé, de onde menos se espera...daí é que não sai nada mesmo.
Passaram-se as décadas e a imprensa livre continua incomodando aqueles que estão no poder, que gostariam mesmo é de vê-la domesticada, sem denúncias, sem fiscalizar os poderes, sem a busca incessante da verdade para auxiliar na construção da opinião pública. Ideologias de direita ou esquerda, ditaduras ou governos autoritários travestidos de democracias, todos eles têm em comum a intenção de cooptar, controlar ou calar os meios de comunicação. Alguns exemplos recentes tem tido destaque na mídia, como a tentativa de controlar a campanha eleitoral no meio online. Ora, definitivamente a classe política brasileira não parece compreender a internet como um território livre.
Como diria o Barão, há alguma coisa no ar, além dos aviões de carreira. Depois de muitas idas e vindas, a Câmara dos Deputados recuou de seu primeiro projeto de reforma eleitoral - que liberava totalmente o debate político no ambiente virtual - e seguiu as modificações aprovadas pelo Senado na noite de terça-feira, dia 15/09. A partir de agora, mesmo não sendo, como os rádios e as TVs, concessões públicas, veículos de comunicação social na internet terão de seguir as mesmas regras de debate aplicadas à TV e ao rádio. Ou seja, quebra-se a autonomia da empresa de comunicação que possui um site em decidir qual candidato participará de alguma entrevista online - ela deverá chamar ao menos dois terços dos candidatos para participar de debates eleitorais, sob pena de multa ou ter o site tirado do ar.
A Câmara manteve a liberdade de blogs, redes sociais, sites e programas de mensagens instantâneas (até o msn neguinho quer vigiar!), mas com ressalvas. Ressalvas um tanto inusitadas: o direito democrático de cada blogueiro em expressar sua opinião por um ou outro candidato está liberado, mas caberá o direito de resposta e a proibição do anonimato em artigos e reportagens. Ufa!, sobre o anonimato não preciso temer, mas será que algum dos 350 (estou sendo bonzinho hoje) apadrinhados do Sarney em empresas do governo vão querer direito de resposta por eu já tê-lo criticado por aqui?
Como afirmou o Xexéo outro dia no programa da CBN "Liberdade de Expressão" (atentem para esta expressão, senhores), parece que nossa classe política ainda não sabe lidar bem com a internet. Vejamos: caso a emenda seja aprovada, os sites jornalísticos continuarão proibidos de “dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique”. Que tipo de privilégios a proposta se refere? E o quê um fato político precisa para virar “motivo jornalístico”, no entender dos nobres deputados?
Adiante: direito de resposta para blogs?!?! Ora, os blogs estão entre os meios mais democráticos da internet, pois o "direito de resposta" já é algo inerente a eles, na ideia dos comentários que qualquer leitor pode fazer após a leitura das postagens. É isso que torna a internet 2.0 única. Aqui, o leitor também tem vez: cada post tem espaço para comentários, elogios, críticas, "direitos de resposta" etc. E há também a flexibilidade: podemos sempre "corrigir" textos já escritos, acrecentando algo ou cortando eventuais tropeços. Quando um blog obstrui a participação/interação do internauta, aí sim, deixa-nos em dúvida se é realmente um blog, como é o caso do recente Blog do Planalto.
Sobre este blog, já apelidado o "blog do Lula", fica difícil levá-lo à sério após constatarmos que ele não permite comentários após as postagens. Ou seja, é um monólogo, uma via de mão única à qual o leitor internauta não foi convidado a manifestar-se e exercer seu direito de cidadão, apenas ler (ou, no máximo, clicar num ridículo "gostou ou não gostou?" após o post. Longe de resignarem-se, internautas mais atentos já criaram um "clone" do Blog do Planalto, à sua imagem e semelhança. A única diferença, muito importante, é que ali os comentários são liberados.
Enquanto isso, a imprensa vem sofrendo mais perseguições no Brasil e América do Sul. Enquanto aqui temos a censura ao jornal Estado de São Paulo, impedido de denunciar um esquema de corrupção envolvendo o filho de Sarney (olha ele aí de novo), na Venezuela, Chavez (que já fechou uma TV bastante popular) ameaça com o fim da concessão pública inúmeras rádios e TVs locais. E como se não bastasse, semana passada a redação do jornal Clarín, um dos mais críticos ao governo de Cristina Kirchner, foi invadida por um grupo de agentes da AFIP a Receita Federal argentina), sob a acusação de "problemas com a receita federal". Ora, por que dona Cristina não mandou que invadissem as mansões dos ricos argentinos que sonegam impostos?
Aliás, é interessante notar a cara de pau destes políticos ao tentarem explicar o incontornável: na Argentina, madame Kirchner afirmou que nunca houve tanta liberdade de expressão como agora. No entanto, a invasão à redação do Clarín, coincidentemente, se deu no mesmo dia em que o jornal denuciou irregularidades na entrega de um subsídio de US$ 2,5 milhões a uma empresa por um órgão estatal ligado à AFIP. No Brasil, Sarney foi a tribuna do Senado declarar que os parlamentares - e não a imprensa - seriam os "legítimos representantes do povo", porque, eles sim, "agem às claras". Bom, no caso específico do presidente do senado, não parece ter sido este o caso ao nomear secretamente uma infinidade de parentes, namorados de netas, mordomos, amigos de amigos...
Em algum lugar, longe deste Brasil pândego de hoje, Aparício Torelly deve estar rindo a valer com essas situações absurdas e dando graças a Deus por já ter morrido. Por enquanto, resta-nos lutar sempre contra estes desmandos da classe política e as novas formas disfarçadas (ou não) de censura aos meios de comunicação. Caso contrário, como diria o Barão de Itararé, de onde menos se espera...daí é que não sai nada mesmo.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Tempos de paz: cinema e reflexão
- O senhor tem dez minutos para me fazer chorar.
- Isso está no regulamento?
- Eu sou o regulamento.
Em cartaz nos cinemas, o longa "Tempos de paz", de Daniel Filho, merece ser visto por todos que buscam um cinema mais preocupado em levar ao espectador uma reflexão - ainda que carregada de emoção - do que o mero entretenimento de fim de semana. Vou além e acrescento: "Tempos de paz" (adaptado da premiada peça "Novas diretrizes em tempos de paz", de Bosco Brasil, também autor do roteiro) é um antídoto em favor da arte, um estímulo contra a mediocridade que teima em nos perseguir a cada minuto, a cada instante deste dia a dia cada vez mais desprovido de delicadeza.
Enquanto a política - e particularmente o Senando brasileiro - mergulha no nepotismo e na troca dos favores escusos mais descarados, enquanto a educação básica continua de mal a pior, enquanto os cinemas de shopping e teatros dos grandes centros levam ao consumidor uma dieta de superficialidade, lugares comuns e infantilidade involuntária, o longa de Daniel Filho surge como uma jóia bruta, aguardando ansiosamente para ser descoberta e lapidada por espíritos com olhos livres.
A trama é, à princípio, simples: um ex-ator polonês, Clausewitz (Dan Stullbach), junto com outros europeus, está chegando ao porto do Rio de Janeiro. Estamos em 1945: a Segunda Guerra Mundial finalmente acabou e ele deseja morar no Brasil, começando vida nova como agricultor. As crueldades que presenciou na guerra lhe afetaram sobremaneira, a ponto de Clausewitz achar que não há mais lugar para exerceu seu ofício (o teatro) após o conflito mundial. Enquanto isso, no Brasil, o presidente Getúlio Vargas acaba de conceder anistia a comunistas e outros presos políticos. É tempo de buscar "novas diretrizes em tempos de paz".
Ao chegar ao porto, o polonês, que fala perfeitamente a língua portuguesa, é detido por membros da segurança e levado para um interrogatório. Ali, ele conhecerá o sinistro Segismundo (Tony Ramos), um ex-torturador que trabalhara para o governo e que se vê de repente sem atividade, devido à anistia. O cerne do filme tratará de um tenso embate entre o torturador - que acredita ser Clausewitz um agente nazista infiltrado no Brasil e quer deportá-lo imediatamente -, e o ator - que terá apenas a força das palavras e a ajuda de sua arte para livrar-se de seu adversário.
Um dos grandes méritos do diretor Daniel Filho - que sofre até hoje preconceito por parte da crítica, em parte por ter vindo da TV, e muito em parte por fazer sucesso com seus filmes num país em que, como dizia Tom Jobim, o sucesso é "ofensa pessoal" - foi ter mantido no filme os dois atores protagonistas da peça. À época da peça, Tony Ramos e Dan Stulbach dividiram o prêmio de melhor ator do ano. O trabalho excepcional e comovente dos dois em cena demonstra como o prêmio foi merecido.
A pairar acima de tudo, no entanto, está o belíssimo texto de Bosco Brasil, um alento para que pensemos que é possível reencontrar nossa humanidade por meio da arte. Ao se ver encurralado pelo torturador que deseja mandá-lo de volta, Clausewitz não vê outra saída a não ser apelar para seu trabalho como ator a fim de desequilibrar emocionalmente seu adversário e virar o jogo a seu favor. Tudo isso em meio a diálogos precisos e muitas vezes brilhantes.
"Tempos de paz" demonstra que a arte, presa hoje a campanhas publicitárias, negócios milionários, esquematismos previsíveis e textos rasteiros também pode mudar as pessoas. E ainda pode salvar vidas.
- Isso está no regulamento?
- Eu sou o regulamento.
Em cartaz nos cinemas, o longa "Tempos de paz", de Daniel Filho, merece ser visto por todos que buscam um cinema mais preocupado em levar ao espectador uma reflexão - ainda que carregada de emoção - do que o mero entretenimento de fim de semana. Vou além e acrescento: "Tempos de paz" (adaptado da premiada peça "Novas diretrizes em tempos de paz", de Bosco Brasil, também autor do roteiro) é um antídoto em favor da arte, um estímulo contra a mediocridade que teima em nos perseguir a cada minuto, a cada instante deste dia a dia cada vez mais desprovido de delicadeza.
Enquanto a política - e particularmente o Senando brasileiro - mergulha no nepotismo e na troca dos favores escusos mais descarados, enquanto a educação básica continua de mal a pior, enquanto os cinemas de shopping e teatros dos grandes centros levam ao consumidor uma dieta de superficialidade, lugares comuns e infantilidade involuntária, o longa de Daniel Filho surge como uma jóia bruta, aguardando ansiosamente para ser descoberta e lapidada por espíritos com olhos livres.
A trama é, à princípio, simples: um ex-ator polonês, Clausewitz (Dan Stullbach), junto com outros europeus, está chegando ao porto do Rio de Janeiro. Estamos em 1945: a Segunda Guerra Mundial finalmente acabou e ele deseja morar no Brasil, começando vida nova como agricultor. As crueldades que presenciou na guerra lhe afetaram sobremaneira, a ponto de Clausewitz achar que não há mais lugar para exerceu seu ofício (o teatro) após o conflito mundial. Enquanto isso, no Brasil, o presidente Getúlio Vargas acaba de conceder anistia a comunistas e outros presos políticos. É tempo de buscar "novas diretrizes em tempos de paz".
Ao chegar ao porto, o polonês, que fala perfeitamente a língua portuguesa, é detido por membros da segurança e levado para um interrogatório. Ali, ele conhecerá o sinistro Segismundo (Tony Ramos), um ex-torturador que trabalhara para o governo e que se vê de repente sem atividade, devido à anistia. O cerne do filme tratará de um tenso embate entre o torturador - que acredita ser Clausewitz um agente nazista infiltrado no Brasil e quer deportá-lo imediatamente -, e o ator - que terá apenas a força das palavras e a ajuda de sua arte para livrar-se de seu adversário.
Um dos grandes méritos do diretor Daniel Filho - que sofre até hoje preconceito por parte da crítica, em parte por ter vindo da TV, e muito em parte por fazer sucesso com seus filmes num país em que, como dizia Tom Jobim, o sucesso é "ofensa pessoal" - foi ter mantido no filme os dois atores protagonistas da peça. À época da peça, Tony Ramos e Dan Stulbach dividiram o prêmio de melhor ator do ano. O trabalho excepcional e comovente dos dois em cena demonstra como o prêmio foi merecido.
A pairar acima de tudo, no entanto, está o belíssimo texto de Bosco Brasil, um alento para que pensemos que é possível reencontrar nossa humanidade por meio da arte. Ao se ver encurralado pelo torturador que deseja mandá-lo de volta, Clausewitz não vê outra saída a não ser apelar para seu trabalho como ator a fim de desequilibrar emocionalmente seu adversário e virar o jogo a seu favor. Tudo isso em meio a diálogos precisos e muitas vezes brilhantes.
"Tempos de paz" demonstra que a arte, presa hoje a campanhas publicitárias, negócios milionários, esquematismos previsíveis e textos rasteiros também pode mudar as pessoas. E ainda pode salvar vidas.
domingo, 16 de agosto de 2009
Hitchcock: seu nome é suspense
Na última quarta-feira, 13 de agosto, o mundo do cinema comemorou a data em que o cineasta Alfred Hitchcock completaria 110 anos. Difícil lembrar de comemoração mais justa. Quando vivo, Hitchcock foi um dos mais populares diretores de seu tempo: não só inventou as regras básicas do suspense cinematográfico (gerando inúmeros imitadores, nenhum conseguiu igualá-lo), como também foi um gênio do marketing. É uma delícia rever pelo youtube o clássico trailer de "Psicose", no qual o próprio cineasta circula pela sinistra mansão de Norman Bates comentando ironicamente as cenas de crimes que o público veria; ao final, depois de lembrar a todos que banheiros podem ser lugares muito perigosos, o cineasta faz uma pausa, puxa a cortina do chuveiro e ...ora, vou deixar vocês no suspense! Confiram.
Muito antes de os franceses criarem o termo "cinema de autor", a simples menção de que um "filme de Hichcock" estaria estreando já era motivo para levar milhares de pessoas aos cinemas. Qual a razão deste fascínio do público pelo medo? O que leva até hoje milhares de pessoas a procurarem filmes de suspense e intriga, a ficar por duas horas experimentando a sensação de medo e aflição para ao fim respirarem aliviados?
Talvez apenas o prazer de assistir a uma história bem contada e se deixar levar pela emoção. Nos filmes hitchcoquianos, a manipulação das emoções do público era essencial. Um exemplo clássico de construção do suspense foi dado pelo cineasta ao diretor francês François Truffaut no livro "Hitchcock/Truffaut": "Se um homem está caminhando até sua casa e, ao abrir a porta, uma bomba explodir, o público levará um susto. Mas o susto será certamente bem maior se o público souber da existência de uma bomba-relógio e contar os segundos que faltam para a explosão".
Meu filme preferido do mestre é "Um corpo que cai", um suspense mórbido estrelado por James Stewart e uma Kim Novak no auge da beleza. Vi o clássico quando tinha uns 20 anos, no Estação Botafogo, aqui no Rio, e saí do cinema extasiado com a trama, a belíssima trilha sonora de Bernard Hermann e a direção.
O cineasta que tinha o mesmo cuidado ao filmar tanto cenas de suspense como cenas de amor deixou inúmeras sequências inesquecíveis na história, daquelas que cabem em qualquer boa antologia cinematográfica. Como não lembrar da cena do assassinato do chuveiro logo ao começo de "Psicose"; do beijo de Grace Kelly em James Stewart em "Janela Indiscreta"; do inofensivo brinquedo no parque infantil atulhado de corvos em "Os pássaros"; de um James Stewart desesperado para evitar um assassinato dentro de uma sala de concertos, cujo tiro seria disparado pelo assassino na exata hora do bater dos pratos, em "O homem que sabia demais"?
Para homenageá-lo, escolhi a cena final de outro clássico: "Intriga internacional", filme sensualíssimo no qual o humor e o suspense se mesclam de forma genial. Aliás, dificilmente você verá casal mais charmoso que Cary Grant e Eva Marie Saint, protagonistas aqui. Confiram a sensacional montagem final, que corta de uma cena num despenhadeiro diretamente para um casal em lua de mel dentro de um trem, culminando com uma sutilíssima insinuação sexual (deixei as legendas em italiano só para "apimentar" mais a cena).
Prova de que Hitchcock não estava interessado apenas em amedrontar o público. O cara realmente sabia demais...
Muito antes de os franceses criarem o termo "cinema de autor", a simples menção de que um "filme de Hichcock" estaria estreando já era motivo para levar milhares de pessoas aos cinemas. Qual a razão deste fascínio do público pelo medo? O que leva até hoje milhares de pessoas a procurarem filmes de suspense e intriga, a ficar por duas horas experimentando a sensação de medo e aflição para ao fim respirarem aliviados?
Talvez apenas o prazer de assistir a uma história bem contada e se deixar levar pela emoção. Nos filmes hitchcoquianos, a manipulação das emoções do público era essencial. Um exemplo clássico de construção do suspense foi dado pelo cineasta ao diretor francês François Truffaut no livro "Hitchcock/Truffaut": "Se um homem está caminhando até sua casa e, ao abrir a porta, uma bomba explodir, o público levará um susto. Mas o susto será certamente bem maior se o público souber da existência de uma bomba-relógio e contar os segundos que faltam para a explosão".
Meu filme preferido do mestre é "Um corpo que cai", um suspense mórbido estrelado por James Stewart e uma Kim Novak no auge da beleza. Vi o clássico quando tinha uns 20 anos, no Estação Botafogo, aqui no Rio, e saí do cinema extasiado com a trama, a belíssima trilha sonora de Bernard Hermann e a direção.
O cineasta que tinha o mesmo cuidado ao filmar tanto cenas de suspense como cenas de amor deixou inúmeras sequências inesquecíveis na história, daquelas que cabem em qualquer boa antologia cinematográfica. Como não lembrar da cena do assassinato do chuveiro logo ao começo de "Psicose"; do beijo de Grace Kelly em James Stewart em "Janela Indiscreta"; do inofensivo brinquedo no parque infantil atulhado de corvos em "Os pássaros"; de um James Stewart desesperado para evitar um assassinato dentro de uma sala de concertos, cujo tiro seria disparado pelo assassino na exata hora do bater dos pratos, em "O homem que sabia demais"?
Para homenageá-lo, escolhi a cena final de outro clássico: "Intriga internacional", filme sensualíssimo no qual o humor e o suspense se mesclam de forma genial. Aliás, dificilmente você verá casal mais charmoso que Cary Grant e Eva Marie Saint, protagonistas aqui. Confiram a sensacional montagem final, que corta de uma cena num despenhadeiro diretamente para um casal em lua de mel dentro de um trem, culminando com uma sutilíssima insinuação sexual (deixei as legendas em italiano só para "apimentar" mais a cena).
Prova de que Hitchcock não estava interessado apenas em amedrontar o público. O cara realmente sabia demais...
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Hiroshima: 64 anos depois ou A reportagem do século
Há exatos 45 anos, numa manhã nublada, ela foi lançada sobre a cidade. Tratava-se de um dos inventos mais sinistros já inventados pelo homem: a bomba atômica. Em questão de minutos a cidade de Hiroshima perdeu 70 mil vidas. Durante o ano seguinte, mais 30 mil pessoas expostas à radiação morreriam. Ou seja, praticamente 100 mil vidas ceifadas pelo lançamento de uma bomba, com o propósito de dar fim à guerra. Até hoje, há uma controvérsia sobre se os ataques nucleares (três dias depois, seria a vez de Nagasaki receber uma segunda bomba atômica) foram de fato necessários para pôr fim à guerra. Pacifistas alegam que a rendição do Japão era iminente; militares e políticos ainda hoje retrucam, afirmando que sem as bombas a Segunda Guerra Mundial se prolongaria ainda mais.
Ainda assim: não haveria uma forma de pôr fim à guerra sem matar tantos, milhares de vidas?
Acontecimentos trágicos como esse não devem ser esquecidos, para que a humanidade sempre saiba que deve evitá-los. Hoje, no Japão, 50 mil pessoas reuniram-se no monumento dedicado às vítimas da bomba, e o prefeito de Hiroshima pediu o banimento das armas atômicas.
Louvável iniciativa, porém uma utopia num mundo revestido de conflitos, no qual países autoritários como a Coreia do Norte ainda constroem armas atômicas como intimidação.
A tragédia rendeu uma infinidade de livros nos quatro cantos do mundo. Aqui no blog, gostaria de lembrar de apenas um deles: "Hiroshima", do jornalista americano John Hersey. Um ano depois do fim da guerra, Hersey viajou à Hiroshima para uma reportagem: o editor da New Yorker, a revista em que trabalhava, pedira ao repórter um relato sobre o que significava uma cidade ser atingida pela bomba atômica. O caminho escolhido pelo jornalista foi simples: escolheu e entrevistou seis pessoas que haviam sobrevivido ao ataque.
Vejamos o começo da longa reportagem: estão ali todas as seis perguntas básicas de como elaborar um lide (o quê, quem, quando, como, onde e porquê), escrito de forma precisa, concisa e envolvente:
"No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do japão, quando a bomba atômica explodiou sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asashi de Osaka no terraço de seu hospital particular,suspenso sobre ujm dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeidt, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando ujma amostra de sangue para realizar um teste de Wasserman; e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro do oeste da cidade, para descarregar um carrinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque do B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade - um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uuma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso."
Ao contar a história do lançamento das bombas pelo ponto de vista dos sobreviventes, Hersey consegiuiu aliar uma alta carga dramática ao rigor dos fatos, tão exigido no jornalismo. Após a publicação da reportagem na revista e mais tarde em livro - com grande impacto entre o público - o mundo ocidental enfim teve consciência da catástrofe ao fim da guerra.
No final de 1999, uma enquete com mais de 100 jornalistas e escritores elegeu "Hiroshima" como a melhor reportagem do século XX. Vale a pena conferir, principalmente aqueles que desejam ingressar no fascinante mundo do jornalismo - com ou sem diploma.
Ainda assim: não haveria uma forma de pôr fim à guerra sem matar tantos, milhares de vidas?
Acontecimentos trágicos como esse não devem ser esquecidos, para que a humanidade sempre saiba que deve evitá-los. Hoje, no Japão, 50 mil pessoas reuniram-se no monumento dedicado às vítimas da bomba, e o prefeito de Hiroshima pediu o banimento das armas atômicas.
Louvável iniciativa, porém uma utopia num mundo revestido de conflitos, no qual países autoritários como a Coreia do Norte ainda constroem armas atômicas como intimidação.
A tragédia rendeu uma infinidade de livros nos quatro cantos do mundo. Aqui no blog, gostaria de lembrar de apenas um deles: "Hiroshima", do jornalista americano John Hersey. Um ano depois do fim da guerra, Hersey viajou à Hiroshima para uma reportagem: o editor da New Yorker, a revista em que trabalhava, pedira ao repórter um relato sobre o que significava uma cidade ser atingida pela bomba atômica. O caminho escolhido pelo jornalista foi simples: escolheu e entrevistou seis pessoas que haviam sobrevivido ao ataque.
Vejamos o começo da longa reportagem: estão ali todas as seis perguntas básicas de como elaborar um lide (o quê, quem, quando, como, onde e porquê), escrito de forma precisa, concisa e envolvente:
"No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do japão, quando a bomba atômica explodiou sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asashi de Osaka no terraço de seu hospital particular,suspenso sobre ujm dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeidt, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando ujma amostra de sangue para realizar um teste de Wasserman; e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro do oeste da cidade, para descarregar um carrinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque do B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade - um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uuma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso."
Ao contar a história do lançamento das bombas pelo ponto de vista dos sobreviventes, Hersey consegiuiu aliar uma alta carga dramática ao rigor dos fatos, tão exigido no jornalismo. Após a publicação da reportagem na revista e mais tarde em livro - com grande impacto entre o público - o mundo ocidental enfim teve consciência da catástrofe ao fim da guerra.
No final de 1999, uma enquete com mais de 100 jornalistas e escritores elegeu "Hiroshima" como a melhor reportagem do século XX. Vale a pena conferir, principalmente aqueles que desejam ingressar no fascinante mundo do jornalismo - com ou sem diploma.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Da série: Essa música me lembra uma história...
"O Guarani", de Carlos Gomes
Há algum tempo atrás, eu estava dando uma aula sobre radiojornalismo no Brasil. Como não podia deixar de ser, falei um pouco sobre a Voz do Brasil, este programa que todas as rádios do Brasil apresentam obrigatoriamente desde a ditadura do Estado Novo - lá se vão mais de sete décadas. Muitos acham a Voz um anacronismo, outros a defendem, mas não quero aqui tecer considerações sobre o programa. Apenas me lembrei que quando comecei a falar do programa, um grupinho de alunos começou a entoar o cântico de abertura de "O Guarani", o clássico de Carlos Gomes, na inacreditável e populista versão radiofônica atual, mezzo Olodum, mezzo Carlos Gomes. Dei uma risada, "elogiei" a desafinação da galera e continuei com a aula. Mais tarde lembrei-me que o "Guarani" já fizera parte de minha vida em outra situação. Uma situação, digamos...mais constrangedora.
Eu era adolescente, devia ter uns 17 anos ou menos, e um amigo, o Renê, me chamou para assistir ao espetáculo de uma orquestra sinfônica no Social Ramos Clube, bem perto de onde morávamos (e moro até hoje), em Ramos. Desconfiei. Uma orquestra de verdade no Social ?!?! Pra mim, orquestras só tocavam no Teatro Municipal, no Centro do Rio ou outros lugares privilegiados. O que dera naqueles caras para virem tocar no subúrbio?
Bem, apesar do estranhamento inicial, topei o programa na hora. E só acreditei no que vi quando adentrei no salão do clube e vi aqueles homens de terno, as poucas mulheres super bem-vestidas, todos concentrados nos seus instrumentos. O programa? "O Guarani", de nosso "selvagem da ópera" (como foi chamado pelos italianos): Carlos Gomes.
Começa o show (perdão, o concerto). A orquestra toca e o som está inesperadamente muito bom. O público, antes reverencioso em excesso, sorri quando a orquestra toca a parte mais conhecida da ópera - sim a mesma cuja vinheta virou até tema da "Voz do Brasil". Muitos ali jamais presenciaram um concerto de música clássica de perto.
Mas nem tudo é perfeito. Com dez minutos de concerto, dá para ouvir nitidamente algumas trocas de gentilezas entre os times do futsal: "Passa a bola, seu f.d.p."; Agarra essa agora, seu %#**#"; "Não vai marcar não, seu &*##@". O maestro, que já olhara, assustado, para a janela, interrompe o concerto e pede providências. Na platéia, olhares atravessados, risinhos abafados, comentários sobre a falta de educação do suburbano etc.
Minutos depois, a orquestra volta a se apresentar, apenas para parar de novo depois de 5 minutos. Um gol na quadra faz todo o time gritar, e o maestro a se enervar. Ele vai até o "diretor artístico" do clube e ameaça encerar o concerto. Sinto a vontade de enterrar a cabeça no chão, igual a um avestruz, de vergonha.
Depois de alguns minutos de discussão, o responsável pelo clube constata o óbvio e manda encerrar o futebol, sob protestos de alguns jogadores.
O concerto recomeça e desta vez vai até o final, sem transtornos.Estou muito feliz, vou guardar tudo na memória como uma recordação de uma noite cultural intensa.
Intensa? Ainda faltavam os aplausos.
O público, mais habituado com espetáculos de samba e rock, faz um verdadeiro carnaval, maravilhado com o que vira. Gritinhos de "Mais um!" e "U-hu!" são ouvidos. O maestro dá um sorriso amarelo, agradece à platéia e se retira. Cai o pano.
"O público ainda vai apreciar meus biscoitos finos"
Oswald de Andrade.
Há algum tempo atrás, eu estava dando uma aula sobre radiojornalismo no Brasil. Como não podia deixar de ser, falei um pouco sobre a Voz do Brasil, este programa que todas as rádios do Brasil apresentam obrigatoriamente desde a ditadura do Estado Novo - lá se vão mais de sete décadas. Muitos acham a Voz um anacronismo, outros a defendem, mas não quero aqui tecer considerações sobre o programa. Apenas me lembrei que quando comecei a falar do programa, um grupinho de alunos começou a entoar o cântico de abertura de "O Guarani", o clássico de Carlos Gomes, na inacreditável e populista versão radiofônica atual, mezzo Olodum, mezzo Carlos Gomes. Dei uma risada, "elogiei" a desafinação da galera e continuei com a aula. Mais tarde lembrei-me que o "Guarani" já fizera parte de minha vida em outra situação. Uma situação, digamos...mais constrangedora.
Eu era adolescente, devia ter uns 17 anos ou menos, e um amigo, o Renê, me chamou para assistir ao espetáculo de uma orquestra sinfônica no Social Ramos Clube, bem perto de onde morávamos (e moro até hoje), em Ramos. Desconfiei. Uma orquestra de verdade no Social ?!?! Pra mim, orquestras só tocavam no Teatro Municipal, no Centro do Rio ou outros lugares privilegiados. O que dera naqueles caras para virem tocar no subúrbio?
Bem, apesar do estranhamento inicial, topei o programa na hora. E só acreditei no que vi quando adentrei no salão do clube e vi aqueles homens de terno, as poucas mulheres super bem-vestidas, todos concentrados nos seus instrumentos. O programa? "O Guarani", de nosso "selvagem da ópera" (como foi chamado pelos italianos): Carlos Gomes.
A salão não ficou lotado - muitos devem não ter acreditado e ficaram em casa, pensei. Havia apenas metade dos lugares ocupados. Felizes, eu e meu amigo pudemos escolher dois bons lugares. Sentamos e nos preparamos para o concerto. Só havia um problema - era quarta-feira, dia de futebol de salão na quadra ao lado, a menos de 10 metros do palco.
Começa o show (perdão, o concerto). A orquestra toca e o som está inesperadamente muito bom. O público, antes reverencioso em excesso, sorri quando a orquestra toca a parte mais conhecida da ópera - sim a mesma cuja vinheta virou até tema da "Voz do Brasil". Muitos ali jamais presenciaram um concerto de música clássica de perto.
Mas nem tudo é perfeito. Com dez minutos de concerto, dá para ouvir nitidamente algumas trocas de gentilezas entre os times do futsal: "Passa a bola, seu f.d.p."; Agarra essa agora, seu %#**#"; "Não vai marcar não, seu &*##@". O maestro, que já olhara, assustado, para a janela, interrompe o concerto e pede providências. Na platéia, olhares atravessados, risinhos abafados, comentários sobre a falta de educação do suburbano etc.
Minutos depois, a orquestra volta a se apresentar, apenas para parar de novo depois de 5 minutos. Um gol na quadra faz todo o time gritar, e o maestro a se enervar. Ele vai até o "diretor artístico" do clube e ameaça encerar o concerto. Sinto a vontade de enterrar a cabeça no chão, igual a um avestruz, de vergonha.
Depois de alguns minutos de discussão, o responsável pelo clube constata o óbvio e manda encerrar o futebol, sob protestos de alguns jogadores.
O concerto recomeça e desta vez vai até o final, sem transtornos.Estou muito feliz, vou guardar tudo na memória como uma recordação de uma noite cultural intensa.
Intensa? Ainda faltavam os aplausos.
O público, mais habituado com espetáculos de samba e rock, faz um verdadeiro carnaval, maravilhado com o que vira. Gritinhos de "Mais um!" e "U-hu!" são ouvidos. O maestro dá um sorriso amarelo, agradece à platéia e se retira. Cai o pano.
"O público ainda vai apreciar meus biscoitos finos"
Oswald de Andrade.
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