segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Essa música me lembra uma história - "Jornal da morte", Roberto Silva


Esse é mais um daqueles posts que deveriam ter sido publicados em 2012. Mais precisamente na semana do dia 9 de setembro, data em que faleceu aquele que foi um dos nossos maiores sambistas, o "Príncipe do Samba" Roberto Silva. Roberto foi um grande cantor e um dos pouquíssimos a quem eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. A história eu divido com vocês aqui.

Aconteceu de forma bastante prosaica. Um dia, eu estava o salão de barbeiro, folheando os jornais, à espera de minha vez de cortar os cabelos, quando mal notei a chegada de um senhor bastante alinhado, que cumprimentou os barbeiros e sentou-se. Sua presença teria sido por mim ignorada não fosse o meu barbeiro, que, ao vê-lo, falou: "grande Roberto Silva!". Olhei mais atentamente e o vi. Era ele mesmo, o sambista admirado por ícones como Caetano Veloso, Paulinho da Viola e João Gilberto, sentado pacientemente num banco do salão para cortar o cabelo. Mas antes que eu explique melhor como o conheci, conto primeiro dois momentos especiais nos quais a presença e a música de Roberto Silva me marcaram.

Em 2002, há pouco mais de 10 anos, um espetáculo musical fez muito sucesso no Rio de Janeiro. Intitulava-se "O samba é minha nobreza" e chamava a atenção pelo local onde era encenado (um cinema no Centro do Rio, o tradicional Odeon) e o horário (de segunda à sexta-feira, ao meio dia). Além disso, o preço era por demais convidativo pra quem gostava de samba: apenas 2 reais! Não é preciso dizer que o cinema lotava todos os dias. Era um espetáculo produzido pelo craque Hermínio Belo de Carvalho e contava com um time de respeito de grandes sambistas, como a cantora e pesquisadora Cristina Buarque, Pedro Miranda, Pedro Paulo Malta, Mariana Bernardes e Nilze Carvalho. No entanto, uma figura se destacava em especial. Sim, ele mesmo: Roberto Silva, que entrava em cena lá pelo meio do show e encantava a plateia sambando e cantando divinamente. Roberto já tinha mais de 80 anos na época, e foi destaque em diversas coberturas da imprensa por sua desenvoltura no show. Ali, pela primeira vez, vi de perto o grande sambista.

Mais tarde, alguns anos depois, fui conferir no CCBB do Rio uma peça teatral sobre o jornalismo dos anos 1950, da qual não me lembro bem o nome, creio que era "Notícias populares". O texto trazia um interessante contraponto entre um jornal popular e sensacionalista e outro mais político. O que me marcou foi logo no começo, quando após ser dada a notícia da morte de uma dama da sociedade, ecoava pelos alto-falantes o samba "Jornal da morte", sucesso de Roberto Silva dos anos 60, cujo verso do letrista (e grande cronista social da música) Miguel Gustavo - "espreme que sai sangue" - inspirou até o título de uma dissertação de mestrado (e depois livro) sobre o sensacionalismo na imprensa.

Jornal Da Morte
Roberto Silva, Miguel Gustavo

Vejam só esse jornal, é o maior hospital,
porta-voz do bang-bang, e da policia central...
Treslocada, semi-nua, jogou-se do oitavo andar,
porque o noivo não comprava maconha pra ela fumar.
sangue, sangue, sangue...

Um escândalo amoroso com as fotos do casal,
um bicheiro assassinado em decúbito dorsal,
cada página é um tiro, um homem caiu no mangue,
só falta alguém espremer o jornal pra sair sangue,
sangue,sangue, sangue....


Foi amor à primeira audição. A música era uma crônica que mesclava manchetes de jornais populares e jargões utilizados pelos jornalistas da época, os famosos lugares-comuns tão abominados pelos cultores da objetividade jornalística. Eu mesmo, que nem era nascido em 1961, quando o samba foi lançado, perdi a conta de quantas vezes li em jornais ou ouvi no rádio que alguém tinha sido encontrado morto em "decúbito dorsal"...parecia que ficava mais bonito o sujeito morrer em decúbito dorsal do que...ora, de bruços mesmo (nada impactante para um jornal sensacionalista).

A música casava bem com o espírito da peça. Havia um diálogo hilário entre um jornalista do jornal popular e um outro, do jornal mais "sério", cujo dono era nitidamente inspirado em Carlos Lacerda. Em determinada cena, alguém perguntava aos dois:

- Pra vocês, o que é o melhor para se fazer um bom jornal?
- Procurar a verdade custe o que custar, isenção e objetividade. (jornalista "sério")
- Sexo, macumba e violência (jornalista "popular")

Aos alunos de comunicação que eventualmente param por aqui, essa é pra vocês...



Dali em diante, sempre que ouvia algum samba de Roberto Silva, parava para escutar. Mal sabia que na virada do milênio, iria conhecê-lo mais de perto. Morador de Inhaúma, na Zona Norte do Rio, Roberto Silva cortava o cabelo mensalmente no mesmo salão em que eu também frequentava, em Olaria. Naquele dia em que eu primeiramente o vi, não tive coragem de me apresentar. Em outra ocasião, comentei com meu barbeiro que o admirava muito, e contei a história do show no cinema, em 1992.

Meu barbeiro deve ter guardado o que lhe contara, pois algum tempo depois eu estava na cadeira de barbeiro quando Roberto Silva entrou, sentou e começou a conversar. Meu barbeiro falou que o conhecia, e me apresentou a Roberto, que apertou minha mão com um grande sorriso. Naquele dia, uma manhã especial no subúrbio carioca, Roberto sentou no banco e, enquanto esperava sua vez de cortar os cabelos, contou-nos várias histórias de seu tempo, e ele tinha muitas...

Infelizmente aquela foi a primeira e última vez em que o vi. Depois desse dia, toda vez que ia ao barbeiro, torcia para encontrá-lo, mas não tive sorte. "Ele esteve aqui ontem", me diziam; "Deu azar", falavam.

Pouco antes de morrer, segundo me contaram no salão, Roberto andava meio melancólico. Um grande amigo morrera, e ele aparecera no salão abatido. "Estão todos indo...só me resta ir também", dizia. Quem me contou foi meu barbeiro, pouco depois de sua morte. Lembramos do grande cantor e eu recordei ali de um fato que lera no jornal. Dois ou três dias antes de falecer, já bem doente, reuniu os familiares na sua casa e ali, sutilmente, se despediu de todos.

Grande Roberto...até na morte ele foi elegante. Merecia de fato o título de "príncipe do samba".


*Em tempo: "jornal da morte", o samba que motivou este post, foi gravado recentemente pelo Casuarina e também pelo Nação Zumbi, provando a muitos que vale a pena ouvir sempre Roberto Silva. Procurem no Youtube.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Uma ou duas coisas sobre os recadinhos deixados nas provas...

Ah, as férias! Época de se desligar do trabalho e aproveitar bons momentos juntos à família, filho, namorada, amigos etc. No entanto, há aqueles dias em que você se vê preso dentro de casa, pois estamos no meio da semana e lá fora cai uma baita pancada de chuva, dessas típicas do verão. É quando lembro que há muitas coisas a serem arrumadas dentro de casa. Um sem-número de papéis que já deveriam estar no lixo, recortes feitos durante o ano que devem ser catalogados, livros e CDs novos que por falta de tempo não mereceram um lugar na estante própria e muito mais. Pensando bem, é trabalho para mais de uma tarde de verão.

Começo pelas pastas com as disciplinas que leciono. Passo a vista em algumas provas aplicadas e lembro de dezembro, a temporada das provas finais. Curiosamente, é a época na qual vários alunos, no afã de conseguir um boa nota e passar de ano, deixam nas provas (às vezes no verso, às vezes no rodapé), recadinhos para o professor. Pois bem: selecionei alguns destes originalíssimos "recados de fim de prova" e ao fim deu para elaborar alguns perfis típicos. Entre estes estão...


- a fofa: a aluna que desenha uma carinha feliz na prova antes de entregar ao professor. Quando a prova é péssima, dá vontade de desenhar uma outra carinha...desta vez, nervosa.

- o desleixado: o aluno que rasura uma questão quase inteira e escreve: "Desculpe pela rasura, professor...a letra certa que eu queria marcar é a A".

- a puxa-saco: "Querido professor, espero que o senhor corrija minha prova com o mesmo carinho com que eu a fiz (muito!). Obrigada, beijos e Feliz Natal! De sua aluna querida, Vitória" Em volta da mensagem, coraçõezinhos.

- a bajuladora: "Professor, o senhor sabe que TE AMO, né mesmo? rs. Corrija com carinho e um ÓTIMO Natal"

- o prático (e confiante): "Professor, corrija tranquilo, preciso tirar 4 pra passar, espero ter mandado bem. Abraço"

- a religiosa: "Professor, o senhor tem Jesus no coração? Se tem, então corrija com muito carinho a minha prova, tá bom?

Esta última acabou realizando uma prova ruim. Como resposta ao recadinho, pensei em respondê-la desta forma: "Sim, querida, eu realmente tenho Jesus no coração! Tanto é verdade que o consultei antes de dar a sua nota, e ele, após checar a prova, me respondeu que para tirar uma boa nota você deveria não só orar, como também estudar". Porém, acabei desistindo da ideia, ao lembrar que certos alunos desconhecem o alcance de uma ironia... Bem, dá pra ver que depois desses recadinhos pra lá de agradáveis, o que eu mais preciso por enquanto é continuar de férias...até o próximo post.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz 2013!! A minha lista

Eu bem sei que muitos não lerão esta última postagem de 2012 neste tão inconstante blog. Afinal, foram vários (sete!) meses sem postagem alguma, o que fere um dos postulados básicos de quem deseja ser lido: a periodicidade. Tudo bem que houve o período de trabalho, para preparar aulas e lecionar na faculdade. Houve também a viagem à Europa nas férias de julho - a qual, embora riqúíssima culturalmente,  infelizmente ainda não mereceu um únco post por aqui. Eu poderia dar vários motivos para não ter escrito regularmente neste blog, mas não vou chateá-los com eles. O que me impulsiona a voltar a escrever mesmo neste calor infernal é que pude constatar que vários dos posts aqui publicados foram lidos. Alguns mereceram comentários, até. Então, vou em frente. O importante é que vem chegando um novo ano, e como tal data inspira novos desejos, o plano é de publicar mais em 2013, postando a princípio quatro posts por mês (pelo menos um por semana, como já fiz um dia), e continuar levando aos leitores um pouco de meus comentários e impressões sobre o mundo da comunicação e cultura.

Por hora deixo um balanço do que achei de mais interessante neste ano de 2013 no campo da cultura e que vale a pena compartilhar com vocês.

Nos livros, li durante as férias de julho um romance imperdível sobre jornalismo e jornalistas. Trata-se de "Os imperfeccionistas", de Tom Rachman. O autor é inglês, ex-repórter e sabe do que está falando. Rachman descreve os últimos dias de um jornal impresso sediado em Roma e escolhe cada capítulo para um personagem da redação em particular. Há o correspondente internacional que tenta cavar uma matéria por vias não muito éticas em Paris; há o hilário caso do repórter inexperiente que é constantemente passado para trás por outro jornalista interessado em seu cargo, uma "cobra criada" típica; temos a jornalista de economia workaholic e carente que se apaixona por um malandro italiano; o editor que tem prazer em humilhar na redação os reponsáveis por títulos ridículos ou demais erros na redação das matérias etc. Enfim, um mosaico de uma típica turma de jornalistas que poderia estar em qualquer canto do planeta...



No cinema, infelizmente perdi o Festival do Rio e muitos dos títulos ali exibidos, os quais só agora me encontro correndo atrás para conferir. Mas creio que os melhores estiveram ainda no primeiro semestre, entre eles dois que devo citar: a ousadia de "O artista", mudo e em preto e branco, que levou o Oscar de melhor filme; e "A invenção de Hugo Cabret", de Scorcese. Ambos são emocionantes e belíssimas homenagens ao cinema dos primeiros tempos. Não só os recomendo como tive a oportunidade de mostrar uma sequência de "O artista" para meus alunos de História da Comunicação, quando falava sobre a passagem do cinema mudo para o sonoro, tema principal do filme. Mas talvez o melhor filme do ano tenha sido o iraniano "A separação". Um roteiro sensacional, muito bem conduzido e interpretado. Daqueles poucos filmes que a gente sai do cinema disposto a conversar horas sobre ele. Na safra de filmes de super-heróis, o último Batman foi melhor que os Vingadores, fechando muito bem a trilogia; e dentre os meus cult movies do ano (meu deus, há quanto tempo não uso essa palavra!) está com certeza "As vantagens de ser invisível", ótimo drama adolescente com deliciosa trilha sonora oitentista. Quem é tímido e não era popular na escola com certeza se identificará com o personagem principal.
http://youtu.be/IWuVzxH3WeY No teatro, outro ponto cultural o qual fui pouco, gostei muito de duas peças: "O deus da carnificina" (que também virou um bom filme, do Polanski) e "À primeira vista". Ótimos atores a serviço de ótimos textos. A emoção maior, contudo, foi acompanhar a peça sobre as canções de Milton Nascimento, "Nada será como antes", no Teatrro Net, em outubro. Um espetáculo sensacional com canções maravilhosas.

Música? Confesso que estive acompanhando pouco os lançamentos e mergulhado em velharias pop, tanto em CDs como em vinil. Nos CDs, atualizei minha coleção de GIlberto Gil com os disquinhos do mestre lançados em bancas de jornal, local no qual encontrei também álbuns clássicos de Milton Nascimento, como o "Clube da Esquina 2", há muito tempo acalentado, só agora comprado. A volta gradual dos vinis - objeto pelo qual tenho verdadeiro fetiche - foi uma grande alegria. Foi ótimo sair de sebos (ou grandes casas do ramo, no caso europeu) na companhia de artistas como Van Morrison,  Frank Sinatra, John Coltrane, Jeff Buckley, Serge Gaisnbourg, Neil Young, Elvis Costello e vários outros que só enriqueceram minha coleção. Como diria o protagonista de "Alta fidelidade", há poucas coisas tão boas como ficar em casa acompanhado de sua coleção de discos.

No entanto, acompanhei de longe o estouro do tecnobrega aqui no sudeste, em particular a poderosa Gaby Amarantos. Ouvi muito o CD do grupo "Do amor", o trabalho solo de Jack White, "Blunderbuss" e estou no aguardo para comprar o "Abraçaço" de Caetano, além de "Chanel Orange", de Frank Ocean, dois
destaques de 2012.

No rádio, a melhor notícia foi a volta do programa Ronca Ronca, de Maurício Valadares, na Oi FM, agora somente em versão digital. Na boa, foi o melhor presente de Natal que eu poderia ter recebido. Acompanhei o programa em suas variadas encarnações desde os longínqüos anos 80, ainda na Fluminense FM, quando se chamava "Rock Alive". E fico na espera de que Maurício ainda comande muitos outros anos de rádio e boa música.

Pra fechar, a área de shows, outra da qual estive pouco presente, mas que não poderia deixar de citar por um evento bastante especial: o show de Moraes Moreira e seu filho Davi Moraes no Circo Voador no qual tocaram na íntegra o maravilhoso repertório de "Acabou chorare", disco que fez 40 anos em 2012 e que já mereceu postagem aqui mesmo em fevereiro. Um daqueles momentos para não se esquecer: Moraes começando o show contando em forma de cordel a história dos Novos Baianos em meio a ditadura dos anos 70 . Uma ótima banda. Davi emulando Pepeu de forma sensacional e todo o público - até quem viria a nascer bem depois do lançamento do disco - cantando junto todo o repertório do álbum. (Pensando bem, nem tudo está perdido...).

Enfim, uma noite especial. Reflexo de um ano também especial. Que venha 2013. Um feliz ano novo a todos!


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Lides imperdíveis: o humorista em seu apartamento

O comediante Fernando Caruso é um astro em evidência. E bastante atribulado. É o que transparece na repotagem feita por Carlos Albuqerque, para o Segundo Caderno do jornal O Globo, do dia 29 de outubro: "Um nerd com superpoderes: Com três peças em cartaz, o comediante Fernando Caruso, 31 anos, ainda arruma tempo para cantar, dar aulas e comandar um programa de TV". O que levou o lide a brilhar aqui nesta seção de melhores começos de reportagens é a perfeita descrição do ambiente no qual aconteceu a entrevista - o apartamento de Caruso.

Com graça e sensibilidade, o jornalista enriqueceu o perfil do humorista auto-declarado nerd apenas narrando os objetos ao redor. Leia e imagine apenas se a entrevista tivesse sido feita por telefone - o jornalista na redação e o humorista do outro lado da linha. Com certeza não ficaria tão boa. Ou seja, a entrevista que mais rende ainda é aquela feita frente a frente com o entrevistado.

Mas vamos ao lide...

Se o apartamento de Fernando Caruso falasse, ele nem precisaria dizer que o comediante - uma das estrelas do espetáculo "Z.É.(Zenas Emprovisadas)", em cartaz no Oi Casa Grande - é um nerd. Os sinais estão por toda parte. O pôster dos Simpsons no corredor. O copo do Capitão América em cima da mesa. A caixa de DVDs de "Lost" na sala, ao lado da televisão, protegida pela máscara das Tropas Imperiais, de "Guerra nas Estrelas". As pilhas de quadrinhos no quarto, muitos deles adquiridos recentemente, após uma visita à convenção Comic-Con, realizada em San Diego, nos Estadsos Unidos. Mas, curiosamente, até onde a visão sem raios X permite observar, não há sinal de "The Big Band Theory", o seriado adorado por todo mundo que tem a Força.
- Parece uma contradição, mas eu não gosto de "The Big Bag Theory". Não acredito naqueles personagens. Como, para mim, esse é um universo muito próximo, consigo ver que eles estão fingindo - diz Caruso - Acho fake, não vejo graça. Eu sou nerd, eles não são nerds. Acho que só o Sheldon, que é um pouquinho atrofia social mesmo, me convence. O resto é muito caricato.
     Mas que fique claro: apesar de beber com o Capitão América, o Homem-Aranha é o prsonagem favorito de Caruso.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O desafio do livro reportagem: Geneton e Mauro Ventura debatem o jornalismo atual

Certa vez, um jornalista americano estava numa casa noturna quando notou a presença, em uma das mesas,  da estrela de cinema Ava Gardner. Sim, ela mesma, "o animal mais belo da Terra", segundo a definição de Jean Cocteau, e até então - sabia o jornalista -, inacessível para entrevistas. No entanto, ele não se intimidou. Aproximou-se da estrela, que segurava uma taça de bebida, e antes mesmo que dissesse qualquer coisa, recebeu de Ava um jato de champanhe no rosto. Sem ação, o repórter recuou e voltou para o seu canto. No dia seguinte, a impetuosa estrela ficaria atônita ao abrir o jornal e ler na coluna do jornalista: "Ontem à noite eu dividi uma taça de champanhe com Ava Gardner!"

Histórias inusitadas como essa fizeram parte do debate sobre jornalismo, literatura e livros-reportagem na Biblioteca Municipal de Botafogo na noite do dia 31/10, quando os jornalistas Geneton Moraes Neto e Mauro Ventura conversaram sobre essa fascinante técnica jornalística que é a reportagem. Uma técnica que quando bem feita pode gerar grandes momentos do jornalismo e virar grandes livros, abandonando a efemeridade do jornal diário.

Logo no início Geneton contou a experiência de ter sido o último jornalista a conseguir entrevistar o arredio poeta Carlos Drummond de Andrade, conhecido por quase não dar entrevistas. O poeta, assim como muitos daqueles que destestam dar entrevistas, constumava dizer que tudo que ele queria dizer estava nas crônicas para os jornais e nos poemas. Ok, mas um bom jonrnalista nunca se satisfaz até pelo menos tentar uma forma de vencer as barreiras que o entrevistado estabelece. Foi assim que Geneton ficou sabendo que Drummond detestava estar próximo fisicamente de um repórter, mas era capaz de passar horas conversando pelo telefone. O jornalista conseguira o telefone. Arriscou e ligou. Má hora: a filha do poeta estava internada no hospital, à beira da morte. Mesmo assim, o poeta aceitou conversar por um longo tempo com o o jornalista ao telefone. Encerrado o telefonema, Geneton viu que tinha conseguido material para publicar não só uma entrevista no jornal, mas quem sabe um livro. Quando soube que a entrevista seria publicada, Drummond ainda tentou alguma forma de proibi-la, mas o jornal acabou publicando. Geneton ainda ouviria do poeta um comentário do qual que ele até hoje confessa não saber se Drumond estava criticando-o ou fazendo um elogio: "Você é implacável, heim!". Dois dias após a entrevista ser publicada, o poeta viria a falecer. Alguns anos depois, Geneton lançria em livro a totalidade daquela entrevista, com otítulo "Dossiê Drummond: A última entrevista do poeta"

Bom, na minha opinião, Geneton pode encarar o "implacável" como elogio...

Mauro Ventura contou à plateia que antes de começar a escrever "O espetáculo mais triste da Terra: o incêndio do Gran Circo Norte-Americano" chegou a começar a escrever (sem ir em frente) 22 livros. Isso o deixava angustiado, mas pelo menos tinha o exemplo dentro de casa de seu pai, Zuenir Ventura, que somenter escrevera seu primeiro livro "!968, o ano que não terminou", quando tinha mais de 50 anos. Com mais de 40, Ventura resolveu que o livro tão acalentado iria sair, e escolheu um os mais dramátivos edpisódios da história do Brasil - e que ocorrera em 1961, dois anos antes do próprio jornalista nascer. Foram dois anos de muito trabalho e pelo menos 150 entrevistas que resultaram num livro reportagem que se lê febrilmente, como assistíssemos a um bom filme de suspense.    

Claro que dúvidas e inseguranças marcaram a feitura do livro. A princípio, o repórter especial do Globo, acostumado com a labuta diária de um grande jornal, pensou que recolhidos todos os depoimentos seria fácil passar para ao trabalho de contar aquela história. Mas não foi assim. Primeira dúvida: como começar o livro? Segunda, como estruturar os capítulos da forma mais envolvente? Terceira: e o grande número de depoimentos contraditórios, de fontes cujas versões pareciam a cada hora negar o que outra havia dito? Quanto a esta última dúvida, quem salvou Mauro foi seu pai, Zuenir, que o emprestou um exemplar do livro do argentino Rodolfo Walsh, "Operação Massacre" - reportagem sobre o fuzilamente de peronistas na Argentina, na qual o autor embaralha de forma bastante hábil as diversas versões do fato.

A partir da leiitura de Walsh, Ventura encontrou o caminho para o seu livro. E então não foi difícil comçar e estruturar a trama daquele fatídico 17 de dezembro de 1961, em Niterói, e que é considerado até hoje a maior tragédia circense da história.   
Os dois jornalistas ainda falaram de seus livros e autores preferidos dentro do campo da reportagem, como os relatos de Joel Silveira e Ruben Braga como correspondentes na Segunda Guerra Mundial, as crônicas jornalísticas de Gabriel García Marquez, "Soldados de Salamina", de Javier Cercas, entre outros. Geneton - um dos melhores entrevistadores brasileiros - reclamou do "papo de comadres" em que se transformam algumas entrevistas, em especial na televisão e divertiu a todos ao reclamar do que ele chama de "síndrome da frigidez editorial", que pode ser resumida na incapacidade dos editores em aceitar boas histórias achando que o público não estaria interessado...

Enfim, um debate que rendeu uma noite acalentadora para quem acredita na força do bom jornalismo em encontrar histórias que merecem ser contadas, e em todo o trabalho árduo que faz parte da profissão.  





   

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Marina de La Riva e o desafio do segundo disco

Tomo a liberdade de publicar aqui uma crônica que escrevi para o blog de uma amiga, Janaína Faustino ("Já Ouviu?"), sobre uma cantora da qual gosto muito. Com isso, espero poder voltar a escrever regularmente por aqui. Sem periodicidade definida (um desafio ainda difícil, vide os meses parado...) mas com a mesma vontade de postar comentários, crônicas, críticas, bobagens...enfim, tudo aquilo que acenda a vontade de escrever e, como dizia um grande escritor colombiano, "ajude a manter a mão trabalhando". Sendo assim, recomecemos, pois.

Marina es de La Riva, de Cuba y del Brasil

“No te quiero si no por que ter quiero//Y de quererte a no quererte llego//Y de esperarte cuando no te espero//Llega my corazón Del frio al fuego//Y em esta estoria solo yo me muero//Y moriré de amor por que te quiero//Y me quiero amor, a sangre y fuego” Soneto LXVI (Pablo Neruda e Luiz Felipe Gama)

Certa vez, Tom Jobim afirmou que a melhor música popular do século XX tinha sua origem no entrecruzamento das músicas de três países: Estados Unidos, Cuba e Brasil. Para Jobim, a qualidade da música popular destes países teria em comum o fato de ter sido criada em seus primórdios por negros – nos EUA, daria origem ao blues e ao jazz; em Cuba, à salsa e o bolero; no Brasil, ao samba. Ou seja, a África e seus descendentes de escravos seriam um referencial comum. Música, ao contrário do que pensavam os puristas do século XIX (quando esta era privilégio das elites, e dificilmente saía dos salões da realeza), é mistura. Com a entrada em cena do rádio, a música popular demorou, mas aos poucos foi galgando seu sucesso junto ao público. Gêneros de sucesso internacional surgidos em meados do século XX, como o rock n’ roll, o bolero e a bossa nova (apenas para ficarmos nos três países citados) foram criados também na mistura entre a canção pop negra e a musicalidade livre de compositores brancos sem preconceito. Este preâmbulo é apenas para abrir caminho a uma cantora que literalmente tem sua origem na mistura (em sentido amplo): ela é filha de pai cubano e mãe brasileira. Falo de Marina de La Riva, que está lançando “Idilio”, o aguardado sucessor do primeiro disco, de 2007.

Como diria um narrador em castellano, yo me recuerdo. A primeira vez que vi e ouvi Marina de La Riva foi em Paraty, em 2007, durante a festa literária FLIP. Havia um bar na Praça da Matriz especializado em músicas latinas e naquele dia haveria uma festa fechada. Mesmo barrados no baile, aquele primeiro contato com a cantora renderia uma pérola. Da praça, ao ouvir o ritmo suingado que vinha lá de dentro e a voz da bela cantora, alguém logo a achou parecida com a atriz Penélope Cruz. “Ué, mas a Penélope Cruz virou cantora?”. Logo saberíamos que a cantante era na verdade brasileira, e acabava de lançar seu primeiro disco, entremeado de canções em português e espanhol. O tempo passou, Marina seguiu em frente cantando e fazendo shows, embora jamais tenha virado uma cantora popular de fato. Era como se os fãs de música d’além Paraty estivessem também “barrados” às interpretações de Marina. Seu estilo sofisticado, longe daquele predestinado às FMs, sem emanar cantoras como Marisa Monte e afins, parecia confiná-la a um nicho conhecido apenas por uma nata de aficionados em música. Segura de si, ela foi em frente. Lançou um álbum ao vivo (“Ao vivo em São Paulo”), e participou na TV do programa Som Brasil, da Globo, em homenagem a Lulu Santos, convidada pelo próprio - quando deu um molho de salsa bastante caliente ao sucesso pop “Condição”. Marina seguiu na estrada, realizando seus shows e reunindo ideias para um novo trabalho.

Em 2012, a cantora finalmente lançou seu aguardado segundo álbum de estúdio. “Idílio”quer dizer romance em espanhol, e é um álbum mais denso e bem produzido que o anterior. Se um diferencial do disco de estreia era justamente a confluência entre canções cubanas e brasileiras, o que a afastava de saída do ecletismo reinante das novas cantoras brasileiras (situação que pode render tanto pérolas como equívocos), em “Idílio”, ela amplia o leque e vai mais além na mistura de ritmos, trazendo para sua obra ritmos ligados a Porto Rico, Argentina e Espanha. Ao falar de densidade, releia o poema de Pablo Neruda no alto deste texto. Ela está presente na faixa “Voy a tatuarme”, de Amaury Gutierrez, onde a letra derramada vira uma animada rumba, e que rendeu um belo videoclipe gravado em Buenos Aires.



Se em uma das melhores faixas do primeiro disco – “Ojos malignos - Marina pegou um bolero e transformou num samba, com a participação de Chico Buarque cantando com ela em espanhol, a fórmula continua em “idílio”, com a inusitada e bastante divertida versão de “Estúpido cupido”, que vira um animado mambo (!). (Isso mesmo, o clássico pop de Paul Anka, que na versão de Celly Campelo é aposta certa em qualquer festinha de casamento ou baile de debutante). O resultado é irresistível e chega ao disco no meio de uma ótima sequência cantada em português: a singela e um tanto sacana “Juracy” (de Antonio de Almeida e Cyro de Souza), aquela do “pode ser ou tá difícil, Juracy”?) e a deliciosa “Deixa que amanheça”, de Oswaldo Santiago quando o amante suplica à amada para ficar com ele até o amanhecer, somente para pedir marotamente, após a noite de amor, para ela permanecer, e “deixar que anoiteça”: “Espera um pouco//Deixa que amanheça//Aqui em meus braços//Recosta a cabeça//A noite é tão fria//A treva é espessa//Ouve o que eu te peço//Deixa que amanheça”. Segue o amante: “Se amanhã, estiver chuvoso o dia//Por favor, fique em minha companhia//E de nós dois, o tempo esqueça//Espera um pouco, deixa que anoiteça”. Aliás, uma das direções musicais seguidas por Marina é dar nova vida a clássicos populares das décadas de 1950 e 1960, fazendo com que os ouvintes mais velhos deem um sorriso e digam, “essa é do meu tempo”.

Marina começa o disco de forma um tanto melancólica, com a luxuosa participação do trombonista Raul de Souza, em “Añorado encuentro” de Piloto Bea e Vera Morua (Raul também participa das faixas “Dile por que mi tea”, de T. Smith e “Muñeca” de Eddie Palmieri). A faixa tem belos versos que se entregam ao ouvinte, como “Hoy, rompo las cadenas del silencio//Logro decirte, que te quiero//Que tu eres todo ló que anheio” “Idilio” tem um conceito por trás, que é uma seleção de canções de amores perdidos, refeitos, súplicas, tristezas e retornos. Em “Ausência”, de Vinícius de Moraes e Maria Medalha, Marina declara num arranjo quase acústico: “Eu tinha feito da saudade a minha amiga mais constante”. O disco segue com tristíssima “Assum Preto”, de Luis Gonzaga e Humberto Teixeira – se no primeiro álbum a cantora inseriu partes de canções mais animadas de Gonzaga, como o “Xote das meninas” e “Adeus Maria Fulê”, aqui temos a trágica história do pássaro que tem seus olhos furados para poder cantar melhor (“Mas Assum Preto, cego dos óio//Num vendo a luz, canta de dor”), apenas para comparar-se a ele no final da canção: “Também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus”. A tristeza ganha tons mais atenuados na canção seguinte, “Canción de las simples cosas”, de Armanda Tejada Gomes e César Isella, dona de belos versos como “Por eso, muchacho, no partas ahora, soñando el regreso//Que el amor es simple y las cosas simples las depura el tiempo”.

Há um tom intimista que perpassa estas primeiras canções, como em “Como duele perderte”, gravada em ritmo de samba apenas com voz, violão e tamborim. Logo depois temos uma quebrada de ritmo em “Y”, em que Marina canta acompanhada apenas do violão de Daniel Oliva. É um dos únicos momentos do disco que não decolam, algo logo quebrado pela contagiante e já citada “Juracy”. O disco mantém a qualidade na faixa 10, “Dile que por mi no tema”, num arranjo jazzístico do pianista Pepe Cisneros, em que dá vontade de estalar os dedos junto à canção. O trombone de Raul de Souza volta a se fazer notar em “Muñeca”, em que a cantora faz confidências amorosas a uma...boneca. Aqui o destaque é a percussão, que faz a música começar lentinha, num quase bolero, para depois transformar-se numa bela salsa, enquanto Marina canta: “Ay mi muñeca, perdoname”. O clima “cubano” do álbum soa mais forte nestas últimas canções. “Idílio” é uma bela salsa que conta com a bateria de Pupilo, o sax de Thiago França e até palminhas da cantora e Ricardo Valverde. Marina canta novamente as dores de amores, enquanto o refrão diz “Soñando, contigo, querendo que se cumpla nuestro idílio”. As duas últimas canções continuam a falar de romances, arrebatada como em “Voy a tatuarme tu nombre” (“Voy a tatuarme tu nombre, em cada parte del cuerpo//Para que nadie te robe//Para que nadie te borre”) ou mais contida, como em "Voy a guardar mi lamento", cantada em português e espanhol (“Tudo acabado//Fiquei tão triste//Mas não me queixo//Ninguém vai me ver chorando//Eu vou guardar o meu lamento para quando estiver sozinha//Voy a guardar mi lamento para cuando yo esté sola”.


Após a audição deste belo álbum, uma reflexão se faz necessária. Seria Marina de La Riva capaz de angariar sucesso para além do público fiel e selecionado que já possui? Ou continuará, como naquela festinha fechada em Paraty, um privilégio para poucos, fãs de música mais sofisticada? Sabemos que a música cantada em espanhol não tem a mesma popularidade do pop internacional tocado na maioria das rádios, em sua grande maioria em inglês. Nos anos 1950 tivemos uma onda de música latina especialmente ligadas a salões de dança de salão, onde o bolero atingiu grande sucesso (pergunte a seus pais quais as músicas que eles dançavam nos bailes quando namoravam - há grandes chances de haver um bolero no meio). Boleros e outras canções derramadas, de amores perdidos e apaixonados, foram sufocados mais tarde com as canções ensolaradas da bossa nova e a alegria dos rocks da Jovem Guarda. Desde então, o sucesso de músicos “cantantes” na língua espanhola no Brasil foi cada vez mais esporádico, situação que vem mudando com a globalização e uma maior abertura a grupos pop argentinos, mexicanos e espanhóis. Marina de La Riva é a prova de que a música pop hoje não tem fronteiras, e o pop anglo-americano hoje tem que conviver com colegas latino-americanos e europeus. Com “Idílio”, ela demonstra algo também raro no pop atual: personalidade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Minha carne é de carnaval...meu coração é igual

Carnaval já vai indo, os foliões se retirando, a galera que curte a festa ainda esperando os últimos blocos na cidade para fechar a tampa neste fim de semana. Pra quem é de carnaval e curte um som atemporal, que tem tudo a ver com a folia, vale a pena ouvir de novo - e sempre - o clássico álbum "Acabou chorare", dos Novos Baianos, que está completando 40 anos em 2012.

Uma pena que eu só fui conhecer o disco com mais de 30 anos de idade. Eu devia ter uns 20 e poucos anos e quase todo o sábado frequentava uma casa noturna perto de casa, em Bonsucesso, chamada Miro's. Havia ali uma banda que tocava sucessos do rock e pop brasileiros, e em especial um número no qual a galera sempre cantava junto: "Preta pretinha", um dos muitos sucessos daquele disco. Um dia, no centro da cidade, finalmente comprei o CD do grupo, com uma capa diferente daquela que ficou famosa - com o que parece ser o final de uma refeição, com a mesa ainda por arrumar, daquele grupo que optou por viver, no melhor estilo hippie da época (1972), em comunidade, num sítio em Vargem Grande, Rio de Janeiro. Na capa do "Acabou chorare" que tenho aqui em casa, está a turma toda dos Novos Baianos, junto com filhos e agregados, uma típica foto "família" - a qual eles realmente eram - de quem viveu todo aquele desbunde setentista.

"Acabou chorare" é hoje e sempre um dos meus "discos de cabeceira", um dos raros procutos artísticos que pego pra ouvir não só no sofá de casa, no carro, em viagens, como também pra anular qualquer baixo astral. Que o digam Marisa Monte, Lucas Santtana, China, Wado e outros talentos que em matéria especial do Segundo Caderno, do Globo, reverenciaram os 40 anos do lançamento do clássico álbum, aquele que pela primeira vez na música brasileira uniu a guitarra de Jimi Hendrix (ave, Pepeu!) ao samba de João Gilberto.

Rock n' Roll, Samba e Carnaval. Para sempre novos. Novos Baianos.