quarta-feira, 10 de março de 2010

A devassa no comercial da Devassa

No último domingo, durante o programa Manhattan Connection, deu-se um curioso debate. Vamos a ele:

Lucas Mendes: Paris Hilton no centro de uma polêmica. Diogo, você acha que a proibição do comercial da cerveja Devassa abre um procedente?

Diogo Mainardi: Olha, não tenho a menor ideia; mas quem pode explicar melhor isso é o Ricardo, que nunca deu uma "paradinha" naquelas horas...

Ricardo Amorim: Respondo fácil. O procedente que se abriu é que haverá novas propagandas "ousadas". A Conar, ao proibir o comercial que já havia sido visto por 70 mil pessoas na internet, deu um tiro no pé. A essa hora o comercial já deve ter sido visto por mais de 1 milhão de pessoas.

Caio Blinder: O comercial é boçal e a proibição também foi boçal. A que ponto chegamos: a única inocente no episódio é a própria Paris Hilton. Chegamos num ponto de elogiar a Paris Hilton...

Pra quem não leu os jornais nem conferiu o Youtube semana passada (não, não vou linkar aqui o anúncio censurado não...), o papo entre os debatedores do Manhattan era sobre a proibição, pela Conar, do anúncio da cerveja Devassa, estrelado pela americana Paris Hilton. Precedido por uma campanha publicitária em que um homem, à maneira do filme "Janela Indiscreta", observa do prédio em frente com uma luneta o striptease de uma mulher loura (seria Paris ou uma dublê de corpo?), o anúncio veiculado após o preview não mostrou ser mais do que um amontoado de subclichês eróticos, com uma trilha sonora também clichê e tendo Paris Hilton - sinônimo internacional de mulher "devassa" -, como estrela.

Se o Conar ficasse quieto, talvez a propaganda passasse em brancas nuvens. Mas proibiu sua veiculação. Comenta-se que os marqueteiros da Devassa, irritadíssimos com o veto, teriam feito no mesmo dia um brainstorm para mudar o nome da cerveja e contratar outra garota-propaganda, já que tinham gastado aos tubos com a herdeira do conglomerado de hotéis Hilton. O nome "Devassa" teria que ser mudado por outro mais comum. Como já há a concorrente "Leviana", pensaram em "Vadia", depois "Vagabunda" e quase esta última ideia foi em frente, mas alguém salientou que dificilmente alguém se animaria a beber uma cerveja vagabunda..."Devassa", pelo menos, era mais chique e um nome mais "sofisticado".

Só que no dia seguinte à proibição lá estava o link para o vídeo em uma infinidade de sites da internet, até naquele mais "sérios", que ajudaram na mídia espontânea, fazendo do comercial um campeão de vizualizações. Pior para o Conar. Como disse o Ricardo Amorim, espera-se em breve novas campanhas de cervejas e outros produtos "ousados" o suficiente para que sejam proibidos e no dia seguinte virem campeã de audiência.

Sempre antenado, Verissimo notou em sua coluna no Globo a contradição de nossos censores no Brasil, que não deram a mínima para um comercial de cerveja em que o jogador Ronaldo aparecia sorridente , se proclamando "brahmeiro", enquanto proíbem a comercial chimfrim da Devassa. Ora, enquanto Ronaldo engorda e cai de produção a olhos vistos (não se sabe se sua barriga avantajada tem relação com o fato de ele ser "brahmeiro") e a torcida do Flamengo discute os problemas de alcoolismo de seu principal jogador, Adriano, jogadores que deveriam dar o exemplo são tolerados em propagandas de bebida alcoólica. Americanas supostamente devassas não.

Enquanto isso, a "única inocente" na história, a essa hora já está nos Estados Unidos curtindo a grana alta que certamente ganhou aqui nos trópicos. Bem, se somente para "marcar presença" no Sambódromo durante os desfiles de Carnaval a moçoila recebeu R$500 mil, imagino que a peça publicitária tenha chegado perto...

Paris Hilton é uma daquelas celebridades que se tornaram famosas unicamente pela sua notoriedade. É péssima atriz e cantora medíocre. Também é desconhecido qualquer talento inato da moça para outra coisa que não seja aparecer nos tablóides americanos pagando mico ou nas revistas de fofocas brasileiras, também "marcando presença". Sua imagem internacional de devassa pode ser creditada ao vídeo que vazou na internet há alguns anos, onde ela transava com o ex-namorado (as más-línguas juram que ela postou o vídeo da transa de propósito, mas ela nunca admitiu; tampouco negou). Aliás, quem acompanhou a saudosa série Sex & the city deve lembrar-se de um episódio com uma hilária cena, inspirada em Paris Hilton, em que a ninfomaníaca Samantha deixa vazar propositalmente na internet uma transa dela com o namorado mais novo.

Em outros tempos, Paris seria apenas mais uma das garotas loucas pela fama que há no mundo, com o empurrãozinho da fortuna da qual é herdeira - ou vocês acham mesmo que se ela fosse uma devassa sem um tostão estaria em capas de revista? Na cultura das celebridades, o mérito próprio é apenas mais um detalhe para alcançar a fama. Muitas vezes este detalhe nem é considerado.

E, no Brasil, esta cultura pode fazer de celebridades famosas pela notoriedade ícones a favor liberdade de expressão. Como, involuntariamente, Paris Hilton e sua campanha publicitária proibida.

Mas...me perdoe, Caio Blinder, mas não vai ser hoje que eu vou elogiar a Paris Hilton. Talvez outra hora, ok? Outra hora.



segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher: Todas elas juntas num só ser

Há um ou dois anos atrás, no fim da tarde, eu estava vindo de Ipanema num micro-ônibus que iria fazer a ligação com o metrô em Copacabana. Na chegada em Copa, o motorista avisou da baldeação e, simpático, desejou um "Feliz Dia da Mulher" à todas as meninas, moças e senhoras dentro do veículo. Elas adoraram e algumas agradeceram ao descer. Deu pra notar a satisfação que muitas carregavam em seus semblantes, orgulhosas de um dia do ano só para elas.

Durante todo o dia de hoje, jornais, rádios, televisões e sites estiveram lembrando desta data. Muitos requentam matérias antigas e continuam mostrando que, apesar de todos os avanços na sociedade, as mulheres continuam ganhando menos que os homens. A sociedade mudou e as mulheres - que ótimo! - estão muito mais independentes, mas em diversas partes do mundo elas continuam sendo subjugadas por regimes opressores e autoritários. Na verdade, por regimes que as temem.

Não quero me perder e correr o risoco de repetir clichês, mas a verdade é que sem as mulheres este seria um mundo muito mais brutalizado e sem poesia. São elas que trazem um mínimo de delicadeza ao nosso tão ordinário cotidiano. Só por isso, merecem comemorar sempre o Dia Internacional da Mulher. Os homens com um mínimo de sensibilidade reconhecem isso. Assim como o motorista do ônibus, que - em meio ao discurso ensaiado aos passageiros repetido mecanicamente todos os dias -, encontrou uma maneira original de lhes dirigir umas poucas palavras de afeto.

Pensei em algumas canções que as retrataram tão bem na música popular e escolhi uma do Lenine, "Todas elas juntas num só ser". Ao retratar as mulheres que se tornaram personagens marcantes na história da música popular brasileira e intternacional, o artista conseguiu homenagear todas as mulheres.

Transcrevo abaixo parte da imensa letra, com um link para ela inteira. Este post também vai para as minhas cinco seguidoras, todas mulheres, que eu não conheço, mas me fazem ter vontade de continuar escrevendo aqui.


Todas elas juntas num só ser

(Lenine/Carlos Rennó)

Não canto mais Babete nem Domingas
Nem Xica, nem Tereza, de Benjor;

Nem Drão, nem Flora, do baiano Gil;
Nem Ana, nem Luiza, do maior;

Já não homenageio Januária;
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;

Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a Cabocla, de Tinoco e do Tonico;

Nem a Tigreza, nem a Vera Gata;
Nem a Branquinha de Caetano;
Nem mesmo a linda flor de Luiz Gonzaga;
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de chico Science;
Nenhuma continua nos meus planos.

Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcet;
Nem Anna Júlia do Los Hermanos.

Só você
Hoje eu canto só você
Só você
Hoje eu quero, porque eu quero, por querer

Não canto de Melô peróla negra;
De Brow e Herbert, uma brasileira,
De Ari, nem a baiana nem Maria;
Nem a Iaiá, também, nem minha faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina;
Nem a morena de Itapoã;
Divina garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniram.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;

De Jimi Hendrix, nem a doce Angel;
Nem Angela nem Lígia, de Jobim.

Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz;
Das doze deusas de Edu e Chico;

Até das trinta Leilas de Donato;
E de Layla, de Clapton, eu abdico.

Só você
Canto e toco só você
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

(Continua...)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Free Nelson Mandela: 20 anos depois

"Ele libertou todos nós do apartheid. Antes, nunca nos misturávamos. Brancos, negros e mestiços vivíamos separados, mas hoje nos misturamos todos e somos uma só nação"
(Elizabeth Davies, política sul-africana)

"You're so blind that you cannot see"
(Trecho da música "Free Nelson Mandela", The Special A.K.A.)

Este mês o mundo parou para comemorar os 20 anos da libertação de um homem negro, que ficou 24 anos preso numa cela de proporções mínimas na África do Sul, condenado a trabalhos forçados por discordar e críticar o apartheid - o nefasto regime de segregação racial que durante muitas décadas separou brancos e negros num mesmo país. No dia 13 de fevereiro de 1990, o homem saiu da cadeia e contemplou a liberdade pela qual ele tanto esperara. À sua frente, uma multidão de sul-africanos, negros como ele, que o seguiram pelas ruas da cidade, cientes de que, naquela hora, suas vidas poderiam mudar. O homem parou em frente a uma praça, olhou a multidão e fez um gesto com o punho fechado para o ar. Hoje, no mesmo lugar, uma estátua dele com o mesmo gesto está erguida ali.

Três anos depois, o apartheid encontrava seu fim na África do Sul. Em 1995, o ex-presidiário era eleito presidente da África do Sul e ganhava o prêmio nobel da paz. Estamos falando de Nelson Mandela (ou "Mandiba", seu nome de clã e como é chamado carinhosamente pelos africanos), e se o mundo parou para lembrar dos 20 anos de sua libertação é porque o considera um dos maiores líderes políticos que o mundo conheceu, da segunda metade do século XX até os dias de hoje.

Um dos filmes em cartaz nos cinemas, "Invictus" , de Clint Eastwood, narra como Nelson Mandela (brilhantemente interpretado por Morgan Freeman) enfrentou o ódio racial entre brancos e negros pregando a tolerância e o respeito mútuos. Logo numa das primeiras cenas, ao tomar posse como novo presidente, ele nota as salas dos funcionários brancos vazias - haviam arrumado seus pertences acreditando que seriam preteridos por negros. Mandela reúne todos os funcionários - brancos, negros e mestiços - e diz que está ali para trabalhar com todos, sem restrições, acreditando apenas na competência de cada um, acima da cor da pele. Lembrem-se de Martim Luther king e seu famoso discurso, "I have a dream...". Numa sequência, o retrato de um líder.

Mandela conseguiu unir uma nação em torno de um time desacreditado, a seleção de rugby (símbolo, para a maioria negra, do regime opressor) e não mediu esforços para que eles chegassem à final da Copa do Mundo. Uma frase do capitão do time de rugby, ao visitar a cela de Mandela na prisão em que estivera preso, sintetiza a grandeza do líder sul-africano: "Como este homem conseguiu ficar mais de 20 anos preso neste cúbiculo e ainda consegue perdoar quem o colocou aqui?"

"Invictus" presta de fato uma bela homenagem a Nelson Mandela, mas eu queria era lembrar que, muito antes do cinema, em 1984, quando ainda estava preso, Mandela era agraciado com um libelo em forma de música vindo da Inglaterra, ainda antes de sua libertação, por meio da canção "Free Nelson Mandela", do grupo multirracial Special A.K.A. (ex-Specials), integrante do movimento Two Tone - dois tons, preto e branco. As bandas da Two Tone começaram a surgir a partir de 1979, no vácuo deixado pela fúria do movimento punk, e combinaram a anarquia e energia do punk com um gênero musical próximo do reggae, o dançante ska, difundido na Inglaterra por imigrantes jamaicanos. O sucesso das novas bandas foi imediato e influenciou até medalhões do rock "branco", como o Clash, que regravou o clássico jamaicano "Police and thieves".

Ou seja, enquanto antes de Mandela chegar ao poder era inconcebível ver negros e brancos apertando as mãos na África do Sul, na Inglaterra brancos e negros uniam-se para balançar o cenário musical com canções politizadas e extremamente dançantes. A metrópole reunindo pretos e brancos através da música, enquanto a ex-colônia insistia num regime de segregação racial. São as ironias da história contemporânea.

Na gravação de "Free Nelson Mandela" - com o som da Two Tone já em seu crepúsculo, sendo substituído nas paradas pelos grupos new romantics, ou simplesmente pelo som que seria chamado mais tarde como "new wave" -, o compositor Jerry Dammers, autor da música, contou no estúdio com membros originais de bandas famosas do movimento, como Specials, The Beat e Bodysnatchers. Nos vocais de apoio, ajudaram a criar uma canção ao mesmo tempo politizada e de irresistível apelo dançante.

"Free Nelson Mandela" ("Libertem Nelson Mandela") fez milhares de jovens ingleses cantarem pela libertação do líder negro, quando ainda estava preso. A maioria das bandas que compunham a Two Tone eram politizadas, e Jerry Dammers, investido no movimento anti-apartheid. "Free Nelson Mandela" tornou-se um sucesso e funcionou como um verdadeiro grito pela libertação do líder sul-africano. Muitos destes jovens ingleses que dançavam a música em clubes e afins nunca haviam ouvido falar em Mandela e cantavam em coro nos shows da banda versos como "you're so blind that you cannot see", que poderiam estar se referindo aos próprios ingleses ou ao mundo ocidental - alheios à desgraça sul-africana.

Felizmente, a desgraça, ou o apartheid, estava também em seus últimos momentos. Em 1993 era extinto o regime que por séculos perdurou, e em 1995 Mandela estaria à frente de milhões de compatriotas para fazer história.


Nelson Mandela - The Special A.K.A.

Free Nelson Mandela
Free Free
Free Free Free Nelson Mandela

21 years in captivity
Shoes too small to fit his feet
His body abused, but his mind is still free
You're so blind that you cannot see

Free Nelson Mandela

Visited the causes at the AMC
Only one man in a large army
You're so blind that you cannot see
You're so deaf that you cannot hear him

Free Nelson Mandela

21 years in captivity
You're so blind that you cannot see
You're so deaf that you cannot hear him
You're so dumb that you cannot speak

Free Nelson Mandela

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Você já esteve em Frondosa? Os espiões, do Verissimo, sim

Sou daqueles que sempre levam um livro na mochila para qualquer viagem que faça. A trabalho ou lazer, sempre há a possibilidade de uma chuva impiedosa confinar a gente dentro de casa ou no hotel, e então um bom livro surge como saída acalentadora. Neste carnaval não foi diferente. Nos intervalos da folia, li o romance "Os espiões", de Luis Fernando Verissimo, autor que na opinião deste blogueiro deveria tornar-se leitura obrigatória em escolas de de todo o país, apenas para mostrar a nossos jovens como a boa literatura pode ser algo divertido e prazeroso.

"Os espiões" é um romance que trás de volta aos leitores uma das características marcantes do escritor gaúcho: misturar personagens típicos do cotidiano, daqueles que qualquer um de nós poderíamos encontrar numa mesa de bar - e o bar é um dos cenários-chave da trama - com um enredo mirabolante e com inúmeras citações cultas - da mitologia grega ao pintor italiano De Chirico, de considerações hilariantes sobre literatura a um suposto crime na fictícia cidade de Frondosa - local para onde os amadores espiões criados pelo escritor se aventuram em busca da resolução de um enigma - ou seja, a estranha carta que o protagonista recebe certo dia: ali, uma mulher chamada Ariadne promete contar sua história e depois se matar.

Em entrevista recente, Verissimo disse que só tinha a curiosa primeira frase do livro - "Formei-me em letras e na bebiuda busco esquecer" - antes de sentar e escrever todo o romance. Aos poucos os personagens e situações foram surgindo.

Motivado pela leitura do blog Todoprosa, do jornalista e escritor Sérguio Rodrigues, no qual há a seção "Começos inesquecíveis", transcrevo abaixo o primeiro parágrafo de "Os espiões": um ótimo exemplo de técnica literária, erudição e humor. Verissimo apresenta o protagonista e dá o tom da trama que virá nas próximas páginas.

Leiam e divirtam-se, então. (Só não precisam concordar com a excentricidades literárias do protagonista..ainda que motivadas por uma bela ressaca...rs):

"Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer. Mas só bebo nos fins de semana. De segunda a sexta trabalho numa editora, onde uma das minhas funções é examinar os originais que chegam pelo correio, entram pelas janelas, caem do teto, brotam do chão ou são atirados na minha mesa pelo Marcito, dono da editora, com a frase "Vê se isso presta". A enxurrada de autores querendo ser publicados começou depois que um livrinho nosso chamado Astrologia e Amor - Um Guia Sideral para Namorados fez tanto sucesso que pérmitiu ao Marcito comprar duas motos novas para sua coleção. De repente nos descobriram, e os originais não param mais de chegar. Eu os examino e decido seu futuro. Nas segundas-feiras estou sempre de ressaca, e os originais que chegam vão direto das minhas mãos trêmulas para o lixo. E nas segundas-feiras minhas cartas de rejeição são mais ferozes. Recomendo ao autor que não apenas nunca mais nos mande originais como nunca mais escreva uma linha, uma palavra, um recibo. Se Guerra e Paz caísse na minha mesa numa segunda-feira, eu mandaria seu autor plantar cebolas. Cervantes? Desista, hombre. Flaubert? Proust? Não me façam rir. Graham Greene? Tente farmácia. Nem le Carré escaparia. Certa vez recomendei a uma mulher chamada Corina que se ocupasse de afazeres domésticos e poupasse o mundo de sua óbvia demência, a de pensar que era poeta. Um dia ela entrou na minha sala brandindo o livro rejeitado que publicara por outra editora e o atirou na minha cabeça. Quando me perguntam a origem da pequena cicatriz que tenho sobre o olho esquerdo, respondo:
- Poesia.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Crianças fazem jornalismo: está no ar a Jacaré FM

Eles têm apenas de quatro a seis anos de idade. E já são jornalistas! Toda semana, crianças de uma escola municipal de São Paulo elaboram as pautas, editam as matérias e fazem a locução de reportagens para uma rádio cujo nome também escolheram: Jacaré FM. Apesar de veiculada somente na internet, tem audiência cativa entre professores e coleguinhas. A boa notícia é que os repórteres mirins tomaram gosto pela experiência e este sucesso se refletiu nos estudos em sala de aula: o desempenho das crianças em língua portuguesa melhorou sensivelmente após a experiência, segundo o colunista Gilberto Dimenstein, que se mostrou entusiasmado em sua coluna na rádio CBN.

Iniciativas como essa num país de tantos contrastes como o Brasil não deixam de nos causar alívio e uma certa dose de esperança, ainda que a realidade brasileira não ajude. Ontem mesmo, em uma crônica de Zuenir Ventura, no Globo, "Como (não) formar leitores", o jornalista mostrava-se preocupado com a falta de hábito de leitura no Brasil, um país em que mais de 70 milhões de pesoas não leem. É muita gente privada do prazer de ler. Segundo Zuenir, um dos motivos estaria na falta de renovação das listas de livros que os adolescentes são obrigados a ler na escola, listas que misturam clássicos indiscutíveis como "Brás Cubas", de Machado de Assis, ao lado de prosas datadas como "Iracema", de José de Alencar". Muitos livros indicados indevidamente podem causar no jovem leitor a sensação de que a leitura é uma coisa muito chata. Para Zuenir, não seria hora de receitar aos nossos alunos textos mais modernos como os de Rubem Braga, Fernando Sabino ou Luís Fernando Verissimo? Assino embaixo.

Porém, esta semana, o Jornal Nacional fez uma reportagem que é uma ótima notícia para quem preza o hábito de ler. Dia 8 de fevereiro foi inaugurada, no exato local onde havia o famigerado Complexo Penitenciário do Carandiru - sim, aquele mesmo do filme que você deve ter assistido, cujo massacre em 1992 resultou na morte de 111 presos pelas forças de repressão do estado de São Paulo - a Biblioteca São Paulo, uma livraria composta pelo que há de mais moderno no incentivo á leitura. Em formato de uma moderna livraria, dá atenção especial para as crianças, com prateleiras onde os livros infantis ficam dispostos de forma que qualquer pequeno leitor possa manuseá-los antes de começar a leitura. A tecnologia não foi esquecida, com mais de 100 computadores e até máquinas especiais próprias para cegos, que escaneiam os livros e fazem a leitura sonora de revistas e livros para aqueles não enxergam.

Como deu pra perceber nos exemplos de Zuenir e da nova biblioteca, a tecnologia pode ser uma ótima aliada na conquista de novos leitores. É isso que vem fazendo o sucesso da Jacaré FM, ao apostar no auxílio dos meios de comunicação para melhorar o rendimento escolar das crianças, tornando a experiência do ensino mais lúdica e instrutiva. Longe de considerar o computador, a televisão e o rádio como "inimigos" ou "adversários" do ensino, educadores já começam a verificar que a aliança com as mídias - analógicas ou digitais - pode trazer boas novidades às escolas.

Ainda segundo Dimenstein, a exxperiência inovadora desta escola começa a se refletir também na graduação. Recentemente a USP criou o curso de Educomunicação, que nada mais é do que o professor usar os meios de comunicação na aprendizagem. Poderíamos dizer que não é uma experiência nova - há muitos profesores em diversos cantos do Brasil que costumam trazer o jornal, a televisão ou o rádio para a sala de aula a fim de complementarem de forma criativa suas aulas. Mas é algo que pela primeira vez ganha o escopo de um curso superior. Ou seja, num tempo em que as novas mídias digitais conquistam cada vez mais espaço na preferência dos jovens, por que não usar destas mídias emn sala de aula, como ferramenta de ensino, em vez do ultrapasado giz e quadro negro para ensinar a norma culta?

A experiência da Jacaré FM mostra que a iniciativa tem tudo pra dar certo. Saudemos então os pequenos repórteres de São Paulo, e que outras escolas Brasil afora não tenham medo de copiar tão bela iniciativa.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O outono do apanhador e o despertar da primavera

Houve um tempo em que adolescência era um termo que não existia, e a juventude como a conhecemos hoje era apenas uma passagem sem importância a ser transcorrida entre a infância e a idade adulta - esta sim a fase "importante" do homem. A adolescência e a culura jovem como a conhecemos hoje deve muito à eclosão do rock n' roll em meados dos anos 1950 e a filmes da mesma época, como "O selvagem" (com Marlon Brando) e "Juventude transviada" (com James Dean). Antes disso, porém, duas grandes obras escritas entre o final do século XIX e a metade do século XX ousaram levar ao público um painel desta fase da vida repleta de dúvidas e inquietações. Estou falando da peça "O despertar da primavera" e do livro "O apanhador no campo de centeio", cujo autor, o recluso J.D. Salinger, morreu esta semana.

Esta crônica está em clima de despedidas. No Rio, despede-se da temporada a peça "O despertar da primavera", depois de figurar em todas as listas de melhores do ano e emocionar uma multidão de espectadores - entre eles muitos jovens que estavam afastados do teatro e que foram não uma, mas duas ou mais vezes conferir. "O despertar da primavera", de Franz Wedekind, foi escrita em 1891, transformada em 2006 num musical pelos americanos Duncan Sheik e Steven Sater e adaptado aqui no Brasil pela dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho. Se você ainda não conferiu, é a chance para um novo despertar - cultural, rebelde e emocionante. E que diz muito ao espírito jovem que todos devemos (ou deveríamos) trazer dentro de si.

Espírito jovem? Sim, se lembrarmos que a peça de Wedekind se passa em fins do século XIX, época de repressão e moralismos, desejos sublimados e opressão. Conta a história de Melchior Gabor, aluno brilhante e rebelde de uma escola ultra-conservadora que se apaixona por Wendla, uma jovem educada pelos pais com rigidez excessiva. Há um núcleo básico entre os três elementos que simbolizam a repressão ao jovem: a escola, a família e a igreja. Os diretores Möeller e Botelho reduziram os atores adultos em cena para apenas um casal e chamaram 19 jovens para o elenco do musical. Ali, os adultos e suas convenções são os inimigos. E a busca do sexo - elemento principal da trama - um tabu a ser enfrentado. Wedekind ousou colocar vários conflitos nos personagens dos jovens em sua trama, como o sexo e a gravidez na adolescência, aborto, suicídio e homossexualismo. Por tudo isso, teve sua peça censurada por décadas. "O despertar" só foi encenada sem cortes ou censura em 1974, muitos anos depois da morte do autor.



Se Wedekind não teve tempo de conferir sua peça na íntegra como imaginou e escrevera, o escritor J.D. Salinger conheceu a glória em vida, mas jamais buscou aproveitar os louros da fama, preferindo viver por décadas recluso na pequena cidade de Cornish, um vilarejo em New Hampshire. Recusava-se a dar entrevistas a qualquer um e nunca cedeu direitos de seus livros para o cinema. Mesmo assim, sua obra mais conhecida, "O apanhador no campo de centeio", romance escrito em 1951, vendeu mais de 60 milhões de exemplares até hoje e estima-se que ainda venda por ano 250 mil exemplares. Qual a razão do fascínio?

Muitos tentaram explicar. O jornalista e escritor José Castelo definiu a obra no jornal O Globo como um "assombro que nunca termina". Um assombro que ele e muitos jovens em todo o mundo teriam sentido ao lerem a obra na juventude. Ou, como escreveu um crítico da revista "Time" à época: "Ele consegue entender a cabeça de um adolescente sem ter uma". Sim, porque toda a trama é narrada por um adolescente, Holden Caufield, no espaço de um final de semana, no qual, recuperando-se de uma crise nervosa, o jovem relembra dos últimos encontros que tivera - um profesor, uma ex-namorada... A originalidade para a época está no fato de o livro relatar todas as inquietações típicas da juventude, suas gírias, palavrões, manias, sua rebeldia aparentemente sem causa etc. Talvez por isso milhares de jovens tenham se identificado com o protagonista. Talvez, também, por este motivo o livro tenha sido até os anos 1980 censurado em escolas, enquanto em muitas outras é ainda hoje leitura obrigatória.

Deixemos então uma lágrima para Salinger, que viveu seu longo outono em reclusão, indisposto à fama e a qualquer encanto do mundo do entretenimento, e saudemos o despertar da primavera. Se existe o paraíso, em algum lugar o recluso escritor poderá encontrar e conversar longamente com o alemão Franz Wedekind. Enquanto isso, suas obras ainda continuarão por muitos e muitos anos sendo lidas ou encenadas, e emocionando as as mentes livres com um pouco da poesia e liberdade do que é ser e manter-se jovem.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

We will rock you: 25 anos do Rock in Rio


Numa bela tarde do ano de 1984 o empresário do grupo Queen atendeu ao telefone um tanto surpreso. Seu assistente dizia ser uma ligação internacional vinda do Brasil. Do outro lado da linha o brasileiro se apresentou: seu nome era Roberto Medina e queria contratar a banda para um show dali a um ano no Rio de Janeiro. Onde, no Maracanã?, perguntou o empresário. Não, respondeu o brasileiro, mas sim num terreno de 250 mil metros quadrados, no ainda longínquo bairro da Barra da Tijuca e próximo a Jacarepaguá. O brasileiro ainda avisou ao inglês que aquele seria o maior público que o Queen (então no auge)atingiria em toda a sua carreira. Incrédulo, achando tratar-se de uma grande piada, o inglês riu e não tardou a desligar o telefone, não sem antes prometer enviar àquele brasileiro sonhador uma garrafa de espumante, "no lugar da banda".

Ouvi a historinha contada pelo jornalista João Carlos Santana, do programa da CBN Sala de Música, ao lembrar dos 25 anos do primeiro Rock in Rio. Como o tempo passou rápido! Em janeiro de 1985, alguns meses depois do fatídico telefonema, multidões começaram a rumar para o local dos shows. Eu estava lá, com 15 anos de idade, e estive presente em três noites do festival que mudaria os rumos da indústria de entretenimento no Brasil.

Foi preciso ver para crer. Em meados de 1984 saiu uma notinha na coluna do Zózimo (um dos jornalistas mais bem informados da época) e havia ali a informação, pela primeira vez, de um festival de rock de grandes proporções no Rio de Janeiro, em janeiro de 1985, contando com estrelas nacionais e internacionais. Se antes apenas o inglês não levara a sério a notícia, desta vez muitos brasileiros duvidaram. E não era para menos: no Brasil de então, prestes a sair de uma ditadura militar, não havia nenhum antecedente de grandes shows de rock, nem de grandes festivais ao estilo Woodstock. Ainda mais de rock!?!? Aos olhos da inteligentzia tupiniquim, como cantara Rita Lee, roqueiro brasileiro sempre tivera cara de bandido.

Bem, Roberto Medina seguiu com sua loucura e o projeto acabou saindo do papel. E o empresário cumpriu a promessa de levar ao Queen o seu maior público: quase 300 mil pessoas assistiram extasiadas à banda, com o vocalista Fred Mercury regendo um coro de centenas de milhares cantando "Love of my life" e We will rock you". Fiz parte do coro destas músicas no primeiro dia, o qual estive presente com irmão, primo e amigos, depois de um périplo de mais de duas horas para chegar ao local - num tempo sem Linha Amarela, era necessário pegar um ônibus até a Central do Brasil e depois outro que nos levaria até o local. Carro? Nem pensar, éramos todos adolescentes e fãs de música, com dinheiro contado nos bolsos.

Foi neste dia também que o Iron Maiden realizou um show nota 10, com um profissionalismo de se aplaudir e conquistou uma legião de fãs brasileiros. Aliás, foi durante o festival que se começou a ouvir aqui e ali o termo "metaleiro", para designar os fãs de heavy metal - alguns na época bastante intolerantes com artistas que não os agradavam. Como Erasmo Carlos, que prativamente fou expulso do palco pelos fãs de heavy metal.

Mas, se Erasmo Carlos teve recepção amarga de parte do público, outros artistas brasileiros realizaram ali show inesquecíveis, mesmo com a discrepância de infra-estrutura entre artistas nacionais e internacionais. O cenário dos internacionais era melhor e quase megalomaníaco em alguns casos (a banda AC/DC fizera questão de ter no cenário um imenso sino de 6 toneladas, que teve que vir de navio, para que durante a apresentação da banda ele soasse no começo da música "Hells Bells") e o som, durante os shows internacionais, era bem mais alto.
Pouco acostumados com shows de grandes proporções, uma banda de Brasília que tinha apenas dois discos no currículo - os Paralamas do Succsso - improvisaram dois vasos de samambaias como "cenário" do palco e mandaram ver um show contagiante, que os projetou Brasil afora. Baby Consuelo (depois Baby do Brasil, atual Baby de Jesus, amanhã não sei) com a presença em sua banda de seu marido na época, o guitarrista Pepeu Gomes, conseguiu ser aplaudida até por roqueiros empedernidos após uma versão incendiária do clássico "Brasileirinho". Blitz (ainda na ativa), Lulu Santos e Barão Vermelho (com Cazuza) levaram o público ao delírio.

Outro show inesquecível foi o do dia 13, quando Rod Stewart encerrou a noite fazendo todo mundo cantar e dançar seus clássicos - "Sailing" foi cantada por mais de 100 mil. Lembro ainda de quando Rod levou uma versão super roqueira de "Twisting the night away", um dos clássicos de seu ídolo, a lenda soul Sam Cooke. Neste mesmo dia ainda tivemos as Go Go's, um grupo californiano só de mulheres, e a apresentação da alemã Nina Hagen, que surpreendeu quem não a conhecia com um ótimo show.

Mas também não consigo esquecer da chamada noite do heavy metal. Não era pra menos: no mesmo dia 19 de janeiro estavam escalados Whitesnake, Scorpions, Ozzy Osbourne e, fechando a noite, AC/DC. Ouso dizer que, mesmo com toda a chuva que caiu na véspera e durante o dia - que transformou a cidade do rock num imenso lamaçal - nunca mais os metaleiros terão aqui no Brasil uma noite tão boa e representativa do gênero. Os show foram excelentes, com alguns detalhes curiosos, como a galinha entregue a Ozzy Osbourne - que, reza a lenda, gostava de morder galinhas vivas no palco para beber o sangue - por alguém da fila do gargarejo. Bons tempos aqueles em que não existia plateia vip composta por celebridades entediadas à frente dos outros... E também a irresistível foi a apresentação do AC/DC, com um show de guitarra de Angus Young, coroando a apresentação com tiros de canhão em "For those about to rock - we salut you".

Enfim, foram 10 dias de muita música, paz e chuva. Após o festival, tornou-se comum que as grandes bandas pop incluíssem o Brasil no roteiro. Quem trabalhava com eventos amadureceu da noite pro dia e teve que se profisionalizar, com o tamanho e os números do festival.

Após 1985, houve ainda mais duas edições do Rock in Rio por aqui: a segunda, em 1991, no Maracanã, e a terceira, em 2001, de novo em Jacarepaguá. Com o preço do dólar nas alturas e as dificuldades enfrentadas, Medina levou a marca para a Europa e em 2004 houve o primero Rock in Rio Lisboa, de novo um sucesso de público. Hoje já há também o Rock in Rio Madri, na Espanha e para o ano que vem há a possibilidade de mais edições, na Polônia e...de novo no Rio. É o desejo de Medina, que está em negociações com a prefeitura do Rio para conseguir um local para seu festival que tornou-se um evento planetário.

Quem esteve presente em qualquer das edições do festival - e enfrentou as longas distâncias, a cerveja quente, a lama etc - sabe que valeu a pena. De minha parte, os shows inesquecíveis que vi naquele janeiro de 1985 só me fazem repetir um dos slogans do evento: eu vou!