quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Toyota Hylux 2010: a história que inspirou o comercial

Como fazer uma propaganda criativa a fim de chamar a atenção das pessoas, num tempo de mídias digitais, avalanche de informações vindas de todos os cantos e atenções dispersas? Dia desses, assistindo à TV, me chamou a atenção o anúncio de um carro da Toyota, o modelo Hylux 2010 - "Hylux Invencível". Gostaria aqui de fazer um breve comentário sobre o comercial, cuja história foi inspirada num fato real acontecido no Brasil do século passado: uma época sem internet, sem televisão, e no qual a mídia mais poderosa era o rádio.

Dê uma olhada no comercial abaixo. Um homem, pilotando um pequeno avião (daqueles que, até bem pouco tempo, chamaríamos de teco-teco), enfrenta uma grande tempestade. Ele deseja aterrisar, mas não há nenhum aeroporto à vista. O que fazer? Ele faz contato com alguém, que imediatamente aciona um grupo de ajudantes - todos eles dirigindo o tal "Hylux invencível". As cenas seguintes mostram os carros desbravando um território irregular (sim, para chegar ao local que desejam, eles não dirigem por estradas convencionais, mas por morros e descampados). Enfim, chegam a um local no qual, enfileirados, deixam os faróis ligados. Do céu, o piloto consegue ver a iluminação deixada pelos carros e consegue aterrisar no local, seguido de grande comemoração. Slogan da publicidade: "Você não sabia que uma pick-up poderia percorrer tantos caminhos".



Corta para a década de 1940. O rádio vivia sua era de ouro. No começo da década, o governo Vargas emcampa a Rádio Nacional, o primeiro veículo com um grande poder de penetração em todas as grandes regiões brasileiras. Era a "TV Globo" da época. Seu poder e alcance seria posto à prova numa noite, na qual um avião da Força Aérea Brasileira - um Boeing b-17 - depois de cruzar a Floresta Amazônica com 14 pessoas, viu-se sem conseguir pousar no aeroporto de Campo Grande, devido à queda de energia no local. Alertado sobre o drama do avião sem local para pousar, um oficial da base aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, telefona para a Rádio Nacional e pede que o locutor transmita uma mensagem aos moradores da região:

"Atenção, Campo Grande! Atenção, Campo Grande, em Mato Grosso! Uma fortaleza voadora da FAB precisa aterrisar, mas o campo de pouso está às escuras. Os moradores da cidade devem ir com seus automóveis para o aeroporto a fim de iluminarem as pistas de pouso com seus faróis."

Aquele pedido, feito no estúdio da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, atravessou as regiões e chegou aos moradores de Campo Grande, que acataram o pedido. Apenas meia hora depois, o Boeing da Força Aérea conseguiu pousar em uma pista do aeroporto, iluminada por faróis de dezenas de automóveis.

Obviamente não eram todos utilitários como o modelo da Toyota. Estávamos na década de 1940, lembram? Com certeza a maioria dos motoristas que ouviu o locutor pelas ondas do rádio também não precisou subir montes e caminhos inóspitos para chegar ao local, preferindo pegar a rodovia local. Essas liberdades poéticas só estão no anúncio da Toyota e no mundo da publicidade. O caso real de Campo Grande, porém, virou lenda e foi contado de pai pra filho nas décadas posteriores (a história pode ser conferida no livro Rádio - veículo, história e técnica, de Luiz Carlos Ferrareto). Até chegar certamente aos ouvidos de um publicitário no ano de 2010, que utilizou o fato como inspiração para um criativo comercial.

Duas lições ficam para quem se interessa por comunicação: primeiro, que tenham ciência do grande poder de penetração do rádio na primeira metade do século XX. Segundo, que boas histórias - ainda que aumentadas ou "distorcidas" para conseguir um resultado mais sedutor -, serão sempre fortes componentes para a indústria da propaganda e o entretenimento.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meus passeios com Tuco: no CCBB, junto ao "poço dos desejos"

Pra quem ainda não foi ao CCBB visitar a imperdível exposição do Islã - a mostra se encerra no dia 26 de dezembro, então corram! - um artefato da decoração, logo no hall de entrada, chama a atenção. Trata-se da reprodução de um pequeno chafariz com os traços da cultura islâmica. Há ali também o cenário de uma entrada de mesquita, que atrai jovens e adultos para tirarem fotos. Mas o que tem mais atraído a atenção da molecada é o tal chafariz, com água de verdade e...repleto de moedinhas dentro. Seria um poço dos desejos?

Não sei quem jogou a primeira moedinha dentro do "poço" e fez um desejo, nem tenho certeza se a ideia do poço dos desejos, dentro de nosso imaginário ocidental, veio da cultura islâmica. O interessante é que o tal poço, desde o começo da exposição, revelou-se um grande sucesso, e chegou até a virar notícia dia desses no Globo, que chamava atenção para o fato de que não só crianças, mas também adultos, ao adentrarem o hall do CCBB, reservavam uma moedinha para jogar no poço e fazer um desejo. Prova de que, em tempos nos quais o realismo invade nosso cotidiano de forma violenta, na forma de invasões de favelas e carros incendiados, não há nada de errado em apelar um pouco (nem que seja só um pouquinho...rs) para que nossos desejos se concretizem: sejam eles de paz, de mais grana, um novo emprego, a busca por um novo amor etc.

Confesso que resisti à tentação de jogar uma moeda no poço. Só que, quando meu filho olhou para aquelas moedinhas dentro do local e quis saber qual o motivo, insistiu para jogar uma moeda também. Gostei da brincadeira e coloquei a mão no bolso. Havia apenas uma moeda: de 1 real. A maioria das moedas no poço decorativo não chegava a 25 centavos...mas, ora, qual o pai há de resistir a brincadeira tão lúdica?

Expliquei ao Tuco para antes fechar os olhos, pensar num desejo e jogar a moeda.
Antes, ainda olhei para ele e brinquei: "cuidado com o que vai pedir, heim! papai te deu a melhor moeda".

Tuco fez direitinho o que ensinei: se aproximou do poço, fechou os olhos (um tanto rápido demais) e jogou a moeda de 1 real lá dentro. Voltou feliz. Dei a mão a ele para continuarmos andando. Mas não resisti à tentação de perguntar-lhe o que havia pedido.

"Um salsichão".
"O quê?!"
"Sim, papai. Pedi um salsichão!"
"Mas com tanta coisa pra pedir, Arthur, você me vem com um salsichão!"
"Mas eu gosto de salsichão..."

Foi aí que percebi que seria demais pedir desejos "mais elevados" a uma criança de 5 anos, que adora brincar, ir à piscina, ver desenhos de super-heróis e...comer salsichão!

Naquele dia nem vimos a exposição completa. Era a primeira semana e o CCBB estava lotado. Mas, como sempre, valeu o passeio. No fim de semana, renidos à mesa, na casa de meus pais (que se divertiram com a história), contei de novo para minha irmã, que estava ali com sua filha Juju, de 4 anos. Minha irmã riu muito e chegou a dizer, olhando para o Arthur, "Só você, Tuco, só você...rs".

Só ele? Será? Não resisti e perguntei à Juju, que ficou interessada na história do poço dos desejos, qual seria o pedido dela, quando visitasse a exposição.

Julinha nem pensou muito: "um queijinho no espeto!". Olhei para minha irmã, que também riu com a resposta da filha.

E seguimos com nosso fim de semana. Afinal, nada como o desejo inocente de uma criança - um desejo ainda livre de tanta brutalidade e banalidade cotidiana - para nos permitir um pouco de felicidade numa tarde quente do Rio.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Flanando pelo Centro do Rio, com Keith Haring e o "grande líder".

Quarta-feira de outubro. Final do Festival do Rio. Perambulo pelo Centro da cidade, visando conferir a exposição de Keith Harring e pelo menos algum filme do festival. Confiro o trabalho de Keith, um grande artista que levou seus desenhos aos metrôs e depois às ruas de Nova York, morto em decorrência da aids em 1990. Genial. Haring era uma talentoso desenhista, nascido na Pensilvânia, que virou um grande artista ao mudar-se para Nova York e ingressar na School of Visual Arts. Observando a efervescente e alternativa comunidade artística, Haring encontrou nos corredores do metrô de NY o espaço ideal para aumentar seu público: ali, ao notar painéis de publicidade vazios, cobertos por papel preto fosco, pensou: é ali que vou deixar minha arte. Aos poucos as pessoas começaram a parar, entre a espera de um trem e oputro, para observar aquele rapaz tímido, que às vezes chegava a pintar quarenta "desenhos de metrô" num só dia, segundo o belo livrinho que é dado ao visitante na exposição, "O livro da vida".

Keith Haring morreu cedo, aos 31 anos. O artista se foi, mas sua arte, que pulou os muros da universidade e invadiu ruas e metrôs, está viva em exposições e também no cenário livre das ruas de Nova York, como o famoso painel Crack is Wack.



Saio da Caixa Cultural, onde rola a exposição, e caminho em direção ao Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia. É meu refúgio em período de festivais: ali sempre tem filmes razoáveis e com lotação não esgotada - quem mora na Zona Norte e decide conferir um bom filme em Botafogo sabe que a chance de voltar pra casa após dar com um "esgotado" na fila do cinema é bastante grande.

O filme que quero ver já foi escolhido com antecedência. Trata-se de "Um espetáculo para o grande líder", documentário em tom fake dinamarquês que retrata a viagem de um grupo de atores à Coreia do Norte com o objetivo de apresentar uma peça, visando um intercâmbio cultural entre os dois países. No entanto, o tal "intercâmbio" é apenas um pretexto para penetrar num dos regimes mais fechados do mundo: a proposta do diretor Mads Brügger(e também narrador do filme), é apenas uma: expor e denunciar a ditadura coreana ao resto do mundo. Como? Através daquela que para ele é uma grande forma de contestação: a comédia.




Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2010, o filme é na verdade um exercício de estilo no qual qualquer menção à objetividade ou imparcialidade deve ser jogada de lado. O tal espetáculo a ser preparado para o grande líder é uma comédia no estilo do teatro bufão, onde os únicos atores são dois jovens, Jacob e Simon, de origem coreana e que foram adotados por dinamarqueses desde cedo. Assim, o diretor e sua troupe conseguem entrar sem problemas na Coréia do Norte.

Sem problemas, mas com vigilância total. É escalada uma senhora que irá seguir os passos do grupo por onde forem. A senhora se afeiçoa por Jacob, o mais jovem dos atores, que também é deficiente, algo a princípio não tolerado na Coreia. Há uma cena hilária logo no começo, quando os dois atores se apresentam num parque coreano para uma comitiva de burocratas norte-coreanos - todos estes fazendo cara de pasmo total ante a bufonaria apresentada no palco, com direito até à versão de "Wonderwall", do Oasis, ao final. Pressentindo a tragédia, o diretor começa a falar em fazer as malas e voltar para a Dinamarca, quando...o espetáculo é aprovado!

Mas, na Coréia do Norte, nada é tão simples. Sob pretexto de tornar a peça mais palatável para o público norte-coreano, os burocratas do partido começam a dar palpites recorrentes no espetáculo, até quase o desfigurarem por completo. Apesar das tentativas de argumentação, o diretor segue as recomendações dos burocratas. Chega uma hora em que todos da equipe parecem estar representando: os dois atores, que preparam a peça sob vigilância, o diretor e equipe, que seguem seu roteiro de visitas aos marcos da ditadura norte-coreana, e até os burocratas, que representam, fidedignamente seu respeito supremo ao "grande líder", o ditador norte-coreano Kim Jong-il.

O mais impactante está por vir. Muito bem tratado pelo povo norte-coreano, o deficiente Jacob (de raízes coreanas, vale repetir) identifica-se com o povo e começa a questionar as reais intenções do diretor, que pelo menos na narração em off, trata sempre de desmistificar o cenário norte-coreano e sua ditadura socialista. Ao serem convidados a assistir uma marcha gigantesca de soldados coreanos, "em homenagem ao grande líder e contra o imperialismo norte-americano" Jacob recusa-se a bater palmas e a saldar com a mão estendida e punhos cerrados a marcha, deixando o diretor desconcertado. Os dois chegam a discutir: o ator manda o cineasta parar de mentir; ao que o diretor retruca que deve continuar mentindo, "para o bem do filme".

Ao final a peça finalmente é apresentada, com todos os cortes, modificações e censura efetuados pela equipe de burocratas. É um sucesso. Na despedida, a senhora responsável por acompanhar diariamente a equipe ensaia um choro e abraça Jacob. O diretor ainda deixa uma cartada final para este últimos momentos, ao tentar fazer Jacob perguntar à senhora norte-coreana onde ele poderia encontrar deficientes como ele, já que em toda a passagem pelo país ele não havia visto nenhum. Mas Jacob deixa a pergunta pela metade, e a senhora coreana dá uma resposta evasiva. Ao subirem os créditos, uma pergunta incômoda não pode deixar de ser feita: quem manipula quem na obra de arte? E na vida real?

Saí do cinema satisfeito com o instigante filme e com uma pequena dúvida: seria possível a arte de um artista como Keith Haring - homossexual, e que representou muito de sua arte nas ruas? Não teria sido mais um a ser perseguido pelos acólitos do "grande líder"? Fica a questão. A história já demonstrou que a arte pode se desenvolver em qualquer espaço, mesmo em regimes totalitários. Mas para que ela floresça de verdade e alcançe o público, é sempre bom optar pela democracia. Mesmo sendo esta, a exemplo da arte, sujeita às mais diversas "representações".

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Marginal Interrompido, ou O fascínio e o vício das redes sociais

Caro leitor: por pouco você não lê esse blog com outro título. O motivo de minha ausência por quase dois meses (uma eternidade, em se tratando de um blog!) foi o fato de o terem confundido inadvertidamente com um blog de spams (?!). Sim, meus caros, este humilde espaço, que é totalmente a favor da liberdade de expressão, foi rigorosamente fechado com tranca e tudo por pouco mais de um mês, enquanto os investigadores do BLOGGER decidiam se ele era realmente um 'spanador" ou não! Que situação...

Até pensei em criar outro blog, alternativo, com o nome de "Marginal Interrompido", na esperança de que o restaurassem mais rápido. Mas enfim, estou de volta, para gáudio de alguns e desdém de outros, pronto para discutir discutir comunicação, música, cinema, cultura pop e o que mais rolar. Vamos que vamos!

Por hora, como o tempo é curto, gostaria de discutir rapidamente sobre um tema que é pule de 10 em qualquer discussão sobre o papel da Internet e das mídias sociais em nossa terra brasilis: a adesão incontrolável de grande parte dos internautas brasileiros aos sites "sociais". Sim, nosso país apresenta um dos maiores índices do mundo no número de adeptos de redes sociais como orkut, facebook, twitter sonico, myspace etc.

Não há dúvidas de que a Internet deve ser encarada hoje como uma nova mídia que apresentou uma mudança não só tecnológica, mas também cultural e comportamental em grande parte do mundo conectado. Hoje já se comenta sobre como será o futuro comandado pelos chamados "nativos digitais", ou seja, os jovens nascidos no começo dos anos 90 e que cresceram com a internet por perto. São jovens que fazem parte de uma geração multitarefas, que não respeitam hierarquias, veem muitas diferenças entre ler um livro físico e outro online, acreditam no download para obter músicas, vídeos e filmes imperdíveis e dão de ombros para os tradicionais direitos autorais - para eles, copyleft é algo que diz muito mais do que o "antigo" copyright (todos os direitos reservados).

(Que direitos, se a internet é livre para todos? Uma das intenções deste blog é discutir comunicação e filmes, músicas, livros que este blogueiro acha interessante e gostaria de compartilhar com quem passa por aqui. Uma coisa é copiar um artigo de um jornalista ou escritor e publicar como se fosse de minha autoria, o que seria lamentável; outra é buscar discutir artigos e citar o nome do autor, que é o que faço quando comento artigos ou deixo links para vídeos do youtube. Ajudando a propagar coisas interessantes para quem se interessa por cultura, e não propagando spams por aí afora inadvertidamente... ouviu, Blogger?)

Mas voltemos ao ponto que realmente interessa. Nesta nova sociabilidade advinda com as mídias digitais, muitos internautas ficam viciados nesse admirável mundo novo, e já não conseguem imaginar suas vidas sem o acréscimo das mídias sociais. Mas será que a felicidade está mesmo em viver conectado? Há algum tempo atrás havia um anúncio de telefone celular que dizia, "já não dá pra viver hoje sem ter um celular!" Como assim? É verdade que há pessoas até paranóicas, que tem não um, mas três ou mais celulares com números diferentes (família, trabalho, namorada, amante...). Mas também há gente que só usa o aparelho para o essencial - fazer ligações telefônicas, lembram dessa função?

Com as mídias sociais ocorre algo parecido. Pessoas que ás vezes deixam de ir às ruas encontrar um amigo, não aparecem em determinado evento, justamente para "atualizar o orkut" ou "tuitar" a manhã ou a tarde inteira. Sim, meu lado conservador poderia mandar para o diabo que as carreguem as tais redes sociais, mas meu lado marginal concorda que há ali muita coisa interessante - a despeito do grande número de abobrinhas nos trend topics do Twittter.

Há coisa de dois ou três meses a Época lançou um caderno especial sobre as redes sociais. Havia ali um artigo que informava sobre um suicídio coletivo no Facebook. O tal "suicídio" nada mais era que a decisão de alguns internautas americanos em abandonar o site, incomodados com a falta de privacidade. Muitas pessoas se esquecem de que as informações ali contidas são compartilhadas por milhares, milhões, e uma opinião preconceituosa - ainda que seja uma piada - pode repercutir mal até entre os patrões e custar o emprego de alguém. O fascínio desmedido e sem critério pelas novas redes sociais deve ser um alerta para os desavisados. Cada mídia é o que a gente faz dela.

Por hora, deixo com vocês - para rir e pensar - um cartum de um autor que admiro bastante, não fosse ele também um verdadeiro "marginal" entre os desenhistas/cartunistas/autores de quadrinho brasileiros. Sim, é difícil classificá-lo, pois o cara é até cineasta, e já cometeu pérolas como "Deus é pai". Estou falando de Allan Sieber, criador da série em quadrinhos "Preto no branco", do blog Allan Sieber talk to himself show. Recomendo o site e reproduzo dali a provocante história abaixo.



Eu, de minha parte, vou acabar esse post e abrir um livro. Depois vou escutar música e dar uma caminhada. São coisas boas que a vida oferece - não desprezo as novas mídias, mas acredito que as melhores "redes sociais" são aquelas formadas quando encontramos com nossos amigos de verdade.

Mas eu volto. Até o próximo post!

sábado, 31 de julho de 2010

Playing for change: a música das ruas por um mundo melhor

Na saída do metrô da Carioca, no Centro do Rio, há um homem que toca diariamente seu saxofone há mais de 25 anos.

No Central Park, em Nova York, percussionistas africanos reúnem-se toda semana para levarem um som juntos. Nunca faltam músicas do artista Fela Kuti, o lendário músico e ativista político que criou o estilo musical afrobeat.

Nas pedreiras da UniRio, no bairro carioca da Urca, todo sábado pela manhã alunos e mestres da Escola Portátil de Música reúnem-se para tocar clássicos do choro. Alguns deles estarão, no dia seguinte, na praça São Salvador, no Flamengo, tocando por prazer clássicos do samba e choro. Vários ouvintes saem dos subúrbios e dirigem-se ao bairro apenas para escutar as músicas.

Em Portugal, no centro velho de Lisboa, Dona Rosa, uma senhora cega de 53 anos, apresenta-se num canto da Rua Augusta todos os dias cantando fados. Descoberta por um empresário, ganhou fama e apresenta-se em outros países europeus. Mas não largou a rua.

Em São Francisco, na Califórnia, na agitação do Centro nervoso, outra praça consegue a proeza de fazer trabalhadores apressados pararem por uns instantes para curtirem o som que sai daquelas guitarras e contrabaixos: rock n' roll. Na mesma cidade, no Pier, se você passar por lá num fim de semana, pode dar de cara com um velho hippie munido de um violão a cantar "If you are going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair", o clássico pop de Scott Mackenzie.

Em 1994, Vedran Smailovic, integrante da Orquestra da Ópera de Sarajevo, após testemunhar a morte de 22 pessoas vítimas de uma explosão durante a Guerra da Bósnia, decidiu usar sua música em prol da paz, tocando na rua por 22 dias consecutivos em homenagem aos mortos.

Numa estação de metrô nova-iorquina, dois monges vestindo túnicas brancas cantam, e tocam violão para os passantes. Não raro dezenas de pessoas costumam parar por alguns momentos apenas para ouvir os monges.

Algumas destas passagens acima foram presenciadas por mim no Rio, onde moro, ou em viagens, como os músicos de rua de San Francisco. Outras eu soube pelos jornais e revistas. São músicos que tocam nas ruas pelos mais variados motivos; mas que, por fazerem sempre um bem à alma de quem passa em frente a eles, nos leva pensar sobre o poder da música como confraternização universal, e na esperança por um mundo melhor. A música é também uma forma de comunicação, e a comunicação, a princípio, evoca a ideia de comunhão, ou seja, uma forma de compartilhar experiências. É mais ou menos essa a ideia do projeto "Playing for Change", criado pelo produtor musical americano Mark Johnson.

Durante dez anos, Mark percorreu o mundo munido de um estúdio de gravação móvel e saiu gravando músicos de rua. A ideia é forte e é a mesma que nos faz parar em qualquer viagem para escutar estes artistas, mesmo sem conhecer o idioma, o poder da música. (Sim, sim, eu sei que você pode ter pensado que usar a música para transmitir mensagens de "comunhão", "congraçamento", pode não dizer muito nos tempos cínicos em que vivemos, e quantas vezes não deparamos com picaretas sem talento tocando nas ruas por uns trocados? Mas a intenção de Mark Jonhson é encontrar e registrar músicos que estão nas ruas não pela fama ou por dinheiro, mas pela alma. Ou seja, por um sentimento irresistível de amor à música que os impele às ruas em lugares tão díspares como São Paulo ou Marrocos).

Segundo escreveu o jornalista Leonardo Lichote, em matéria para o jornal O Globo ("Muitos sons, uma utopia"), munido de seu aparato, Johnson desde então roda o mundo gravando artistas de rua - negros, brancos, árabes e muçulmanos, violoncelistas europeus e percussionistas indígenas - em seus habitats, interpretando hinos pop de paz, tolerância, amor e apelos por um mundo melhor.

Os registros já renderam um documentário em 2003, com músicos de apenas três cidades americanas, e o CD/DVD "Playing for Change: Songs around the world", com cantores e instrumentistas das ruas de todo o mundo. Inclusive do Brasil: este ano Mark Johnson esteve por três semanas no Rio e em Salvador, a procura de músicos de rua dispostos a gravarem sucessos pop. No Rio, recebeu a ajuda na empreitada do Grupo Cultural AfroReggae, que foi convidado a colaborar com o braço filantrópico do projeto, a ONG "Playing for Change Foundation", responsável pela criação de seis programas de ensino de música no nepal, África do Sul e Gana.

Deixo aqui a música "Stand by me", sucesso no youtube, no formato atual do projeto, ou seja, tocada por músicos de todo o mundo. Como explica Johnson: "Estava em Santa Monica, na California, quando ouvi Roger Ridley cantando "Stand by me" a um quarteirão de distância. Corri para assistir a sua apresentação e nunca mais fui o mesmo. Sua voz, alma e paixão nos levaram a buscar pelo mundo outros músicos para adicionar à sua gravação de "Stand by me" - essa canção transformou o projeto "Playing for Change", de um grupo pequeno de indivíduos para um movimento global de paz e compreensão. A faixa trás 35 músicos de todo o mundo. Eles podem não ter se encontrado nunca, mas conversaram pela música".

Conversaram pela música. A última frase de Johnson me faz lembrar aquelas histórias da música popular que de vez em quando ouvimos, nas quais músicos que jamais se eencontrariam se não fosse a música, ou que nunca falaram o mesmo idioma, de repente promovem encontros musicais notáveis. E faz-nos lembrar que, à despeito das diferenças culturais e das guerras inúteis, o ser humano, em todo o mundo, é muito parecido e compartilha os mesmos desejos de paz e por um mundo melhor.

"You may say I'm a dreamer", como diria Lennon. But I'm not the only one, como comprovam os 25 milhões de acessos a esta canção no youtube.

sábado, 17 de julho de 2010

Essa música me lembra uma história: Doce de coco, ou Uma homenagem a Paulo Moura

Eu devia ter uns 11 ou 12 anos, não tenho mais certeza. Mas foi mais ou menos nesta época que meus pais se mudaram. Continuamos no mesmo bairro, Ramos, mas um pouco mais distante de minha escola, onde eu terminava o antigo 2º grau. Naquele ano eu comecei a voltar pra casa, após a escola, por um novo caminho, com alguns companheiros de turma na maioria das vezes, sozinho outras tantas. Saía da escola lá pelo meio-dia e no caminho passava por outra "escola", ou melhor, a quadra da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Pertinho da escola de samba, havia uma casa da qual eu sempre que passava em frente diminuía os passos. Da rua, dava pra escutar perfeitamente o som que vinha de dentro: um som de um instrumento de sopro - um saxofone?, uma clarineta? eu não sabia. A pessoa que tocava aquele instrumento estava nitidamente praticando, ensaiando com afinco para mais tarde tocar para a plateia de dançarinos de uma gafieira ou para os bolsos mais afortunados presentes em uma casa mais sóbria, como o Teatro Municipal.

Somente mais tarde eu fui descobrir quem era a pessoa que soprava elegantemente aquele instrumento, e que me fazia diminuir os passos para ouvir mais um pouquinho de sua arte. Tratava-se de Paulo Moura, no curto período em que o genial músico morou no meu bairro, no começo dos anos 1980.

Creio que foi minha mãe que me contou da presença daquele músico que eu pouco conhecia. Mas a certeza de que havia um músico respeitado no meu bairro me fazia querer conhecer um pouco mais do trabalho dele. Algum tempo depois, uma de minhas tias, que adorava comemorar aniversários de forma diferente, avisou à família que iria comemorar naquele ano na Lapa. O local escolhido era o Circo Voador, onde todo domingo havia a "Domingueira Voadora", com o maestro Severino Araújo comandando a Orquestra Tabajara num baile bastante concorrido. Paulo Moura não estava lá, mas a grandeza do naipe de metais da orquestra me fez lembrar daquele tempo passado.

Mais tarde meu pai apareceu em casa com um disco de gafieira de Paulo Moura. Eu já era adolescente e, através de meu pai, um grande fã de músicas de orquestras, bossa nova e MPB, comecei a ficar mais eclético e expandir meu gosto. Uma música do disco me agradava muito. Era a primeira faixa, o fox "Mulher", de autoria de Custódio Mesquita e Sadi Cabral, um grande sucesso dos anos 40. Os dois ou três primeiros minutos da gravação resumiam-se a um magnífico solo de clarineta de Moura, para somente depois entrar a voz do crooner. Perdi a conta de quantas vezes escutei aquela gravação. Outra canção que eu adorava ouvir do disco era o choro "Doce de coco", um choro simplesmente lindo.

Sim, eu sei, não são histórias brilhantes, nem muito originais. Mas resolvi contá-las depois que ouvi a notícia da morte de Paulo Moura, aos 77 anos, na clínica em que estava internado para se tratar de um câncer. Aquele homem que sem o saber alegrou meus retornos pra casa após a escola em meus tempos de garoto, se foi para sempre. Fico imaginando quem, como eu, não sorriu, dançou, amou, brigou, conversou ao som de um solo de sax ou clarineta de Paulo Moura. Quantos casais não se formaram depois de dançarem enlevados um fox-trot tocado por Paulo? Quantos brasileiros subitamente e sem o perceberem deixaram-se seduzir pelos sublimes arranjos da música instrumental dos discos do maestro, naquelas belas canções sem palavras? Quantos ignoram até hoje que o talento de Paulo Moura esteve presente em quase todos os grandes momentos de nossa música nas últimas décadas?

No ano passado, dei de presente ao meu pai o disco "Dois panos para manga", o belo encontro musical de Paulo Moura e João Donato, apenas piano e clarineta em versões instrumentais para clássicos brasileiros e americanos. Escutamos juntos o CD em casa e no carro. Não havia dúvidas: aquele menino que nascera em São Paulo na década de 1930 e que por algum tempo morara em nosso bairro era realmente genial.

Paulo Moura se foi no começo desta semana. Morreu sereno e tranquilo como sempre foi. Li nos obituários de sua morte que ninguém jamais se lembrara de tê-lo visto levantar a voz com algum músico ou esbravejar com alguém. Era de uma elegância ímpar, nos gestos e no instrumento. Pouco antes de morrer, Wagner Tiso e vários músicos amigos de Paulo o visitaram na clínica São Vicente, nde estava internado. Ali, já bastante fragilizado, Paulo pegou a clarineta e soprou por uma última vez "Doce de coco".

Hoje em dia só passo por aquela rua de carro, apressado entre o trabalho e a casa onde moro. A casa onde Paulo Moura morou ainda está lá. Sei que nunca mais ouvirei o som daqueles sopros musicais vindos lá de dentro. Mas a lembrança daquelas caminhadas de volta pra casa e do lento diminuir de passos apenas para ouvir o músico, ficarão comigo para sempre.

Adeus, Paulo Moura.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma atração imperdível antecede "Toy Story 3"

Finalmente consegui assistir a um dos filmes mais esperados do ano: "Toy Story 3". Quem acompanha o blog sabe que este fã de cinema que vos escreve curte bastante o cinema de animação, ainda mais se for na companhia do filho, Arthur, de 5 anos. Apesar da fila de ingressos quilométrica no UCI Kinoplex do Norte Shopping, tudo correu bem! Realmente a Pixar conseguiu fechar a série de filmes com chave de ouro. Mais que as divertidíssimas peripécias envolvendo o caubói Woody, o astronauta Buzz Lightyear e seus impagáveis amigos de brinquedo - agora acrescidos do casal Barbie e um "será que ele é" Ken (ou "metrossexual de plástico", como é chamado por um dos brinquedos), "Toy Story 3" emociona mesmo ao mostrar com rara felicidade momentos de solidão, de amadurecimento e (mais que tudo) a importância do companheirismo e da amizade.

No entanto, quem for ao cinema conferir o filme, deve chegar cedo. Pois o filme em curta-metragem que antecede "Toy Story 3", o adorável "Day & Night", também da Pixar, é simplesmente imperdível. Trata da história de duas nuvenzinhas - uma representando em seu interior o dia e outra representando a noite - que se encontram pela primeira vez, se estranham bastante e no final fazem as pazes.

Dito assim parece um tanto redutor. Mas acredite: vale a pena assistir. O belíssimo curta é um dos melhores já realizados pela Pixar, com momentos de rara felicidade visual ao juntar o encontro a princípio vacilante e depois feliz entre o dia e a noite. A nuvem dia que apresenta a garota de biquíni na praia, as flores num jardim, as crianças brincando no sol, um belo arco-íris; a nuvem noite que a confronta com as estrelas e um luar deslumbrante, os fogos de artifício numa comemoração, um belo castelo iluminado com centenas de lâmpadas. Aos poucos, as nuvens percebem que a beleza está em cada um de forma única.

Uma única frase dita pelo narrador em todo o filme resume este belo conto. Diz mais ou menos assim: "Tudo aquilo que representa o novo é motivo de medo e apreensão." Ora, por que este medo? Se repararmos bem, a frase pode servir a toda a humanidade e em especial à história da arte, onde visionários que ousaram enxergar á frente de seus tempos foram incompreendidos e alguns até mesmo perseguidos. O ser humano é por demais conservador e se apega com facilidade a fórmulas fixas. Bendito aqueles que ontem, hoje e sempre foram corajosos o suficiente para levar o novo ao mundo, fazendo com que a humanidade avance.