"I'm back!", gritava James Brown em inúmeros shows e também no começo do hit "Get op off that thing", clássico das pistas de dança dos anos 70, em plena era da discoteca, fenômeno cujo estilo musical Brown ajudou a formatar. Fazendo um gancho com o último post - que falava sobre as cinebiografias de dois grandes astros negros americanos - Brown e Jimi Hendrix), aproveito para dizer que sim, amigos, eu consegui assistir ao filme sobre James Brown ("Get on up", no título original), num sábado à noite no cine Leblon, e estou aqui para contar minhas impressões.
Logo no começo do filme um avião está sobrevoando o Vietnã, em meio a bombas e turbulências. A banda de James Brown está no avião, enquanto a terra pega fogo lá embaixo. Ao chegar em terra firme, Brown dá um solene esporro a um militar do exército americano, dizendo que só sofrera todas aquelas turbulências no ar porque a banda era composta de negros. Negros que viajaram para animar brancos e negros pobres. A luta contra o racismo da sociedade norte-americana marcará sua vida e será parte constante do filme.
O filme não segue uma ordem cronológica, o que o faz fugir das biografias convencionais e lhe dá um saudável frescor. Logo no começo o filme mostra Brown dando uma hilária "palestra" dentro de um aeroporto a vários indivíduos, entre eles uma jornalista que insiste que o músico explique o que vem a ser o "groove", ou seja, aquilo que aqui no Brasil chamamos de suíngue e que seria algo impossível de se ensinar. Surge então a infância estarrecedora de Brown, ele garoto vivendo numa área rural americana bastante miserável, com pais desajustados que acabam por abandoná-lo. Brown vai viver dentro de um bordel e será ali que terá suas primeiras lições de vida...em todos os sentidos.
A descoberta da música, as passagens pela cadeia, as inúmeras mulheres, o despertar para o estrelato, tudo está lá, sem edulcorar a imagem marrenta do músico, interpretado brilhantemente na idade adulta por Chadwick Boseman (conhecido pelo filme "42, a história de uma lenda"). O filme não deixa de captar, ao lado da genialidade de Brown, o lado violento (em especial com mulheres) e contraditório de sua personalidade, como a obsessão pelo som perfeito e as inúmeras multas as quais seus músicos e equipe eram submetidos por motivos em geral fúteis. Uma sequência ótima é quando o músico, convidado para cantar em um programa de TV, descobre que não iria fechar o programa. Irritado por ter que tocar antes dos Rolling Stones, que começavam a estourar na América, Brown eletriza a plateia com uma performance sensacional. Após ser ovacionado, ele ainda passa lentamente pelos músicos dos Stones. Para um segundo. Fita-os e se apresenta dizendo algo como ser um músico negro numa terra comandada pelo mainstream branco. Depois, despede-se com um "Bem vindo aos Estados Unidos". Mick Jagger, um dos produtores do filme, jamais deve ter esquecido aquela apresentação.
Dirigido por Tate Taylor, de "Histórias Cruzadas" (outro belo filme que aborda o racismo), "James Brown" é um filme que mostras as diversas facetas de um artista genial que descobriu na música (assim como nosso Tim Maia) um maneira de lutar contra todas as adversidades e impor-se contra uma sociedade conservadora, puritana e racista. Um homem difícil de se conviver e que ao final da vida perdera quase todos os amigos. Que inventou uma forma de entreter o público em suas apresentações hipnóticas e cuja dança enfeitiçou um garoto de Indiana chamado Michael Jackson. Um músico que, como demostra o filme, evitou sozinho que negros enfurecidos com o assassinato de Martin Luther King destruíssem a cidade de Boston. Brown foi lá, discursou, cantou, dançou e acalmou os ânimos de milhares de cidadãos indignados que o assistiam ao vivo ou pela TV. Brown garantiu a paz em Boston naquela noite, o que não o impediu de ser constantemente vigiado pelo governo após gravar o clássico "Say it loud, I'm black and I'm proud".
"James Brown", o filme, estreia no Brasil no dia 5 de fevereiro. Se você gosta de música, não deixe de assistir de jeito nenhum.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Dois gênios da música, - duas biografias e uma infinita ansiedade
Get up! Stay on the scene! Marginal Conservador volta em edição extraordinária para deixar o aviso. Preparem-se, amigos!
Ainda este ano os amantes da música poderão conferir as cinebiografias de dois dos maiores astros da música pop no século XX: James Brown e Jimi Hendrix.
Mas, por hora, fiquemos com James Brown.
Brown foi um dos maiores astros da chamada black music americana e uma das maiores referências na construção da identidade negra nos Estados Unidos, um país eivado pelo racismo e que até os anos 1960 proibia negros de, entre outras coisas, a ter que se levantar num ônibus quando um branco entrava e não tinha lugares disponíveis. Em 1964, dias após o assassinato de Martin Luther King, impediu com um discurso e um show histórico que os cidadãos indignados depredassem a cidade de Boston. Grande dançarino, ainda seria uma grande influência num menino de Indiana, que imitava seus passos e sonhava dançar como ele: Michael Jackson.
E vamos torcer para que seja uma bela biografia...
Ainda este ano os amantes da música poderão conferir as cinebiografias de dois dos maiores astros da música pop no século XX: James Brown e Jimi Hendrix.
Mas, por hora, fiquemos com James Brown.
Brown foi um dos maiores astros da chamada black music americana e uma das maiores referências na construção da identidade negra nos Estados Unidos, um país eivado pelo racismo e que até os anos 1960 proibia negros de, entre outras coisas, a ter que se levantar num ônibus quando um branco entrava e não tinha lugares disponíveis. Em 1964, dias após o assassinato de Martin Luther King, impediu com um discurso e um show histórico que os cidadãos indignados depredassem a cidade de Boston. Grande dançarino, ainda seria uma grande influência num menino de Indiana, que imitava seus passos e sonhava dançar como ele: Michael Jackson.
E vamos torcer para que seja uma bela biografia...
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Quando o jornalista se acha dono da verdade
Um clichê que infelizmente acompanha o perfil do jornalista é aquele que se refere ao profissional de imprensa como um tipo arrogante. Ou melhor. um sujeito que sabe de sua responsabilidade em divulgar notícias para a sociedade e que, não raro, começa a se achar mais importante do que de fato é. Há algum problema sério para o jornalismo quando um veículo de comunicação toma suas hipóteses como verdades absolutas. Darei um exemplo curioso, que aconteceu há um bom tempo, quando eu era um recém-formado jornalista.
Eu trabalhava na assessoria de imprensa da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Havia ganhado uma bolsa de um ano para atuar como assessor de imprensa do Instituto Fernandes Figueira (IFF), em Botafogo, que até então não tinha um setor interno de comunicação social. Meu trabalho era fazer a ponte entre o Instituto, seus médicos e pesquisadores, e a imprensa, além de colaborar com o setor de comunicação de Manguinhos. Toda semana eu marcava entrevistas e recebia repórteres da grande imprensa interessados em informações para seus jornais. O Instituto até hoje é referência na área da saúde da mulher e da criança.
O ano era 1995, e o IFF, observando um problema comum entre as inúmeras jovens grávidas que diariamente apareciam no Instituto, inaugurara o departamento de gravidez adolescente. A ideia era dar apoio total - não só o pré-natal, mas também com psicólogos, de forma a ajudar àquela futura mãe tão jovem a aguardar a chegada de seu filho de uma forma mais preparada.
Eis que um diz eu recebo uma ligação de uma repórter da Globo, interessada em realizar uma reportagem sobre o departamento. Fiz o meu papel: conversei com a doutora responsável pelo setor, marquei a data e hora da reportagem e fiquei aguardando a jornalista. Ela conversaria com os médicos responsáveis pelo departamento e também com algumas meninas.
No dia marcado, ao chegar, conversamos um pouco, antes de levá-la ao setor. A repórter vinha com várias convicções antecipadas sobre as jovens grávidas. Para ela, estariam todas deprimidas com o fato de se verem grávidas tão jovens, "arrasadas" pelo possível futuro promissor interrompido de forma tão rápida.
Mas não foi isso que ela viu. Muitas jovens, se não estavam satisfeitas com a situação, tampouco se mostravam deprimidas com o fato de estarem grávidas. Algumas sorriam e se diziam ansiosas para aguardar os bebês que nasceriam dali a alguns meses. O clichê do "futuro interrompido" não havia ali.
Mas a repórter não se deu por vencida. Após conversar com várias meninas, finalmente encontrou uma que se mostrava um pouco mais distante que as outras. Bingo! Finalmente sua hipótese estava confirmada. Ela realizou a reportagem, editou e apresentou no seu telejornal do jeito que queria: aquelas meninas "tristes" estavam sendo ajudadas por uma equipe inovadora a "superar o trauma" de uma gravidez adolescente. Tenho certeza de que muitas daquelas meninas que por acaso tenham visto a reportagem na TV se perguntaram: trauma, mas que trauma?
Voltemos a 2014. Fico sabendo, num passeio pelas redes sociais, de uma notícia veiculada na edição impressa do jornal Extra, na qual o jornalista também se achou no direito de provar uma hipótese errada. A nota publicada pelo jornal era o "depoimento" que um cidadão teria dado ao repórter da revista, exaltando as obras da Transcarioca::
Jornal Extra:
“Agora a praia vai
ficar mais perto de casa”: Depoimento
Moro na praia e trabalho no Andaraí. Mas vou ser passageiro assíduo do
BRT para chegar ao meu lazer preferido: a praia. O período de obras foi de
sofrimento para quem mora onde o Transcarioca vai passar. Por isso, depois que
tudo estiver pronto, será a hora de relaxar e aproveitar.
Felizmente hoje temos redes sociais como Facebook e o Twitter, nos quais podemos nos defender. Um pouco depois da notícia publicada, o rapaz que deu a entrevista, Ubirajan Moreira, respondeu:
Facebook:
UM ABSURDO!
Modificaram tudo o que eu disse! Em momento
algum toquei no assunto PRAIA...! Falei dos atrasos no cronograma da obra, do
descaso com a população no entorno , da falta de sinalização e de segurança
(pois com a obra, alguns sinais apagaram) e tb falei que a obra não seria a
solução final pro trânsito na região ... !
Aí o babaca do repórter vai e me coloca como um
alienado suburbano que tá mais preocupado com o lazer da praia que com os
problemas gerados com a obra ...!
Até 27 de março a postagem havia recebido 13324 curtidas e 10807 compartilhamentos, confirmando que muitos se identificaram com a indignação de Ubirajan ao ver seu depoimento deturpado por um repórter de um jornal de grande circulação, que ao interferir no depoimento do rapaz, deixou de lado o jornalismo e terminou escrevendo a favor da Transcarioca. A prefeitura deve estar feliz com a propaganda inesperada.
O senso comum é um grande inimigo do jornalismo. Apostaram que Ubirajan estaria feliz com as obras, "para poder ficar mais perto da praia" Sua indignação no depoimento é visível. E o número de compartilhamentos ou curtidas que causou só demonstra que se a imprensa - que vem perdendo leitores para a internet - não se dispuser a rever alguns conceitos, ela ficará cada vez mais afastada do grande público.
Um jornalista não diz a verdade, pois não existe verdade absoluta. Mas ele deve procurar a versão mais próxima dos fatos. Ao apostar em ideias pré-concebidas e mesmo preconceituosas, perde o público, que recebe uma informação falsa, e perde o jornalismo, que ruma contra a realidade.
sexta-feira, 21 de março de 2014
A notícia do jornal e a notícia nas redes sociais - e a polêmica do lixo no Rio
Há uma coluna na revista Veja intitulada SobeDesce, cujo objetivo é listar, dentre os assuntos mais comentados da semana ) aqueles que teriam tido uma repercussão positiva (Sobe) ao lado de outros que tiveram repercussão negativa (Desce). Tudo segundo a ótica editorial da revista, ficamos combinados assim. Na edição do dia 12 de março de 2014, a seguinte nota chamava atenção:
DESCE
Eduardo Paes
Criador de uma multa para quem sujar as ruas, o prefeito do Rio foi flagrado em um vídeo jogando lixo no chão. Ele pediu que fosse multado, mas não assumiu o erro.
Bem, a notícia já está ficando velha, mas as eleições vem aí e a internet está aqui mesmo para que não esqueçamos. Este foi apenas um exemplo da péssima atitude de quem, do alto de sua arrogância, criador de uma multa de mais de 150 reais para quem joga lixo nas ruas (aliás, neste ponto, certíssimo), se acha no direito de fazer em público o contrário do que advoga nas leis. "O prefeito porquinho" foi apenas um dos títulos mais amenos que li aqui na rede, entre comentários no Youtube, Facebook, Twitter e demais fóruns de vozes revoltadas com a atitude.
Como este é um blog que entre outros assuntos discute questões ligadas à Comunicação, vale a pena conferir outra reportagem sobre o mesmo fato - no caso, do site do jornal O Globo, sobre o fato: Vejamos um trecho da reportagem:
Em
meio à péssima repercussão, às desculpas foram hilárias. Primeiro, sua
assessoria disse que Paes estava tentando jogar o lixo em direção a uma
lixeira, fato facilmente desmontado pelo vídeo. Depois, o prefeito disse que na
hora teria jogado o lixo para algum assessor pegar e jogar no lixo. E, por fim,
tratou de multar a si mesmo, no valor de R$157,00.
Tudo isso não teria provavelmente caído no esquecimento se não fosse o Youtube. Sim, a Web 2.0 e todo seu perfil da internet como plataforma colaborativa e de compartilhamento de vídeos, informações etc levou ao estágio de hoje, no qual pessoas antes excluídas do debate público podem se manifestar a partir de seus smartphones, tablets e notebooks. Se há o lado o ruim preconizado por tecnófobos como o polemista Andrew Keen (autor de "O culto do amador"), quando uma enorme quantidade de lixo vem à tona, e em todo lugar surgem os "haters" (literalmente "odiadores", pessoas que se escondem sob pseudônimos para exalar sua raiva a todo tipo de indivíduos, mas com predileção especial a famosos), há também espaço para que outras pessoas - que não sentem medo de mostrar a cara e dizer seus nomes - possam tornar públicas situações como essa do prefeito e diversos outros desmandos do poder público. Sim, não só os jornalistas agora é que são os legítimos representantes da opinião pública.
Transcrevo abaixo um trecho da crônica "O autor coletivo", presente no livro "Futuros possíveis", de autoria de Ronaldo Lemos, advogado, debatedor do programa "Navegadores" (Globonews) e uma das maiores referências no debate sobre as novas mídias no Brasil e no mundo:
"Esse modelo de produção colaborativa está sendo apelidado de 'web 2.0'. O termo indica o desenvolvimento recente da internet, que potencializa formas de canalizar o trabalho descentralizado de voluntários. Essa nova vertente de produção cultural, ao que tudo indica, veio para ficar. Em tempos nem tão longínquos, um evento como os atentados em Londres, o tsunami na Ásia ou os ataques à Espanha, seriam não só eventos políticos, sociais e econômicos, mas também eventos de mídia. Hoje, a cobertura da mídia tradicional compete diretamente com a cobertura feita de forma descentralizada, por qualquer pessoa. Em outras palavras, a mídia tradicional ganhou um concorrente inédito historicamente: a própria sociedade"
Foi a sociedade que vazou o vídeo de Paes no Youtube a
lançou o prefeito num inferno astral. Se ele conseguirá reagir e melhorar sua
imagem, só saberemos mais tarde. Mas tenho certeza de que a partir de agora ele
ficará bem mais precavido. Ele sabe que estaremos de olho, para cada eventual
tropeço.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Lides Imperdíveis - Eliane Brum e o louco do metrô
Voltando a série "Lides imperdíveis", Marginal Conservador pede licença para ceder espaço ao texto brilhante de Eliane Brum, que abre a crônica "Escutem o louco". Escrita para a versão digital e nacional do jornal "El País", Eliane disseca o que ela classifica como "momento perturbador" do Brasil - como os recentes linchamentos ocorridos em algumas cidades, ou a vontade de alguns grupos de quererem fazer justiça com as próprias mãos - com o episódio de uma moça que foi empurrada por um homem para dentro dos trilhos do metrô de São Paulo.
Na polícia, foi revelado que o responsável por empurrar a mulher no metrô sofre de esquizofrenia. Louco, na definição vulgar. Mas, pergunta Eliane, seria apenas ele um louco num país em crescente desatino? Preste atenção na cena que abre a crônica, um momento que só repórteres experientes costumam ter a sensibilidade para aproveitar e transformar em jornalismo. Vale a pena ler não só esse lide como a crônica inteira, e depois refletir sobre nosso estado das coisas que tem tomado conta do pais.
De repente, o taxista aumentou o som da pequena TV acoplada no console do carro. No banco de trás, eu parei de ler e afinei os ouvidos. Era meio-dia da sexta-feira de Carnaval (28/2). O homem que, dias antes, havia empurrado uma passageira nos trilhos do metrô de São Paulo tinha sido preso. A mulher teve o braço amputado. O agressor sofre de esquizofrenia, destacou o apresentador de TV. “Louco”, decodificou de imediato o taxista. Doença triste, disse o apresentador na TV. Ao ser preso, continuou o apresentador, o agressor afirmou que a empurrou porque sentiu raiva. Essa parte o taxista não escutou. Algo lá fora o havia perturbado. Colou a mão na buzina, abriu a janela do carro e xingou o motorista ao lado, que tentava mudar de pista. Perdigotos saltavam da sua boca enquanto ele empunhava o dedo médio com uma mão que deveria estar no volante. Fechou a janela, para não perder a temperatura do ar-condicionado, e voltou a falar comigo. “A polícia tem de tirar os loucos da rua”. A quem ele se refere, pensei eu, confusa, olhando para fora, para dentro. Era ao louco do metrô
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Cinco canções de amor (e críticas) ao Rio de Janeiro
Neste sábado, 1º de março, começo oficial do Carnaval, é também aniversário de 449 da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade onde eu nasci e me criei. Inspirado no post sobre SP e o show "São Paulo amor e ódio", volto ao tema, desta vez com cinco canções inspiradas na cidade do Rio de Janeiro. Não só cariocas mas artistas de todo o Brasil e de fora deixaram para a posteridade músicas lindas sobre o Rio, e foram estas, de forma bem pessoal, que descrevi abaixo. Fica como homenagem deste blogueiro carioca a esta cidade que - mesmo com todo o caos no trânsito, toda incivilidade reinante e problemas diversos - ainda é, de fato, maravilhosa
1) "Valsa de uma cidade" - Antonio Maria e Ismael Neto - Coube a um pernabucano (Maria) escrever os versos de uma das mais bonitas canções para o Rio de Janeiro. Regravada inúmeras vezes (até pela Hebe!), eu a conheci na versão de Caetano Veloso em seu disco de 1987. E desde então eu não me canso de ouvi-la.
2) "Saudades da Guanabara" - Moacir Luz, Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro. De 1960 até 1975 o Rio também podia ser identificado como Guanabara. Era uma unidade da federação separada do Estado do Rio de Janeiro, em virtude da transferência da capital para Brasília. O trio fez a música - um belíssimo samba-enredo - inspirado por um sentimento nostálgico, de que durante a época da Guanabara o Rio teria passado por suas maiores e melhores transformações. O que era nostalgia tornou-se um hino de quem luta pela grandeza de sua cidade. Qual carioca não se arrepia ao ouvir os versos "Brasil, tira as as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar"")
3) "Cidade Lagoa" - Sebastião Fonseca e Cícero Nunes. "Essa cidade que ainda é maravilhosa, tão cantada em verso e prosa desde o tempo da vovó. Tem um problema vitalício e renitente, qualquer chuva causa causa enchente, não precisa ser toró". Taí uma canção que parece ter sido composta ontem mesmo, pra quem mora no Rio e conhece o cotidiano anual de chuvas fortes na época do verão. Trata-se de um samba de breque composto em 1959 e que foi um sucesso na gravação de Moreira da Silva. Traduz a ironia e o bom humor que o carioca precisa ter para lidar com coisas bastante sérias: enchentes, descaso das autoridades, mortes anunciadas. Nos últimos anos, teve duas regravações, de Jards Macalé e Monica Salmaso.
4) "Rio 40 graus" - Fausto Fawcet., Carlos Laufer e Fernanda Abreu. Lançada por Fernanda Abreu em 1992, no álbum "SLA 2 - Be Sample", a música contagiante do trio é um rap apocalíptico sobre o Rio, no qual o amor e ódio, a beleza e a feiúra, o "purgatório da beleza e do caos" de que fala a letra estão sempre juntos nessa cidade de contrastes e delimitada por áreas prestes a explodir. Zuenir Ventura já tinha cantado a bola em seu livro "Cidade partida". Com decisão, Fernanda canta "O Rio é uma cidade de cidades misturadas". Talvez, quando estas cidades misturadas se derem conta de que são uma unidade imensa e contrastante, talvez seja tarde demais para salvá-la. Mas encontraremos um jeito.
5) "Cadê a viga?" - Cássio e Rita Tucunduva. Não poderia encerrar esta pequena lista com uma marchinha. Poderia ser a manjadíssima "Cidade maravilhosa", mas essa fala por si só e aqui é considerada hors concours. Há várias marchinhas que falam do Rio (só pra lembrar de um exemplo é só repetir a clássica "Rio, cidade quen me seduz, de dia falta água, de noite falta luz") Essas composições, muitas ingênuas e lembradas apenas na época do Carnaval, tamb ém serviram para denunciar mazelas das grandes cidades. Como na campeã deste ano do concurso de marchinhas da Fundição progresso, "Cadê a Viga": os versos "Senhor prefeito, não é intriga, aonde foi que enfiaram aquela viga? " diz respeito ao sumiço das vigas da área da Perimetral, no Centro do Rio, quando mais de uma tonelada de vigas sumiram da noite para o dia, num roubo até hoje não solucionado. Taí, enquanto não choramos nossa miséria, cantamos as músicas que falam do Rio.
E para todos que pararam por aqui, um ótimo Carnaval!!!
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Estação Botafogo - minha escola de cinema
Leio no Globo desta semana que o cinema Estação Botafogo - assim como todo o grupo Estação, formado por 16 cinemas - encontra-se em crise financeira, e corre o risco de ir à falência. Não é a primeira vez que o grupo é levado a uma crise, e torço bastante para que eles encontrem uma saída. Caso isso não aconteça, seria um golpe fatal em toda uma geração de cinéfilos cariocas (dentre os quais me incluo) que aprenderam a curtir cinema de qualidade naqueles cinemas. Tanto que até uma página foi criada no Facebook (veja aqui). Muita gente aproveitou o espaço para inserir ali suas lembranças sobre o cinema. Eu, que frequento o espaço desde os anos 1980, quando havia apenas o "Cineclube" Estação Botafogo, não poderia deixar de comentar minha trajetória como frequentador do local. Até poque foi ali que passei alguns dos momentos mais marcantes de minha bagagem cultural.
A primeira vez em que estive no cinema Estação Botafogo foi para ver o filme "Blade Runner: caçador de andróides", numa noite perdida de 1987. Lembro que estava com dois amigos, e o então "cineclube" começava a receber notas da imprensa sobre sua programação alternativa. Não era um ambiente de cinema "normal". A fauna ali era visivelmente diferente de quem frequentava cinemas de rua (ainda frequentes, mas já em decadência com a corrida aos videocassetes) ou os de shoppings. Antes do filme, chegamos a comentar que alguns dos indivíduos presentes na sala de espera bem podiam ser um dos replicantes do filme de Ridley Scott. Eram apenas apaixonados pela sétima arte.
Sim, porque há aqueles frequentadores cada vez mais ocasionais de cinema - como a maioria, já que hoje em dia, com o encarecimento dos ingressos, ir ao cinema deixou de ser um hábito semanal, como era na minha infância e adolescência -, e os cinéfilos ou apaixonados não só pelo filme em si, mas por todo o contexto da obra e do ritual cinematográficos. Para essa gente, não basta ver um filme e depois comer uma pizza. Há que se discutir o roteiro, a direção, os atores, a linguagem utilizada, além do prazer compartilhado de conferir um filme nos jornais, arrumar-se, sair de casa, pagar ingresso e aguardar o começo do filme na enorme tela em frente, tela essa que nenhuma tela de TV, por mais ultramodernas que estejam, ainda não conseguiu igualar. Para toda essa gente, o Estação Botafogo era simplesmente o cinema.
O cinema é um companheiro dos solitários, os românticos e daqueles perdidos de amor. Muitos casais deram seu primeiro beijo dentro de um cinema, e o Estação não foi exceção. Outros, fugiram para o cinema para, na falta de algum companheiro para chorar suas mágoas, acompanhar na tela toda aquela ilusão roteirizada e tentar por uma ou duas horas escapar da tristeza de uma amor não correspondido. Foi o meu caso numa tarde de sábado quando, após ter levado um "não" da garota que eu me apaixonara num cursinho de pré-vestibular, acorri ao Estação para ver "A encruzilhada", um filme sobre um músico talentoso de blues (o então famoso "karatê kid" Ralph Macchio), que vai atrás de uma canção perdida do lendário Robert Johnson. Uma frase dita por um dos personagens marcou aquela ida ao cinema: "Blues é a dor que sentimos quando a mulher que amamos vai embora". Pelo menos eu não era o único a sofrer uma desilusão amorosa naquele dia. Meu colega do outro lado da tela também estava triste.
Foi no Estação que vi pela primeira vez "Cidadão Kane", num curso ministrado pelo cineasta e jornalista Pedro Camargo, e que abriu minha cabeça. Eu estava fazendo 18 anos naquele dia, e foi realmente especial para mim. Mais tarde vieram os grandes clássicos, como "Jules e Jim", de Trufaut, "Um corpo que cai", do Hitchcock, "Noites de Cabíria", do Fellini, "Lolita", do Kubrick e vários outros, sem contar com os cult-movies, como "Depois de horas" (Scorcese), "Dublê de corpo" (Brian de Palma), "O fundo do coração" de Coppola ou "Coração Selvagem" de David Lynch. Foi no Estação que conheci a maioria destes grandes diretores, com filmes difíceis de encontrar fora dali. Em que outro cinema, por exemplo, eu poderia ter aceso a filmes de Luís Buñuel? Jamais esquecerei do impacto de filmes como "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" numa semana dedicada ao cineasta espanhol. Aliás, esse era um grande barato do Estação: promover mostras dedicadas a um cineasta ou movimento cinematográfico, homenageando diretores, atores etc.Onde mais eu teria acesso a uma pérola como "O homem do Sputnik" (Carlos Manga) numa mostra dedicada às chanchadas? Ou conferir o clássico "Rio 40 graus" no chão, com a sala completamente lotada e a presença do diretor Nelson Pereira dos Santos.
Todos estes momentos eu vi num único cinema - o Estação Botafogo - bem antes de tornar o Grupo Estação. E é por todos estes momentos especiais que ajudaram a todos nós, que frequentamos aquela sala, amantes do cinema e pessoas mais informadas, que o Estação não pode acabar. Mais que um grande empreendimento comercial, ele é parte da cultura cinematográfica carioca, que ajudou a centenas de pessoas a descobrir que, para além daquele cinema hegemônico americano, havia um enorme contingente de filmes, diretores, atores e atrizes a serem descobertos. Vou encerrar com um clichê, mas não consigo encontrar forma melhor: esse filme não pode acabar de forma triste.
A primeira vez em que estive no cinema Estação Botafogo foi para ver o filme "Blade Runner: caçador de andróides", numa noite perdida de 1987. Lembro que estava com dois amigos, e o então "cineclube" começava a receber notas da imprensa sobre sua programação alternativa. Não era um ambiente de cinema "normal". A fauna ali era visivelmente diferente de quem frequentava cinemas de rua (ainda frequentes, mas já em decadência com a corrida aos videocassetes) ou os de shoppings. Antes do filme, chegamos a comentar que alguns dos indivíduos presentes na sala de espera bem podiam ser um dos replicantes do filme de Ridley Scott. Eram apenas apaixonados pela sétima arte.
Sim, porque há aqueles frequentadores cada vez mais ocasionais de cinema - como a maioria, já que hoje em dia, com o encarecimento dos ingressos, ir ao cinema deixou de ser um hábito semanal, como era na minha infância e adolescência -, e os cinéfilos ou apaixonados não só pelo filme em si, mas por todo o contexto da obra e do ritual cinematográficos. Para essa gente, não basta ver um filme e depois comer uma pizza. Há que se discutir o roteiro, a direção, os atores, a linguagem utilizada, além do prazer compartilhado de conferir um filme nos jornais, arrumar-se, sair de casa, pagar ingresso e aguardar o começo do filme na enorme tela em frente, tela essa que nenhuma tela de TV, por mais ultramodernas que estejam, ainda não conseguiu igualar. Para toda essa gente, o Estação Botafogo era simplesmente o cinema.
O cinema é um companheiro dos solitários, os românticos e daqueles perdidos de amor. Muitos casais deram seu primeiro beijo dentro de um cinema, e o Estação não foi exceção. Outros, fugiram para o cinema para, na falta de algum companheiro para chorar suas mágoas, acompanhar na tela toda aquela ilusão roteirizada e tentar por uma ou duas horas escapar da tristeza de uma amor não correspondido. Foi o meu caso numa tarde de sábado quando, após ter levado um "não" da garota que eu me apaixonara num cursinho de pré-vestibular, acorri ao Estação para ver "A encruzilhada", um filme sobre um músico talentoso de blues (o então famoso "karatê kid" Ralph Macchio), que vai atrás de uma canção perdida do lendário Robert Johnson. Uma frase dita por um dos personagens marcou aquela ida ao cinema: "Blues é a dor que sentimos quando a mulher que amamos vai embora". Pelo menos eu não era o único a sofrer uma desilusão amorosa naquele dia. Meu colega do outro lado da tela também estava triste.
Foi no Estação que vi pela primeira vez "Cidadão Kane", num curso ministrado pelo cineasta e jornalista Pedro Camargo, e que abriu minha cabeça. Eu estava fazendo 18 anos naquele dia, e foi realmente especial para mim. Mais tarde vieram os grandes clássicos, como "Jules e Jim", de Trufaut, "Um corpo que cai", do Hitchcock, "Noites de Cabíria", do Fellini, "Lolita", do Kubrick e vários outros, sem contar com os cult-movies, como "Depois de horas" (Scorcese), "Dublê de corpo" (Brian de Palma), "O fundo do coração" de Coppola ou "Coração Selvagem" de David Lynch. Foi no Estação que conheci a maioria destes grandes diretores, com filmes difíceis de encontrar fora dali. Em que outro cinema, por exemplo, eu poderia ter aceso a filmes de Luís Buñuel? Jamais esquecerei do impacto de filmes como "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" numa semana dedicada ao cineasta espanhol. Aliás, esse era um grande barato do Estação: promover mostras dedicadas a um cineasta ou movimento cinematográfico, homenageando diretores, atores etc.Onde mais eu teria acesso a uma pérola como "O homem do Sputnik" (Carlos Manga) numa mostra dedicada às chanchadas? Ou conferir o clássico "Rio 40 graus" no chão, com a sala completamente lotada e a presença do diretor Nelson Pereira dos Santos.
Todos estes momentos eu vi num único cinema - o Estação Botafogo - bem antes de tornar o Grupo Estação. E é por todos estes momentos especiais que ajudaram a todos nós, que frequentamos aquela sala, amantes do cinema e pessoas mais informadas, que o Estação não pode acabar. Mais que um grande empreendimento comercial, ele é parte da cultura cinematográfica carioca, que ajudou a centenas de pessoas a descobrir que, para além daquele cinema hegemônico americano, havia um enorme contingente de filmes, diretores, atores e atrizes a serem descobertos. Vou encerrar com um clichê, mas não consigo encontrar forma melhor: esse filme não pode acabar de forma triste.
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