Julho de 1984. Estou em casa folheando o JB quando leio na coluna do Zózimo uma notinha que me chamaria a atenção. Dizia mais ou menos assim: "O empresário Roberto Medina, que já trouxe ao Brasil Frank Sinatra, prepara para janeiro do ano que vem um grande festival de rock no Rio de Janeiro. Grandes bandas estão sendo contatadas". Foi ali, pela primeira vez que eu ouvi falar do que viria a ser o Rock in Rio. Será mesmo?, pensei. A coluna do Zózimo era fértil em dar furos na concorrência, mas imaginar um "grande festival de rock" no Brasil, numa época em que shows internacionais eram raros (tivemos antes apenas alguns no Maracanãzinho, todos com aquela acústica péssima) só podia ser um sonho. Não me lembro se Zózimo antecipara o local - um imenso descampado em Jacarepaguá que nos dias de chuva, em especial nos dias reservados ao heavy metal, se tornaria um lamaçal - mas algumas semanas depois, a grande imprensa revelava o que o colunista antecipara. O Rock in Rio, de fato, iria acontecer.
Em janeiro de 1985, eu tinha 15 anos. Ia começar a cursar o segundo grau (naquela época não falávamos "ensino médio") e, pela primeira vez, eu iria a um grande festival de rock. Estava com meu irmão mais velho, um primo e amigos. Lembro que o percurso era insano: pegamos dois ônibus que totalizaram algumas horas para cruzar a cidade de Ramos até a longínqua "cidade do rock" (se hoje a Barra ainda é longe, imagine em 1985, sem as Linhas Amarela e Vermelha). Nada, porém, tirava nosso entusiamo. Era o primeiro dia e eu estava indo ver finalmente o Queen e o Iron Maiden ao vivo. Ainda era difícil de acreditar. Estar no Rock in Rio, naquele começo de ano, era como se eu estivesse recebendo um passaporte para a maturidade.
Quem conheceu apenas as últimas edições do festival, transformado num grande parte temático cheio de atrações como tirolesa, roda gigante, salão de beleza (!) e tudo o mais, onde "a música é só um detalhe", como disse Roberto Medina em uma entrevista ao Globo, não imagina como foi aquela primeira edição. Apesar do local imenso, a infra-estrutura era precária. A cerveja era a famigerada Malt 90, e estava sempre quente. Conseguir comprar um hambúrguer era uma luta árdua.Os banheiros logo ficaram imundos. O belo gramado, depois de alguns dias, virou lama. Mas relevávamos tudo. Queríamos mesmo era curtir o rock. E os shows não decepcionaram.
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Eu fui em três dias: no primeiro, dia 11; no domingo, 13,; e no sábado seguinte, dia 19. Ney Matogrosso abriu o festival com um ótimo show, mas logo depois foi triste ver a galera metaleira (que eram muitos, muitos mesmo) vaiando Erasmo Carlos logo depois. O show do Iron Maiden foi sensacional. E o Queen, fechando a noite, foi arrebatador. A banda estava em uma de suas melhores fases e foi arrepiante cantar junto com milhares de pessoas o clássico "Love of my life", Ao fim da extenuante noite, lembro das pessoas cansadas, mas felizes, indo pegar os ônibus. Na volta pra casa, havia gente dormindo até de pé nos coletivos lotados.
No dia 13 curti bastante as atrações nacionais. Paralamas, Lulu Santos e a Blitz fizeram três ótimos shows, com destaque para a falta de cenário dos Paralamas, que improvisaram uns enfeites do camarim no palco - cenário simples, show excelente. Mas o grande destaque desta noite foi mesmo Rod Stewart, que fez um dos melhores show de toda a história do festival. Se no Queen eu estava tão espremido na multidão que mal conseguia me mexer, no show de Rod deu pra dançar o tempo todo, e nem a chuva que caiu no meio da apresentação diminuiu a animação da galera. Ainda me lembro de dançar sem parar ao som do clássico de Sam Cooke, "Twisting the night away" e vários hits de Rod, que pôs a plateia no bolso.
No sábado seguinte, dia destinado às bandas de heavy metal, a chuva caiu forte, Mas a galera não desanimou. Aliás, que eu me lembre, nenhuma das demais edições do festival conseguiu reunir um dia tão bom. Ver Whitesnake, Scorpions, Ozzy Osbourne e o AC/DC foi realmente uma experiência única. Temendo nova vaia a Erasmo Carlos, a produção o tirou deste dia, mas manteve Pepeu Gomes e Baby Consuelo, que encararam a intolerância quase fundamentalista dos fãs de heavy metal com um showzaço. Antes que os fãs do rock pesado começassem a vaiar, Pepeu Gomes deu um solo a la Jimi Hendrix, Depois, junto com Baby, levaram um versão arrasa-quarteirão do clássico "Brasileirinho"', deixando os radicais de boca aberta. Recentemente vi numa entrevista para a TV Baby contando que contratou um grupo de seguranças para impedir que os outros seguranças do festival desligassem o som ou mandassem terminar o show antes dos 40 minutos previstos.A tática, pelo visto, deu certo.
Sim estive em apenas três noites, mas foram três noites que jamais vou esquecer. Depois do primeiro Rock in Rio, finalmente o Brasil começou a receber mais astros do rock internacional. Os grandes grupos haviam descoberto o Brasil. E o festival fora o responsável.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Somos todos Charlie - humor x fanatismo
O atentado terrorista contra a redação do jornal francês Charlie Hebdo me fez lembrar de uma aula que dei na faculdade de comunicação há pouco mais de dois anos. A disciplina era Cultura das Mídias e o tema da aula, a cultura do politicamente correto. Em determinado momento, a fim de explicar a influência do politicamente correto no humor, recorri a um vídeo do Felipe Neto e seu "Não faz sentido". Na época Felipe já tinha um bom séquito de fãs na web, com seus ácidos comentários no Youtube sobre vários temas. Assim, boa parte da turma se empolgou com o que veria a seguir.
O vídeo começa e Felipe logo avisa que fez uma seleção piadas de humor "refinado", com "compromisso social", que "não ofendem ninguém". Pausa. Entra uma música clássica de fundo e Felipe fica um minuto inteiro sem falar absolutamente nada. Ou tentando falar, mas sem encontrar algo a dizer. Na sala de aula, observo alunos perplexos que esperam a piada, que não vem em momento algum. Ao final do vídeo, Felipe sai de cena e entra a legenda: "Nenhuma minoria foi ofendida nestes 60 segundos",
Curiosamente, acompanhando a repercussão no Brasil sobre a tragédia francesa, encontrei um artigo muito bom de Allan Sieber (escrito especialmente para o blog do Andre Barcinski), sobre um debate que tomou a França há alguns anos, sobre os limites do humor. Na época, o Charlie Hebdo chegou às bancas de todo o país com a manchete "Um jornal responsável", Segundo Sieber, "dentro só tinha as legendas dos cartuns, o resto era TUDO branco. Nunca ninguém teve a manha de fazer um jornal mais chapa branca que esse".
Poderíamos dizer que os cartunistas do Charlie Hebdo sabiam que não existe essa história de "humor responsável". A corrente ideológica do "politicamente correto" surgiu nos EUA durante os anos 1980 e se alastrou como uma praga em boa parte do mundo ocidental. De repente nos vimos obrigados a rever nossos conceitos sobre toda forma de minorias que por séculos foram difamadas, exploradas, humilhadas, sacaneadas, ironizadas, tornando-se, em grande parte, alvo de piadas, do humor que é parte da sociedade. Claro que a ideia inicial era boa ( quantas vezes não ouvimos a expressão "não judia dele não", sem atentar que na verdade estávamos denegrindo os judeus?), mas aos poucos a corrente se transformou numa grande patrulha transformada em correção política, e um grupo que foi muito agredido foi justamente o dos humoristas. De repente não era bom fazer piada nem com anões, que se transformaram dentro do linguajar politicamente correto em "verticalmente desfavorecidos"). Lendo os jornais a respeito das mortes dos cartunistas franceses, li algumas opiniões de leitores e até de intelectuais convidados a se expressarem dizendo que deveria haver um limite no humor. Alguns chegaram mesmo a dizer os cartunistas teriam exagerado, que aqui no Brasil ninguém gostaria de ver "os dogmas do catolicismo sendo ridicularizados"
(Bem, quanto a este último comentário, devo dizer que o autor está bastante desinformado. Sugiro a ele que entre no canal do "Porta do fundos" do youtube para ver alguns vídeos hilários sobre Jesus e os "dogmas do catolicismo". A despeito de alguns comentários indignados no próprio Youtube, até agora nenhum dos vídeos do grupo a satirizar o cristianismo, Deus ou Jesus foi proibido).
Quando o politicamente correto se mistura com o radicalismo, temos o fundamentalismo ou o fanatismo religioso, que acredita não haver espaço para a tolerância. Para um fanático, como estes que mataram os cartunistas franceses, não se pensa na alternativa mais civilizada que seria simplesmente ignorar o jornal. É preciso também assassinar aqueles que "profanaram" sua religião.
O grande escritor israelense Amós Oz escreveu em 2004 um pequeno grande livro chamado justamente "Contra o fanatismo".Eis um pequeno trecho em que fala sobre o Oriente Médio, mas que poderia muito bem definir o fanatismo no mundo inteiro::
"A crise atual no mundo - no Oriente Médio, em Israel e na Plestina - não diz respeito, de jeito algum, à mentalidade dos árabes, como querem alguns racistas.Diz respeito à luta antiga entre fanatismo e pragmatismo. Entre fanatismo e pluralismo. Entre fanatismo e tolerância. O 11 de setembro não tem a ver nem mesmo com a questão de se a América é boa ou má, se o capitalismo é ameaçador ou transparente, se a globalização deveria cessar ou não. Diz respeito, isto sim, à reivindicação típica dos fanáticos: se julgo algo mau, elimino-o, junto com seus vizinhos. O fanatismo é mais antigo que o Islã, mais velho que o Cristianismo, que o Judaísmo, que qualquer estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo, O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana, um gene do mal, se quiserem chamá-lo desta forma. Pessoas que explodem clínicas de aborto nos Estados Unidos, que queimam mesquitas e sinagogas aqui ou na Alemanha, diferem de Bin Laden apenas em escala, mas não na natureza de seus crimes,"
O pior que poderia acontecer com relação ao assassinato dos jornalistas franceses seria considerar aquilo como algo isolado. De fato, cheguei a ler uma postagem do Facebook onde um amigo escreveu "viva o Brasil, que está longe de ter massacres iguais ao que aconteceu na França". Bem, devemos tomar cuidado com afirmações como essa. O Brasil ainda é um dos países que mais matam jornalistas. Ainda é um local em que pessoas pobres são diariamente assassinadas nas grandes favelas. Ainda é um país onde um universitário é assassinado na entrada da faculdade por motivos banais. Em que evangélicos fundamentalistas não escondem nas redes sociais sua satisfação e ainda ameaçam aqueles que fazem humor com passagens da Bíblia. São todos casos de intolerância e desprezo à vida humana, mas que não tiveram a mesma repercussão que as mortes francesas.
A solidariedade mundial mostrada nos últimos dias mostra que devemos considerar o crime ao jornal francês como um crime contra todos nós. Contra a civilização, a liberdade de expressão e a tolerância humana. Talvez Voltaire não imaginasse o quanto ele fez pela liberdade de expressão ao dizer para um crítico: "não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de fazê-lo".
Um dos assassinos dos cartunistas franceses chegou a dizer que não se importava em virar um mártir da causa contra o Islã. Enganou-se. A solidariedade mundial que se seguiu à tragédia francesa mostra que na verdade eles conseguiram criar milhares de adeptos á causa da liberdade de expressão. Na semana que vem, um número especial de Charlie Hebdo - que se encontrava em crise financeira - sairá com a tiragem inédita de 1 milhão de exemplares, com boa parte da renda destinada ás famílias das vítimas. Ou seja, Charlie vive.
Que o humor não morra jamais. Je suis Charlie. Somos todos Charlie.
O vídeo começa e Felipe logo avisa que fez uma seleção piadas de humor "refinado", com "compromisso social", que "não ofendem ninguém". Pausa. Entra uma música clássica de fundo e Felipe fica um minuto inteiro sem falar absolutamente nada. Ou tentando falar, mas sem encontrar algo a dizer. Na sala de aula, observo alunos perplexos que esperam a piada, que não vem em momento algum. Ao final do vídeo, Felipe sai de cena e entra a legenda: "Nenhuma minoria foi ofendida nestes 60 segundos",
Curiosamente, acompanhando a repercussão no Brasil sobre a tragédia francesa, encontrei um artigo muito bom de Allan Sieber (escrito especialmente para o blog do Andre Barcinski), sobre um debate que tomou a França há alguns anos, sobre os limites do humor. Na época, o Charlie Hebdo chegou às bancas de todo o país com a manchete "Um jornal responsável", Segundo Sieber, "dentro só tinha as legendas dos cartuns, o resto era TUDO branco. Nunca ninguém teve a manha de fazer um jornal mais chapa branca que esse".
Poderíamos dizer que os cartunistas do Charlie Hebdo sabiam que não existe essa história de "humor responsável". A corrente ideológica do "politicamente correto" surgiu nos EUA durante os anos 1980 e se alastrou como uma praga em boa parte do mundo ocidental. De repente nos vimos obrigados a rever nossos conceitos sobre toda forma de minorias que por séculos foram difamadas, exploradas, humilhadas, sacaneadas, ironizadas, tornando-se, em grande parte, alvo de piadas, do humor que é parte da sociedade. Claro que a ideia inicial era boa ( quantas vezes não ouvimos a expressão "não judia dele não", sem atentar que na verdade estávamos denegrindo os judeus?), mas aos poucos a corrente se transformou numa grande patrulha transformada em correção política, e um grupo que foi muito agredido foi justamente o dos humoristas. De repente não era bom fazer piada nem com anões, que se transformaram dentro do linguajar politicamente correto em "verticalmente desfavorecidos"). Lendo os jornais a respeito das mortes dos cartunistas franceses, li algumas opiniões de leitores e até de intelectuais convidados a se expressarem dizendo que deveria haver um limite no humor. Alguns chegaram mesmo a dizer os cartunistas teriam exagerado, que aqui no Brasil ninguém gostaria de ver "os dogmas do catolicismo sendo ridicularizados"
(Bem, quanto a este último comentário, devo dizer que o autor está bastante desinformado. Sugiro a ele que entre no canal do "Porta do fundos" do youtube para ver alguns vídeos hilários sobre Jesus e os "dogmas do catolicismo". A despeito de alguns comentários indignados no próprio Youtube, até agora nenhum dos vídeos do grupo a satirizar o cristianismo, Deus ou Jesus foi proibido).
Quando o politicamente correto se mistura com o radicalismo, temos o fundamentalismo ou o fanatismo religioso, que acredita não haver espaço para a tolerância. Para um fanático, como estes que mataram os cartunistas franceses, não se pensa na alternativa mais civilizada que seria simplesmente ignorar o jornal. É preciso também assassinar aqueles que "profanaram" sua religião.
O grande escritor israelense Amós Oz escreveu em 2004 um pequeno grande livro chamado justamente "Contra o fanatismo".Eis um pequeno trecho em que fala sobre o Oriente Médio, mas que poderia muito bem definir o fanatismo no mundo inteiro::
"A crise atual no mundo - no Oriente Médio, em Israel e na Plestina - não diz respeito, de jeito algum, à mentalidade dos árabes, como querem alguns racistas.Diz respeito à luta antiga entre fanatismo e pragmatismo. Entre fanatismo e pluralismo. Entre fanatismo e tolerância. O 11 de setembro não tem a ver nem mesmo com a questão de se a América é boa ou má, se o capitalismo é ameaçador ou transparente, se a globalização deveria cessar ou não. Diz respeito, isto sim, à reivindicação típica dos fanáticos: se julgo algo mau, elimino-o, junto com seus vizinhos. O fanatismo é mais antigo que o Islã, mais velho que o Cristianismo, que o Judaísmo, que qualquer estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo, O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana, um gene do mal, se quiserem chamá-lo desta forma. Pessoas que explodem clínicas de aborto nos Estados Unidos, que queimam mesquitas e sinagogas aqui ou na Alemanha, diferem de Bin Laden apenas em escala, mas não na natureza de seus crimes,"
O pior que poderia acontecer com relação ao assassinato dos jornalistas franceses seria considerar aquilo como algo isolado. De fato, cheguei a ler uma postagem do Facebook onde um amigo escreveu "viva o Brasil, que está longe de ter massacres iguais ao que aconteceu na França". Bem, devemos tomar cuidado com afirmações como essa. O Brasil ainda é um dos países que mais matam jornalistas. Ainda é um local em que pessoas pobres são diariamente assassinadas nas grandes favelas. Ainda é um país onde um universitário é assassinado na entrada da faculdade por motivos banais. Em que evangélicos fundamentalistas não escondem nas redes sociais sua satisfação e ainda ameaçam aqueles que fazem humor com passagens da Bíblia. São todos casos de intolerância e desprezo à vida humana, mas que não tiveram a mesma repercussão que as mortes francesas.
A solidariedade mundial mostrada nos últimos dias mostra que devemos considerar o crime ao jornal francês como um crime contra todos nós. Contra a civilização, a liberdade de expressão e a tolerância humana. Talvez Voltaire não imaginasse o quanto ele fez pela liberdade de expressão ao dizer para um crítico: "não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de fazê-lo".
Um dos assassinos dos cartunistas franceses chegou a dizer que não se importava em virar um mártir da causa contra o Islã. Enganou-se. A solidariedade mundial que se seguiu à tragédia francesa mostra que na verdade eles conseguiram criar milhares de adeptos á causa da liberdade de expressão. Na semana que vem, um número especial de Charlie Hebdo - que se encontrava em crise financeira - sairá com a tiragem inédita de 1 milhão de exemplares, com boa parte da renda destinada ás famílias das vítimas. Ou seja, Charlie vive.
Que o humor não morra jamais. Je suis Charlie. Somos todos Charlie.
sábado, 3 de janeiro de 2015
O que vi, ouvi e li de bom em 2014 – Parte 2
Continuando a postagem anterior, sigo em frente com um pequeno
apanhado sobre o que mais curti em matéria de cultura em 2014. Na música,
pra variar, pouco tempo pra escutar tanta coisa boa. Sim, pois quem gosta de
música hoje vive o paradoxo de ver um mercado fonográfico preso a fórmulas ainda ligadas ao mainstream (é curioso perceber como uma produção musical tão diversificada como a brasileira seja refletida nas rádios a partir do monopólio atual de um ou dois ritmos, como o sertanejo universitário e o pagode romântico), enquanto a indústria, ainda em crise com os downloads ilegais, segue aos poucos apostando no ainda incerto meio digital. Há hoje opções que vão muito além do rádio e TV, como o iTunes, as rádios de streaming musical, o youtube etc. É só saber procurar e ter olhos e ouvidos bem abertos.
Quem procurar, encontrará na web ótimos programas. podcasts de sites em que muita boa música é mostrada., Destaco, como sempre, o Ronca Ronca de Maurício Valladares, há mais de 30 anos seguindo no rádio (ou melhor, em diversas rádios) mostrando o melhor da produção musical pop do planeta, sem preconceitos. Afinal, onde mais escutar novidades da música africana, gemas do pop latino, pérolas do rock das antigas e artistas que acabaram de lançar seu último disco, tudo no mesmo programa? Difícil achar. E ainda apostei com prazer na Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, com ótimos podcasts de grandes artistas. Só a pesquisa para o programa sobre Cole Porte, apresentado por João Máximo, valeria a ouvida. Pra quem curte rock e boas histórias, a série sobre o rock brasileiro apresentada por Joaquim Ferreira dos Santos e Arthur Dapieve, referências para este blog, é imperdível Enjoy it, may friends!
Se a música de 2013 foi "Get Lucky", do Daft Punk, creio não restar dúvidas que nenhuma outra foi tão tocada, repetida, assimilada, copiada como "Happy", de Pharrell Williams. Nota-se que uma música virou um clássico quando ela extrapola os limites da esfera estritamente musical. "Happy" foi parar em comerciais de todos os tipos e até em mensagem de fim de ano de televisão foi copiada. Talvez, em tempos de tanto ódio nas redes sociais e culto ao individualismo via selfies, a canção de Williams tenha funcionado como um bem-vindo bálsamo de alegria. E nos estertores de 2013, encontro outra música tão irresistível quanto "Happy". Conferindo o blog de André Forastieri (um dos que acompanho sempre, junto ao seu xará André Barcinski), leio e ouço o que ele clama como a música do verão: "Uptown funk", de Mark Ronson e Bruno Mars. Difícil ouvir parado. Aliás, não troco um Bruno Mars por dez cantores/as pseudo-rebeldes que gostam de aparecer e que são insistentemente convidados para tovcar no brasil. Alô Medina, queremos Bruno Mars no Rock in Rio já!
Quanto aos álbuns lançados, houve tempo (pouco, é claro) para curtir "Vista pro mar", do capixaba Silva, uma das boas surpresas do pop nacional. Mas a melhor de todas talvez tenha sido o álbum de estreia da Banda do Mar, projeto de Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e o português Fred. Foi um ano também em que grandes cantoras lançaram ótimos álbuns. As rádios quase não tocaram o segundo e melhor álbum de Alice Caymmi, o sensacional "Rainha dos raios", e também o dilacerante "Encarnado", de Juçara Marçal, cantora do Metá Metá. Quem? Ainda não ouviu? Pois corra para o youtube e confira o quanto você anda perdendo...
Por fim, os livros. Na área de não-ficção, li o excelente "A informação", de James Gleick (tb com atraso, pois o livro foi lançado em 2013). Uma história da busca pela comunicação e informação humanam dos tambores africanos aos faróis europeus, da invenção do transistor à teoria matemática da informação. Das primeiras máquinas de computar dados aos modernos computadores. Não por acaso, está já na minha lista de livros a serem lidos em 2014 o elogiado "Os inovadores", de Walter Isaacson, que acredito complementar a obra de Gleick - além, de é claro, me dar subsídios para as aulas de teorias de comunicação, rs.
Na ficção, dois livros pouco comentados nos cadernos de cultura, mas que descobri através de dicas no Estúdio I, da Globonews (Alô, \Felipe Pena, obrigado!) e na lista de recomendados da Vea. O primeiro, "Oeste - a guerra do jogo do bicho", é um romance de ação incessante (coisa pouco comum na literatura brasileira) sobre a ascenção e queda de vários bicheiros importantes do Rio de Janeiro. Passado em grande parte na zona oeste da cidade, quem ouviu notícias sobre o império dos antigos "capos" do bicho, como Castor de Andrade, e Antonio Português va lembrar na hora de algumas passagens marcantes. Mais que puro entretenimento, o livro se detém na chegada ao negócio da contravenção das famosa máquinas caça-niqueis - vá em qualquer padaria carioca e veja se não há alguma no cantinho com algum viciado jogando. Ou seja, diverte e instrui.
E, por último, aquele que ainda não acabei de ler, mas mesmo assim já recomendo. O delicioso "Está de volta". O autor, o alemão Timur Vermes, parte de uma premissa inacreditável: o que aconteceria se, em pleno século XXI, Adolf Hitler acordasse, aos 56 anos (idade em que teria cometido suicídio) os arredores de Berlin, na Alemanha? O que ele faria? O resultado é uma ficção da melhor qualidade, bastante irônica e mesmo com toques de humor negro, que faz uma bela crítica ao culto ao entretenimento dos dias de hoje e a obsessão pelo marketing na política, algo que nem fuhrer conseguiria imaginar em que se tornaria.
Só o capítulo em que o redivivo Hitler se confronta com a programação atual da TV, repleta de programas de culinária (sim, até na Alemanha a filosofia foi trocada por um belo risoto) é hilária. Como este blog busca em grande parte selecionar temas ligados à esfera da Comunicação, fica a dica a todos.
Feliz 2014!
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
O que vi, ouvi e li de bom em 2014 - parte 1
Foi um ano que passou muito rápido, mas com vários momentos marcantes, Um ano de Copa do Mundo em que as torcidas do Brasil e do mundo inteiro deram show, enquanto nosso time dava vexame contra a Alemanha. Um ano de eleições para presidente em que preponderou o baixo nível das acusações entre candidatos na televisão e seus eleitores nas redes sociais, estas novas esferas públicas onde qualquer um pode publicar opiniões. Os ânimos estiveram exaltados e vários "amigos" foram jogados pra escanteio no Facebook, apenas porque declararam seu voto em Dilma ou Aécio. Houve a novidade dos debates na televisão onde a figura do jornalista foi devidamente defenestrada - uma estratégia malandra das TVs, quando o embate entre adversários ganhou em drama mas perdeu em conteúdo. O resultado foi uma ida às urnas com a sociedade hiperpolarizada e sem conhecer de fato as propostas dos dois principais candidatos.
Mas deixemos as eleições para trás e pensemos na nossa sociedade digitalizada. Houve um momento nas copas anteriores em que era fácil encontrar um identificar um torcedor japonês: era aquele que estava tirando várias fotos dentro dos estádios, sem se preocupar como rolo de negativos. Negativos?! Isso ficou devidamente no passado com as câmeras digitais e os smartphones com câmeras cada vez melhores. Logo surgiriam os autorretratos ou "selfies" (a palavra do ano de 2013, segundo o dicionário Oxford). Tira-se foto de tudo, da nova roupa comprada para a festinha até de pratos com comida em restaurantes (argh!!). Viramos todos japoneses? Ou foi a sociedade que ficou mais egocêntrica? Há indícios para apostar na segunda hipótese.
2014 foi, entre tantos fatos relevantes e irrelevantes, o ano do aparecimento no Brasil, ainda na Copa do Mundo, do famigerado "pau de selfie", ou "Go Pobre" (sutil adaptação da caríssima câmera de selfies Go Pro). O pau de selfie (um bastão para fazer autorretatos, que pode chegar a até 1m) foi visto pela primeira vez como uma bizarrice nas arquibancadas dos estádios (perdão, arenas) brasileiros da Copa, trazidos por integrantes de torcidas estrangeiras. Muitos pensaram ser algo restrito á Copa, como as vuvuzelas da África do Sul, mas estavam enganados. Na semana passada, vi na praia em Arraial do Cabo, aqui no Rio, pelo menos duas pessoas usando o objeto. Entrei na internet intrigado e lá estava a manchete: "Às vésperas do Natal, procura por 'pau de selfie' aumenta". Isso diz muito de uma sociedade cada vez mais vítima do narcisismo eletrônico, onde a popularidade é marcada pelo número de "curtidas" em redes sociais. Sinal dos tempos.
Enquanto os selfies proliferam, eu aqui aproveito para compartilhar com vocês um pouco do que assisti, li e ouvi de bom em 2014. Claro que o tempo dividido pelo trabalho entre duas faculdades de Comunicação não deixou que eu aproveitasse ao máximo as opções culturais. Segue abaixo,portanto, uma lista curta e bastante pessoal, apenas para alimentar este blog no qual tão pouco publiquei nos últimos meses.
No cinema, o ano começou bem com o sensacional "O lobo de Wall Street", de Martins Scorsese, com uma atuação espetacular de Leonardo DiCaprio. Tivesse ele uma meia hora a menos, seria uma obra-prima. Ainda no primeiro semestre, o belo e pungente "Ela", de Spíke Jonze, com Joaquin Phoenix, a história de um homem solitário que se apaixona por um sistema operacional de computador com a voz de Scarlett Johanssen. Uma bela reflexão sobre a dependência tecnológica e o amor em tempos digitais.
Mais para o fim do ano, dois grandes filmes. Primeiro, "Boyhood - da infância à juventude", no qual o diretor Richard Linklater promove uma experiência única na história do cinema: acompanhar a vida de um menino dos 6 aos 18 anos. Mais que o prazer de acompanhar uma filmagem com a mesma equipe que levou 12 anos (coisa rara em tempos onde tudo é efêmero) o filme ainda discute a passagem do tempo e como ele nos afeta. E entre aqueles filmes que suscitaram discussões na saída dos cinemas está o genial 'Relatos selvagcens", filme argentino em episódios sobre indivíduos comuns confrontados com situações alarmantes ou até desesperadoras. Em geral, contamos até 10 e seguimos em frente. Em, "Relatos", os personagens enfrentam o inesperado, com consequências atordoantes.
Na televisão, duas ótimas minisséries na Globo: "Amores roubados" e "Dupla identidade". E uma ótima surpresa, o programa de humor "Tá no ar: a TV na TV", uma ideia da dupla Marcius Melhen e Marcelo Adnet em que o tema mais satirizado é a própria TV, seus programas e formatos. Uma ótima curtição metalinguística, com quadros que fizeram sucesso e que teve o mérito de finalmente mostrar o talento de Adnet na Globo.
No teatro, ótimas peças em reapresentações, Finalmente consegui assistir a "Arte", da israelense Yasmina Reza (mesma autora de "O deus da carnificina"), e dois musicais inspirados em grandes nomes da cultura e comunicação brasileiras: "Elis, a musical" e "Chacrinha". Este último, principalmente no segundo ato, quando a peça vira um show de auditório do Chacrinha, é uma das mais divertidas peças a que assisti nos últimos tempos, capturando bem o espírito anárquico e debochado do velho guerreiro.
Mas não posso esquecer do espetáculo em que estive com meu filho, na longínqua Cidade das Artes: "Os saltimbancos trapalhões", Pensando bem, não tinha como dar errado: a competência técnica da dupla Muller e Botelho, os atores, dançarinos e cantores escolhidos a dedo; as músicas de Chico Buarque que marcaram toda uma geração; e o talento de Renato Aragão pela primeira vez no palco de um teatro, acompanhado por Dedé Santana. Não foram poucos os adultos com lágrimas nos olhos nas cenas em que Renato estava presente.e roubando a cena. Ao final, a constatação de que o teatro musical brasileiro se encontra hoje entre os melhores do mundo.
Amanhã, segue o que curti de bom na música e na literatura.
Mas deixemos as eleições para trás e pensemos na nossa sociedade digitalizada. Houve um momento nas copas anteriores em que era fácil encontrar um identificar um torcedor japonês: era aquele que estava tirando várias fotos dentro dos estádios, sem se preocupar como rolo de negativos. Negativos?! Isso ficou devidamente no passado com as câmeras digitais e os smartphones com câmeras cada vez melhores. Logo surgiriam os autorretratos ou "selfies" (a palavra do ano de 2013, segundo o dicionário Oxford). Tira-se foto de tudo, da nova roupa comprada para a festinha até de pratos com comida em restaurantes (argh!!). Viramos todos japoneses? Ou foi a sociedade que ficou mais egocêntrica? Há indícios para apostar na segunda hipótese.
2014 foi, entre tantos fatos relevantes e irrelevantes, o ano do aparecimento no Brasil, ainda na Copa do Mundo, do famigerado "pau de selfie", ou "Go Pobre" (sutil adaptação da caríssima câmera de selfies Go Pro). O pau de selfie (um bastão para fazer autorretatos, que pode chegar a até 1m) foi visto pela primeira vez como uma bizarrice nas arquibancadas dos estádios (perdão, arenas) brasileiros da Copa, trazidos por integrantes de torcidas estrangeiras. Muitos pensaram ser algo restrito á Copa, como as vuvuzelas da África do Sul, mas estavam enganados. Na semana passada, vi na praia em Arraial do Cabo, aqui no Rio, pelo menos duas pessoas usando o objeto. Entrei na internet intrigado e lá estava a manchete: "Às vésperas do Natal, procura por 'pau de selfie' aumenta". Isso diz muito de uma sociedade cada vez mais vítima do narcisismo eletrônico, onde a popularidade é marcada pelo número de "curtidas" em redes sociais. Sinal dos tempos.
Enquanto os selfies proliferam, eu aqui aproveito para compartilhar com vocês um pouco do que assisti, li e ouvi de bom em 2014. Claro que o tempo dividido pelo trabalho entre duas faculdades de Comunicação não deixou que eu aproveitasse ao máximo as opções culturais. Segue abaixo,portanto, uma lista curta e bastante pessoal, apenas para alimentar este blog no qual tão pouco publiquei nos últimos meses.
No cinema, o ano começou bem com o sensacional "O lobo de Wall Street", de Martins Scorsese, com uma atuação espetacular de Leonardo DiCaprio. Tivesse ele uma meia hora a menos, seria uma obra-prima. Ainda no primeiro semestre, o belo e pungente "Ela", de Spíke Jonze, com Joaquin Phoenix, a história de um homem solitário que se apaixona por um sistema operacional de computador com a voz de Scarlett Johanssen. Uma bela reflexão sobre a dependência tecnológica e o amor em tempos digitais.
Mais para o fim do ano, dois grandes filmes. Primeiro, "Boyhood - da infância à juventude", no qual o diretor Richard Linklater promove uma experiência única na história do cinema: acompanhar a vida de um menino dos 6 aos 18 anos. Mais que o prazer de acompanhar uma filmagem com a mesma equipe que levou 12 anos (coisa rara em tempos onde tudo é efêmero) o filme ainda discute a passagem do tempo e como ele nos afeta. E entre aqueles filmes que suscitaram discussões na saída dos cinemas está o genial 'Relatos selvagcens", filme argentino em episódios sobre indivíduos comuns confrontados com situações alarmantes ou até desesperadoras. Em geral, contamos até 10 e seguimos em frente. Em, "Relatos", os personagens enfrentam o inesperado, com consequências atordoantes.
Na televisão, duas ótimas minisséries na Globo: "Amores roubados" e "Dupla identidade". E uma ótima surpresa, o programa de humor "Tá no ar: a TV na TV", uma ideia da dupla Marcius Melhen e Marcelo Adnet em que o tema mais satirizado é a própria TV, seus programas e formatos. Uma ótima curtição metalinguística, com quadros que fizeram sucesso e que teve o mérito de finalmente mostrar o talento de Adnet na Globo.
No teatro, ótimas peças em reapresentações, Finalmente consegui assistir a "Arte", da israelense Yasmina Reza (mesma autora de "O deus da carnificina"), e dois musicais inspirados em grandes nomes da cultura e comunicação brasileiras: "Elis, a musical" e "Chacrinha". Este último, principalmente no segundo ato, quando a peça vira um show de auditório do Chacrinha, é uma das mais divertidas peças a que assisti nos últimos tempos, capturando bem o espírito anárquico e debochado do velho guerreiro.
Mas não posso esquecer do espetáculo em que estive com meu filho, na longínqua Cidade das Artes: "Os saltimbancos trapalhões", Pensando bem, não tinha como dar errado: a competência técnica da dupla Muller e Botelho, os atores, dançarinos e cantores escolhidos a dedo; as músicas de Chico Buarque que marcaram toda uma geração; e o talento de Renato Aragão pela primeira vez no palco de um teatro, acompanhado por Dedé Santana. Não foram poucos os adultos com lágrimas nos olhos nas cenas em que Renato estava presente.e roubando a cena. Ao final, a constatação de que o teatro musical brasileiro se encontra hoje entre os melhores do mundo.
Amanhã, segue o que curti de bom na música e na literatura.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Assistindo a "James Brown" no Festival do Rio
"I'm back!", gritava James Brown em inúmeros shows e também no começo do hit "Get op off that thing", clássico das pistas de dança dos anos 70, em plena era da discoteca, fenômeno cujo estilo musical Brown ajudou a formatar. Fazendo um gancho com o último post - que falava sobre as cinebiografias de dois grandes astros negros americanos - Brown e Jimi Hendrix), aproveito para dizer que sim, amigos, eu consegui assistir ao filme sobre James Brown ("Get on up", no título original), num sábado à noite no cine Leblon, e estou aqui para contar minhas impressões.
Logo no começo do filme um avião está sobrevoando o Vietnã, em meio a bombas e turbulências. A banda de James Brown está no avião, enquanto a terra pega fogo lá embaixo. Ao chegar em terra firme, Brown dá um solene esporro a um militar do exército americano, dizendo que só sofrera todas aquelas turbulências no ar porque a banda era composta de negros. Negros que viajaram para animar brancos e negros pobres. A luta contra o racismo da sociedade norte-americana marcará sua vida e será parte constante do filme.
O filme não segue uma ordem cronológica, o que o faz fugir das biografias convencionais e lhe dá um saudável frescor. Logo no começo o filme mostra Brown dando uma hilária "palestra" dentro de um aeroporto a vários indivíduos, entre eles uma jornalista que insiste que o músico explique o que vem a ser o "groove", ou seja, aquilo que aqui no Brasil chamamos de suíngue e que seria algo impossível de se ensinar. Surge então a infância estarrecedora de Brown, ele garoto vivendo numa área rural americana bastante miserável, com pais desajustados que acabam por abandoná-lo. Brown vai viver dentro de um bordel e será ali que terá suas primeiras lições de vida...em todos os sentidos.
A descoberta da música, as passagens pela cadeia, as inúmeras mulheres, o despertar para o estrelato, tudo está lá, sem edulcorar a imagem marrenta do músico, interpretado brilhantemente na idade adulta por Chadwick Boseman (conhecido pelo filme "42, a história de uma lenda"). O filme não deixa de captar, ao lado da genialidade de Brown, o lado violento (em especial com mulheres) e contraditório de sua personalidade, como a obsessão pelo som perfeito e as inúmeras multas as quais seus músicos e equipe eram submetidos por motivos em geral fúteis. Uma sequência ótima é quando o músico, convidado para cantar em um programa de TV, descobre que não iria fechar o programa. Irritado por ter que tocar antes dos Rolling Stones, que começavam a estourar na América, Brown eletriza a plateia com uma performance sensacional. Após ser ovacionado, ele ainda passa lentamente pelos músicos dos Stones. Para um segundo. Fita-os e se apresenta dizendo algo como ser um músico negro numa terra comandada pelo mainstream branco. Depois, despede-se com um "Bem vindo aos Estados Unidos". Mick Jagger, um dos produtores do filme, jamais deve ter esquecido aquela apresentação.
Dirigido por Tate Taylor, de "Histórias Cruzadas" (outro belo filme que aborda o racismo), "James Brown" é um filme que mostras as diversas facetas de um artista genial que descobriu na música (assim como nosso Tim Maia) um maneira de lutar contra todas as adversidades e impor-se contra uma sociedade conservadora, puritana e racista. Um homem difícil de se conviver e que ao final da vida perdera quase todos os amigos. Que inventou uma forma de entreter o público em suas apresentações hipnóticas e cuja dança enfeitiçou um garoto de Indiana chamado Michael Jackson. Um músico que, como demostra o filme, evitou sozinho que negros enfurecidos com o assassinato de Martin Luther King destruíssem a cidade de Boston. Brown foi lá, discursou, cantou, dançou e acalmou os ânimos de milhares de cidadãos indignados que o assistiam ao vivo ou pela TV. Brown garantiu a paz em Boston naquela noite, o que não o impediu de ser constantemente vigiado pelo governo após gravar o clássico "Say it loud, I'm black and I'm proud".
"James Brown", o filme, estreia no Brasil no dia 5 de fevereiro. Se você gosta de música, não deixe de assistir de jeito nenhum.
Logo no começo do filme um avião está sobrevoando o Vietnã, em meio a bombas e turbulências. A banda de James Brown está no avião, enquanto a terra pega fogo lá embaixo. Ao chegar em terra firme, Brown dá um solene esporro a um militar do exército americano, dizendo que só sofrera todas aquelas turbulências no ar porque a banda era composta de negros. Negros que viajaram para animar brancos e negros pobres. A luta contra o racismo da sociedade norte-americana marcará sua vida e será parte constante do filme.
O filme não segue uma ordem cronológica, o que o faz fugir das biografias convencionais e lhe dá um saudável frescor. Logo no começo o filme mostra Brown dando uma hilária "palestra" dentro de um aeroporto a vários indivíduos, entre eles uma jornalista que insiste que o músico explique o que vem a ser o "groove", ou seja, aquilo que aqui no Brasil chamamos de suíngue e que seria algo impossível de se ensinar. Surge então a infância estarrecedora de Brown, ele garoto vivendo numa área rural americana bastante miserável, com pais desajustados que acabam por abandoná-lo. Brown vai viver dentro de um bordel e será ali que terá suas primeiras lições de vida...em todos os sentidos.
A descoberta da música, as passagens pela cadeia, as inúmeras mulheres, o despertar para o estrelato, tudo está lá, sem edulcorar a imagem marrenta do músico, interpretado brilhantemente na idade adulta por Chadwick Boseman (conhecido pelo filme "42, a história de uma lenda"). O filme não deixa de captar, ao lado da genialidade de Brown, o lado violento (em especial com mulheres) e contraditório de sua personalidade, como a obsessão pelo som perfeito e as inúmeras multas as quais seus músicos e equipe eram submetidos por motivos em geral fúteis. Uma sequência ótima é quando o músico, convidado para cantar em um programa de TV, descobre que não iria fechar o programa. Irritado por ter que tocar antes dos Rolling Stones, que começavam a estourar na América, Brown eletriza a plateia com uma performance sensacional. Após ser ovacionado, ele ainda passa lentamente pelos músicos dos Stones. Para um segundo. Fita-os e se apresenta dizendo algo como ser um músico negro numa terra comandada pelo mainstream branco. Depois, despede-se com um "Bem vindo aos Estados Unidos". Mick Jagger, um dos produtores do filme, jamais deve ter esquecido aquela apresentação.
Dirigido por Tate Taylor, de "Histórias Cruzadas" (outro belo filme que aborda o racismo), "James Brown" é um filme que mostras as diversas facetas de um artista genial que descobriu na música (assim como nosso Tim Maia) um maneira de lutar contra todas as adversidades e impor-se contra uma sociedade conservadora, puritana e racista. Um homem difícil de se conviver e que ao final da vida perdera quase todos os amigos. Que inventou uma forma de entreter o público em suas apresentações hipnóticas e cuja dança enfeitiçou um garoto de Indiana chamado Michael Jackson. Um músico que, como demostra o filme, evitou sozinho que negros enfurecidos com o assassinato de Martin Luther King destruíssem a cidade de Boston. Brown foi lá, discursou, cantou, dançou e acalmou os ânimos de milhares de cidadãos indignados que o assistiam ao vivo ou pela TV. Brown garantiu a paz em Boston naquela noite, o que não o impediu de ser constantemente vigiado pelo governo após gravar o clássico "Say it loud, I'm black and I'm proud".
"James Brown", o filme, estreia no Brasil no dia 5 de fevereiro. Se você gosta de música, não deixe de assistir de jeito nenhum.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Dois gênios da música, - duas biografias e uma infinita ansiedade
Get up! Stay on the scene! Marginal Conservador volta em edição extraordinária para deixar o aviso. Preparem-se, amigos!
Ainda este ano os amantes da música poderão conferir as cinebiografias de dois dos maiores astros da música pop no século XX: James Brown e Jimi Hendrix.
Mas, por hora, fiquemos com James Brown.
Brown foi um dos maiores astros da chamada black music americana e uma das maiores referências na construção da identidade negra nos Estados Unidos, um país eivado pelo racismo e que até os anos 1960 proibia negros de, entre outras coisas, a ter que se levantar num ônibus quando um branco entrava e não tinha lugares disponíveis. Em 1964, dias após o assassinato de Martin Luther King, impediu com um discurso e um show histórico que os cidadãos indignados depredassem a cidade de Boston. Grande dançarino, ainda seria uma grande influência num menino de Indiana, que imitava seus passos e sonhava dançar como ele: Michael Jackson.
E vamos torcer para que seja uma bela biografia...
Ainda este ano os amantes da música poderão conferir as cinebiografias de dois dos maiores astros da música pop no século XX: James Brown e Jimi Hendrix.
Mas, por hora, fiquemos com James Brown.
Brown foi um dos maiores astros da chamada black music americana e uma das maiores referências na construção da identidade negra nos Estados Unidos, um país eivado pelo racismo e que até os anos 1960 proibia negros de, entre outras coisas, a ter que se levantar num ônibus quando um branco entrava e não tinha lugares disponíveis. Em 1964, dias após o assassinato de Martin Luther King, impediu com um discurso e um show histórico que os cidadãos indignados depredassem a cidade de Boston. Grande dançarino, ainda seria uma grande influência num menino de Indiana, que imitava seus passos e sonhava dançar como ele: Michael Jackson.
E vamos torcer para que seja uma bela biografia...
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Quando o jornalista se acha dono da verdade
Um clichê que infelizmente acompanha o perfil do jornalista é aquele que se refere ao profissional de imprensa como um tipo arrogante. Ou melhor. um sujeito que sabe de sua responsabilidade em divulgar notícias para a sociedade e que, não raro, começa a se achar mais importante do que de fato é. Há algum problema sério para o jornalismo quando um veículo de comunicação toma suas hipóteses como verdades absolutas. Darei um exemplo curioso, que aconteceu há um bom tempo, quando eu era um recém-formado jornalista.
Eu trabalhava na assessoria de imprensa da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Havia ganhado uma bolsa de um ano para atuar como assessor de imprensa do Instituto Fernandes Figueira (IFF), em Botafogo, que até então não tinha um setor interno de comunicação social. Meu trabalho era fazer a ponte entre o Instituto, seus médicos e pesquisadores, e a imprensa, além de colaborar com o setor de comunicação de Manguinhos. Toda semana eu marcava entrevistas e recebia repórteres da grande imprensa interessados em informações para seus jornais. O Instituto até hoje é referência na área da saúde da mulher e da criança.
O ano era 1995, e o IFF, observando um problema comum entre as inúmeras jovens grávidas que diariamente apareciam no Instituto, inaugurara o departamento de gravidez adolescente. A ideia era dar apoio total - não só o pré-natal, mas também com psicólogos, de forma a ajudar àquela futura mãe tão jovem a aguardar a chegada de seu filho de uma forma mais preparada.
Eis que um diz eu recebo uma ligação de uma repórter da Globo, interessada em realizar uma reportagem sobre o departamento. Fiz o meu papel: conversei com a doutora responsável pelo setor, marquei a data e hora da reportagem e fiquei aguardando a jornalista. Ela conversaria com os médicos responsáveis pelo departamento e também com algumas meninas.
No dia marcado, ao chegar, conversamos um pouco, antes de levá-la ao setor. A repórter vinha com várias convicções antecipadas sobre as jovens grávidas. Para ela, estariam todas deprimidas com o fato de se verem grávidas tão jovens, "arrasadas" pelo possível futuro promissor interrompido de forma tão rápida.
Mas não foi isso que ela viu. Muitas jovens, se não estavam satisfeitas com a situação, tampouco se mostravam deprimidas com o fato de estarem grávidas. Algumas sorriam e se diziam ansiosas para aguardar os bebês que nasceriam dali a alguns meses. O clichê do "futuro interrompido" não havia ali.
Mas a repórter não se deu por vencida. Após conversar com várias meninas, finalmente encontrou uma que se mostrava um pouco mais distante que as outras. Bingo! Finalmente sua hipótese estava confirmada. Ela realizou a reportagem, editou e apresentou no seu telejornal do jeito que queria: aquelas meninas "tristes" estavam sendo ajudadas por uma equipe inovadora a "superar o trauma" de uma gravidez adolescente. Tenho certeza de que muitas daquelas meninas que por acaso tenham visto a reportagem na TV se perguntaram: trauma, mas que trauma?
Voltemos a 2014. Fico sabendo, num passeio pelas redes sociais, de uma notícia veiculada na edição impressa do jornal Extra, na qual o jornalista também se achou no direito de provar uma hipótese errada. A nota publicada pelo jornal era o "depoimento" que um cidadão teria dado ao repórter da revista, exaltando as obras da Transcarioca::
Jornal Extra:
“Agora a praia vai
ficar mais perto de casa”: Depoimento
Moro na praia e trabalho no Andaraí. Mas vou ser passageiro assíduo do
BRT para chegar ao meu lazer preferido: a praia. O período de obras foi de
sofrimento para quem mora onde o Transcarioca vai passar. Por isso, depois que
tudo estiver pronto, será a hora de relaxar e aproveitar.
Felizmente hoje temos redes sociais como Facebook e o Twitter, nos quais podemos nos defender. Um pouco depois da notícia publicada, o rapaz que deu a entrevista, Ubirajan Moreira, respondeu:
Facebook:
UM ABSURDO!
Modificaram tudo o que eu disse! Em momento
algum toquei no assunto PRAIA...! Falei dos atrasos no cronograma da obra, do
descaso com a população no entorno , da falta de sinalização e de segurança
(pois com a obra, alguns sinais apagaram) e tb falei que a obra não seria a
solução final pro trânsito na região ... !
Aí o babaca do repórter vai e me coloca como um
alienado suburbano que tá mais preocupado com o lazer da praia que com os
problemas gerados com a obra ...!
Até 27 de março a postagem havia recebido 13324 curtidas e 10807 compartilhamentos, confirmando que muitos se identificaram com a indignação de Ubirajan ao ver seu depoimento deturpado por um repórter de um jornal de grande circulação, que ao interferir no depoimento do rapaz, deixou de lado o jornalismo e terminou escrevendo a favor da Transcarioca. A prefeitura deve estar feliz com a propaganda inesperada.
O senso comum é um grande inimigo do jornalismo. Apostaram que Ubirajan estaria feliz com as obras, "para poder ficar mais perto da praia" Sua indignação no depoimento é visível. E o número de compartilhamentos ou curtidas que causou só demonstra que se a imprensa - que vem perdendo leitores para a internet - não se dispuser a rever alguns conceitos, ela ficará cada vez mais afastada do grande público.
Um jornalista não diz a verdade, pois não existe verdade absoluta. Mas ele deve procurar a versão mais próxima dos fatos. Ao apostar em ideias pré-concebidas e mesmo preconceituosas, perde o público, que recebe uma informação falsa, e perde o jornalismo, que ruma contra a realidade.
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