Imagine que você é um jornalista de um pequeno jornal, íntegro, honesto e que acaba vislumbrando a chance de conseguir a reportagem de sua vida. Mas a história envolve o governo de seu país, e é tão importante e sigilosa que pode acarretar grandes problemas para sua vida profissional e sua família. Você trava então o seguinte diálogo com uma fonte preciosa:
- Vou apresentar você a pessoas com quem deveria conversar. E então, vai ter que encarar a decisão mais importante de sua vida.
- E qual é?
- Decidir se vai divulgar ou não.
O que você faria? O jornalista americano Gary Webb decidiu divulgar. Este passo lhe daria fama, mas , consequentemente, seria responsável por sua tragédia.
Esta história real virou filme estrelado por Jeremy Renner (o Gavião Arqueiro da franquia blockbuster "Os Vingadores", aqui tendo a chance de atuar de verdade), "O mensageiro". Depois de uma temporada nos cinemas brasileiros na qual não fez muito barulho nem obteve a repercussão merecida, o filme agora já está disponível em DVD, Blue Ray e em alguns canais de televisão pagos. É uma ótima chance para conferir a história real de um jornalista que ousou enfrentar a CIA e o governos dos Estados Unidos para realizar uma grande reportagem investigativa. E como este trabalho arruinaria sua vida para sempre.
O filme conta a história real de como o jornalista Gary Webb, repórter do pequeno San Jose Mercury News, da costa oeste dos Estados Unidos, ou seja, muito longe e aquém dos poderosos Washington Post ou New York Times, conseguiu descobrir um poderoso esquema de tráfico de drogas envolvendo agentes da CIA e grupos contrários ao governo da Nicarágua. O esquema funcionava da seguinte forma: grandes quantidades de cocaína eram transportadas por avião para os Estados Unidos sob a vista grossa do governo americano, enquanto armas faziam o caminho contrário, visando abastecer o grupo dos Contras, que o governo dos EUA apoiava.
O jornalista, mesmo ameaçado por agentes do governo, resolve publicar a reportagem, naturalmente explosiva, não só ligando a CIA aos contras nicaraguenses mas relacionando esta entrada das drogas em solo americano com a complacência do governo à epidemia de crack entre a comunidade negra nos anos 1990. Com o nome de "Dark alliance", a série de reportagens veio a público em 1996.
O que veio a seguir foi uma das maiores campanhas de difamação contra um jornalista levadas a cabo nas últimas décadas. Agentes chegam a descobrir uma ex-amante do jornalista, com quem Webb tivera um caso anos antes e seria a responsável pela mudança da família para a costa oeste. O assunto era privado entre Webb e a esposa, e quando o filho mais velho toma conhecimento o outrora bem-estar familiar entra em crise.
Diferente do Brasil, nos Estados Unidos um órgão de imprensa que esteja pronto para veicular uma reportagem explosiva - e que envolva algum caso de segurança nacional - deve antes mostrar seu conteúdo para determinados órgãos governamentais, que farão tudo para impedir ou no mínimo amenizar o conteúdo dos fatos a serem divulgados. Webb é ameaçado. Seu jornal compra a briga e fura toda a grande mídia americana com a série de reportagens. A princípio, Webb é agraciado em casa e entre seus pares, mas a pressão governamental é tão grande que aos poucos seu jornal acaba cedendo às pressões. Webb é obrigado a se mudar para uma sucursal de seu jornal numa cidade menor, com assuntos menores e jornalistas em fim de carreira. Longe da família e dos assuntos mais "quentes", o repórter entra em crise.
Pra completar o cerco, o governo salienta que Web teria inventado tudo. A fonte misteriosa na Nicarágua, que teria tido o diálogo sobre publicar ou não a matéria, desaparece. Fontes preciosas começam a negar terem passado dados importantes ao repórter. Grandes jornais americanos, como o Los Angeles Times, ainda irritados por terem sido furados por um jornal de abrangência regional, sugerem ter Webb inventado alguns fatos. E aí se descobre o único grande erro do jornalista: não ter gravado todas as entrevistas com suas fontes.
Na verdade, podemos analisar o filme como uma grande questão ética: até que ponto estaríamos dispostos a arriscar não só nossa vida profissional como também nossa própria família e amigos para ir em frente contra forças poderosas?
Webb escolheu ir em frente. Ao receber o prêmio de Jornalista do Ano, o jornalista faz um discurso muito mais de desagravo à profissão do que de agradecimento. Neste mesmo dia ele pediria a demissão do jornal em que publicara as reportagens:
Achei que meu trabalho era contar ao público a verdade. Os fatos, fossem ou não bonitos.E com a publicação, fazer a diferença no modo de as pessoas olharem as coisas, a si mesmas e o que elas defendem.
Em 10 de dezembro de 2004, o jornalista foi encontrado morto na garagem de sua casa. O motivo da morte: suicídio.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
terça-feira, 14 de abril de 2015
Brasil: ame-o ou deixe-o (ou "O país do jeitinho")
Aconteceu na semana passada. Ou foi na retrasada? Na verdade situações como a que vou relatar acontecem, infelizmente, todos os dias no Brasil. E mostram um pouco desta realidade em que vivemos.
Tratava-se de um jogo de futebol. Norte do Brasil. Campeonato Amazonense. Nacional Borbense X Iranduba. No final da partida, o goleiro do Borbense é atingido e cai em campo, desacordado, O jogo é paralisado. Chamam a ambulância.
O motorista estava dormindo.
Acordam o homem. O corpo do jogador inerte é colocado no veículo. O motorista tenta dar a partida. A ambulância está enguiçada. Jogadores dos dois times mais comissões técnicas se mobilizam para dar um "tranco" no veículo.
A ambulância não pega. Nem no tranco.
A polícia é acionada. Confusão geral. Radialistas narram o incidente. Felizmente, a viatura policial está funcionando.
O jogador desacordado segue para o hospital no carro de polícia. Ou melhor, na caçamba do carro de polícia. Ele passa bem.
Situações como essa deveriam ser raras. Mas não é o caso em nosso país. Na página do Google onde encontrei o link deste caso há outros similares.
Soube do caso ao ver a matéria no Globo Esporte. Fico imaginando o escândalo que seria se o problema tivesse acontecido numa partida de transmissão nacional. A imprensa faria vários artigos sobre a situação "revoltante" dos campeonatos e da falta de infraestrutura em estádios superfaturados para a Copa do Mundo. Políticos tentariam aparecer sugerindo novas leis para os campeonatos. Dirigentes de federações dariam entrevistas se dizendo "indignados" e que seriam tomadas providências incisivas para melhorar o atendimento em casos como o ocorrido.
Até que outro campeonato venha, outro clássico regional seja jogado e o episódio esquecido. Apenas para outro acontecer em outra localidade deste país continental e desigual.
Enquanto isso, os campeonatos não podem parar: afinal, o futebol é a paixão nacional! E em casos como esse, pode-se sempre dar um jeitinho, não é mesmo? Nem que seja carregar um jogador passando mal na caçamba de uma viatura policial...
Como diria um velho jornal alternativo nos anos 1970, em resposta a um bordão ufanista da ditadura, "Brasil, ame-o ou deixe-o":
- O último a sair apague a luz!
Tratava-se de um jogo de futebol. Norte do Brasil. Campeonato Amazonense. Nacional Borbense X Iranduba. No final da partida, o goleiro do Borbense é atingido e cai em campo, desacordado, O jogo é paralisado. Chamam a ambulância.
O motorista estava dormindo.
Acordam o homem. O corpo do jogador inerte é colocado no veículo. O motorista tenta dar a partida. A ambulância está enguiçada. Jogadores dos dois times mais comissões técnicas se mobilizam para dar um "tranco" no veículo.
A ambulância não pega. Nem no tranco.
A polícia é acionada. Confusão geral. Radialistas narram o incidente. Felizmente, a viatura policial está funcionando.
O jogador desacordado segue para o hospital no carro de polícia. Ou melhor, na caçamba do carro de polícia. Ele passa bem.
Situações como essa deveriam ser raras. Mas não é o caso em nosso país. Na página do Google onde encontrei o link deste caso há outros similares.
Soube do caso ao ver a matéria no Globo Esporte. Fico imaginando o escândalo que seria se o problema tivesse acontecido numa partida de transmissão nacional. A imprensa faria vários artigos sobre a situação "revoltante" dos campeonatos e da falta de infraestrutura em estádios superfaturados para a Copa do Mundo. Políticos tentariam aparecer sugerindo novas leis para os campeonatos. Dirigentes de federações dariam entrevistas se dizendo "indignados" e que seriam tomadas providências incisivas para melhorar o atendimento em casos como o ocorrido.
Até que outro campeonato venha, outro clássico regional seja jogado e o episódio esquecido. Apenas para outro acontecer em outra localidade deste país continental e desigual.
Enquanto isso, os campeonatos não podem parar: afinal, o futebol é a paixão nacional! E em casos como esse, pode-se sempre dar um jeitinho, não é mesmo? Nem que seja carregar um jogador passando mal na caçamba de uma viatura policial...
Como diria um velho jornal alternativo nos anos 1970, em resposta a um bordão ufanista da ditadura, "Brasil, ame-o ou deixe-o":
- O último a sair apague a luz!
quinta-feira, 19 de março de 2015
Samuel Fuller e o cinema: "Em uma palavra: emoção"
Difícil imaginar cena de abertura tão impactante. Uma mulher, num acesso de fúria, entra numa casa agredindo violentamente um homem com golpes desferidos por um sapato feminino. O homem está bêbado e suas tentativas de reagir são inúteis. A certa altura, ele puxa o cabelo da mulher e descobrimos que ela é totalmente careca. Ela não se inibe e continua golpeando o homem. Ao fundo, um som de jazz bem acelerado. O homem vai ao chão. A mulher, então, arranca dos bolsos dele uma quantia de dólares e diz ao homem que só vai levar o que ele a deve. Pouco depois, o homem está inerte no chão. A mulher prosta-se em frente a um espelho, recoloca a peruca e começa a se realinhar. Aos poucos, começam a surgir os créditos do filme. O título: "The naked kiss". Seu autor: Samuel Fuller.
No Brasil, "The naked kiss" ganhou o título "O beijo amargo". O filme é de 1964 e consta do lançamento "A arte de Samuel Fuller", uma caixa de quatro DVDs da Versátil, Além de "O beijo amargo", há também o cultuado "Paixões que alucinam" ("Shock corridor"), além dos menos conhecidos "O quimono escarlate" e "Casa de bambu". E um documentário sobre Fuller com depoimentos de gente como Tarantino e Martin Scorsese.
Fuller começou sua carreira como jornalista, bem cedo, aos 17 anos. Escreveu novelas pulp e mais tarde, lutou na Segunda Guerra Mundial pelo exército americano, conflito que o marcaria e que mais tarde seria mostrado em obras como "Agonia e Glória". Começou no cinema como roteirista, até estrear na direção em 1949, com "Eu matei Jesse James". Em 1982, realizou um dos maiores filmes sobre a questão do racismo, "Cão branco", a história de um cão que é adestrado pelo seu dono racista a odiar negros. O filme, apesar de ótimo, foi rechaçado pela própria produtora, Paramount, com medo de seu potencial polêmico, e lançado de maneira independente, arrecadando muito pouco. Este foi um dos motivos de Fuller sair dos EUA e terminar sua carreira na Europa, para onde se mudou nos anos 80.Seu último filme seria "Uma rua sem volta", em 1989. Fuller morreria em outubro de 1997, aos 85 anos.
Mas por que Fuller é hoje um cineasta cultuado por não só fãs de cinema mas diretores famosos? Talvez seja sua direção criativa e impactante, além da atração pela vida real, sem artifícios hollywoodianos para vender emoções baratas a uma plateia acostumada com o escapismo insosso de tantos filmes. Como em "O beijo amargo", que retrata a trajetória de uma ex-prostituta e stripper, que, para fugir do seu passado, viaja para uma cidadezinha onde ninguém a conhece.
O local é, à primeira vista, uma idílica e tranquila cidade repleta de indivíduos típicos das pequenas cidades americanas nos anos 1960. Afáveis, generosos, e dispostos a ajudá-la. O local perfeito, pensa Kelly, a ex-prostituta interpretada de forma magistral por Constance Towers.
Mas nem tudo ali é perfeito. Aos poucos, Kelly, que consegue emprego como enfermeira numa clínica de crianças com deficiência nas pernas, descobrirá que o futuro tranquilo que almejava não seria tão fácil de encontrar. As pessoas que pareciam tão bem dispostas a aceitá-la aos poucos começam a demonstrar a inveja, ciúme, insegurança e violência. A pequena cidade, enfim, revela-se como mais um microcosmo de uma sociedade irremediavelmente humana. Um filme, enfim, adulto como poucos hoje em dia.
Uma das frases mais famosas de Samuel Fuller foi quando ele buscou definir seu ofício:
"Um filme é um campo de batalha. É amor, ódio, ação, violência, morte. Em uma palavra: emoção"
No Brasil, "The naked kiss" ganhou o título "O beijo amargo". O filme é de 1964 e consta do lançamento "A arte de Samuel Fuller", uma caixa de quatro DVDs da Versátil, Além de "O beijo amargo", há também o cultuado "Paixões que alucinam" ("Shock corridor"), além dos menos conhecidos "O quimono escarlate" e "Casa de bambu". E um documentário sobre Fuller com depoimentos de gente como Tarantino e Martin Scorsese.
Fuller começou sua carreira como jornalista, bem cedo, aos 17 anos. Escreveu novelas pulp e mais tarde, lutou na Segunda Guerra Mundial pelo exército americano, conflito que o marcaria e que mais tarde seria mostrado em obras como "Agonia e Glória". Começou no cinema como roteirista, até estrear na direção em 1949, com "Eu matei Jesse James". Em 1982, realizou um dos maiores filmes sobre a questão do racismo, "Cão branco", a história de um cão que é adestrado pelo seu dono racista a odiar negros. O filme, apesar de ótimo, foi rechaçado pela própria produtora, Paramount, com medo de seu potencial polêmico, e lançado de maneira independente, arrecadando muito pouco. Este foi um dos motivos de Fuller sair dos EUA e terminar sua carreira na Europa, para onde se mudou nos anos 80.Seu último filme seria "Uma rua sem volta", em 1989. Fuller morreria em outubro de 1997, aos 85 anos.
Mas por que Fuller é hoje um cineasta cultuado por não só fãs de cinema mas diretores famosos? Talvez seja sua direção criativa e impactante, além da atração pela vida real, sem artifícios hollywoodianos para vender emoções baratas a uma plateia acostumada com o escapismo insosso de tantos filmes. Como em "O beijo amargo", que retrata a trajetória de uma ex-prostituta e stripper, que, para fugir do seu passado, viaja para uma cidadezinha onde ninguém a conhece.
O local é, à primeira vista, uma idílica e tranquila cidade repleta de indivíduos típicos das pequenas cidades americanas nos anos 1960. Afáveis, generosos, e dispostos a ajudá-la. O local perfeito, pensa Kelly, a ex-prostituta interpretada de forma magistral por Constance Towers.
Mas nem tudo ali é perfeito. Aos poucos, Kelly, que consegue emprego como enfermeira numa clínica de crianças com deficiência nas pernas, descobrirá que o futuro tranquilo que almejava não seria tão fácil de encontrar. As pessoas que pareciam tão bem dispostas a aceitá-la aos poucos começam a demonstrar a inveja, ciúme, insegurança e violência. A pequena cidade, enfim, revela-se como mais um microcosmo de uma sociedade irremediavelmente humana. Um filme, enfim, adulto como poucos hoje em dia.
Uma das frases mais famosas de Samuel Fuller foi quando ele buscou definir seu ofício:
"Um filme é um campo de batalha. É amor, ódio, ação, violência, morte. Em uma palavra: emoção"
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Lides imperdíveis: Charles Dickens e o homem guilhotinado
Um assunto recente foi motivo de controvérsia no Brasil: a execução de um brasileiro, por tráfico de drogas, na Indonésia. Marco Asher tinha 53 anos e fora preso em 2004, ao entrar entrar naquele país com 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos e uma asa delta. Após a droga ter sido descoberta pelo raio-X do aeroporto, o brasileiro ainda conseguiu fugir, mas acabou preso novamente 12 dias depois. No dia 18 de janeiro de 2015, Marcos foi executado pelo pelotão de fuzilamento.
De nada adiantaram os inúmeros pedidos de clemência do governo brasileiro. Após a execução, a presidente Dilma Rousseff se mostrou "consternada e indignada" com o episódio. Há poucos dias, a situação diplomática entre os dois países piorou bastante, após o governo brasileiro ter decidido adiar as credenciais do embaixador da Indonésia em Brasília - ato que representaria o começo das atividades do estado indonésio no Brasil, O governo indonésio considerou o ato uma hostilidade e mandou seu embaixador voltar. Para muitos analistas de política internacional, foi um péssimo ato da diplomacia brasileira, pois ainda há outro brasileiro no corredor da morte na Indonésia.
A execução de estrangeiros em determinados países que ainda possuem pena de morte é hoje um ato que, como no caso brasileiro, pode levar a incidentes diplomáticos entre os países envolvidos. Mas houve tempo em que execuções de criminosos eram comuns e reuniam muita gente em praça pública para testemunhar o fato. Em 1845, Charles Dickens, que além de grande escritor também trabalhou por toda a sua vida - com intervalos mais ou menos esparsos - como jornalista, esteve na Itália, onde presenciou um homem ser guilhotinado. Este episódio marca a volta da série "lides imperdíveis", para a qual transcrevo o primeiro parágrafo da reportagem "Um homem é guilhotinado em Roma". Em apenas um parágrafo, Dickens reconstitui o crime bárbaro que motivaria a pena de morte, com um vigor de escrita que poderia facilmente ser tema de um conto ou romance:
"Numa manhã de sábado (8 de março), um homem foi decapitado aqui. Nove ou dez meses antes, ele assaltara na estrada uma condessa bávara que viajava como peregrina à Roma - sozinha e a pé, por certo - e fazia, diz-se, este ato de devoção pela quarta vez. O homem a viu trocar uma peça de outo em Viterbo, onde ela morava; seguiu-a; fez-lhe companhia na viagem por uns 64 quilômetros ou mais, sob o traiçoeiro pretexto de protegê-la; atacou-a, no cumprimento de seu implacável propósito, na Campagna, a muito pouca distância de Roma, perto do que se chama (mas não é) o Túmulo de Nero, roubou-a e espancou-a até a morte com o cajado da própria peregrina. Era recém-casado, e deu algumas das roupas da vítima à esposa, dizendo que comprara numa feira. Ela, porém, que vira a peregrina passando pela cidade, reconheceu algum detalhe como pertencente à condessa. O marido então disse-lhe o que havia feito. Ela, em confissão, contou a um padre; e o homem foi preso, quatro dias depois de ter cometido o assassinato."
,
De nada adiantaram os inúmeros pedidos de clemência do governo brasileiro. Após a execução, a presidente Dilma Rousseff se mostrou "consternada e indignada" com o episódio. Há poucos dias, a situação diplomática entre os dois países piorou bastante, após o governo brasileiro ter decidido adiar as credenciais do embaixador da Indonésia em Brasília - ato que representaria o começo das atividades do estado indonésio no Brasil, O governo indonésio considerou o ato uma hostilidade e mandou seu embaixador voltar. Para muitos analistas de política internacional, foi um péssimo ato da diplomacia brasileira, pois ainda há outro brasileiro no corredor da morte na Indonésia.
A execução de estrangeiros em determinados países que ainda possuem pena de morte é hoje um ato que, como no caso brasileiro, pode levar a incidentes diplomáticos entre os países envolvidos. Mas houve tempo em que execuções de criminosos eram comuns e reuniam muita gente em praça pública para testemunhar o fato. Em 1845, Charles Dickens, que além de grande escritor também trabalhou por toda a sua vida - com intervalos mais ou menos esparsos - como jornalista, esteve na Itália, onde presenciou um homem ser guilhotinado. Este episódio marca a volta da série "lides imperdíveis", para a qual transcrevo o primeiro parágrafo da reportagem "Um homem é guilhotinado em Roma". Em apenas um parágrafo, Dickens reconstitui o crime bárbaro que motivaria a pena de morte, com um vigor de escrita que poderia facilmente ser tema de um conto ou romance:
"Numa manhã de sábado (8 de março), um homem foi decapitado aqui. Nove ou dez meses antes, ele assaltara na estrada uma condessa bávara que viajava como peregrina à Roma - sozinha e a pé, por certo - e fazia, diz-se, este ato de devoção pela quarta vez. O homem a viu trocar uma peça de outo em Viterbo, onde ela morava; seguiu-a; fez-lhe companhia na viagem por uns 64 quilômetros ou mais, sob o traiçoeiro pretexto de protegê-la; atacou-a, no cumprimento de seu implacável propósito, na Campagna, a muito pouca distância de Roma, perto do que se chama (mas não é) o Túmulo de Nero, roubou-a e espancou-a até a morte com o cajado da própria peregrina. Era recém-casado, e deu algumas das roupas da vítima à esposa, dizendo que comprara numa feira. Ela, porém, que vira a peregrina passando pela cidade, reconheceu algum detalhe como pertencente à condessa. O marido então disse-lhe o que havia feito. Ela, em confissão, contou a um padre; e o homem foi preso, quatro dias depois de ter cometido o assassinato."
,
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Quando seu ídolo aparece de surpresa...
Imagine a cena. É noite e você decide ir à Lapa, bairro boêmio do centro do Rio de Janeiro, para relaxar, tomar uma cerveja, encontrar os amigos e, quem sabe, ouvir um samba de qualidade. Você escolhe o bar, se acomoda numa boa mesa e logo depois a banda começa a tocar. Perto de você, há um senhor que lembra alguém conhecido - sua namorada comenta ser "a cara do Chico Buarque". Você ri e pensa, e se fosse mesmo ele? Quase ao final da primeira parte do show, o vocalista diz ao público que há uma presença ilustre na plateia e que, veja só, havia pedido para "cantar uma musiquinha". Você não acredita no que vê: Chico Buarque, em pessoa, levanta e canta três músicas, para delírio da plateia. Ao fundo, um gaiato grita: "Foi o couvert mais bem pago da minha vida!"
Soube da notícia lendo os posts do facebook. Na quarta-feira, o
fato saiu publicado na coluna Gente Boa, do jornal O Globo. Sintomático: não é
todo dia que vemos Chico Buarque em pessoa dando canjas na cidade. Inspirado
pela leitura e pelo post
anterior, sobre as escapadas de Cássia Eller para cantar de surpresa em
lugares totalmente inusitados, comecei a imaginar os momentos de minha vida em
que algum cantor apareceu de surpresa em outro show no qual estava presente
apenas como público ou para prestigiar o colega no palco e, então...acabavam
participando do show.
Lembro que uma das lembranças mais antigas que tenho com relação a
espetáculos musicais aconteceu quando eu ainda era adolescente, num do Caetano
na Praça da Apoteose, aqui no Rio. Era o começo dos anos 1980, época de
eleições para governador. O show era para lançar o disco "Totalmente
demais", um grande sucesso nas rádios, puxado pela música título, de
Arnaldo Brandão, e demais sucessos e versões cantados exclusivamente no formato
voz e violão.
Sim, um show voz e violão em plena Apoteose, acostumada a receber
os desfiles do Carnaval carioca. Mas realmente houve esse espetáculo, e o
público compareceu em massa. Foi interessante quando, logo no começo do show, a
um pedido do cantor, o público da pista - em pé - sentou no chão para ouvir e
cantar junto os sucessos do compositor baiano e clássicos da música brasileira.
A certa altura do espetáculo, Caetano elogiou a cantora argentina Mercedes
Sosa, que estava na cidade para alguns shows que faria no Canecão, e disse,
daquele jeito como quem não quer nada..."Ela está aqui". A plateia se
alvoroçou. O cantor então continuou:
- Não só a Mercedes, mas Chico Buarque e Milton Nascimento também
estão assistindo ao show,,,
Foi o bastante para o pequeno alvoroço virar um barulho infernal,
com gritos de "Mercedes!", "Chico!", Milton!",
enquanto Caetano ria do alto do palco. Foi então que ele olhou para os
bastidores e, para surpresa de todos, entram Chico Buarque, Milton Nascimento e
Mercedes Sosa. No palco, o quarteto cantou um dos maiores clássicos de
Mercedes, "volver a los 17". Foi o momento mais aplaudido da noite.
Outro momento em que um ilustre convidado apareceu de repente foi
num show de Gilberto Gil na praia de Copacabana. Era um fim de semana e eu
havia ido ao show com um amigo. Lá pelas tantas, Gil diz que vai chamar um
amigo ao palco para dar uma canja. Eis que surge no palco Sting, que também
estava no Brasil para shows da Anistia Internacional em São Paulo e resolvera
dar uma esticada no Rio. Naquela noite, para deleite da plateia, Sting cantou
dois clássicos do Police: "Message in a bottle" e
"Roxanne". Em plena praia de Copacabana, num sábado à noite.
Por último, e o mais inusitado de todos, aconteceu numa noite doa
anos 1990 na pequena localidade de Vilatur, cidade espremida entre Bacaxá e
Araruama, na Região dos Lagos carioca. Quando estava casado, eu ia muito lá,
pois meus ex-sogros tinham uma casa de veraneio lá. Não era uma cidade das mais
concorridas. pra falar a verdade, mesmo muitos cariocas jamais ouviram falar em
Vilatur - era daquelas localidades com apenas uma padaria, uma farmácia, três
ou quatro bares para se distrair à noite e pouca coisa mais. Ah, e uma praia
quase tão linda quanto perigosa.
Foi num fim de semana que descobrimos que haveria música ao vivo
num dos bares da região. Como não era algo comum, fomos conferir. Sim,
realmente havia naquela noite uma banda se apresentando. O repertório era quase
todo de samba e pagodes. Sentamo-nos e pedi uma cerveja, satisfeito por ter,
enfim, algo para se fazer naquele local. De repente, a banda começa a tocar um
clássico conhecido pela voz de Elis Regina: "O bêbado e o
equilibrista". Ao som dos primeiros acordes, um senhor de meia idade com
cara de farmacêutico e cabelos grisalhos quase brancos, assume o microfone e
começa a cantar o clássico, com uma voz rouca de cerveja mas razoavelmente
afinado.
Prestei mais atenção e quase não acreditei.Sim, era ele mesmo,
Aldir Blanc, autor da letra da música composta em parceria com João Bosco. Ao
contrário dos dois casos anteriores, ninguém da plateia de pinguços pareceu
notar que ali, naquele quase fim de mundo, se apresentava o autor de um dos
maiores clássicos da MPB. Quando acabou a música, aplausos protocolares, um ou
outro mais exaltado, mas quase nenhuma diferença entre antes. Nem quando um dos
rapazes da banda falou rapidamente, apontando para aquele senhor que acabara de
cantar: "Vocês acabaram de ouvir Aldir Blanc, autor dessa música!".
Muitos resolveram pedir mais uma cerveja e aguardar o próximo pagode. Enquanto
eu me perguntava se o que acabara de ver tinha sido realidade ou não. Ao findar
o show, tentei ver se Aldir continuava lá, mas ele já partira. Infelizmente,
para a maioria dos presentes, ele era apenas mais um pinguço que, tal como Chico
Buarque, pedira para "cantar uma musiquinha".
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Som, fúria e...um pouco de ternura: Cássia Eller
Em janeiro de 2011, eu estava junto aos milhares de espectadores da terceira edição do Rock in Rio. Era o primeiro dia do festiva e quem abriria a noite era simplesmente Cássia Eller. O dia ainda estava claro quando Cássia adentrou o palco munida apenas de violão e começou a cantar uma canção de Renato Russo, que dizia "sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher". Atrás dela, uma banda afiadíssima, com a participação do Nação Zumbi em algumas músicas. Mais atrás, escondido entre os instrumentos de percussão, estava o filho de Cássia, Chicão, com 6 anos e participando do show.
,
Menos de 40 minutos depois de um show arrasador e com a plateia já ganha, Cássia começa a cantar suavemente a letra de "Smells like teen spirit". Logo depois, o chão literalmenbte tremeu com o poderoso refrão do rock de Kurt Cobain e a animação da plateia. Confesso que não me lembro de ver tanta gente pulando e gritando a letra de um rock tão furiosamente como naquele grand finale do show. Nos bastidores, o ex-baterista do Nirvana Dave Grohl,\participando do festival com sua banda Foo Fighters, ficara embasbacado com a interpretação. Foi um dos maiores shows da história do Rock in Rio e uma das maiores performances de uma cantora em qualquer momento dos festivais de música no Brasil
Tudo isso está contado no filme "Cássia Eller", de Paulo Henrique Fontenelle, o mesmo do ótimo "Loki" (2008), sobre o eterno mutante Arnaldo Batista. O mais interessante do filme é mostrar como um menina bastante tímida, insegura, com dificuldades em relacionar-se com pessoas de qualquer ramo (mal conseguia dar entrevistas) se transformava num furacão quando estava no palco. Em mais de uma cena do filme, Cássia surge dizendo que cantar foi a salvação que ela encontrou para ser aceita socialmente e poder ser observada com mais atenção. No caso dela, cantar surgia muito mais do que uma vontade imperiosa, mas uma necessidade arrasadora de sentir-se livre. Cantar para viver, em qualquer palco, em qualquer canto. Para ela, pouco importava estar nos palcos luxuosos das grandes casas de espetáculo do sudeste ou, disfarçadamente, surgir de surpresa com cantora de uma bandinha feita às pressas, no palco de um forró pé-de-serra na cidade serrana de São Pedro da Serra, no Rio de Janeiro, para surpresa e deslumbre da plateia.
"Cássia Eller", o filme, conta a história desta grande cantora com rigor e bastante emoção, como nos momentos finais, ao mostrar a luta de sua companheira Maria Eugênia, pela guarda judicial de Chicão. Mas o que fica mesmo é a marca daquela que cantou de tudo enquanto esteve viva. Cássia faz muita falta no cenário de música brasileira atual, que parece ter encaretado desde então. Não perca.
,
Menos de 40 minutos depois de um show arrasador e com a plateia já ganha, Cássia começa a cantar suavemente a letra de "Smells like teen spirit". Logo depois, o chão literalmenbte tremeu com o poderoso refrão do rock de Kurt Cobain e a animação da plateia. Confesso que não me lembro de ver tanta gente pulando e gritando a letra de um rock tão furiosamente como naquele grand finale do show. Nos bastidores, o ex-baterista do Nirvana Dave Grohl,\participando do festival com sua banda Foo Fighters, ficara embasbacado com a interpretação. Foi um dos maiores shows da história do Rock in Rio e uma das maiores performances de uma cantora em qualquer momento dos festivais de música no Brasil
Tudo isso está contado no filme "Cássia Eller", de Paulo Henrique Fontenelle, o mesmo do ótimo "Loki" (2008), sobre o eterno mutante Arnaldo Batista. O mais interessante do filme é mostrar como um menina bastante tímida, insegura, com dificuldades em relacionar-se com pessoas de qualquer ramo (mal conseguia dar entrevistas) se transformava num furacão quando estava no palco. Em mais de uma cena do filme, Cássia surge dizendo que cantar foi a salvação que ela encontrou para ser aceita socialmente e poder ser observada com mais atenção. No caso dela, cantar surgia muito mais do que uma vontade imperiosa, mas uma necessidade arrasadora de sentir-se livre. Cantar para viver, em qualquer palco, em qualquer canto. Para ela, pouco importava estar nos palcos luxuosos das grandes casas de espetáculo do sudeste ou, disfarçadamente, surgir de surpresa com cantora de uma bandinha feita às pressas, no palco de um forró pé-de-serra na cidade serrana de São Pedro da Serra, no Rio de Janeiro, para surpresa e deslumbre da plateia.
"Cássia Eller", o filme, conta a história desta grande cantora com rigor e bastante emoção, como nos momentos finais, ao mostrar a luta de sua companheira Maria Eugênia, pela guarda judicial de Chicão. Mas o que fica mesmo é a marca daquela que cantou de tudo enquanto esteve viva. Cássia faz muita falta no cenário de música brasileira atual, que parece ter encaretado desde então. Não perca.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Meus papos com Tuco: esquentando os tamborins
Carnaval chegando, dúvida cruel. Que fantasia vestir? Não sou dos que planejam com detalhes qual será a fantasia para pular nas ruas ou na avenida durante o reinado de Momo. Quando criança, fui a bailes infantis fantasiado de índio, no melhor estilo "Cacique de Ramos". Na época o bloco era uma grande força carnavalesca no Rio e eu tinha tios que desfilavam sempre. Como eles frequentavam muito os ensaios, compravam roupas infantis do bloco para meu primos, eu e meu irmão. Nossa "tribo" se divertia muito naquela tardes carnavalescas.
Ah, as tardes carnavalescas dos anos 70. Era muito mais fácil arrumar uma fantasia para seu filho. Hoje, é tanta oferta de fantasia e tantos novos personagens, que até o diálogo com o filho é um pouco confuso.
- E aí, Tuco, já decidiu qual fantasia vai usar no carnaval?
- Pô, pai, nem sei se vou me fantasiar...
- Por que, filho?
- Esse ano passo com minha mãe...e lá em Vilatur quase não tem bloco.
- É verdade. Mas se quiser eu compro pra você a fantasia do Mario Bros.
- Nem pensar!
- Por quê?
- Não quero me fantasiar de Mário. prefiro jogar o game. Aquela roupa é meio ridícula...
- Rsrs. Isso eu também acho. Você não ia se fantasiar de Coringa?
- Estava querendo. Mas a dificuldade é a roupa. E o cabelo verde? Teria que pintar.
- Não é melhor usar uma máscara?
- Não ficaria tão legal, pai.
- Posso mandar a vovó comprar uma fantasia maneira no Saara...
- Não! Ano passado a vovó comprou a fantasia errada.
- Ah, sei. Sua ideia era se fantasiar de morte... Capa, máscara de caveira e foice. Ia ficar bem sinistro.
- Sim. Só que a vovó foi no Saara e comprou uma máscara de palhaço assassino e um tridente.
- Me lembro. Só acertou a capa...Pelo menos ficou uma fantasia original, rs
- Ah, pai, nem vem, rsrs.
Rimos juntos. Rir junto com o filho é uma das boas coisas de ser pai. Com ou sem fantasia.
Ah, as tardes carnavalescas dos anos 70. Era muito mais fácil arrumar uma fantasia para seu filho. Hoje, é tanta oferta de fantasia e tantos novos personagens, que até o diálogo com o filho é um pouco confuso.
- E aí, Tuco, já decidiu qual fantasia vai usar no carnaval?
- Pô, pai, nem sei se vou me fantasiar...
- Por que, filho?
- Esse ano passo com minha mãe...e lá em Vilatur quase não tem bloco.
- É verdade. Mas se quiser eu compro pra você a fantasia do Mario Bros.
- Nem pensar!
- Por quê?
- Não quero me fantasiar de Mário. prefiro jogar o game. Aquela roupa é meio ridícula...
- Rsrs. Isso eu também acho. Você não ia se fantasiar de Coringa?
- Estava querendo. Mas a dificuldade é a roupa. E o cabelo verde? Teria que pintar.
- Não é melhor usar uma máscara?
- Não ficaria tão legal, pai.
- Posso mandar a vovó comprar uma fantasia maneira no Saara...
- Não! Ano passado a vovó comprou a fantasia errada.
- Ah, sei. Sua ideia era se fantasiar de morte... Capa, máscara de caveira e foice. Ia ficar bem sinistro.
- Sim. Só que a vovó foi no Saara e comprou uma máscara de palhaço assassino e um tridente.
- Me lembro. Só acertou a capa...Pelo menos ficou uma fantasia original, rs
- Ah, pai, nem vem, rsrs.
Rimos juntos. Rir junto com o filho é uma das boas coisas de ser pai. Com ou sem fantasia.
Assinar:
Postagens (Atom)
