quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sons da Copa: a Vuvuzela, o "pássaro" Galvão e o "Mandelation"

Segundo Sartre, o inferno são os outros. Para dar um adendo, o inferno são os outros soprando vuvuzelas.
Luís Fernando Verissimo

Deu no Informe JB:

Vuvuzela, não!
Para se livrar do barulho das vuvuzelas em jogos da Copa, um alemão conhecido como Tube, dono do blog Surfpoeten, decidiu investir num software que filtra a frequência da maldita corneta. Ele transfere o áudio da TV para um computador com um programa especial, que rejeita as frequências mais, digamos, enlouquecedoras.

Vuvuzela, não! 2
Usuários de IPhone podem (mas não façam isso!) baixar 11 aplicativos com sons de vuvuzela. O toque "Vuvuzela 2010", por exemplo, já foi baixado mais de 750 mil vezes. Realmente, há gosto para tudo.

Não tem jeito mesmo: esta Copa será definitivamente lembrada - para o bem ou para o mal - como a "Copa das vuvuzelas". Lembro que a primeira vez que ouvi o som das cornetas africanas foi na final da Copa das Confederações, em 2009. Naquele mesmo dia, minha mãe, ao passar perto da TV, achou que havia algum problema com o som do aparelho. Parecia uma invasão de insetos, algum tipo de praga.

- A televisão está com um som estranho, reparou? Será que está bem sintonizada?
- Está sim. Este som é o das vuvuzelas.
- E o que é isso?
- São as cornetas africanas, tocadas pela maioria da torcida no estádio.
- Que som horrível!
- Pois é...

Pelo menos não somos apenas nós, brasileiros, que estranham e se incomodam com o barulho das vuvuzelas (nem todos, é claro, como mostra a segunda notinha acima). Na festa de abertura da Copa, ela foi terminantemente proibida, para não abafar o som das estrelas pop. Mas no dia dos jogos é que a coisa pega: as cornetas praticamente só se calam na hora dos hinos oficiais dos países. Andei lendo que há jornalistas brasileiros levando protetores de ouvido para os estádios.
E já há até explicações científicas que tentam desvendar porque a vuvuzela incomodaria tanto. O mesmo JB, no artigo "A vuvuzela e a ciência da zoeira", o britânico Trevor Cox, presidente do Instituto de Acústica do Reino Unido, resume:

- Uma única vuvuzela, tocada por um músico competente, remete a um som ancestral, como o de uma trompa de caça. Mas o som é menos agradável quando é tocada por um fã de futebol, já que as notas são imperfeitas. Além disso, cada torcedor toca com uma intensidade e frequência diferente, causando uma zoeira, parecida com o zumbido de insetos ou um berro de elefante.

Berro de elefante? Uma corneta apenas não faz verão, mas centenas em uníssono lembram mesmo uma manada de elefantes. Claro que sempre surge alguém que tenta se dar bem: um jogador holandês escapou de ser expulso depois de fazer um gol com o jogo já paralisado, ao avisar para o juiz que não escutou o apito por conta do barulho das vuvuzelas. E depois de várias reclamações, a Fifa estuda proibir a malfadada corneta.


Sei não. A princípio sou contra. Estádios são lugares de jogos e também de festa nas arquibancadas. Em todo o mundo há torcidas que levam não só cornetas mas vários outros instrumentos e fazem um fuzuê danado. Por que proibir logo a vuvuzela? Podemos achá-las chatas, mas os africanos, nossos anfitriões nessa Copa, adoram.

***

Voltando às duas notinhas que abrem esse texto, é interessante notar como nos dois exemplos, ainda que antagônicos, há ali algo em comum: ao se referir a um blog e celulares modernos eles refletem a força das novas mídias na contemporaneidade, que entram sem pedir licença, mudando comportamentos, sugerindo novas pautas na mídia tradicional (né mesmo, JB?), levando-nos ao encontro de uma nova realidade.

Na última Copa, não havia celulares 3G, o Youtube ainda engatinhava e o Twitter nem havia surgido. Com a velocidade que as novas redes sociais se instalaram e o avanço da internet no Brasil, muitos hábitos mudaram. Duas recentes pesquisas divulgadas por Gilberto Dimenstein e sua coluna na CBN comprovam tal afirmação. Hoje o Brasil seria o campeão mundial no uso de redes sociais, com o Orkut ainda reinando soberano no topo dos preferidos. A outra pesquisa, segundo Dimenstein, foi feita entre jovens brasileiros de 16 a 24 anos, inclusive da classe C, e verificou que ali a internet chega a competir com a TV aberta.

Daí o imenso sucesso da campanha "Cala a Boca Galvão" no Twitter, feita "em homenagem" ao locutor global Galvão Bueno, e que desde o início da Copa figura entre os tópicos mais acessados da rede social, chegando até ao primeiro lugar dos assuntos mais comentados. Americanos e europeus, é claro, não entenderam nada. Para "explicar", gaiatos brasileiros (vem cá, neguinho não tem mais nada pra fazer não? rsrs) informaram que o 'galvão' seria um pássaro brasileiro ameaçado de extinção, e que o nome da campanha na verdade queria dizer "Save galvão birds". Outros, ainda mais imaginativos, deduziram que seria o nome de uma nova canção de Lady Gaga, deixando o fã-clube oficial da moça ouriçadíssimo sobre o vazamento na rede de um suposto novo hit da performática cantora...


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Mas qual seria a origem das vuvuzelas, a despeito de todas as explicações científicas? A melhor explicação que ouvi até agora foi feita pelo colunista José Simão, na Band News: a vuvuzela seria filha bastarda de um relacionamento de Galvão Bueno com uma boneca inflável (!). Daí o singular "É tetraaaaa..." do Galvão torcedor (ops, locutor) combinar tão bem com o barulho ensurdecedor das cornetas.

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Vuvuzelas berrando nos estádios, Galvão Bueno confundido com um pássaro, Lady Gaga e por aí vai...quantos sons nos chamam a atenção nessa Copa! Por hora, fico com um som bem mais agradável e divertido do que as vuvus ou a locução do Galvão. Me refiro ao "Mandelation" - mistura de "Rebolation" com homenagem a Nelson Mandela, criado (quem mais?) por torcedores brasileiros na África do Sul. Divirtam-se e até o próximo post.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sobre leis inúteis e inusitadas

Tomei a liberdade de tecer alguns pitacos sobre a malfadada "Lei da Palmada" que alguns nobres deputados querem tornar realidade aqui em nosso país das contradições. Alguns não, a autora da emenda tem nome e se chama Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul. O projeto de lei 2654/03 altera o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelecendo que a criança não pode receber nenhum tipo de punição corporal, moderada ou não. Seria o fim do "um tapinha não dói"? Mas como descobrir se os pais bateram ou não na criança? Segundo a lei, qualquer um pode fazer a denúncia (quem? vizinhos? fofoqueiros de plantão? dedo-duros de todo tipo?), com a punição consistindo de cursos de orientação pedagógica dados pelo Estado e até tratamentos psicológico e psiquiátrico.

Cabe aqui uma perguntinha: o Estado não estaria se excedendo na administração de seu poder sobre a população?

Passando os olhos por alguns blogs, aconselho a leitura do artigo "A 'Lei da Palmada' pode ir para o Senado", de Guilherme de Carvalho, autor do blog Ideia Fiksa. Cito um trecho:

"O discurso da deputada reflete uma hipocrisia estrutural: o Estado mantém seu poder para agir violentamente contra os pais que desobedecem ao Estado, mas nega tal poder aos pais. Temos então na verdade uma extensão do poder de polícia para o interior da vida familiar. Não é que a questão da palmada não possa ser discutida; é que o Estado não pode impor uma solução de engenharia social goela abaixo da população."

Se serve de consolo, o Brasil não é o único país a criar mais uma lei inútil. Vejamos algumas curiosas, pinçadas do blog Elite Paralisante, com outras pescadas na internet e também no rádio - quiçá hilárias:

- Na França, é proibido batizar um porco com o nome de Napoleão.

- Na Alemanha, é proibido andar de máscaras pela rua.

- Na Noruega, é proibido castrar cães ou gatos, mas sim a qualquer outra espécie, inclusive homens.

-Na Inglaterra, é ilegal pendurar roupa de cama na janela.

- No Líbano, os homens podem ter relações sexuais com animais, desde que sejam fêmeas. Se for com machos pode ser castigado com a morte.

- Em Haifa (Israel) é proibido levar ursos à praia.

- No Canadá é ilegal tirar curativos em público.

Tá achando estranho? Pois veja estas leis de algumas cidades nos Estados Unidos...

- Na Virgínia é proibido sexo anal e oral. (melhor de assistir que palmadas)

- Em algumas cidades, é proibido roncar. (ãh?)

- Em outras, é proibido andar de bicicleta a mais de 100 km/h. (essa nem participante do iron man!)

- No sul, é proibido amarrar jacarés nos hidrantes. (!?!?)

... e, por fim, a melhor de todas:

-Em determinada cidade americana, é proibido levar um jumento para a banheira.

Bem, depois disso tudo, começo a achar que a "lei da palmada" não é tão estranha assim. Mas torço por sua inutilidade. Já temos problemas demais, não é mesmo? Só tenho receio de uma coisa. Se na França os porcos não podem ser nomeados de Napoleão, e sendo a Dilma eleita, será que haverá alguma lei proibindo as crianças de colocarem o nome dela em algum bicho?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Um passeio pelo World Press Photo


Em junho de 2009, após os resultados da votação para presidente do Irã, que reelegeu o controverso Mahmoud Ahmadinejad, o país foi marcado por grandes manifestações de rua. Partidários do candidato derrotado, Mir Mousavi, acusaram o governo de fraudar as eleições e organizaram várias passeatas, muitas delas reprimidas violentamente pelas tropas de repressão. Num regime fechado e que proíbe a entrada de jornalistas estrangeiros, o mundo ficou sabendo em grande parte do que acontecia nas ruas pelos recados e vídeos postados em redes sociais como twitter e o youtube, por iranianos indignados. Naquele mês, uma cena trágica correu o mundo, via youtube: mostra o instante da morte de uma iraniana numa manifestação, após ser atingida no peito por uma pedra.

Porém, os protestos contra o resultado das eleições não se deram apenas nas ruas. Nos dias que se passaram ao resultado, à noite, os telhados de Teerã foram tomados por mulheres que gritavam "Deus é grande", "Justiça!", em protesto contra o resultado das urnas. Uma destas cenas foi captada pelo jornalista italiano Pietro Masturzo. A imagem - nada óbvia mas altamente simbólica do grito de revolta no interior de um país totalitário - foi considerada a melhor do ano de 2009 pelo júri do World Press Photo. Ela e mais 161 fotos estão na mostra em cartaz na Caixa Cultural, no Centro do Rio. Uma verdadeira viagem fotográfica registrada pelos olhares dos fotógrafos nos quatro cantos do mundo.




São imagens diferenciadas e que fogem do lugar-comum para ir da beleza à tragédia, do espanto à incredulidade. Muitas nos causam revolta; outras humor. Há a mãe americana a levantar da cama o filho que perdeu 40% do cérebro num bombardeio no Iraque; os dois homens que se escondem atrás de um camburão de lixo, tendo à frente uma grande batalha de rua entre policiais e manifestantes; a incrível foto submarina de um martin-pescador no exato momento em que o pássaro alcança o peixe; o ritual de esquartejamento de um elefante encontrado morto na África por nativos esfomeados; um festival de música pop nos Estados Unidos repleto de neohippies e que poderia muito bem ser confundido com Woodstock; a curiosa série de crianças andróginas na Holanda (quando ficamos em dúvida sobre quem é menino e quem é menina); a inusitada e por vezes hilariante característica dos ricos africanos que viajam à Paris para comprar roupas europeias e, na volta, posam à caráter, virando celebridades locais. Do Brasil, há somente uma foto, de Daniel Kfouri, que retrata um salto do skatista brasileiro Bob Burnquist.

Mostrando que estão antenados com a emergência das mídias sociais, a imagem da mulher morta nos protestos de rua em Teerã e que parou no youtube ganhou "menção especial" do júri e está presente à mostra.

São fotos que nos fazem pensar e questionar a grande aventura humana pelo período de um ano. Para chegar ás 162 fotos premiadas, o júri recebeu mais de 100 mil fotos, enviadas do mundo todo por fotógrafos de 128 nacionalidades. Fico imaginando quantas outras tão belas devem ter ficado de fora, numa mostra em que o impacto de contar uma história através de um instantâneo fotográfico não deixa absolutamente nenhum visitante imune. Captar a atenção do indivíduo, fazendo com que ele se interesse pelo contexto e a carga de informação que aquela imagem carrega é um dos principais emblemas do bom fotojornalismo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Essa música me lembra uma história: "Faroeste caboclo"

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso...Eu poderia repetir os versos de Renato Russo em "Quase sem querer" pra justificar o meu lapso em não ter escrito até agora nada sobre os 50 anos de vida que o cantor e compositor da Legião Urbana estaria fazendo agora em 2010. A data tem sido lembrada em inúmeros sites e jornais, e homenagens àquele aque foi um dos maiores ícones do rock brasileiro dos anos 80 não faltam. Algumas originais, como o livro organizado pelo poeta Henrique Rodrigues - "Como se não houvesse amanhã", com contos inspirados nas canções mais emblemáticas da Legião - e outras duvidosas, como a iniciativa de juntar num CD gravações póstumas de Renato cantando "em parceria" com artistas de hoje - mesmo que algumas gravações novas soem bem, fica a dúvida se o artista - que detestava coletâneas - autorizaria tais versões.

Bem, há vários livros contando a vida de Renato e a história da Legião Urbana. Quem quiser escutar mais de suas canções, os CDs continuam todos em catálogo (há a previsão de serem lançados também em vinil!) e vendendo bem em plena era dos downloads gratuitos. Então, peço licença para trazer de volta a série "Essa música me lembra uma história", com um fato que me ocorreu quando adolescente e que teve uma música da Legião como coadjuvante. O ano: 1987. A música: "Faroeste caboclo".



Eu tinha 17 anos e o Rock in Rio, dois anos antes, impulsionara o mercado nacional para as bandas de rock tupiniquins. De uma hora pra outra, centenas de bandas surgiram e muitas de repente tinham a felicidade de ouvir aquela gravação feita de modo rudimentar, dentrode uma garagem, numa fita cassete, tocando nas rádios. Em Niterói, A Rádio Fluminense FM, autointitulada "Maldita", só tocava rock e era venerada por todos que se entusiasmavam com as novidades do gênero. Outro point roqueiro da cidade era o Circo Voador, na Lapa, ounde eu já tinha ido algumas vezes. E em meados daquele ano tivemos a noticia de que a Legião, prestes a lançar seu terceiro disco, iria tocar novamente no Circo. Mesmo sendo dia de semana (uma quarta-feira) não dava pra deixar de ir. Então, seguimos eu, meu irmão e um amigo para o Circo.

Falava-se que o gruipo iria testar algumas músicas novas junto a plateia, que naquele dia era bem peculiar. Na verdade tratava-se de uma dobradinha entre a Legião Urbana e o grupo paulista de punk-rock Cólera, e por esta razão havia muitos punks por lá. Não eram "de butique", eram punks reais e estavam mais lá por causa do Cólera do que da Legião, a quem muitos acusavam de estar ficando "pop demais".

Por volta das 23h a Legião entrou no palco. Renato usava botas pretas, semelhantes às de muitos punks presentes e um coturno militar. Saudou a plateia e a banda começou a tocar. Após uma das primeiras músicas, o cantor grita para o público:

- Vamos comemorar. Hoje morreu o inimigo do Brasil!!

- Yeah!! Repetimos todos, e a banda atacou de mais um sucesso.

Eu, no entanto, fiquei preocupado: quem seria o tal "inimigo do Brasil" que havia morrido? Imaginei que muitos ao meu lado que gritaram yeah! também desconheciam a resposta.

Um cara que estava próximo tirou a dúvida: era o dia da morte do general Médici, ex-presidente da república durante a ditadura. Durante seu governo o Brasil passou por um dos períodos mais truculentos, com censura-prévia à imprensa, torturas e exílios. Custei a sacar a ironia de um cantor de rock comandando uma multidão de punks de coturno e "comemorando" a morte de um general. O melhor na hora, foi repetir as palavras de Jagger, it's only rock n' roll but I like it e curtir o resto do show.

Lá pelo meio do show Renato avisa que a banda vai tocar uma música pela primeira vez no Circo, e que estaria sendo testada em formato novo. Começam a ser ouvidos uns acordes lentos do violão e os primeiros versos:

"Não tinha medo o tal João de Santo Cristo, era o que todos diziam quando ele se perdeu..."

O começo lento, acompanhado na bateria de Bonfá por instrumentos típicos do Nordeste, como o triângulo, fizeram com que alguns punks vaiassem. Mas logo as sutis marcações e viradas da longa canção, alternando forró, pop, punk rock, começaram a conquistar a todos. E havia a letra, sensacional. A epopéia de um tal João de Santo Cristo, apaixonado por Maria Lúcia e levado ao crime por um tal de Jeremias - com um clímax que, como nos bons faroestes, levava a um duelo entre mocinho e vilão, desta vez no Planalto Central de Brasília.

A letra era longa e emocionante. Parecia que todos se viram um pouco naquele personagem que se "perdia" em busca de uma identidade e um trabalho dignos em terras brasileiras. Ao final da canção, aplaudimos muito e senti que era lançado ali um novo clássico da Legião.

Novo? Não é bem assim. "Faroeste caboclo" é do tempo em que Renato, antes de formar a Legião Urbana, se apresentava em Brasília sob a alcunha do "Trovador solitário", munido apenas de voz e violão - como nos primeiros tempos de seu ídolo Bob Dylan. Mas que só naquele outono de 1987 estava sendo gravada.

Uma semana depois,"Faroeste" invadiu o dial radiofônico e foi um sucesso instantâneo. Curioso é que na época, apenas dois anos depois do fim da ditadura, algumas emissoras ainda praticavam a autocensura em suas programações, e no caso da música de Renato algumas inseriram um apito nas muitas passagens com palavrões, tornando o efeito risível. Logo, o ridículo da censura foi mandado às favas e em pouco tempo jovens do Brasil inteiro cantavam a odisseia de João de Santo Cristo. Com os palavrões.

Eu estava ainda fazendo o segundo grau (sorry, nível médio, mas naquele tempo o nome era outro) e era muito interessante ver nos intervalos das aulas do colégio grupinhos em toda parte (alguns levavam violões) tentando cantar de ponta a ponta a letra quilométrica. Dava pra notar: "Faroeste caboclo" havia virado uma febre.

Quanto a mim, depois de tanto tempo, penso que a Legião, a música e a piada de Renato no palco me ajudaram a cravar Comunicação no vestibular que eu faria dali a alguns meses. Pois uma coisa que aprendi naquele dia era que eu não queria mais ficar desinformado sobre o mundo. Eu queria saber dos acontecimentos e, se possível, estar no meio deles. Algum tempo depois, aprovado no vestibular, eu tinha certeza que seguiria em frente no jornalismo.

Uma escolha que Renato Russo, numa noite perdida dos anos 80, no Circo Voador, ajudou a tornar realidade.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sobre ateus, fumantes e pautas mal apuradas

"A imprensa existe para o bem do público, não somente para entreter e ganhar dinheiro. Nossa função principal é dar aos espectadores a melhor versão possível da realidade, que é um conceito simples e muito difícil de se alcançar" (Carl Bernstein)


Segunda-feira, 03 de maio, foi comemorado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A julgar pelos constantes ataques que volta e meia os meios de comunicação vem recebendo aqui e na América Latina, é uma data que deve ser lembrada sempre, e não somente apenas um dia do ano. Nosso jornalismo não é perfeito, e volta e meia erra na ânsia desenfreada pelo furo de reportagem; mas é preferível uma imprensa imperfeita a uma imprensa controlada, como é comum nos regimes totalitários.

A respeito disso, este blog não poderia deixar de comentar uma pisada na bola de muitos jornais de grande imprensa brasileira, que repercutiram erroneamente uma história falsa e mal apurada: a notícia de que o candidato à presidência da República, José Serra, teria comparado fumantes a ateus.

A notícia, divulgada semana passada, mereceu um reparo na segunda-feira, pela agência que a divulgara: a RBS, do Sul. Na tarde de segunda-feira, todos os sites, blogs e jornais sérios corrigiram as inverdades sobre o discurso de Serra no encontro evangélico em Santa Catarina do dia 1º de maio (nem todos, que fique claro: como estamos em ano eleitoral, é claro, alguns "se esqueceram" de corrigir). Vejamos a mea culpa da RBS:

“Diferentemente do que informou este site na reportagem “José Serra participa de encontro religioso em Santa Catarina” (01/05/2010 – 20h39min), o ex-governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência da República, José Serra (PSDB), não se referiu a fumantes como pessoas “sem Deus”. Na verdade, o discurso do político não relacionou diretamente o fumo com a religião. Em um primeiro momento, Serra citou passagens bíblicas à multidão reunida em Camboriú e disse que a frase “Que tenham vida, e a tenham em abundância” está ligada à qualidade de vida e não apenas a ações para prolongar a vida das pessoas. Em seguida, citou programas desenvolvidos nas gestões dele frente ao governo de São Paulo e ao Ministério da Saúde, entre eles o de combate ao fumo".

Ajudou alguma coisa? Pouco, na verdade: o estrago já estava feito e repercutiu em toda a imprensa. Até a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) enviou nota de repúdio à suposta declaração do candidato à presidência. Bem, quem lê este blog sabe que não existe aqui nenhuma manifestação contra ou a favor de Serra, Dilma, Marina Silva ou qualquer outro candidato á presidência. Mas como o assunto é a imprensa, não me furto a deixar minha opínião.

O fato de a nota de retificação ter saído no mesmo dia em que se comemora a liberdade de imprensa é sintomático, pois neste dia houve em vários cantos do país debates sobre a data. No Rio, o jornalista Carl Bernstein - famoso mundialmente por ter sido, junto com Bob Woodward, um dos repórteres a cobrir e desvendar o escândalo de Watergate, que culminaria com a renúncia do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, em 1974 -, ao comentar o papel da imprensa atual, não hesitou em fazer sérias críticas sobre o que ele chamou de "preguiçosa apuração dos fatos". Bernstein disse que, além de buscar sempre manter a liberdade de imprensa, os jornalistas devem cuidar ao mesmo tempo de manter a credibilidade da imprensa em todos as plataformas em que as notícias são divulgadas. Em entrevista ao Globo, o jornalista americano alertou que tal confiança vem sendo minada pela frivolidade e uma perigosa apuração dos fatos.




Vale a pena citar outra declaração de Bernstein no seminário do Rio de Janeiro:
- Nos últimos anos, tem dominado a cultura jornalística global algo cada vez menos a ver com a verdade, a realidade ou o contexto. O jornal tem estado fora de contato com a verdade, com frequência desconectado do contexto real, desfigurado pelo culto á celebridade, fofoca, sensacionalismo e controvérsia manufaturada, sobretudo na TV, mas também no jornalismo impresso, estimulada por jornalistas e pelo discurso político.

Culto à celebridade, fofocas...será que o cara não pegou pesado? Bem, na mesma segunda-feira, dia 3 de maio, a manchete principal de um grande portal brasileiro era "Anamara do BBB diz que ficou excitada com as fotos para a Playboy". Subtítulo: "Ex-policial diz que 'pegava' o Dourado". Bem, vou me abster de comentar...

Voltando ao que interessa e ao motivo deste artigo: tivesse havido um pouco mais de seriedade na apuração e a rede RBS não teria publicado a notícia. Tivesse ocorrido a alguém um pouco mais de preocupação com a mensagem recebida e nossa grande imprensa (além da maioria dos sites) não teria retransmitido a "barriga" sem checar a veracidade da informação.

(Entre parêntesis: Bernstein também comentou que entre os jornalistas presos, quase metade deles são blogueiros (!!), "pois eles podem escrever o que quiserem, já que não são censurados". Que orgulho!, É sinal que, à despeito das limitações ao acesso à rede e mesmo com proibições da internet em alguns países, os blogs estão ganhando importãncia e incomodando!).

Ainda sobre os "fumantes ateus". Nesse caso, a pressa em dar uma notícia "impactante" de um candidato à presidência levou a imprensa a errar. Nossos jornalistas não foram atrás da melhor versão possível da verdade, segundo a ótima definição de Bernstein, mas sim à procura pela forma mais rápida de dar um furo irresponsável. Só nos resta torcer que erros assim não se tornem comuns no que vem por aí, pois a disputa presidencial está esquentando. E para que as críticas à imprensa, feitas semana sim semana também por nossos políticos, em sua maioria infundadas, não se tornem reais.

E os fumantes, heim? Será que se sentiram afetados com a polêmica toda? Creio que não. Outro dia mesmo, um fumante gaiato, ao comentar a infeliz declaração, teria levantado as mãos pro céu e dito: "Perdoai-vos, pai: eles não sabem o que publicam!"

sexta-feira, 23 de abril de 2010

"Quando não há escândalo, a gente fabrica": considerações sobre A vida alheia

Dia desses o ator, autor e diretor Miguel Falabella jantava num restaurante com a amiga e atriz Cláudia Jimenez quando subitamente foram fotografados por um paparazzi. O homem tirou a foto e, tão rápido como apareceu, desapareceu do restaurante. Longe de incomodar Falabella, a cena o levou a imaginar e criar um novo programa de televisão.

Pois bem, passou-se um tempo e, entre as apostas da TV Globo para sua grade de programação neste primeiro semestre, o seriado "A vida alheia" tem se mostrado uma das melhores novidades. O programa tem conseguido injetar em seus episódios humor, ironia, acidez e malícia ao revelar os bastidores de uma revista especializada em fofocas no Rio de Janeiro - a meca das celebridades brasileiras.



Sim, o seriado parte de uma ideia de Miguel Falabella. Mas não espere nada parecido com o humor popular de "Sai de baixo" ou "Toma lá, Da cá". O tom aqui é ácido e, apesar de constituir um programa de humor, não deixa de apresentar certa melancolia ao narrar as peripécias de seus personagens. Temos ali a temida editora Alberta Peçanha (conhecida por seus inimigos por "Alberta Peçonha") da revista semanal "A vida alheia" - vivida por Cláudia Jimenez. Marília Pêra (Catarina Faissol)é a dona da revista e cúmplice de Alberta na busca do furo a qualquer custo. Paulo Vilhena vive um fotógrafo que não hesita em ir atrás da imagem inusitada de celebridades em qualquer circusnstância; Danielle Winits é uma repórter que não mede esforços para conquistar o posto que verdadeiramente deseja: a cadeira de Alberta Peçanha. Ou seja, como diria aquele gaiato fotógrafo que Fellini inventou para o filme "A doce vida" e que consagraria o nome "paparazzi", tutti buona gente! Ah, sim! pra não dizer que só há cobras criadas em "A vida alheia", há um personagem do alto comando da revista (mas que na verdade não manda em nada...) que vive angustiado pela hipótese de a revista ser processada por atropelar a ética.

Ética jornalística? Bem, esse termo parece não existir no dia a dia de Alberta Peçanha. Em todo capítulo há uma busca incessante para conseguir a melhor capa para a revista, que não dispensa um escândalo. Logo no primeiro capítulo, o fotógrafo Lírio tira diversas fotos de uma "grande dama" do high society completamente bêbada numa boate acompanhada de um garotão - a foto só não sai na revista porque a socialite é amiga da publisher vivida por Marília Pêra(sob protestos de Alberta, que queria publicá-la de qualquer maneira). Logo em seguida, uma repórter da revista irrompe na sala de Alberta. Segue o diálogo:

- Alberta, procurei todas as celebridades que pude, fui em busca de todas as pesoas que conhecem a atriz tal, mas todos se recusam a falar mal dela, como você pediu. O que faço?
- Querida, comece a escrever a matéria. Depois, escreva o seguinte: uma conhecida da atriz tal, que não quis se identificar, falou à "Vida alheia": "Ela está por baixo e nunca vai conseguir reaver o prestígio que um dia teve".
- Mas Alberta, desde quando a gente pode publicar isso?!
- Desde que o mundo é mundo, minha filha. Agora saia da minha sala e vá escrever a matéria.


Nos dois primeiros capítulos tivemos casos em que o chamado jornalismo responsável simplesmente não existe. Após descobrirem por acaso que o filho de uma modelo-celebridade não é do marido, Alberta e Catarina marcam um encontro com o casal apenas para saberem que tipo de vantagens teriam ao não publicar o escândalo na capa da revista. A frase do marido é lapídar: "Deixemos toda a cerimõnia de lado e conversemos como os verdadeiros canalhas que somos". Tudo se resolve com um novo anunciante para a revista - a empresa do marido, é claro - e o casal feliz na capa da revista, "mostrando sua nova casa e a felicidade a dois"; título obviamente inspirado nas mais famosas revistas de celebridades brasileiras.

Em outro episódio, um ator de telenovelas famoso morre de repente. A equipe da revista fará de tudo (inclusive uma repórter se disfarçará de enfermeira) para conseguir a foto do morto antes dos outros meios de comunicação, a fim de, é claro, ostentar a capa da publicação.

Poderíamos dizer que "A vida alheia" comete exageros aqui e ali. Sim, estaremos corretos. Na verdade o jornalismo de escãndalos é algo em decadência hoje em dia, e mais restrito a jornais populares e sensacionalistas, embora ainda faça bastante barulho em tablóides americanos e ingleses - estes últimos adoram publicar os últimos barracos de Amy Winehouse e seus namorados, bem como as indiscrições de membros da família real. No Brasil, as revistas no estilo "Caras" procuram mesmo é manter um bom relacionamento com a celebridades que, sim, adoram estar nas páginas semanais.

Podemos também dizer que a série denigre a imagem do jornalista, ao mostrá-lo como um indivíduo disposto a tudo por um furo de reportagem. Quanto a esta última declaração, não é bem assim. Como em toda a profissão, o jornalismo apresenta ótimos profissionais ao lado de verdadeiras "cobras criadas" - não por acaso, a expressão dá título à ótima bibliografia escrita por Luiz Maklouf Carvalho sobre David Nasser, jornalista dono de um texto brilhante, mas capaz de tudo para destruir a imagem de pessoas famosas (quem já conferiu o filme "Chico Xavier" viu a sequência em que Nasser, então repórter da revista "O Cruzeiro", junto ao fotógrafo Jean Manzon, tenta "desmascarar" o médium). Há órgãos que apelam demasiadamente ao sensacionalismo; enaquanto há também a imprensa responsável, que busca relatar com precisão e honestidade os fatos. Cabe ao leitor manter sempre o senso crítico. Parafraseando Tom Jobim, nosso jornalismo não é para principiantes.

Quanto ao sucesso de revistas de celebridades como "Caras", "Quem" ou "A vida alheia", por mais que haja reclamações de uma suposta intelligentzia contra elas, não se pode negar que elas só estão à venda porque despertam interesse nas pessoas comuns. O sucesso na TV do Big Brother (a maior audiência em qualquer programa no estilo reality show nos últimos anos). E nossas celebridades (nem todas, é verdade)adotam de fato um perfil peculiar: vivem reclamando do assédio de paparazzis, mas não suportam estar longe dos holofotes, situação que levou o cronista Tutty Vazques a sugerir uma possível "evasão de privacidade" em nosso país.

O que podemos constattar é muito simples. Enquanto houver o interesse fora do comum de nossa população pelo cotidiano das celebridades, revistas como a do seriado global continuarão a vender bastante. Seus editores, como a nem tão irreal assim Alberto Peçanha, sabem que a "vida alheia" é hoje uma mercadoria de alto valor nas bancas de revista.

sábado, 10 de abril de 2010

Um prêmio para a Rádio Sucupira

A Associação Paulista de Críticos de Arte acaba de publicar a lista de agraciados do ano de 2009, e entre os vencedores na categoria Rádio está a hilariante Rádio Sucupira, da CBN, que concorreu como melhor programa de variedades.



Prêmio justíssimo. Pra quem não sabe ou tem menos de 30 anos, Sucupira era a cidade criada por Dias Gomes para a novela O Bem Amado, dos anos 1970 na TV Globo, por onde desfilavam tipos inesquecíveis como o prefeito Odorico Paraguaçu, Zeca Diabo, Dirceu Borboleta e as Irmãs Cazajeiras. O sucesso foi tanto que a novela que renderia um seriado nos anos 80, também na Globo uma peça de teatro de sucesso e agora em 2010 é aguardada sua versão cinematográfica, dirigida por Guel Arraes.

O "coronel" Odorico e o dia a dia de Sucupira é um retrato perfeito da política brasileira, seus conluios, conchavos e tipos folclóricos. O que o programa faz é justamente contrapor as falas - retiradas da novela e do seriado de TV -, do político vivido por Paulo Gracindo, às "sonoras" (o áudio do rádio) dos políticos de hoje - Lula, Dilma, Serra, senadores, deputados e o que mais for notícia. O mais interessante - e é aí que está a graça do programa - é que, ao escutarmos a Rádio Sucupira podemos notar que pouco ou nada mudou na política brasileira dos anos 1970 até hoje. Os problemas satirizados na ficção daquela época continuam praticamente os mesmos na realidade dos dias de hoje.

Ou seja, a Rádio Sucupira é um engenhoso momento radiofônico que mostra ao ouvinte como a arte pode ser eficaz na denúncia da coisa pública. Em certos momentos da montagem muito bem feita do programa, ficamos sem saber em que época estamos - se no programa ou na política brasileira real. Diria mesmo que, se não fosse a inconfundível voz e interpretação de Paulo Gracindo como Odorico, teríamos sérias dúvidas em definir a época ilustrada na rádio. Ponto para a CBN/Sucupira.