quinta-feira, 19 de março de 2015

Samuel Fuller e o cinema: "Em uma palavra: emoção"

Difícil imaginar cena de abertura tão impactante. Uma mulher, num acesso de fúria, entra numa casa agredindo violentamente um homem com golpes desferidos por um sapato feminino. O homem está bêbado e suas tentativas de reagir são inúteis. A certa altura, ele puxa o cabelo da mulher e descobrimos que ela é totalmente careca. Ela não se inibe e continua golpeando o homem. Ao fundo, um som de jazz bem acelerado. O homem vai ao chão. A mulher, então, arranca dos bolsos dele uma quantia de dólares e diz ao homem que só vai levar o que ele a deve. Pouco depois, o homem está inerte no chão. A mulher prosta-se em frente a um espelho, recoloca a peruca e começa a se realinhar. Aos poucos, começam a surgir os créditos do filme. O título: "The naked kiss". Seu autor: Samuel Fuller.




No Brasil, "The naked kiss" ganhou o título "O beijo amargo". O filme é de 1964 e consta do lançamento "A arte de Samuel Fuller", uma caixa de quatro DVDs da Versátil, Além de "O beijo amargo", há também o cultuado "Paixões que alucinam" ("Shock corridor"), além dos menos conhecidos "O quimono escarlate" e "Casa de bambu". E um documentário sobre Fuller com depoimentos de gente como Tarantino e Martin Scorsese.

Fuller começou sua carreira como jornalista, bem cedo, aos 17 anos. Escreveu novelas pulp e mais tarde, lutou na Segunda Guerra Mundial pelo exército americano, conflito que o marcaria e que mais tarde seria mostrado em obras como "Agonia e Glória". Começou no cinema como roteirista, até estrear na direção em 1949, com "Eu matei Jesse James". Em 1982, realizou um dos maiores filmes sobre a questão do racismo, "Cão branco", a história de um cão que é adestrado pelo seu dono racista a odiar negros. O filme, apesar de ótimo, foi rechaçado pela própria produtora, Paramount, com medo de seu potencial polêmico, e lançado de maneira independente, arrecadando muito pouco. Este foi um dos motivos de Fuller sair dos EUA e terminar sua carreira na Europa, para onde se mudou nos anos 80.Seu último filme seria "Uma rua sem volta", em 1989. Fuller morreria em outubro de 1997, aos 85 anos.

Mas por que Fuller é hoje um cineasta cultuado por não só fãs de cinema mas diretores famosos? Talvez seja sua direção criativa e impactante, além da atração pela vida real, sem artifícios hollywoodianos para vender emoções baratas a uma plateia acostumada com o escapismo insosso de tantos filmes. Como em "O beijo amargo", que retrata a trajetória de uma ex-prostituta e stripper, que, para fugir do seu passado, viaja para uma cidadezinha onde ninguém a conhece.

O local é, à primeira vista, uma idílica e tranquila cidade repleta de indivíduos típicos das pequenas cidades americanas nos anos 1960. Afáveis, generosos, e dispostos a ajudá-la. O local perfeito, pensa Kelly, a ex-prostituta interpretada de forma magistral por Constance Towers.

Mas nem tudo ali é perfeito. Aos poucos, Kelly, que consegue emprego como enfermeira numa clínica de crianças com deficiência nas pernas, descobrirá que o futuro tranquilo que almejava não seria tão fácil de encontrar. As pessoas que pareciam tão bem dispostas a aceitá-la aos poucos começam a demonstrar a inveja, ciúme, insegurança e violência. A pequena cidade, enfim, revela-se como mais um microcosmo de uma sociedade irremediavelmente humana. Um filme, enfim, adulto como poucos hoje em dia.

Uma das frases mais famosas de Samuel Fuller foi quando ele buscou definir seu ofício:

"Um filme é um campo de batalha. É amor, ódio, ação, violência, morte. Em uma palavra: emoção"



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Lides imperdíveis: Charles Dickens e o homem guilhotinado

Um assunto recente foi motivo de controvérsia no Brasil: a execução de um brasileiro, por tráfico de drogas, na Indonésia. Marco Asher tinha 53 anos e fora preso em 2004, ao entrar entrar naquele país com 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos e uma asa delta. Após a droga ter sido descoberta pelo raio-X do aeroporto, o brasileiro ainda conseguiu fugir, mas acabou preso novamente 12 dias depois. No dia 18 de janeiro de 2015, Marcos foi executado pelo pelotão de fuzilamento.

De nada adiantaram os inúmeros pedidos de clemência do governo brasileiro. Após a execução, a presidente Dilma Rousseff se mostrou "consternada e indignada" com o episódio. Há poucos dias, a situação diplomática entre os dois países piorou bastante, após o governo brasileiro ter decidido adiar as credenciais do embaixador da Indonésia em Brasília - ato que representaria o começo das atividades do estado indonésio no Brasil, O governo indonésio considerou o ato uma hostilidade e mandou seu embaixador voltar. Para muitos analistas de política internacional, foi um péssimo ato da diplomacia brasileira, pois ainda há outro brasileiro no corredor da morte na Indonésia.

A execução de estrangeiros em determinados países que ainda possuem pena de morte é hoje um ato que, como no caso brasileiro, pode levar a incidentes diplomáticos entre os países envolvidos. Mas  houve tempo em que execuções de criminosos eram comuns e reuniam muita gente em praça pública para testemunhar o fato. Em  1845, Charles Dickens, que além de grande escritor também trabalhou por toda a sua vida - com intervalos mais ou menos esparsos - como jornalista, esteve na Itália, onde presenciou um homem ser guilhotinado. Este episódio marca a volta da série "lides imperdíveis", para a qual transcrevo o primeiro parágrafo da reportagem "Um homem é guilhotinado em Roma". Em apenas um parágrafo, Dickens reconstitui o crime bárbaro que motivaria a pena de morte, com um vigor de escrita que poderia facilmente ser tema de um conto ou romance:

"Numa manhã de sábado (8 de março), um homem foi decapitado aqui. Nove ou dez meses antes, ele assaltara na estrada uma condessa bávara que viajava como peregrina à Roma - sozinha e a pé, por certo - e fazia, diz-se, este ato de devoção pela quarta vez. O homem a viu trocar uma peça de outo em Viterbo, onde ela morava; seguiu-a; fez-lhe companhia na viagem por uns 64 quilômetros ou mais, sob o traiçoeiro pretexto de protegê-la; atacou-a, no cumprimento de seu implacável propósito, na Campagna, a muito pouca distância de Roma, perto do que se chama (mas não é) o Túmulo de Nero, roubou-a e espancou-a até a morte com o cajado da própria peregrina. Era recém-casado, e deu algumas das roupas da vítima à esposa, dizendo que comprara numa feira. Ela, porém, que vira a peregrina passando pela cidade, reconheceu algum detalhe como pertencente à condessa. O marido então disse-lhe o que havia feito. Ela, em confissão, contou a um padre; e o homem foi preso, quatro dias depois de ter cometido o assassinato." 







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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Quando seu ídolo aparece de surpresa...

Imagine a cena. É noite e você decide ir à Lapa, bairro boêmio do centro do Rio de Janeiro, para relaxar, tomar uma cerveja, encontrar os amigos e, quem sabe, ouvir um samba de qualidade. Você escolhe o bar, se acomoda numa boa mesa e logo depois a banda começa a tocar. Perto de você, há um senhor que lembra alguém conhecido - sua namorada comenta ser "a cara do Chico Buarque". Você ri e pensa, e se fosse mesmo ele? Quase ao final da primeira parte do show, o vocalista diz ao público que há uma presença ilustre na plateia e que, veja só, havia pedido para "cantar uma musiquinha". Você não acredita no que vê: Chico Buarque, em pessoa, levanta e canta três músicas, para delírio da plateia. Ao fundo, um gaiato grita: "Foi o couvert mais bem pago da minha vida!"




Soube da notícia lendo os posts do facebook. Na quarta-feira, o fato saiu publicado na coluna Gente Boa, do jornal O Globo. Sintomático: não é todo dia que vemos Chico Buarque em pessoa dando canjas na cidade. Inspirado pela leitura e pelo post anterior, sobre as escapadas de Cássia Eller para cantar de surpresa em lugares totalmente inusitados, comecei a imaginar os momentos de minha vida em que algum cantor apareceu de surpresa em outro show no qual estava presente apenas como público ou para prestigiar o colega no palco e, então...acabavam participando do show. 

Lembro que uma das lembranças mais antigas que tenho com relação a espetáculos musicais aconteceu quando eu ainda era adolescente, num do Caetano na Praça da Apoteose, aqui no Rio. Era o começo dos anos 1980, época de eleições para governador. O show era para lançar o disco "Totalmente demais", um grande sucesso nas rádios, puxado pela música título, de Arnaldo Brandão, e demais sucessos e versões cantados exclusivamente no formato voz e violão.

Sim, um show voz e violão em plena Apoteose, acostumada a receber os desfiles do Carnaval carioca. Mas realmente houve esse espetáculo, e o público compareceu em massa. Foi interessante quando, logo no começo do show, a um pedido do cantor, o público da pista - em pé - sentou no chão para ouvir e cantar junto os sucessos do compositor baiano e clássicos da música brasileira. A certa altura do espetáculo, Caetano elogiou a cantora argentina Mercedes Sosa, que estava na cidade para alguns shows que faria no Canecão, e disse, daquele jeito como quem não quer nada..."Ela está aqui". A plateia se alvoroçou. O cantor então continuou:

- Não só a Mercedes, mas Chico Buarque e Milton Nascimento também estão assistindo ao show,,,

Foi o bastante para o pequeno alvoroço virar um barulho infernal, com gritos de "Mercedes!", "Chico!", Milton!", enquanto Caetano ria do alto do palco. Foi então que ele olhou para os bastidores e, para surpresa de todos, entram Chico Buarque, Milton Nascimento e Mercedes Sosa. No palco, o quarteto cantou um dos maiores clássicos de Mercedes, "volver a los 17". Foi o momento mais aplaudido da noite.

Outro momento em que um ilustre convidado apareceu de repente foi num show de Gilberto Gil na praia de Copacabana. Era um fim de semana e eu havia ido ao show com um amigo. Lá pelas tantas, Gil diz que vai chamar um amigo ao palco para dar uma canja. Eis que surge no palco Sting, que também estava no Brasil para shows da Anistia Internacional em São Paulo e resolvera dar uma esticada no Rio. Naquela noite, para deleite da plateia, Sting cantou dois clássicos do Police: "Message in a bottle" e "Roxanne". Em plena praia de Copacabana, num sábado à noite.  

Por último, e o mais inusitado de todos, aconteceu numa noite doa anos 1990 na pequena localidade de Vilatur, cidade espremida entre Bacaxá e Araruama, na Região dos Lagos carioca. Quando estava casado, eu ia muito lá, pois meus ex-sogros tinham uma casa de veraneio lá. Não era uma cidade das mais concorridas. pra falar a verdade, mesmo muitos cariocas jamais ouviram falar em Vilatur - era daquelas localidades com apenas uma padaria, uma farmácia, três ou quatro bares para se distrair à noite e pouca coisa mais. Ah, e uma praia quase tão linda quanto perigosa.

Foi num fim de semana que descobrimos que haveria música ao vivo num dos bares da região. Como não era algo comum, fomos conferir. Sim, realmente havia naquela noite uma banda se apresentando. O repertório era quase todo de samba e pagodes. Sentamo-nos e pedi uma cerveja, satisfeito por ter, enfim, algo para se fazer naquele local. De repente, a banda começa a tocar um clássico conhecido pela voz de Elis Regina: "O bêbado e o equilibrista". Ao som dos primeiros acordes, um senhor de meia idade com cara de farmacêutico e cabelos grisalhos quase brancos, assume o microfone e começa a cantar o clássico, com uma voz rouca de cerveja mas razoavelmente afinado. 

Prestei mais atenção e quase não acreditei.Sim, era ele mesmo, Aldir Blanc, autor da letra da música composta em parceria com João Bosco. Ao contrário dos dois casos anteriores, ninguém da plateia de pinguços pareceu notar que ali, naquele quase fim de mundo, se apresentava o autor de um dos maiores clássicos da MPB. Quando acabou a música, aplausos protocolares, um ou outro mais exaltado, mas quase nenhuma diferença entre antes. Nem quando um dos rapazes da banda falou rapidamente, apontando para aquele senhor que acabara de cantar: "Vocês acabaram de ouvir Aldir Blanc, autor dessa música!". Muitos resolveram pedir mais uma cerveja e aguardar o próximo pagode. Enquanto eu me perguntava se o que acabara de ver tinha sido realidade ou não. Ao findar o show, tentei ver se Aldir continuava lá, mas ele já partira. Infelizmente, para a maioria dos presentes, ele era apenas mais um pinguço que, tal como Chico Buarque, pedira para "cantar uma musiquinha".



sábado, 7 de fevereiro de 2015

Som, fúria e...um pouco de ternura: Cássia Eller

Em janeiro de 2011, eu estava junto aos milhares de espectadores da terceira edição do Rock in Rio. Era o primeiro dia do festiva e quem abriria a noite era simplesmente Cássia Eller. O dia ainda estava claro quando Cássia adentrou o palco munida apenas de violão e começou  a cantar uma canção de Renato Russo, que dizia "sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher". Atrás dela, uma banda afiadíssima, com a participação do Nação Zumbi em algumas músicas. Mais atrás, escondido entre os instrumentos de percussão, estava o filho de Cássia, Chicão, com 6 anos e participando do show.
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Menos de 40 minutos depois de um show arrasador e com a plateia já ganha, Cássia começa a cantar suavemente a letra de "Smells like teen spirit". Logo depois, o chão literalmenbte tremeu com o poderoso refrão do rock de Kurt Cobain e a animação da plateia. Confesso que não me lembro de ver tanta gente pulando e gritando a letra de um rock tão furiosamente como naquele grand finale do show. Nos bastidores, o ex-baterista do Nirvana Dave Grohl,\participando do festival com sua banda Foo Fighters, ficara embasbacado com a interpretação. Foi um dos maiores shows da história do Rock in Rio e uma das maiores performances de uma cantora em qualquer momento dos festivais de música no Brasil

Tudo isso está contado no filme "Cássia Eller", de Paulo Henrique Fontenelle, o mesmo do ótimo "Loki" (2008), sobre o eterno mutante Arnaldo Batista. O mais interessante do filme é mostrar como um menina bastante tímida, insegura, com dificuldades em relacionar-se com pessoas de qualquer ramo (mal conseguia dar entrevistas) se transformava num furacão quando estava no palco. Em mais de uma cena do filme, Cássia surge dizendo que cantar foi a salvação que ela encontrou para ser aceita socialmente e poder ser observada com mais atenção. No caso dela, cantar surgia muito mais do que uma vontade imperiosa, mas uma necessidade arrasadora de sentir-se livre. Cantar para viver, em qualquer palco, em qualquer canto. Para ela, pouco importava estar nos palcos luxuosos das grandes casas de espetáculo do sudeste ou, disfarçadamente, surgir de surpresa com cantora de uma bandinha feita às pressas, no palco de um forró pé-de-serra na cidade serrana de São Pedro da Serra, no Rio de Janeiro, para surpresa e deslumbre da plateia.

"Cássia Eller", o filme, conta a história desta grande cantora com rigor e bastante emoção, como nos momentos finais, ao mostrar a luta de sua companheira Maria Eugênia, pela guarda judicial de Chicão. Mas o que fica mesmo é a marca daquela que cantou de tudo enquanto esteve viva. Cássia faz muita falta no cenário de música brasileira atual, que parece ter encaretado desde então. Não perca.    








domingo, 1 de fevereiro de 2015

Meus papos com Tuco: esquentando os tamborins

Carnaval chegando, dúvida cruel. Que fantasia vestir? Não sou dos que planejam com detalhes qual será a fantasia para pular nas ruas ou na avenida durante o reinado de Momo. Quando criança, fui a bailes infantis fantasiado de índio, no melhor estilo "Cacique de Ramos". Na época o bloco era uma grande força carnavalesca no Rio e eu tinha tios que desfilavam sempre. Como eles frequentavam muito os ensaios, compravam roupas infantis do bloco para meu primos, eu e meu irmão. Nossa "tribo" se divertia muito naquela tardes carnavalescas.

Ah, as tardes carnavalescas dos anos 70. Era muito mais fácil arrumar uma fantasia para seu filho. Hoje, é tanta oferta de fantasia e tantos novos personagens, que até o diálogo com o filho é um pouco confuso.


- E aí, Tuco, já decidiu qual fantasia vai usar no carnaval?
- Pô, pai, nem sei se vou me fantasiar...
- Por que, filho?
- Esse ano passo com minha mãe...e lá em Vilatur quase não tem bloco.
- É verdade. Mas se quiser eu compro pra você a fantasia do Mario Bros.
- Nem pensar!
- Por quê?
- Não quero me fantasiar de Mário. prefiro jogar o game. Aquela roupa é meio ridícula...
- Rsrs. Isso eu também acho. Você não ia se fantasiar de Coringa?
- Estava querendo. Mas a dificuldade é a roupa. E o cabelo verde? Teria que pintar.
- Não é melhor usar uma máscara?
- Não ficaria tão legal, pai.
- Posso mandar a vovó comprar uma fantasia maneira no Saara...
- Não! Ano passado a vovó comprou a fantasia errada.
- Ah, sei. Sua ideia era se fantasiar de morte... Capa, máscara de caveira e foice. Ia ficar bem sinistro.
- Sim. Só que a vovó foi no Saara e comprou uma máscara de palhaço assassino e um tridente.
- Me lembro. Só acertou a capa...Pelo menos ficou uma fantasia original, rs
- Ah, pai, nem vem, rsrs.

Rimos juntos. Rir junto com o filho é uma das boas coisas de ser pai. Com ou sem fantasia.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Janeiro de 1985: 30 anos do Rock in Rio. Eu estava lá

Julho de 1984. Estou em casa folheando o JB quando leio na coluna do Zózimo uma notinha que me chamaria a atenção. Dizia mais ou menos assim:  "O empresário Roberto Medina, que já trouxe ao Brasil Frank Sinatra, prepara para janeiro do ano que vem um grande festival de rock no Rio de Janeiro. Grandes bandas estão sendo contatadas". Foi ali, pela primeira vez que eu ouvi falar do que viria a ser o Rock in Rio. Será mesmo?, pensei. A coluna do Zózimo era fértil em dar furos na concorrência, mas imaginar um "grande festival de rock" no Brasil, numa época em que shows internacionais eram raros (tivemos antes apenas alguns no Maracanãzinho, todos com aquela acústica péssima) só podia ser um sonho. Não me lembro se Zózimo antecipara o local - um imenso descampado em Jacarepaguá que nos dias de chuva, em especial nos dias reservados ao heavy metal, se tornaria um lamaçal - mas algumas semanas depois, a grande imprensa revelava o que o colunista antecipara. O Rock in Rio, de fato, iria acontecer.

Em janeiro de 1985, eu tinha 15 anos. Ia começar a cursar o segundo grau (naquela época não falávamos "ensino médio") e, pela primeira vez, eu iria a um grande festival de rock. Estava com meu irmão mais velho, um primo e amigos. Lembro que o percurso era insano: pegamos dois ônibus que totalizaram algumas horas para cruzar a cidade de Ramos até a longínqua "cidade do rock" (se hoje a Barra ainda é longe, imagine em 1985, sem as Linhas Amarela e Vermelha). Nada, porém, tirava nosso entusiamo. Era o primeiro dia e eu estava indo ver finalmente o Queen e o Iron Maiden ao vivo. Ainda era difícil de acreditar. Estar no Rock in Rio, naquele começo de ano, era como se eu estivesse recebendo um passaporte para a maturidade.

Quem conheceu apenas as últimas edições do festival, transformado num grande parte temático cheio de atrações como tirolesa, roda gigante, salão de beleza (!) e tudo o mais, onde "a música é só um detalhe", como disse Roberto Medina em uma entrevista ao Globo, não imagina como foi aquela primeira edição. Apesar do local imenso, a infra-estrutura era precária. A cerveja era a famigerada Malt 90, e estava sempre quente. Conseguir comprar um hambúrguer era uma luta árdua.Os banheiros logo ficaram imundos. O belo gramado, depois de alguns dias, virou lama. Mas relevávamos tudo. Queríamos mesmo era curtir o rock. E os shows não decepcionaram.
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Eu fui em três dias: no primeiro, dia 11; no domingo, 13,; e no sábado seguinte, dia 19.  Ney Matogrosso abriu o festival com um ótimo show, mas logo depois foi triste ver a galera metaleira (que eram muitos, muitos mesmo) vaiando Erasmo Carlos logo depois. O show do Iron Maiden foi sensacional. E o Queen, fechando a noite, foi arrebatador. A banda estava em uma de suas melhores fases e foi arrepiante cantar junto com milhares de pessoas o clássico "Love of my life", Ao fim da extenuante noite, lembro das pessoas cansadas, mas felizes, indo pegar os ônibus. Na volta pra casa, havia gente dormindo até de pé nos coletivos lotados.



No dia 13 curti bastante as atrações nacionais. Paralamas, Lulu Santos e a Blitz fizeram três ótimos shows, com destaque para a falta de cenário dos Paralamas, que improvisaram uns enfeites do camarim no palco - cenário simples, show excelente. Mas o grande destaque desta noite foi mesmo Rod Stewart, que fez um dos melhores show de toda a história do festival. Se no Queen eu estava tão espremido na multidão que mal conseguia me mexer, no show de Rod deu pra dançar o tempo todo, e nem a chuva que caiu no meio da apresentação diminuiu a animação da galera. Ainda me lembro de dançar sem parar ao som do clássico de Sam Cooke, "Twisting the night away" e vários hits de Rod, que pôs a plateia no bolso.



No sábado seguinte, dia destinado às bandas de heavy metal, a chuva caiu forte, Mas a galera não desanimou. Aliás, que eu me lembre, nenhuma das demais edições do festival conseguiu reunir um dia tão bom. Ver Whitesnake, Scorpions, Ozzy Osbourne e o AC/DC foi realmente uma experiência única. Temendo nova vaia a Erasmo Carlos, a produção o tirou deste dia, mas manteve Pepeu Gomes e Baby Consuelo, que encararam a intolerância quase fundamentalista dos fãs de heavy metal com um showzaço. Antes que os fãs do rock pesado começassem a vaiar, Pepeu Gomes deu um solo a la Jimi Hendrix, Depois, junto com Baby, levaram um versão arrasa-quarteirão do clássico "Brasileirinho"', deixando os radicais de boca aberta. Recentemente vi numa entrevista para a TV Baby contando que contratou um grupo de seguranças para impedir que os outros seguranças do festival desligassem o som ou mandassem terminar o show antes dos 40 minutos previstos.A tática, pelo visto, deu certo.

Sim estive em apenas três noites, mas foram três noites que jamais vou esquecer. Depois do primeiro Rock in Rio, finalmente o Brasil começou a receber mais astros do rock internacional. Os grandes grupos haviam descoberto o Brasil. E o festival fora o responsável.    




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Somos todos Charlie - humor x fanatismo

O atentado terrorista contra a redação do jornal francês Charlie Hebdo me fez lembrar de uma aula que dei na faculdade de comunicação há pouco mais de dois anos. A disciplina era Cultura das Mídias e o tema da aula, a cultura do politicamente correto. Em determinado momento, a fim de explicar a influência do politicamente correto no humor, recorri a um vídeo do Felipe Neto e seu "Não faz sentido". Na época Felipe já tinha um bom séquito de fãs na web, com seus ácidos comentários no Youtube sobre vários temas. Assim, boa parte da turma se empolgou com o que veria a seguir.

O vídeo começa e Felipe logo avisa que fez uma seleção piadas de humor "refinado", com "compromisso social", que "não ofendem ninguém". Pausa. Entra uma música clássica de fundo e Felipe fica um minuto inteiro sem falar absolutamente nada. Ou tentando falar, mas sem encontrar algo a dizer. Na sala de aula, observo alunos perplexos que esperam a piada, que não vem em momento algum. Ao final do vídeo, Felipe sai de cena e entra a legenda: "Nenhuma minoria foi ofendida nestes 60 segundos",





Curiosamente, acompanhando a repercussão no Brasil sobre a tragédia francesa, encontrei um artigo muito bom de Allan Sieber (escrito especialmente para o blog do Andre Barcinski), sobre um debate que tomou a França há alguns anos, sobre os limites do humor. Na época, o Charlie Hebdo chegou às bancas de todo o país com a manchete "Um jornal responsável",  Segundo Sieber, "dentro só tinha as legendas dos cartuns, o resto era TUDO branco. Nunca ninguém teve a manha de fazer um jornal mais chapa branca que esse".




Poderíamos dizer que os cartunistas do Charlie Hebdo sabiam que não existe essa história de "humor responsável". A corrente ideológica do "politicamente correto" surgiu nos EUA durante os anos 1980 e se alastrou como uma praga em boa parte do mundo ocidental. De repente nos vimos obrigados a rever nossos conceitos sobre toda forma de minorias que por séculos foram difamadas, exploradas, humilhadas, sacaneadas, ironizadas, tornando-se, em grande parte, alvo de piadas, do humor que é parte da sociedade. Claro que a ideia inicial era boa ( quantas vezes não ouvimos a expressão "não judia dele não", sem atentar que na verdade estávamos denegrindo os judeus?), mas aos poucos a corrente se transformou numa grande patrulha transformada em correção política, e um grupo que foi muito agredido foi justamente o dos humoristas. De repente não era bom fazer piada nem com anões, que se transformaram dentro do linguajar politicamente correto em "verticalmente desfavorecidos"). Lendo os jornais a respeito das mortes dos cartunistas franceses, li algumas opiniões de leitores e até de intelectuais convidados a se expressarem dizendo que deveria haver um limite no humor. Alguns chegaram mesmo a dizer os cartunistas teriam exagerado, que aqui no Brasil ninguém gostaria de ver "os dogmas do catolicismo sendo ridicularizados"

(Bem, quanto a este último comentário, devo dizer que o autor está bastante desinformado. Sugiro a ele que entre no canal do "Porta do fundos" do youtube para ver alguns vídeos hilários sobre Jesus e os "dogmas do catolicismo". A despeito de alguns comentários indignados no próprio Youtube, até agora nenhum dos vídeos do grupo a satirizar o cristianismo, Deus ou Jesus foi proibido).

Quando o politicamente correto se mistura com o radicalismo, temos o fundamentalismo ou o fanatismo religioso, que acredita não haver espaço para a tolerância. Para um fanático, como estes que mataram os cartunistas franceses, não se pensa na alternativa mais civilizada que seria simplesmente ignorar o jornal. É preciso também assassinar aqueles que "profanaram" sua religião.

O grande escritor israelense Amós Oz escreveu em 2004 um pequeno grande livro chamado justamente "Contra o fanatismo".Eis um pequeno trecho em que fala sobre o Oriente Médio, mas que poderia muito bem definir o fanatismo no mundo inteiro::

"A crise atual no mundo - no Oriente Médio, em Israel e na Plestina - não diz respeito, de jeito algum, à mentalidade dos árabes, como querem alguns racistas.Diz respeito à luta antiga entre fanatismo e pragmatismo. Entre fanatismo e pluralismo. Entre fanatismo e tolerância. O 11 de setembro não tem a ver nem mesmo com a questão de se a América é boa ou má, se o capitalismo é ameaçador ou transparente, se a globalização deveria cessar ou não. Diz respeito, isto sim, à reivindicação típica dos fanáticos: se julgo algo mau, elimino-o, junto com seus vizinhos. O fanatismo é mais antigo que o Islã, mais velho que o Cristianismo, que o  Judaísmo, que qualquer estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo,  O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana, um gene do mal, se quiserem chamá-lo desta forma. Pessoas que explodem clínicas de aborto nos Estados Unidos, que queimam mesquitas e sinagogas aqui ou na Alemanha, diferem de Bin Laden apenas em escala, mas não na natureza de seus crimes,"

O pior que poderia acontecer com relação ao assassinato dos jornalistas franceses seria considerar aquilo como algo isolado. De fato, cheguei a ler uma postagem do Facebook onde um amigo escreveu "viva o Brasil, que está longe de ter massacres iguais ao que aconteceu na França".  Bem, devemos tomar cuidado com afirmações como essa. O Brasil ainda é um dos países que mais matam jornalistas. Ainda é um local em que pessoas pobres são diariamente assassinadas nas grandes favelas. Ainda é um país onde um universitário é assassinado na entrada da faculdade por motivos banais. Em que evangélicos fundamentalistas não escondem nas redes sociais sua satisfação e ainda ameaçam aqueles que fazem humor com passagens da Bíblia. São todos casos de intolerância e desprezo à vida humana, mas que não tiveram a mesma repercussão que as mortes francesas.  

A solidariedade mundial mostrada nos últimos dias mostra que devemos considerar o crime ao jornal francês como um crime contra todos nós. Contra a civilização, a liberdade de expressão e a tolerância humana. Talvez Voltaire não imaginasse o quanto ele fez pela liberdade de expressão ao dizer para um crítico: "não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de fazê-lo".

Um dos assassinos dos cartunistas franceses chegou a dizer que não se importava em virar um mártir da causa contra o Islã. Enganou-se. A solidariedade mundial que se seguiu à tragédia francesa mostra que na verdade eles conseguiram criar milhares de adeptos á causa da liberdade de expressão. Na semana que vem, um número especial de Charlie Hebdo - que se encontrava em crise financeira - sairá com a tiragem inédita de 1 milhão de exemplares, com boa parte da renda destinada ás famílias das vítimas. Ou seja, Charlie vive.

Que o humor não morra jamais. Je suis Charlie. Somos todos Charlie.