sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaval passou ...mas as marchinhas politicamente incorretas vão ficar!

Este blog não quer abafar ninguém, mas quer mostrar que gosta de samba também. E agora que o Carnaval passou, não posso ficar sem dar um pitaco na polêmica das marchinhas. Houve um tempo em que nossa cantora mais popular era Carmen Miranda. Seu primeiro grande sucesso foi justamente uma marchinha deliciosa chamada "Taí" (aquela que dizia "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim...". A marchinha catapultou Carmen ao estrelato e levou-a a cantar em todo o brasil e países da América do Sul, antes de ser descoberta pelos americanos e iniciar uma carreira de sucesso nos EUA.

Carmen costumava muitas vezes iniciar seus show com um chamado à plateia: "Boa noite, macacada!". O público vinha abaixo e caía na gargalhada. Hoje em dia Carmen jamais poderia entoar este grito de guerra: sera acusada de racista e desrespeito com a rica miscigenação brasileira. A alegação dos blocos de que a sociedade evoluiu e hoje em dia não há mais espaço para estas denominações não procede. Claro que grande parte das marchinhas - e muitas de grande sucesso - usam e abusam de termos hoje considerados politicamente incorretos. Porém, são fruto do carnaval, são brincadeira, e o reinado de Momo é a época em que gostamos de brincar e pegar no pé de todo mundo. Homens se veste de mulher, mulheres de homens, gays enrustidos saem do armário e por aí vai. Implicar com a cabeleira do Zezé e elogiar a mulata que já foi a tal faz parte da festa. Quem não tá satisfeito que fique em casa. Mas não tentem censurar estas marchinhas, verdadeiras crônicas de costumes que deixaram sua marca no tempo e não merecem ser esquecidas.

O próprio termo "macacada" era nas primeiras décadas do século uma saudação comum entre amigos que se encontravam para se divertir. O termo ""não pega", como bem lembrou o jornalista Tárik de Souza em recente edição especial do programa Ronca Ronca, era uma expressão que naquela época queria dizer "eu não me importo". Sem aquela conotação racista que tantos apregoam. e já há gente achando que o "transviado" da "Cabeleira do Zezé" quer dizer homossexual...

É por isso que fecho com todas as marchinhas e deixo aqui uma defesa destas canções carnavalescas composta por Eduardo Dussek, um dos mais criativos e divertidos cantores brasileiros e verdadeira autoridade em marchinhas. Dussek compôs e gravou com preta Gil  "Marchinha de Carnaval (politicamente incorreta)". Deveria ser entoada por todos aqueles que defendem um carnaval com mais bom humor e menos patrulhamento:







Marchinha de Carnaval (politicamente incorreta)

Eu sou gostosa, maliciosa
Não leve a mal
Politicamente incorreta
Sou a marchinha de carnaval

Eu sou do jeito que eu quiser
Saio de homem ou saio de mulher
Sem essa de puxar o meu tapete
Sua censura que vá pro cacete!

sábado, 31 de dezembro de 2016

Uma festa de 15 anos, um convite nas redes sociais...e 1,2 milhão confirmam presença na festa


Lembro que uma vez, quando trabalhava na extinta Rio Sul Linhas Aéreas, uma amiga me convidou para o casamento dela. Seu nome era Aline e eu a havia ajudado nos primeiros dias de trabalho, como instrutor na elaboração de reservas (era comum aqueles com mais tempo de casa ajudarem nas primeiras ligações dos iniciantes). Aline era muito simpática e logo ficamos amigos. Menos de uma ano depois, encontrei-a num dos corredores da empresa. Aline iria casar e me convidava para a festa. Aceitei de bom grado. No dia seguinte, Aline, na ansiedade de comunicar a todos da empresa que iria casar, deu um passo em falso: prendeu um convite do casamente, como data e local, na sala de espera, um local o qual todos passavam. E, claro, todos ali leram o aviso. Resultado: no dia da cerimônia, não só os amigos de Aline estavam presentes, mas uma grande leva de funcionários da empresa que mal a conheciam (alguns nitidamente nem falavam com ela) aproveitaram a data para "prestigiar" o casamento de Aline.

Isto ocorreu nos idos de 1998 ou 1999, não estou bem certo. A internet ainda era algo para poucos brasileiros, e quem tinha acesso o fazia pelos PCs, na época bem caros. Lembrei da história depois de saber pela televisão da festa de aniversário da jovem mexicana Rubi, neste fim de 2016. Seu pai inadvertidamente colocou a informação da festa de 15 anos da filha no Facebook, dizendo que "todos são bem-vindos". A intenção era informar os parentes e vizinhos mais chegados. Só que, tal como Aline, o pai de Rubi deu um grande, um enorme passo em falso: mais de 1 milhão de pessoas leram o recado e se sentiram "convidados" à festa no México, ou seja, confirmaram presença pela rede social

Para usar uma palavra muito empregada atualmente, a mensagem viralizou, potencializando aquele convite feito pelo pai de Rubi em uma extensão jamais imaginada pela família. Pra variar, não faltaram hilariantes memes a ironizar, debochar, implicar ou simplesmente compartilhar a festa da debutante que, tal como no Brasil, costuma ser uma das festas mais tradicionais entre meninas que completam 15 anos. Um advogado local chegou a informar que avisaria a polícia para garantir a segurança do local caso a multidão realmente comparecesse.

Querem saber quantos realmente compareceram? Em torno de 10 mil, mesmo após os pais alertarem pela televisão que não conseguiriam receber todos. Pessoas de outras cidades estiveram no local, ambulantes com as indefectíveis barracas montaram praça perto da festa etc. Aos pais só restou manter a festa, apenas trocando o local para outro, descampado, para abrigar a enorme lista de "convidados" não oficiais. Tudo isso, em tempos de redes sociais, poderia assim mesmo ter se mantido no noticiário mexicano, mas ultrapassou as fronteiras após um episódio trágico: durante a festa, uma corrida de cavalos co  apostas deixou um morto e outro ferido.

Pensei bastante nesta história e lembrei de como hoje a internet tem realmente mudado nossas vidas. É preciso cada vez mais cuidado com o que escrevemos na web. Escolhi este curiosíssimo caso pra encerrar este ano no blog e tentado fortemente a começar minha primeira aula de Mídias Digitais em 2017 com a história do aniversário de Rubi. tenho certeza de que a turma gostará, e desta vez ninguém precisará "confirmar presença".

Um feliz 2017 para todos nós.

     







 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Lides imperdíveis: um artista do século XIX é o mais vendido em 2016

Preste atenção neste pequeno parágrafo, tirado diretamente do site da revista Bilboard. Traz um texto tão bem escrito e tão inquietante em apenas duas linhas que motivou a volta da seção "lides imperdíveis" deste blog:

The biggest-selling CD act of 2016 doesn't sing. He doesn't play guitar and doesn't tour. In fact, no one alive has ever seen him.

Traduzindo:

O maior vendedor de CDs de 2016 não canta. Ele não toca guitarra e não faz turnês. Na verdade, ninguém vivo jamais o viu. 

O autor em questão é Mozart, e trata-se de um box-set (caixa de CDs) que é precisamente uma peça de colecionador. Chama-se "Mozart 225" e foi lançada para comemorar o aniversário de 225 da morte do grande compositor clássico, um dos maiores da humanidade. O autor da matéria - o jornalista da Bilboard Lars Brandle - explica que entre o planejamento, a curadoria e o lançamento levaram-se 18 meses até  caixa ficar pronta. A caixa teve 6250 compradores. mas, levando-se em conta que cada uma traz 200 CDs (sim, 200 CDs!), e multiplicando-se por cada comprador dá 1,25 milhão de CDs vendidos. Está tudo do músico rigorosamente ali dentro. Há desde as primeiras sonatas do jovem Mozart até seus últimos réquiens antes da morte.  



São tempos diferentes para a música e para os formatos. Mozart morreu antes de conhecer os primeiros fonógrafos, depois as vitrolas, os primeiros discos de vinil e a consolidação da indústria fonográfica durante o século XX, algo que só seria suplantado pela chegada das mídias digitais, que trouxe o CD e mais tarde as faixas em MP3. Mesmo com a caixa luxuosa em primeiro lugar, o formato CD está em queda e sofre agora a concorrência não só do que seria o mais esperado - downloads ou streamings do ITunes ou Spotify - mas do aumento das vendas do disco de vinil. um formato que até pouco tempo era dado como morto aqui no Brasil mas que nunca deixou de vender lá fora. Semana passada, a seguinte nota saiu na Veja:  "Vinil - No Reino Unido, o valor das vendas dos discos superou o dos downloads de música, pela primeira vez, desde que os dois formatos disputam mercado."

Tudo isso é muito interessante e reflete as transformações na indústria, onde o novo agora tem que conviver com formatos antigos ou reprocessados (dia sim outro também vejo anúncios de aparelhos tocadores de vinis que "também gravam em mp3"). Mas, terminando a digressão e voltando ao que interessa a este post, por que o lide escolhido por ser considerável excelente?

Por que faz, com um mínimo de texto, aquilo que todo jornalista, ao começar a escrever uma matéria, deveria tentar: lançar uma frase marcante, atiçar sobremaneira a curiosidade do leitor de tal forma que para uma mente inquieta seja impossível não continuar a leitura.

Só por isso. Ponto para a Bilboard e para Brandle.  






quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Essa música me lembra uma história - "How I got over", Aretha Franklin


Moro no Rio e trabalho em duas faculdades de comunicação, uma em Resende e a segunda em Volta Redonda. São em torno de três horas de viagem no começo da semana, quase sempre de carro, Para que a viagem se torne minimamente suportável (não é fácil se animar pra dirigir três horas numa segunda-feira à trabalho, parar rapidamente para um café e dar aulas à noite no sul fluminense), sempre levo comigo alguns CDs. São cantores, cantoras, bandas de rock ou de soul music, compositores dos mais diversos estilos musicais, nacionalidades e tendências. Eles me fazem companhia dentro do carro e fazem com que o conceito de "viagem" vá mais além do que enfrentar o calor ou frio, as curvas de quase 150 km e os eventuais engarrafamentos no caminho. Na semana passada, contei com uma companhia agradabilíssima. Era Aretha Franklin, em seu disco "Amazing Grace", um dos mais vendidos em sua carreira. Por pouco mais de uma hora, fui levado ao ano de 1972, quando o disco foi gravado em uma igreja batista norte-americana. Ali, Aretha cantou, acompanhada por um coral negro, o Southern California Community Choir, a formidável "How I got over". Pronto, Meu começo de semana estava agora começando de verdade.



A audição de "Amazing Grace" fez minha mente voltar no tempo. E lembrar de outra viagem - para o país onde nasceu Aretha, os Estados Unidos. Era minha primeira viagem para fora do Brasil, e eu viajaria sozinho. Uma excursão de 21 dias pela extinta Soletur, costa a costa, pelos Estados Unidos. Os últimos dias de viagem seriam em Nova York e eu estava ansioso para conhecer de tudo um pouco. tal e qual um turista aprendiz, com um pé no deslumbramento e outro no lado cultural que só uma viagem internacional me proporcionaria naquele momento. Pelo menos um dos lugares que eu queria muito ir não estava na programação da companhia de turismo. Tampouco era um roteiro dos mais badalados. Antes mesmo de decolar do Brasil eu sabia que deveria ir de qualquer maneira ao Harlem - o famoso e lendário "bairro negro" da grande cidade - para assistir a uma missa gospel. Num domingo pela manhã, peguei um metrô em Manhattan e me dirigi à igreja batista do bairro, onde se apresentava todas as semanas o coral Mount Moriah.

Antes de continuar, já me antecipo: não me arrependi nem um pouco.

Devo contar que à época - 1995, eu com 25 anos - já era apaixonado pela música negra americana. Comecei a escutar música de fato nas rádios cariocas que tocavam músicas da disco, num período de final dos anos 1970. Rádio Mundial AM, depois Cidade FM e depois várias outras. Um dia fui com meu pai e meu irmão ao cinema Metro Boavista, na Cinelândia, assistir a "Os irmãos cara de pau". Uma comédia amalucada e engraçadíssima que trazia em uma das cenas James Brown como um reverendo pregando numa igreja. A cena acabava com um coro gospel esfuziante e todos na audiência cantando e dançando sem parar. Além de Brown, o filme prestava um tributo e trazia em participações especiais vários astros da música negra americana, como Ray Charles, John Lee Hooker e ela, a insuperável Aretha Franklin. Depois que vi esse filme me apaixonei pela black music americana e suas vertentes - soul, funk, blues, rythyn' & blues etc. Então, quando soube que eu finalmente estaria em Nova York, e poderia dar um pulinho no Harlem, nem pensei duas vezes.

A escolha da Igreja foi pelos jornais brasileiros, antes da viagem. Naquele tempo o Nelson Motta morava em Manhattan e havia escrito algumas crônicas para a imprensa brasileira falando de um programa imperdível para brasileiros em férias em NY: a missa de domingo da Igreja Mount Moriah no Harlem. A leitura da crônica foi suficiente para eu me  deslocar naquele domingo de manhã até o bairro negro.

Não tive muita dificuldade em achar a igreja. O guia da excursão me ensinara como chegar ao local. Lembro que, ao chegar na entrada, me impressionei com as roupas dos frequentadores, homens e mulheres quase todos negros, que chegavam para a missa. Estavam alinhadíssimos. Parecia que deixavam o domingo pela manhã para usar suas melhores roupas. Entrei na igreja, escolhi um lugar bem discreto, ao fundo, e aguardei o começo. .






A memória me impede de lembrar de tudo, mas lembro nitidamente que a missa já começava com música. Um gospel absolutamente contagiante. Mesmo sem ser muito religioso, achei que aquela música, naquele lugar, tinha algo de divino. Em determinado momento, todos se levantaram, um dos músicos começou a levar uma melodia animada, e todos começaram a cantar uma música que poderia bem ser..."How I got over", clássico que Aretha gravou em 1972. Parecia que eu estava na cena da igreja ao lado de um dos Blues Brothers. Aleluia, deu vontade de repetir junto ao coro.das velhinhas super bem-vestidas. .   ,

Lembro que após alguns minutos, durante a pregação do pastor, sentaram-se ao meu lado duas meninas lindas, com aquele cabelo black cheio de estilo. Deveriam ter entre 10 e 12 anos, e pedi para tirar uma foto delas. Elas concordaram. Na pressa, esqueci de desligar o flash, o que fez com que elas levassem um pequeno susto com a foto. Agradeci a elas e olhei em direção ao pastor, que parou um pouco o sermão pra me olhar com cara de poucos amigos.Abaixei a cabeça, elas riram, ele voltou a falar para os fieis e só então eu relaxei.

Lembro que tudo deve ter levado em torno de uma hora, a memória custa a lembrar. Devo ter saído pouco antes do fim, quando o pastor continuava seu sermão, agora sem música. Na entrada da igreja, um grupo de brasileiros conversava com um homem baixo, muito bem vestido, que sorria de um jeito bem descontraído. Era o Nelson Motta. Pensei em ir ali falar pelo menos um "obrigado" pela manhã que sabia ter sido inesquecível. Mas não fui. Talvez por timidez, talvez ainda um tanto abalado pela cara feia do pastor dizendo "Don't take flashes in my church!" (será que ele disse isso mesmo, ou minha imaginação anda me pregando peças?), O fato é que eu saí da igreja e fui direto ao metrô. Algum tempo depois já estava chegando ao hotel para se juntar ao grupo da excursão.

Voltei ao Brasil e segui minha vida. Depois disso fiz muitas viagens pelo Brasil e o mundo. Visitei, é claro, várias igrejas que viraram grandes pontos turísticos. Algumas modestas, em cidades mais pobres, outras impressionantes, como a Sagrada Família de Barcelona, a maravilha arquitetônica de Gaudi. Mas sempre lembro com especial nostalgia daquela pequena igreja no Harlem, em 1995, em que um coral negro iluminou meu dia, com todos acompanhando, orando e cantando juntos uma música feita para reverenciar o senhor. .
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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A morte de um mestre da entrevista: Geneton Moraes Neto


Numa sala, estão o repórter e dois homens poderosos. Um deles é um ex-presidente dos Estados Unidos, famoso por sua luta pelos direitos humanos. O outro, o primeiro negro a se tornar arcebispo da Cidade do Cabo, em plena vigência do apartheid sul-africano. . Ambos receberam o Prêmio Nobel da Paz. Atendem pelos nomes de Jimmy Carter e Desmond Tutu. A simples escolha dos entrevistados poderia alarmar repórteres mais inexperientes. Mas este não. Calmamente, ele confere sua folha de perguntas, Depois, olha para o ex-presidente americano e dispara:

- O senhor compraria um carro usado do ex-presidente Bush?

A pergunta inusitada provoca gargalhadas do bispo africano e um sorriso amarelo de Carter, crítico da política intervencionista levada a cabo por Bush. Eles estão sendo entrevistados por Geneton Moraes Neto. um dos maiores jornalistas brasileiros, morto esta semana. Ainda é cedo para dimensionar o impacto de o termos perdido tão cedo. Geneton era uma usina de criatividade, um pernambucano que começou ainda aos 15 anos, na imprensa escrita, e que mais tarde migrou para a televisão. Amante da boa reportagem, no começo achou que não teria futuro na TV. Felizmente, estava errado. Em vários telejornais da Globo e depois na Globonews, produziu e realizou inúmeras reportagens sensacionais, como os dossiês que viraram especiais jornalísticos da emissora.

O público que acompanha televisão, porém, pode ter se espantado com as várias homenagens que a televisão e os jornais fizeram para ele na ocasião de sua morte, Geneton era um jornalista que, como Tim Lopes, atuava nas internas. Por vezes, nem quis usar sua própria voz para narrar as reportagens que produzira, preferindo escalar atores ou locutores da emissora para narrar o que apurara. Também não tinha aquele porte clássico do repórter de televisão: estatura média, um tanto gordo, óculos grossos, costeletas e cabelos por vezes despenteados.

O que mais o inclinava ao trabalho era uma boa história. e ele conseguiu várias. Mesmo que para tanto tivesse que brigar pelas pautas dentro da própria redação. Uma vez, chegou à redação eufórico, informando que havia feito contato com a última mulher viva do naufrágio do Titanic. Nas suas mãos e com sua capacidade de entrevistador, seria com certeza uma grande história, mas os editores perguntaram: "quem ainda liga para o Titanic?" Geneton desceu para tomar um café no bar em frente à TV e contou a pauta frustrada a quem estava lá, Todos disseram que seria uma ótima história, o que o fez voltar e brigar até conseguir realizar a entrevista. Foi um de seus grandes momentos na televisão.  Como no dossiê sobre os 11 jogadores da seleção brasileira de 1950, derrotados pelo Uruguai e as consequências deste fato:




Há dois anos, compareci a um debate na biblioteca de Botafogo em que estavam presentes o jornalista Mauro Ventura, que acabara de lançar o livro-reportagem "O espetáculo mais triste da Terra", sobre o trágico incêndio do Gran Circo Norte-Americano em Niterói, nos anos 1960, e Geneton, que, pra variar, roubou a cena com seus comentários irônicos e uma verdadeira paixão pela profissão. Da necessidade de sair da redação para ir às ruas, lugar "onde estavam as boas histórias". Da necessidade de lutar contra a acomodação e o jornalismo chapa-branca, desconfiando sempre do que dizem. Sua famosa frase "Fazer jornalismo é produzir memória" tem sido repetida esta semana nas homenagens a Geneton. Ao entrevistar grandes nomes de forma incisiva, confrontando-os com os fatos (como na marcante entrevista com o ex-general Newton Cruz, ou mesmo diante de um dissimulado Paulo Maluf) mas sem nunca desrespeitar o entrevistado, fazendo-os saírem da zona de conforto, Geneton produziu memória para as próximas gerações, e um exemplo está na última entrevista do poeta Carlos Drummond de Andrade em vida, dada ao repórter.

Espero de verdade que as novas gerações sigam fazendo do jornalismo uma profissão digna, e não essa permissividade com a publicidade cada vez mais latente, em que matérias e reportagens são cada vez mais realizadas apenas diante de um computador, muitas abastecidas por assessorias de imprensa, que zelam muito mais por uma boa imagem de suas empresas do que boas histórias.

O grande jornalista que se foi esta semana era dono de um estilo raro nas redações e, numa primeira reflexão, não parece ter deixado herdeiros. Espero estar errado e que surja logo um outro alguém o qual, quando me perguntarem em sala de aula qual o repórter a ficar de olho, eu o indique.

Pois, quando o assunto era televisão, eu sempre respondia: acompanhem o Geneton.




sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Cobertura das Olimpíadas - quando o interesse comercial chega em primeiro

Eu gostaria de começar essa postagem assim:

O Brasil inteiro está na expectativa da abertura dos jogos olímpicos, pela primeira vez sendo disputados na América do Sul. A população aguarda ansiosamente pela maior abertura de um evento esportivo de todos os tempos, cujas competições certamente estarão entre as maiores da história. A passagem da tocha olímpica inflou os ânimos ufanistas do povo brasileiro, que fez questão de acompanhá-la por mais de 300 cidades nos quatro cantos do país. Nesta sexta, a apoteose dos jogos olímpicos modernos tem início, com transmissão televisiva para todo o planeta. Todos os jogos, dentre todos os esportes, serão transmitidos pelas TVs aberta e a cabo, e a expectativa é grande.

Notou algo errado com o parágrafo acima? Pois é mais ou menos como o comitê olímpico brasileiro - e grande parte dos veículos de comunicação, como a TV Globo - vêm se referindo aos jogos olímpicos. Um misto de patriotismo, ufanismo e emoção que pode servir para inflar a audiência., mas que desde já sabemos quem perde:o jornalismo.  

Não precisa estar sintonizado na TV. Uma checada em dois dos maiores portais da internet, G1 e UOL, na quinta de manhã, sinaliza o contraste entre, pelo menos ali, quem apostava na informação correta e quem aposta na emoção Vejamos as principais manchetes em torno das 10 da manhã desta quinta-feira, véspera dos jogos:

UOL: "Na véspera da Olimpíada, crise na Rio-2016 afeta organização dos jogos"

G1 "Em cadeira de rodas, Zagallo recebe tocha de Parreira e emociona"
Subtítulo: Na internet, muitos lembram que 'chama olímpica' tem 13 letras, número da sorte do ex-técnico campeão do mundo

Enquanto o portal UOL aponta uma possível crise na organização do evento (indo ao fatos), o portal concorrente aposta na emoção. Hoje mesmo, na sexta, algumas horas antes do início do evento, vejo um anúncio na TV Globo: imagens de atletas se superando. comemorando, chorando etc. Ao fundo a trilha sonora: "Emoções", de Roberto Carlos.

Na disciplina específica do jornalismo esportivo, alunos que querem seguir carreira na área são advertidos pelos professores que na cobertura de jogos é permitido um viés mais emocional. Concordo. Lembro de Nelson Rodrigues, ao reclamar dos idiotas da objetividade, os quais, segundo ele, teriam abolido o ponto de exclamação das manchetes. O cronista reclamava ironicamente que quando o Brasil se sagrasse campeão mundial de futebol a manchete viria tal qual um manifesto fúnebre...

Mas há que se encontrar um meio termo. E isso é difícil para aqueles veículos cujos anunciantes investem milhões em propaganda. E estes anunciantes querem retorno, querem audiência. Quanto mais gente assistindo aos jogos, melhor. Para os anunciantes, para os canais de TV, para os portais da internet...mas não para aquela parte do público que prefere ser bem informado (e se emocionar com os jogos, por que não?) a ter sua telinha invadida por mensagens propagandísticas para vender produtos enquanto passam os jogos.

Está para ser contada a outra história do périplo da tocha olímpica ao longo dos 98 dias e quase 300 cidades pelo território brasileiro. Enquanto na TV era só alegria, a realidade era outra, com manifestações em várias capitais contra o governo, protestos contra a Globo, gente querendo apagar a chama das tochas, eventos de apoio cancelados por medo de tumulto e até uma onça morta.

Bem, talvez após os jogos. Enquanto isso, uma boa olimpíada para os atletas brasileiros. E para todos nós.
   















quarta-feira, 27 de julho de 2016

Em Anchieta, um exemplo de amor aos animais abandonados


O caminho até lá não é muito difícil pra quem vai de carro. Após romper as inúmeras obras da Avenida Brasil, pega-se a direção para Irajá e seguimos em frente. Passamos pelos bairros de Ricardo de Albuquerque, Anchieta e finalmente chegamos à Avenida Nazaré. Seus números de casas são como os daquelas ruas antigas, muitos deles trocados, o que faz a chegada no local correto um pouco difícil. Uma parada para perguntas e todos, de alguma forma, já sabem para onde vamos. "Ah, a moça que cuida de animais, né? Dê meia volta e logo depois da passarela é a casa dela!". Mais um pouco e ,chegamos ao Santuário dos Fofinhos, ou melhor, à casa de Renata Brito, uma carioca da Barra da Tijuca que vive e cuida praticamente sozinha de mais de 200 animais na periferia do Rio.

Professora de inglês, Renata trocou a vida de classe média alta para, em Anchieta, fazer seu próprio abrigo de cães e gatos. No princípio, chegou a trabalhar em algumas instituições de amparo aos animais abandonados. Porém, incomodada pela falta de dedicação de alguns funcionários, resolveu que ela mesma iria ter seu próprio abrigo. Escolheu um território crítico, com altos níveis de violência e abandono de animais, mas que poderia comprar uma casa, e resolveu se estabelecer ali mesmo. Em Anchieta, Renata encontraria não só um local para abrigar seus cães, mas também um sem-número de situações de maus tratos pelas quais ela jamais esperava enfrentar.

A medida que o abrigo ia ficando conhecido, a população de animais no abrigo ia aumentando. Toda semana pessoas abandonam animais na porta do Santuário dos Fofinhos - o nome que ela deu ao local -,  e vão embora, para que Renata os recolha e dê sua atenção, que pode ser o tratamento de uma doença até o encaminhamento para adoção. Em oito anos de abrigo numa região violenta, Renata já presenciou várias situações dramáticas. Um dia, alertada pela campainha, ela desceu as escadas até a rua e deparou com uma sacola fechada de supermercado. Renata se aproximou, ouviu um barulho e descobriu, dentro do saco, dois cachorros. Um deles não resistiu e morreu asfixiado. O outro estava com um dos glóbulos oculares para fora, em estado deplorável. "Graças a deus ele ainda estava vivo. Recolhemos, passou por uma operação e agora, apesar de cego de um olho, está melhor", ela diz. .

Quantidade de animais, espaço e localização. Estes são os três principais problemas do Santuário dos Fofinhos que Renata descreve em sua página no Facebook. A quantidade de animais vem aumentando a cada dia, até chegar num ponto crítico do qual, sem as ajudas das pessoas - que depositam quantias em contas bancárias ligadas ao abrigo ou comparecem pessoalmente nos fins de semana para deixar jornais, bacias, comida etc para os animais - não seria possível manter o local. São inúmeros cães que chegam ali doentes ou traumatizados após sucessivas histórias de humilhação e maus tratos. Gente que, segundo Renata, abandona bichos pelos motivos mais inusitados. Um exemplo é o razoável número de cães pretos ali presentes, vítimas, assim como os gatos, de superstição ou simplesmente racismo.

O segundo problema, a questão do espaço, diz respeito à casa onde reside Renata, sua filha pequena e mais de 200 animais. Auxiliada apenas por uma funcionária que a ajuda na casa e com os animais, é possível encontrar uma infinidade de cães, numa insólita organização elaborada por Renata. Há o quarto dos mais doentes, o espaço dos mais traumatizados e, por isso, mais agressivos, o quarto daqueles que sofreram violências diversas. Dentro de casa, alguns gatos convivem em harmonia com a cachorrada - ou melhor, apenas alguns, pois eles sabem que nem todos os cachorros do abrigo os respeitam. Tudo é bastante improvisado e mantido com a ajuda dos colaboradores. Do alto de uma escada, avisto uma fêmea de pitbull, abandonada e segundo Renata já idosa para uma cachorra, se aproximando de mim. Seu olhar é mais de tristeza do que de imponência por ser de uma das raças mais temidas no imaginário popular. Faço-lhe um carinho e ela, agradecida, fica alguns minutos sem desgrudar de mim. Compreendo que carinho de seus antigos donos quase nenhum ali recebera antes.

Já o terceiro problema tem sido um dos piores. O localização do abrigo, em Anchieta, um bairro pobre da periferia carioca, já era violenta quando Renata se instalou ali. Nos últimos meses, refletindo a sensação de insegurança que cobre todo o estado do Rio, piorou bastante, deixando a segurança do local em risco. São tiroteios frequentes, arrastões, falsas blitzes e outros problemas relacionados à segurança que inibem a ida até lá de pessoas que gostariam de ajudar. Por este motivo Renata pensa em vender a casa e conseguir um novo local para seus mais de 200 cachorros e gatos. Não é tarefa fácil, mas persistência é algo que Renata mantém consigo.

No momento, a contar com seus únicos gastos, o abrigo só teria condições de funcionar por 15 dias. No entanto, o abrigo, em situação crítica, resiste.  O que o tem ajudado a chegar ao resto do mês com ração, remédios e outras formas de ajuda são as contribuições de pessoas que ajudam periodicamente. Nos últimos meses, pessoas do grupo SOS Rejeitados, que encaminha cães e gatos para feiras de doações em todo o estado, tem auxiliado Renata a evitar uma superpopulação de bichos em sua casa. Além de outros que descobrem seu trabalho através das redes sociais e tornam-se colaboradores. É desta forma, com muita persistência  dedicação e amor aos animais que Renata Brito vem mantendo seu abrigo e dando a inúmeros animais animais abandonados, torturados ou humilhados uma segunda chance de sobreviverem e terem uma vida melhor.        






      


sexta-feira, 17 de junho de 2016

"1 milhão de dólares de contrato para ir à Disney? Obrigado, mas tô fora": Bill Plympton


Começo dos anos 1990. Mostra Anima Mundi no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio. É uma das primeiras edições da mostra, e boa parte do público ainda se confunde com os filmes em exibição. Muitos chegam ao CCBB com os filhos. Mesmo sendo alertados de que determinados filmes não são propriamente "para crianças" insistem em conferir às sessões. Alguns sairão de lá revoltados com cenas de sexo, violência ou outra excentricidade; outros ficariam extasiados com o melhor da produção independente em cinema animado. de várias partes do mundo. Foi numa dessas sessões que entrei em contato pela primeira vez com o chamado "rei da animação independente": o americano Bill Plympton.

Lembro que poucas vezes vi tanta gente rindo dentro de uma sala de cinema como na exibição do curta "How to kiss".  Era uma sessão especial, com a presença do próprio animador americano, que foi entrevistado por um grupo de jornalistas e animadores brasileiros. Lembro que achei Plympton muito parecido com o presidente americano de então, Bill Clinton, e na hora que abriram as perguntas ao público, fiquei tentado a perguntar se os nomes e aparência parecidas eram propositais...mas minha timidez e meu medo de ser mal-entendido na ironia me deixaram quieto.

"How to kiss", o curta-metragem, era uma deliciosa e engraçadíssima aula de como beijar, enfocando os mais diversos e malucos tipos de beijo. Gargalhadas infinitas da plateia a cada situação absolutamente inusitada, provocada pelos desenhos mais divertidos e pintados a mão! (Plympton faz questão de desenhar tudo quadro a quadro) Traços e desenhos geniais, sem rebuscamento, mas extremamente pensados para dialogar e provocar o público. Num país como o Brasil, que vivia uma dieta de filmes de animação nos cinemas quase sempre ligada às indústrias Disney, o cinema independente de Plympton provava que a verdadeira animação podia ser muito mais subversiva do que achávamos.

Achei um trecho de "How to kiss", entremeado com outro. Curtam:


O próprio título "rei da animação independente" foi dado por ele mesmo, e colou. No começo dos anos 1990, os filmes de Bill Plympton já faziam muito sucesso no circuito alternativo quando foi sondado por executivos da Disney. Eles o queriam para participar da produção de um longa-metragem. A oferta era sedutora: um milhão de dólares para se juntar à equipe de desenhistas de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo. Não era algo para se recusar.

Mas Bill Plympton disse não.

Os executivos ofereceram o contrato na hora, e o puseram à frente do artista. Plympton perguntou se iria poder dirigir algum filme. Disseram que não. perguntou se teria autonomia criativa na produção de seus projetos. Novamente, a resposta foi não. Ele nem precisou de tempo para pensar. Agradeceu a conversa, mas disse que recuava o convite.

Mais tarde Plympton descobriu que seu trabalho era para contribuir com a arte do filme "Aladin", famoso pelo gênio da lâmpada azul em animação. "Teria sido divertido", ele comentaria mais tarde, rindo. "Aladin é um belo filme. Mas procurei manter minha independência".

O homem que recusou um milhão de dólares dos estúdios Disney continuou fazendo seus filmes. Enveredou pelos longa-metragens, desenhou animações para videoclipes, sátiras independentes e engraçadíssimas como a série "Guide dog", entre outros trabalhos. Este ano ele esteve no Brasil para mostras no Rio e em São Paulo em sua homenagem. Fui a uma das sessões na Caixa Cultura, quando assisti a alguns curtas e ao genial longa "Hair high", uma louca história de amor, morte e...mortos-vivos.

Não tinha muita gente no pequeno cinema da Caixa. Mas quem esteve lá não se decepcionou. Estiveram em contato com a obra de um dos maiores mestres do cinema de animação autoral da atualidade. O verdadeiro rei da produção independente.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bowie - Turn and face the strange

Não é legal começar uma semana, uma segunda-feira cinzenta, mesmo estando de férias, e verificar no smartphone que um de seus ídolos morreu. Não foi nem um pouco legal saber que David Bowie havia morrido de câncer aos 69 anos.

Passei hoje o dia ouvindo Bowie, lendo sobre ele na internet, vendo as resenhas nos telejornais (com um doc ótimo no Canal Bis) e escutando seus discos. Era o mínimo que podia fazer como homenagem a um dos artistas mais instigantes e inovadores da história da música pop.

Comecei a ouvir Bowie, pelo que me lembro, como a maioria dos brasileiros que eram adolescentes no começo do anos 80: através do sucesso "Let's Dance". Logo depois tornei-me ouvinte assíduo da rádio Fluminense FM, e ali descobri as canções de Bowie em sua melhor fase: os anos 70. Creio que foi ali e também no saudoso "Rock Festival", da 98 FM, que ouvi pela primeira vez grandes músicas como "Life on Mars", "Space Oddity", "Ziggy Stardust" e "Young Americans". Eu me perguntava como havia ficado tanto tempo sem ouvir aquela obra tão inovadora e estimulante.

A paixão permaneceu intacta. Aos poucos fui comprando seus discos, assistindo os filmes do qual Bowie participava, aguardando suas novas empreitadas artísticas. Estive na Apoteose para o show que o artista trouxe ao Rio no começo dos anos 90, prejudicado por uma péssima acústica, mas com momentos emocionantes, como a empolgação de todos em "Modern Love".Recentemente, foi muito bom ver dois filmes ótimos que usaram suas músicas na trilha sonora, como "As vantagens de ser invisível"(Heroes) e "Walter Mitty" (Space Oddity).

Só posso dizer que nunca vi ou ouvi um artista da música tão inquieto e eclético que tenha  influenciado tanta gente, até na moda. A lista é imensa e as resenhas já deram conta de tudo. No mais, se algo fica para as novas gerações é a lição de que para ser um verdadeiro artista é preciso ousadia. Ou como cantou ele em "Changes" um de seus clássicos..."mude e encare o estranho"

Segue abaixo uma de suas grandes metamorfoses: quando ele largou a Inglaterra e a fama de artista ligado ao  glam rock para se reinventar nos Estados Unidos como ...cantor de soul. No mais, obrigado, Bowie



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Livros para colorir? Não, obrigado.

Lendo o jornal dia desses, não pude deixar de me divertir com a charge de Bruno Drumond, publicada na Revista do Globo. Em um restaurante, o garçom recebe o pedido de um casal e aponta para o menino que está com eles. "Quer que eu traga um desenho para colorir?". Os pais escutam e, felicíssimos, respondem juntos à pergunta endereçada ao filho: "Queremos!!!".

O mercado editorial está comemorando ao atual boom dos livros para colorir...feitos para adultos. Para sobreviver num país que quase não lê, nossa indústria editorial lança mãos das mais inusitadas ferramentas. Já houve a onda dos livros de gastronomia, dos livros de auto-ajuda, dos livros ligados ao espiritismo etc. Mas, vamos combinar, livro pra colorir destinado a adultos é um pouco demais, não?Já há inclusive livros para colori mais específicos, procurando diversos públicos: mandalas pra colorir, árvores de natal pra colorir, gatos pra colorir, profissões pra colorir etc.

Sou a favor de quaisquer tipos de leitura, sem preconceito. Não sou adepto das listadas acima, mas entendo que pelo menos a leitura deles tornem a pessoa mais articulada e com chances de se ver livre do analfabetismo funcional. Agora, de novo...livros pra colorir?!



Não dá. Outro dia mesmo tive que me segurar na mesa do jantar entre amigo porque, quando fui criticar este tipo de leitura (?) duas professoras a defenderam. Só não parti pra cima delas porque ambas eram do curso de Design. Compreende-se.

Mas e as outras pessoas que compram muito felizes este tipo de literatura (?) e argumentam que funciona como uma forma de "terapia" ao cotidiano corrido e à realidade que nos cerca.

Desculpe, mas não me convencem.

Se a questão é o escapismo, há excelente literatura capaz de empreender as maiores viagens para um ser humano que se disponha a mergulhar no universo da ficção ou da não-ficção.  

Acho mesmo que ocorre uma infantilização do público leitor no Brasil, algo universal mas que num país iletrado toma grandes proporções. Não falo apenas da literatura. Confira a lista dos filmes mais vistos: salvo exceções, são todos produções norte-americanas relacionadas a super-heróis ou comédias rasteiras e vulgares abusando da escatologia. A grande maioria dos filmes voltados ao público adolescente, hoje o maior público-alvo da indústria. Creio que um grande filme de época como "O poderoso chefão", adulto e excelente, seria algo inviável para as novas plateias.

Uma vez me diverti com uma entrevista feita com um livreiro carioca, o qual argumentava que os livros de gastronomia eram mais comprados do que aqueles de grandes filósofos, que vendiam razoavelmente até os anos 1970: "Trocou-se a filosofia por um risoto", dizia ele.

No caso dos livros para colorir, trocou-se a inteligência pela preguiça.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Um filme, uma canção, uma cena (ou porque ainda vale a pena ir ao cinema)

Certos filmes valem a ida ao cinema apenas por uma cena. Ela tem de ser suficientemente forte para que não saia da mente do espectador após o fim dos créditos. Ela tem que ser de tal forma especial que o fará lembrar dela sempre, nas situações mais diversas. A trama do filme pode, ao longo dos anos, ir se perdendo na memória, como em grande parte dos filmes. Mas aquela cena não. Ela tem que possuir algo que mexerá de alguma forma com o público.

Numa palavra, ela tem que lhe arrebatar.

Foi o que senti recentemente, ao assistir o filme alemão "Phoenix", dirigido por Christian Petzold e estrelado por uma atriz em ascensão, Nina Hoss. A história é um drama de suspense sobre uma cantora de cabaré judia, Nelly, que durante um atentado, é desfigurada na face ao final da Segunda Guerra. Internada, ela recebe a ajuda de um cirurgião plástico que a ajuda a ter um novo rosto - mas não igual ao que ela tinha. Apenas parecido.


A troca de rosto da personagem é uma metáfora para sua nova identidade. Perdida numa Alemanha derrotada, num pós-guerra difícil e conflituoso, Nelly encontra abrigo na casa de uma amiga, que a acompanha antes e durante a operação e deseja que ela aceite ir para a Palestina (Israel ainda não havia sido criado). Contudo, Nelly só pensa em reencontrar o marido, Johnny, também músico, e vaga pelas ruas à noite, adentrando os cabarés em busca do homem que ama.



Numa das casas noturnas, apropriadamente chamada Phoenix (tal como na lenda do pássaro que ressuscita), ela finalmente encontrará o marido, mas ele não a reconhece. Johnny acha a mulher parecida com Nelly, mas para ele não há dúvidas de que a esposa está morta. Enquanto Nelly busca coragem para fazer com que o marido acredite ser ela de fato, Johnny arma um plano para que ela finja ser sua esposa, apenas para ganhar uma indenização do novo governo. 

Aos poucos, Nelly se vê morando com o marido e disposta a aceitar o plano de Johnny, apenas para estar perto dele. Alimenta a esperança, sem sucesso, de que o marido caia em si e a reconheça, mesmo com outro rosto. Pior, há indícios de que Johnny teve alguma culpa em relação ao atentado que a desfigurou. Mas Nelly resiste a esse pensamento. Quer voltar àquela antiga vida junto ao homem que acredita amar.

Pausa para falar de Weil e sua obra. Compositor judeu e alemão, ficou famoso por suas canções e pela sua parceria com o dramaturgo Bertold Brecht, como a "Ópera dos três vinténs". Com a ascensão do nazismo, emigra para os Estados Unidos, onde irá compor músicas que serão letradas agora em inglês, por parceiros americanos. "Speak low" é uma parceria com o letrista Ogden Nash, composta originalmente para o musical da Broadway "A touch of Venus".  

Com o tempo, o musical não passaria de uma nota de rodapé na história da Broadway, mas "Speak Low" se tornaria um clássico. Logo, aquela melodia sinuosa  elegante, com uma letra em que as palavras "low" e "love" caminham juntas, num crescendo de intimidade entre um casal ("Speak low, when you speak low, our moment is swift, like shifts adrift were swept apart") seria gravada por inúmeros cantores, como Billie Holiday, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, além de grandes do jazz instrumental. A primeira vez em que eu ouvi "Speak Low"foi na voz de uma brasileira, Marisa Monte, em 1989. Era a última faixa do primeiro disco de Marisa, meio obscurecida no LP após o megasucesso de "Bem que se quis", mas bonita o bastante pra não passar desapercebida. 

"Speak low", enfim, é uma música sobre amantes que sabem que dependem do tempo para amar. O tempo é tão velho, e o amor é tão leve; o amor é ouro puro, e o tempo é um ladrão, susurra a letra. Ao desistir de emigrar para a Palestina, Nelly encontra forças nesta canção, que a faz reincorporar sua porção cantora. E é também o clássico de Weil que iluminará o clímax do filme - a cena final.

O plano de Johnny, aparentemente, dá certo, mas o casal tem que fingir para amigos e parentes que Nelly realmente havia sido resgatada, e somente agora iria ao encontro de seu grande amor. Há a chegada na estação de trem, diante de amigos, onde o casal representa um reencontro, com poucas palavras. Há a ida à casa de um deles, onde, após um jantar, pedem para Nelly cantar, acompanhada ao piano por Johnny.

E então...Nelly escolhe cantar "Speak low".

Ela caminha lentamente para a frente do piano, onde Johnny já está sentado. Johnny toca os primeiros acordes. Nelly, nervosa, mas segura, inicia os versos iniciais da canção. Alguns dos presentes estranham a tensão presente entre os dois músicos. Súbito, através do canto de Nelly, Johnny para de tocar. Parece finalmente perceber não estar diante de uma impostora. Ele olha para a mulher e parece perceber tudo. Seria ela a Nelly verdadeira?

Não. A Nelly de antes da guerra não existe mais. Morreu, e tal qual a fênix, ressuscitou com um novo rosto e uma nova identidade. Finalmente a máscara impostora do marido cai, enquanto Nelly, lentamente, deixa a sala, o piano e as pessoas ali presentes. Sai para viver sua nova vida

Alguns dias antes de assistir ao filme, vi num programa de televisão um comentarista falar: "após a cena final de 'Phoenix', você nunca mais escutará determinada canção da mesma forma".

Ele estava certo. E lembre-se: quando escutar de novo aquela canção, speak low.












sexta-feira, 17 de julho de 2015

Bourbon Paraty Festival ou O diabo na carne de Miss Jones

Meio do ano chegando, comecei a receber informações sobre a FLIP, o maior e mais conhecido evento literário do Rio de Janeiro e um dos maiores do Brasil. Acabei não indo, depois de alguns anos comparecendo sempre, mas não fiquei chateado. Isso porque em recentemente outro evento me fez visitar a cidade: o Bourbon Paraty Festival, dedicado à música, em especial o blues, o soul e o jazz.

Na verdade, o que me fez viajar quatro horas de carro para Paraty numa sexta-feira de maio foi apenas uma atração em especial: a grande estrela da soul music, miss Sharon Jones.

O Bourbon costuma espalhar suas atrações por palcos e ruas da cidade, em especial seu belíssimo centro histórico. Há o palco da Matriz, o maior de todos e responsável pelas mais esperadas atrações. Ha também o palco Santa Rita, em frente à igreja de Santa Rita e que recebia as atrações da tarde. E, last but not least, as deliciosas atrações de rua, como a Orleans Street Jazz, de São Paulo, que costuma atrair sempre um grande número de pessoas com seu som inspirado no jazz tradicional de Nova Orleans. Bem, não tão tradicional assim: os músicos paulistas levantaram a galera mesmo com sucessos pop de Tim Maia e Jorge Ben Jor, adaptados ao som do jazz. Uma delícia de ouvir.

As atrações são várias e muitas no mesmo horário, o que faz o fã de música ter que se decidir ali mesmo, na mesma hora, qual estilo de som ouvir e presenciar. Perdi Leo Gandelman e Torcuato Mariano no sábado á tarde, mas conferi meu amigo Jefferson Gonçalves, um dos melhores gaitistas de blues do Brasil - e o One Man Band Vasco Faé, músico que toca sozinho, nas ruas, bumbo, gaita, guitarra e ainda canta! Muito bom.

As atrações do Palco Matriz estiveram dentro do esperado. O guitarrista Mike Stern mostrou não ter sido por acaso que acompanhou monstros como Miles Davis. Muito simpático, levantou a galera com clássicos de Jimi Hendrix e músicas de sua safra. Destaque para o saxofonista gordinho Skinny (magrinho, em inglês). ou seja, boa música, simpatia e ironia nas doses certas. A sexta encerrou com as charmosas cantoras do Cluster Sisters, meninas que já haviam chamado a atenção na primeira edição do programa Superstar, da Globo, ao cantar um jazz inspirado no swing das big bands dos anos 30 e 40 do século passado.  

Mas o melhor ainda estava por vir...e chegaria no sábado à noite, após uma chuva intensa em Paraty: a ex-carcereira e talvez a maior cantora de soul da atualidade, miss Sharon Jones.

Quem achou que a galera se dispersaria após a chuva intensa, se enganou. Parecia que todo o sul fluminense estava naquela noite em Paraty. Encontramos com meu irmão e esposa, que moram em Angra, e a todo momento um deles apontava um conhecido...de Angra, cidade que fica a 1h30 de Paraty. O Palco Matriz ficou pequeno para receber tanta gente. Para chegar ao local da plateia, tive que desdobrar esforços e escapar de diversos empurrões e cotoveladas. Nada que não fosse recompensado pelo calor que emanou do palco após a entrada de Sharon.



O show começa com as duas ótimas backing vocals da cantora esquentando a plateia. Elas cantam acompanhadas dos Dap-Kings, a banda de apoio de Sharon Jones, só com músicos excelentes de blues e soul. Após três números, entra Sharon, de vestido azul, colar e sandálias de salto, os cabelos ainda curtos após o tratamento de quimioterapia realizado em 2014, que a livrou de um câncer. Com apenas dois minutos no palco ela já mostra a todos - eu já sabia - que valera a pena ter ido à Paraty.

No palco, Sharon é uma força da natureza. Ela não apenas canta muito bem, mas também dança vários números ao ritmo dos Dap-Kings. Em certo momento, Sharon começa a cantar um número mais acelerado. O público se anima. Ela então tira as sandálias e, descalça, dança como se estivesse com o diabo no corpo. Delírio na plateia.  Por mais duas vezes ela repetiria o gesto, sempre levando todos nós, que espremidos porém felizes, sentíamos que aquele vulcão no palco aos poucos nos arrebatava.

Em certo momento, mas calmo, Sharon começa a apresentar um por um os excelentes músicos dos Dap Kings, com direito a um solinho de cada um em seu instrumento. O baixista, que já anunciara a entrada de Sharon no palco e espécie de líder dos músicos, faz um gesto crítico, "mas pra quê?". A cantora olha-o rapidamente, faz um gesto de "aqui mando eu" e continua a apresentar os músicos. Apenas o momento para logo depois nos arrebatar novamente com seus números.

"I learn the hard way" é o nome de um dos sucessos de Sharon, e poderia funcionar bem como "cartão de visitas" da cantora. Nada foi fácil para esta diva negra que trabalhou em presídios, atingiu o sucesso tardiamente, teve um câncer quando suas músicas ameaçavam estourar, venceu a doença e volta agora aos palcos esfuziante e cantando como nunca. Um dia antes de viajar para Paraty, Sharon fez show no palco do Vivo Rio, no Aterro do Flamengo. Ao final, convocou as mulheres da plateia para subirem no palco e dançarem um sucesso de outra grande cantora: Tina Turner. Não foram poucos que se embriagaram com a performance da cantora. Na edição daquela semana do Ronca Ronca, Maurício Valladares, celebrava a espantosa performance de palco da cantora.

Pra quem duvida, uma história contada pela própria cantora, no Jornal da Globo da semana anterior a sua vinda ao Brasil. Certa vez, quando trabalhava num presídio repleto de prisioneiros perigosos, um homem perguntou-a o que ela fazia ali, naquele antro de marginais. "Sou cantora", respondeu. Ele então pediu que Sharon cantasse. Ali mesmo, na frente de um grupo grande criminosos, Sharon entoou um velho sucesso de Whitney Houston, "I will always love you". Aparentemente, sua performance na cadeia agradou. Um mês depois, quando uma rebelião implodiu e guardas foram feitos de reféns, o mesmo homem que a perguntara porque estava ali, não deixou que nada acontecesse com ela.

Fez bem. Se Sharon já entusiasmara um grupo de criminosos cantando a capella dentro de uma cadeia, imagine o que ela não é capaz de fazer num palco, com um microfone e uma ótima banda por trás. Alguns dos maiores cantores da chamada soul music, como Ray Charles, Sam Cooke e Aretha Franklin, souberam dosar libidinosamente o cantar gospel aprendido em igrejas negras dos Estados Unidos com os apelos profanos dos amores arrebatados, que exalavam luxúria em letras de forte conotação sexual, Sharon Jones é uma cantora que consegue juntar os dois mundos. Quando canta uma canção de amor, lembra uma diva negra com uma aura impenetrável. Quando tira as sandálias e, com os pés descalços, começa a se retorcer e dançar compulsivamente, liberta os demônios que uma vida difícil lhe trouxeram  


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Essa música me lembra uma história: "Sinhá"

Dias atrás, num jantar entre amigos, alguém lembrou de uma grande música composta recentemente por Chico Buarque e João Bosco: Sinhá. Se não fosse a fragmentação causada pela internet e a consequente perda de força das rádios musicais, não tenho dúvidas de que que ela seria considerada aquilo que chamávamos anteriormente de "clássico instantâneo".

Sinhá é a última música do último disco de Chico Buarque, intitulado apenas "Chico".



A letra da música conta uma história passada no tempo dos engenhos, num Brasil marcado pela escravidão, este flagelo que nosso país pode se envergonhar de ter sido a última nação das Américas a abolir. Os versos de Chico poderiam poderiam muito bem estar numa passagem de Casa Grande e Senzala, o clássico livro de Gilberto Freire que nos fez deixar de ver a miscigenação como uma característica ruim do Brasil.

A música é uma conjunção muito bem feita entre o Chico Buarque ficcionista, autor de romances, e o músico, aqui em parceria com João Bosco, que faz o coro de "lamento" do negro preso e torturado, acusado de "olhar Sinhá" tomando banho. Atitude altamente punível, já que Sinhá era a mulher do dono da fazenda, o patriarca que mandava em todos.  

Mas nem tudo é o que parece. Ao longo da canção, temos o lamento do negro tentando argumentar que não fizera nada com Sinhá: Se a dona se despiu, Eu já andava além, Estava na moenda, Estava para Xerém. Frente à ameaça e a realidade de ter seu corpo talhado e os olhos perfurados por tão vil procedimento, o escravo chega a apelar para o deus cristão, rogando ao senhor que chora em iorubá, mas ora por Jesus. O senhor não se comove e ao escravo é tirada a luz: cegam-no.

Mas, uma ouvida mais atenta da canção suscita uma pergunta: será que o escravo realmente não fez nada com Sinhá?

Há dois anos, lecionei a disciplina Realidade Sócio-Política e Cultural Brasileira para alunos do curso de Publicidade e Propaganda da faculdade em que dou aulas. Certo dia, o tema da aula era justamente o livro de Gilberto Freire. Ao discorrer sobre o cotidiano das grandes fazendas brasileiras dos séculos XVII e XVIII, resolvi mostrar para a turma o vídeo postado aqui, com Chico Buarque e João Bosco interpretando "Sinhá". Mas a letra deveria vir junto. Então, após mostrar o vídeo à turma, discuti com a  turma a letra, falando que, na verdade, se prestarmos atenção, não fora o escravo que inadvertidamente "olhara" Sinhá. Mas sim ela, Sinhá, a mulher do todo-poderoso da fazenda, que ao olhar para o escravo ficara "excitadíssima".  Para abstrair-se da tentação, ela própria o denuncia. O escravo é pego e torturado até ficar cego.

Acabei a explicação e vi que muita gente estava embasbacada. Até que um garoto mais atrás comentou:

- Se a gente escreve essa palavra na sua prova [excitadíssima] você ia tirar pontos?

(Lembrei agora que, num país marcado pelo forte racismo como os Estados Unidos - em que até meados do século XX o casamento inter-racial era proibido - muitos negros foram perseguidos, presos e até linchados por brancos justamente pelo crime de "olharem" mulheres brancas. O fato inspirou o professor e poeta judeu Abel Meeropol a compor a canção Strange fruit, que se tornaria um dos principais clássicos do repertório de Billie Holyday. As "estranhas frutas" as quais se referia o poeta eram os corpos dos negros linchados, presos nos galhos de árvores na região sul daquele país).

Voltando à mesa com amigos. Uma amiga, psicóloga, sustentou que o escravo não só mexera com a libido de Sinhá, como eles teriam tido relações sexuais. Para expurgar seu "pecado", a própria sinhá o entrega ao dono do engenho...para ser torturado.

Um homem poderoso, o "feroz senhor do engenho", patriarca de uma sociedade machista e dono de tudo e de todos ali. Um homem que certamente não ia para cama apenas com Sinhá, mas com várias escravas, se considerarmos a descrição do cotidiano nas senzalas, segundo Freire. E que, possivelmente, a julgar pelos últimos versos da canção, teria torturado e cegado um de seus próprios filhos:

 E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá

Espertamente, Chico e João Bosco não deixam claro na canção se Sinhá e o escravo chegaram às vias de fato. Apenas insinuam, deixando o resto com a imaginação de quem a ouve. A tragédia exposta na trama é saber que, durante o tempo da escravidão, não só ter relações sexuais proibidas, mas simplesmente olhar o corpo de alguém em condições hierárquicas superiores, era algo punível com a tortura ou mesmo a morte.




quinta-feira, 14 de maio de 2015

Pare o mundo que eu quero descer!!!

Dia desses eu e minha namorada estávamos vendo o programa de Serginho Groisman, temático sobre a axé music. A certa hora minha namorada faz um comentário sintomático: "Você notou que não chamaram o Luiz Caldas? Aquela música "Fricote" fez um sucesso danado!" poderia estar aqui, né mesmo?" Concordei, Em seguida ela mesmo continuou: "Se bem que aquela música era bem racista, né? E cantarolou os versos iniciais que diziam..."Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear". Rimos juntos. Ah, a praga do politicamente correto...

Semana passada, eu lia a coluna Gente Boa, do jornal Globo (29/04), a qual trazia traz duas notas sobre um problema no Rio de Janeiro envolvendo a música Fricote: "Música de Luiz Caldas gera discussão em festa". Veja o texto:

A música “Fricote”, de Luiz Caldas (“Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear...”) provocou reação negativa em parte do público que estava numa festa, domingo, no Morro da Conceição. DJ convidado, Gustavo Calani foi abordado por pessoas que se sentiram ofendidas com a letra, considerada por elas racista e machista.
Gustavo não chegou a tocar a canção até o fim. “Interrompi para tentar conversar com o grupo, mas os ânimos estavam alterados”, contou. "Uma das meninas que veio falar comigo disse que eu não podia avaliar o que era racista ou não, por ser branco. Achei um ponto de vista forte e pertinente, mas não dava para ser debatido ali", completou.

Produtor de festas de black music, Julio Barroso considerou o episódio exagerado. “Eu, como negro, não me sinto nem um pouco ofendido. Se a música fosse do Bolsonaro, sim. Mas Luiz Caldas não é racista. É preciso analisar o contexto social em que essas obras foram feitas”, disse. “Nunca imaginei que o século 21 pudesse ser tão careta”.
Um dos organizadores da festa, o coletivo Quermesse pediu desculpas a quem se ofendeu com a música. “Desculpas, primeiro pela ofensa e, depois, pelo desgaste de terem que nos apontar o que já deveríamos saber”, escreveram na página do evento no Facebook.

Como este blog adora uma boa provocação, meu lado marginal se inclinaria a mandar essa turminha politicamente correta, que se alarma com uma simples música de carnaval baiano, plantar batatas (optei por uma ofensa bem leve, embora para alguns eu possa estar ofendendo o agricultor de batatas); enquanto meu lado conservador ficaria ao lado dos que reclamaram com tão importante questão numa festa de fim de semana. Ora, onde já se viu em 2015 uma música que faz chacota de pessoas negras e com cabelo duro, num país tão miscigenado como o Brasil?! Quem esse DJ pena que é?

Concordo com a frase do produtor de festas: nunca imaginei que o século 21 pudesse ser tão careta. O sucesso de Luiz Caldas nos anos 80 faz referência a outro sucesso, "Nega do cabelo duro" de , composto por David Nasser e Rubens Soares em 1942, um grande sucesso com o grupo Anjos do Inferno, que satirizava a moda feminina da época, de frisar os cabelos: "Quando tu entras na roda / O teu corpo serpenteia / Teu cabelo está na moda: / Qual é o pente que te penteia?"

A se ponderar o contexto de correção política de hoje, supõe-se que não só a música de Nasser e Soares seria rechaçado pelos patrulheiros de plantão como também o nome do grupo que a transformou num grande sucesso: Anjos do Inferno - onde já se viu? Ora, se até a cor vermelha do logo da novela "Babilônia", na Globo, teve de ser mudada para branca, sob pressão de grupos evangélicos, o que você acha que aconteceria hoje com grandes sucessos do rádio que tinham a liberdade de espinafrar o que fosse, e mesmo assim todo mundo cantava?

A continuar na patrulha do que é certo ou errado, não seria o caso de banir dos bailes de Carnaval o grande sucesso de Lamartine Babo e Irmãos Valença, "O teu cabelo não nega"? "O teu cabelo não nega/ mulata/ porque és mulata na cor/ mas como a cor não pega/ mulata quero o teu amor.” Até hoje, gerações de foliões continuam cantando a deliciosa marchinha.

Não seria também o caso de proibir a veiculação da engraçadíssima "Mulher indigesta", de Noel Rosa - "Ah, que mulher indigesta, merece um tijolo na testa!", por supostamente pregar a agressão contra as mulheres?



Ou de proibir os sambas de Martinho da Vila, já que ele compôs um samba intitulado "Você não passa de uma mulher", pra reclamar daquelas mulheres que estudavam e largavam a condição de meras donas de casa, Como pode isso, em pleno século 21?

O produtor tem razão: tudo está muito mais careta. Pare o mundo que eu quero descer!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Ainda não viu "O mensageiro"? Pois corra atrás (ainda mais se for estudante de jornalismo!)

Imagine que você é um jornalista de um pequeno jornal, íntegro, honesto e que acaba vislumbrando a chance de conseguir a reportagem de sua vida. Mas a história envolve o governo de seu  país, e é tão importante e sigilosa que pode acarretar grandes problemas para sua vida profissional e sua família. Você trava então o seguinte diálogo com uma fonte preciosa:

 - Vou apresentar você a pessoas com quem deveria conversar. E então, vai ter que encarar a decisão mais importante de sua vida.
- E qual é?
- Decidir se vai divulgar ou não.

O que você faria? O jornalista americano Gary Webb decidiu divulgar. Este passo lhe daria fama, mas , consequentemente, seria responsável por sua tragédia.

Esta história real virou filme estrelado por Jeremy Renner (o Gavião Arqueiro da franquia blockbuster "Os Vingadores", aqui tendo a chance de atuar de verdade), "O mensageiro". Depois de uma temporada nos cinemas brasileiros na qual não fez muito barulho nem obteve a repercussão merecida, o filme agora já está disponível em DVD, Blue Ray e em alguns canais de televisão pagos. É uma ótima chance para conferir a história real de um jornalista que ousou enfrentar a CIA e o governos dos Estados Unidos para realizar uma grande reportagem investigativa. E como este trabalho arruinaria sua vida para sempre.




O filme conta a história real de como o jornalista Gary Webb, repórter do pequeno San Jose Mercury News, da costa oeste dos Estados Unidos, ou seja, muito longe e aquém dos poderosos Washington Post ou New York Times, conseguiu descobrir um poderoso esquema de tráfico de drogas envolvendo agentes da CIA e grupos contrários ao governo da Nicarágua. O esquema funcionava da seguinte forma: grandes quantidades de cocaína eram transportadas por avião para os Estados Unidos sob  a vista grossa do governo americano, enquanto armas faziam o caminho contrário, visando abastecer o grupo dos Contras, que o governo dos EUA apoiava.

O jornalista, mesmo ameaçado por agentes do governo, resolve publicar a reportagem, naturalmente explosiva, não só ligando a CIA aos contras nicaraguenses mas relacionando esta entrada das drogas em solo americano com a complacência do governo à epidemia de crack entre a comunidade negra nos anos 1990. Com o nome de "Dark alliance", a série de reportagens veio a público em 1996.

O que veio a seguir foi uma das maiores campanhas de difamação contra um jornalista levadas a cabo nas últimas décadas. Agentes chegam a descobrir uma ex-amante do jornalista, com quem Webb tivera um caso anos antes e seria a responsável pela mudança da família para a costa oeste. O assunto era privado entre Webb e a esposa, e quando o filho mais velho toma conhecimento o outrora bem-estar familiar entra em crise.

Diferente do Brasil, nos Estados Unidos um órgão de imprensa que esteja pronto para veicular uma reportagem explosiva - e que envolva algum caso de segurança nacional - deve antes mostrar seu conteúdo para determinados órgãos governamentais, que farão tudo para impedir ou no mínimo amenizar o conteúdo dos fatos a serem divulgados. Webb é ameaçado. Seu jornal compra a briga e fura toda a grande mídia americana com a série de reportagens. A princípio, Webb é agraciado em casa e entre seus pares, mas a pressão governamental é tão grande que aos poucos seu jornal acaba cedendo às pressões. Webb é obrigado a se mudar para uma sucursal de seu jornal numa cidade menor, com assuntos menores e jornalistas em fim de carreira. Longe da família e dos assuntos mais "quentes", o repórter entra em crise.

Pra completar o cerco, o governo salienta que Web teria inventado tudo. A fonte misteriosa na Nicarágua, que teria tido o diálogo sobre publicar ou não a matéria, desaparece. Fontes preciosas começam a negar terem passado dados importantes ao repórter. Grandes jornais americanos, como o Los Angeles Times, ainda irritados por terem sido furados por um jornal de abrangência regional, sugerem ter Webb inventado alguns fatos. E aí se descobre o único grande erro do jornalista: não ter gravado todas as entrevistas com suas fontes.  

Na verdade, podemos analisar o filme como uma grande questão ética: até que ponto estaríamos dispostos a arriscar não só nossa vida profissional como também nossa própria família e amigos para ir em frente contra forças poderosas?

Webb escolheu ir em frente. Ao receber o prêmio de Jornalista do Ano, o jornalista faz um discurso muito mais de desagravo à profissão do que de agradecimento. Neste mesmo dia ele pediria a demissão do jornal em que publicara as reportagens:

Achei que meu trabalho era contar ao público a verdade. Os fatos, fossem ou não bonitos.E com a publicação, fazer a diferença no modo de as pessoas olharem as coisas, a si mesmas e o que elas defendem. 

Em 10 de dezembro de 2004, o jornalista foi encontrado morto na garagem de sua casa. O motivo da morte: suicídio.
















terça-feira, 14 de abril de 2015

Brasil: ame-o ou deixe-o (ou "O país do jeitinho")

Aconteceu na semana passada. Ou foi na retrasada? Na verdade situações como a que vou relatar acontecem, infelizmente, todos os dias no Brasil. E mostram um pouco desta realidade em que vivemos.

Tratava-se de um jogo de futebol. Norte do Brasil. Campeonato Amazonense. Nacional Borbense X Iranduba. No final da partida, o goleiro do Borbense é atingido e cai em campo, desacordado, O jogo é paralisado. Chamam a ambulância.

O motorista estava dormindo.

Acordam o homem. O corpo do jogador inerte é colocado no veículo. O motorista tenta dar a partida. A ambulância está enguiçada. Jogadores dos dois times mais comissões técnicas se mobilizam para dar um "tranco" no veículo.

A ambulância não pega. Nem no tranco.

A polícia é acionada. Confusão geral. Radialistas narram o incidente. Felizmente, a viatura policial está funcionando.

O jogador desacordado segue para o hospital no carro de polícia. Ou melhor, na caçamba do carro de polícia. Ele passa bem.

Situações como essa deveriam ser raras. Mas não é o caso em nosso país.  Na página do Google onde encontrei o link deste caso há outros similares.

Soube do caso ao ver a matéria no Globo Esporte. Fico imaginando o escândalo que seria se o problema tivesse acontecido numa partida de transmissão nacional. A imprensa faria vários artigos sobre a situação "revoltante" dos campeonatos e da falta de infraestrutura em estádios superfaturados para a Copa do Mundo. Políticos tentariam aparecer sugerindo novas leis para os campeonatos. Dirigentes de federações dariam entrevistas se dizendo "indignados" e que seriam tomadas providências incisivas para melhorar o atendimento em casos como o ocorrido.

Até que outro campeonato venha, outro clássico regional seja jogado e o episódio esquecido. Apenas para outro acontecer em outra localidade deste país continental e desigual.

Enquanto isso, os campeonatos não podem parar: afinal, o futebol é a paixão nacional! E em casos como esse, pode-se sempre dar um jeitinho, não é mesmo?  Nem que seja carregar um jogador passando mal na caçamba de uma viatura  policial...

Como diria um velho jornal alternativo nos anos 1970, em resposta a um bordão ufanista da ditadura, "Brasil, ame-o ou deixe-o":

- O último a sair apague a luz! 




quinta-feira, 19 de março de 2015

Samuel Fuller e o cinema: "Em uma palavra: emoção"

Difícil imaginar cena de abertura tão impactante. Uma mulher, num acesso de fúria, entra numa casa agredindo violentamente um homem com golpes desferidos por um sapato feminino. O homem está bêbado e suas tentativas de reagir são inúteis. A certa altura, ele puxa o cabelo da mulher e descobrimos que ela é totalmente careca. Ela não se inibe e continua golpeando o homem. Ao fundo, um som de jazz bem acelerado. O homem vai ao chão. A mulher, então, arranca dos bolsos dele uma quantia de dólares e diz ao homem que só vai levar o que ele a deve. Pouco depois, o homem está inerte no chão. A mulher prosta-se em frente a um espelho, recoloca a peruca e começa a se realinhar. Aos poucos, começam a surgir os créditos do filme. O título: "The naked kiss". Seu autor: Samuel Fuller.




No Brasil, "The naked kiss" ganhou o título "O beijo amargo". O filme é de 1964 e consta do lançamento "A arte de Samuel Fuller", uma caixa de quatro DVDs da Versátil, Além de "O beijo amargo", há também o cultuado "Paixões que alucinam" ("Shock corridor"), além dos menos conhecidos "O quimono escarlate" e "Casa de bambu". E um documentário sobre Fuller com depoimentos de gente como Tarantino e Martin Scorsese.

Fuller começou sua carreira como jornalista, bem cedo, aos 17 anos. Escreveu novelas pulp e mais tarde, lutou na Segunda Guerra Mundial pelo exército americano, conflito que o marcaria e que mais tarde seria mostrado em obras como "Agonia e Glória". Começou no cinema como roteirista, até estrear na direção em 1949, com "Eu matei Jesse James". Em 1982, realizou um dos maiores filmes sobre a questão do racismo, "Cão branco", a história de um cão que é adestrado pelo seu dono racista a odiar negros. O filme, apesar de ótimo, foi rechaçado pela própria produtora, Paramount, com medo de seu potencial polêmico, e lançado de maneira independente, arrecadando muito pouco. Este foi um dos motivos de Fuller sair dos EUA e terminar sua carreira na Europa, para onde se mudou nos anos 80.Seu último filme seria "Uma rua sem volta", em 1989. Fuller morreria em outubro de 1997, aos 85 anos.

Mas por que Fuller é hoje um cineasta cultuado por não só fãs de cinema mas diretores famosos? Talvez seja sua direção criativa e impactante, além da atração pela vida real, sem artifícios hollywoodianos para vender emoções baratas a uma plateia acostumada com o escapismo insosso de tantos filmes. Como em "O beijo amargo", que retrata a trajetória de uma ex-prostituta e stripper, que, para fugir do seu passado, viaja para uma cidadezinha onde ninguém a conhece.

O local é, à primeira vista, uma idílica e tranquila cidade repleta de indivíduos típicos das pequenas cidades americanas nos anos 1960. Afáveis, generosos, e dispostos a ajudá-la. O local perfeito, pensa Kelly, a ex-prostituta interpretada de forma magistral por Constance Towers.

Mas nem tudo ali é perfeito. Aos poucos, Kelly, que consegue emprego como enfermeira numa clínica de crianças com deficiência nas pernas, descobrirá que o futuro tranquilo que almejava não seria tão fácil de encontrar. As pessoas que pareciam tão bem dispostas a aceitá-la aos poucos começam a demonstrar a inveja, ciúme, insegurança e violência. A pequena cidade, enfim, revela-se como mais um microcosmo de uma sociedade irremediavelmente humana. Um filme, enfim, adulto como poucos hoje em dia.

Uma das frases mais famosas de Samuel Fuller foi quando ele buscou definir seu ofício:

"Um filme é um campo de batalha. É amor, ódio, ação, violência, morte. Em uma palavra: emoção"



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Lides imperdíveis: Charles Dickens e o homem guilhotinado

Um assunto recente foi motivo de controvérsia no Brasil: a execução de um brasileiro, por tráfico de drogas, na Indonésia. Marco Asher tinha 53 anos e fora preso em 2004, ao entrar entrar naquele país com 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos e uma asa delta. Após a droga ter sido descoberta pelo raio-X do aeroporto, o brasileiro ainda conseguiu fugir, mas acabou preso novamente 12 dias depois. No dia 18 de janeiro de 2015, Marcos foi executado pelo pelotão de fuzilamento.

De nada adiantaram os inúmeros pedidos de clemência do governo brasileiro. Após a execução, a presidente Dilma Rousseff se mostrou "consternada e indignada" com o episódio. Há poucos dias, a situação diplomática entre os dois países piorou bastante, após o governo brasileiro ter decidido adiar as credenciais do embaixador da Indonésia em Brasília - ato que representaria o começo das atividades do estado indonésio no Brasil, O governo indonésio considerou o ato uma hostilidade e mandou seu embaixador voltar. Para muitos analistas de política internacional, foi um péssimo ato da diplomacia brasileira, pois ainda há outro brasileiro no corredor da morte na Indonésia.

A execução de estrangeiros em determinados países que ainda possuem pena de morte é hoje um ato que, como no caso brasileiro, pode levar a incidentes diplomáticos entre os países envolvidos. Mas  houve tempo em que execuções de criminosos eram comuns e reuniam muita gente em praça pública para testemunhar o fato. Em  1845, Charles Dickens, que além de grande escritor também trabalhou por toda a sua vida - com intervalos mais ou menos esparsos - como jornalista, esteve na Itália, onde presenciou um homem ser guilhotinado. Este episódio marca a volta da série "lides imperdíveis", para a qual transcrevo o primeiro parágrafo da reportagem "Um homem é guilhotinado em Roma". Em apenas um parágrafo, Dickens reconstitui o crime bárbaro que motivaria a pena de morte, com um vigor de escrita que poderia facilmente ser tema de um conto ou romance:

"Numa manhã de sábado (8 de março), um homem foi decapitado aqui. Nove ou dez meses antes, ele assaltara na estrada uma condessa bávara que viajava como peregrina à Roma - sozinha e a pé, por certo - e fazia, diz-se, este ato de devoção pela quarta vez. O homem a viu trocar uma peça de outo em Viterbo, onde ela morava; seguiu-a; fez-lhe companhia na viagem por uns 64 quilômetros ou mais, sob o traiçoeiro pretexto de protegê-la; atacou-a, no cumprimento de seu implacável propósito, na Campagna, a muito pouca distância de Roma, perto do que se chama (mas não é) o Túmulo de Nero, roubou-a e espancou-a até a morte com o cajado da própria peregrina. Era recém-casado, e deu algumas das roupas da vítima à esposa, dizendo que comprara numa feira. Ela, porém, que vira a peregrina passando pela cidade, reconheceu algum detalhe como pertencente à condessa. O marido então disse-lhe o que havia feito. Ela, em confissão, contou a um padre; e o homem foi preso, quatro dias depois de ter cometido o assassinato." 







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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Quando seu ídolo aparece de surpresa...

Imagine a cena. É noite e você decide ir à Lapa, bairro boêmio do centro do Rio de Janeiro, para relaxar, tomar uma cerveja, encontrar os amigos e, quem sabe, ouvir um samba de qualidade. Você escolhe o bar, se acomoda numa boa mesa e logo depois a banda começa a tocar. Perto de você, há um senhor que lembra alguém conhecido - sua namorada comenta ser "a cara do Chico Buarque". Você ri e pensa, e se fosse mesmo ele? Quase ao final da primeira parte do show, o vocalista diz ao público que há uma presença ilustre na plateia e que, veja só, havia pedido para "cantar uma musiquinha". Você não acredita no que vê: Chico Buarque, em pessoa, levanta e canta três músicas, para delírio da plateia. Ao fundo, um gaiato grita: "Foi o couvert mais bem pago da minha vida!"




Soube da notícia lendo os posts do facebook. Na quarta-feira, o fato saiu publicado na coluna Gente Boa, do jornal O Globo. Sintomático: não é todo dia que vemos Chico Buarque em pessoa dando canjas na cidade. Inspirado pela leitura e pelo post anterior, sobre as escapadas de Cássia Eller para cantar de surpresa em lugares totalmente inusitados, comecei a imaginar os momentos de minha vida em que algum cantor apareceu de surpresa em outro show no qual estava presente apenas como público ou para prestigiar o colega no palco e, então...acabavam participando do show. 

Lembro que uma das lembranças mais antigas que tenho com relação a espetáculos musicais aconteceu quando eu ainda era adolescente, num do Caetano na Praça da Apoteose, aqui no Rio. Era o começo dos anos 1980, época de eleições para governador. O show era para lançar o disco "Totalmente demais", um grande sucesso nas rádios, puxado pela música título, de Arnaldo Brandão, e demais sucessos e versões cantados exclusivamente no formato voz e violão.

Sim, um show voz e violão em plena Apoteose, acostumada a receber os desfiles do Carnaval carioca. Mas realmente houve esse espetáculo, e o público compareceu em massa. Foi interessante quando, logo no começo do show, a um pedido do cantor, o público da pista - em pé - sentou no chão para ouvir e cantar junto os sucessos do compositor baiano e clássicos da música brasileira. A certa altura do espetáculo, Caetano elogiou a cantora argentina Mercedes Sosa, que estava na cidade para alguns shows que faria no Canecão, e disse, daquele jeito como quem não quer nada..."Ela está aqui". A plateia se alvoroçou. O cantor então continuou:

- Não só a Mercedes, mas Chico Buarque e Milton Nascimento também estão assistindo ao show,,,

Foi o bastante para o pequeno alvoroço virar um barulho infernal, com gritos de "Mercedes!", "Chico!", Milton!", enquanto Caetano ria do alto do palco. Foi então que ele olhou para os bastidores e, para surpresa de todos, entram Chico Buarque, Milton Nascimento e Mercedes Sosa. No palco, o quarteto cantou um dos maiores clássicos de Mercedes, "volver a los 17". Foi o momento mais aplaudido da noite.

Outro momento em que um ilustre convidado apareceu de repente foi num show de Gilberto Gil na praia de Copacabana. Era um fim de semana e eu havia ido ao show com um amigo. Lá pelas tantas, Gil diz que vai chamar um amigo ao palco para dar uma canja. Eis que surge no palco Sting, que também estava no Brasil para shows da Anistia Internacional em São Paulo e resolvera dar uma esticada no Rio. Naquela noite, para deleite da plateia, Sting cantou dois clássicos do Police: "Message in a bottle" e "Roxanne". Em plena praia de Copacabana, num sábado à noite.  

Por último, e o mais inusitado de todos, aconteceu numa noite doa anos 1990 na pequena localidade de Vilatur, cidade espremida entre Bacaxá e Araruama, na Região dos Lagos carioca. Quando estava casado, eu ia muito lá, pois meus ex-sogros tinham uma casa de veraneio lá. Não era uma cidade das mais concorridas. pra falar a verdade, mesmo muitos cariocas jamais ouviram falar em Vilatur - era daquelas localidades com apenas uma padaria, uma farmácia, três ou quatro bares para se distrair à noite e pouca coisa mais. Ah, e uma praia quase tão linda quanto perigosa.

Foi num fim de semana que descobrimos que haveria música ao vivo num dos bares da região. Como não era algo comum, fomos conferir. Sim, realmente havia naquela noite uma banda se apresentando. O repertório era quase todo de samba e pagodes. Sentamo-nos e pedi uma cerveja, satisfeito por ter, enfim, algo para se fazer naquele local. De repente, a banda começa a tocar um clássico conhecido pela voz de Elis Regina: "O bêbado e o equilibrista". Ao som dos primeiros acordes, um senhor de meia idade com cara de farmacêutico e cabelos grisalhos quase brancos, assume o microfone e começa a cantar o clássico, com uma voz rouca de cerveja mas razoavelmente afinado. 

Prestei mais atenção e quase não acreditei.Sim, era ele mesmo, Aldir Blanc, autor da letra da música composta em parceria com João Bosco. Ao contrário dos dois casos anteriores, ninguém da plateia de pinguços pareceu notar que ali, naquele quase fim de mundo, se apresentava o autor de um dos maiores clássicos da MPB. Quando acabou a música, aplausos protocolares, um ou outro mais exaltado, mas quase nenhuma diferença entre antes. Nem quando um dos rapazes da banda falou rapidamente, apontando para aquele senhor que acabara de cantar: "Vocês acabaram de ouvir Aldir Blanc, autor dessa música!". Muitos resolveram pedir mais uma cerveja e aguardar o próximo pagode. Enquanto eu me perguntava se o que acabara de ver tinha sido realidade ou não. Ao findar o show, tentei ver se Aldir continuava lá, mas ele já partira. Infelizmente, para a maioria dos presentes, ele era apenas mais um pinguço que, tal como Chico Buarque, pedira para "cantar uma musiquinha".



sábado, 7 de fevereiro de 2015

Som, fúria e...um pouco de ternura: Cássia Eller

Em janeiro de 2011, eu estava junto aos milhares de espectadores da terceira edição do Rock in Rio. Era o primeiro dia do festiva e quem abriria a noite era simplesmente Cássia Eller. O dia ainda estava claro quando Cássia adentrou o palco munida apenas de violão e começou  a cantar uma canção de Renato Russo, que dizia "sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher". Atrás dela, uma banda afiadíssima, com a participação do Nação Zumbi em algumas músicas. Mais atrás, escondido entre os instrumentos de percussão, estava o filho de Cássia, Chicão, com 6 anos e participando do show.
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Menos de 40 minutos depois de um show arrasador e com a plateia já ganha, Cássia começa a cantar suavemente a letra de "Smells like teen spirit". Logo depois, o chão literalmenbte tremeu com o poderoso refrão do rock de Kurt Cobain e a animação da plateia. Confesso que não me lembro de ver tanta gente pulando e gritando a letra de um rock tão furiosamente como naquele grand finale do show. Nos bastidores, o ex-baterista do Nirvana Dave Grohl,\participando do festival com sua banda Foo Fighters, ficara embasbacado com a interpretação. Foi um dos maiores shows da história do Rock in Rio e uma das maiores performances de uma cantora em qualquer momento dos festivais de música no Brasil

Tudo isso está contado no filme "Cássia Eller", de Paulo Henrique Fontenelle, o mesmo do ótimo "Loki" (2008), sobre o eterno mutante Arnaldo Batista. O mais interessante do filme é mostrar como um menina bastante tímida, insegura, com dificuldades em relacionar-se com pessoas de qualquer ramo (mal conseguia dar entrevistas) se transformava num furacão quando estava no palco. Em mais de uma cena do filme, Cássia surge dizendo que cantar foi a salvação que ela encontrou para ser aceita socialmente e poder ser observada com mais atenção. No caso dela, cantar surgia muito mais do que uma vontade imperiosa, mas uma necessidade arrasadora de sentir-se livre. Cantar para viver, em qualquer palco, em qualquer canto. Para ela, pouco importava estar nos palcos luxuosos das grandes casas de espetáculo do sudeste ou, disfarçadamente, surgir de surpresa com cantora de uma bandinha feita às pressas, no palco de um forró pé-de-serra na cidade serrana de São Pedro da Serra, no Rio de Janeiro, para surpresa e deslumbre da plateia.

"Cássia Eller", o filme, conta a história desta grande cantora com rigor e bastante emoção, como nos momentos finais, ao mostrar a luta de sua companheira Maria Eugênia, pela guarda judicial de Chicão. Mas o que fica mesmo é a marca daquela que cantou de tudo enquanto esteve viva. Cássia faz muita falta no cenário de música brasileira atual, que parece ter encaretado desde então. Não perca.