sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Marina de La Riva e o desafio do segundo disco
Marina es de La Riva, de Cuba y del Brasil
“No te quiero si no por que ter quiero//Y de quererte a no quererte llego//Y de esperarte cuando no te espero//Llega my corazón Del frio al fuego//Y em esta estoria solo yo me muero//Y moriré de amor por que te quiero//Y me quiero amor, a sangre y fuego” Soneto LXVI (Pablo Neruda e Luiz Felipe Gama)
Certa vez, Tom Jobim afirmou que a melhor música popular do século XX tinha sua origem no entrecruzamento das músicas de três países: Estados Unidos, Cuba e Brasil. Para Jobim, a qualidade da música popular destes países teria em comum o fato de ter sido criada em seus primórdios por negros – nos EUA, daria origem ao blues e ao jazz; em Cuba, à salsa e o bolero; no Brasil, ao samba. Ou seja, a África e seus descendentes de escravos seriam um referencial comum. Música, ao contrário do que pensavam os puristas do século XIX (quando esta era privilégio das elites, e dificilmente saía dos salões da realeza), é mistura. Com a entrada em cena do rádio, a música popular demorou, mas aos poucos foi galgando seu sucesso junto ao público. Gêneros de sucesso internacional surgidos em meados do século XX, como o rock n’ roll, o bolero e a bossa nova (apenas para ficarmos nos três países citados) foram criados também na mistura entre a canção pop negra e a musicalidade livre de compositores brancos sem preconceito. Este preâmbulo é apenas para abrir caminho a uma cantora que literalmente tem sua origem na mistura (em sentido amplo): ela é filha de pai cubano e mãe brasileira. Falo de Marina de La Riva, que está lançando “Idilio”, o aguardado sucessor do primeiro disco, de 2007.
Como diria um narrador em castellano, yo me recuerdo. A primeira vez que vi e ouvi Marina de La Riva foi em Paraty, em 2007, durante a festa literária FLIP. Havia um bar na Praça da Matriz especializado em músicas latinas e naquele dia haveria uma festa fechada. Mesmo barrados no baile, aquele primeiro contato com a cantora renderia uma pérola. Da praça, ao ouvir o ritmo suingado que vinha lá de dentro e a voz da bela cantora, alguém logo a achou parecida com a atriz Penélope Cruz. “Ué, mas a Penélope Cruz virou cantora?”. Logo saberíamos que a cantante era na verdade brasileira, e acabava de lançar seu primeiro disco, entremeado de canções em português e espanhol. O tempo passou, Marina seguiu em frente cantando e fazendo shows, embora jamais tenha virado uma cantora popular de fato. Era como se os fãs de música d’além Paraty estivessem também “barrados” às interpretações de Marina. Seu estilo sofisticado, longe daquele predestinado às FMs, sem emanar cantoras como Marisa Monte e afins, parecia confiná-la a um nicho conhecido apenas por uma nata de aficionados em música. Segura de si, ela foi em frente. Lançou um álbum ao vivo (“Ao vivo em São Paulo”), e participou na TV do programa Som Brasil, da Globo, em homenagem a Lulu Santos, convidada pelo próprio - quando deu um molho de salsa bastante caliente ao sucesso pop “Condição”. Marina seguiu na estrada, realizando seus shows e reunindo ideias para um novo trabalho.
Em 2012, a cantora finalmente lançou seu aguardado segundo álbum de estúdio. “Idílio”quer dizer romance em espanhol, e é um álbum mais denso e bem produzido que o anterior. Se um diferencial do disco de estreia era justamente a confluência entre canções cubanas e brasileiras, o que a afastava de saída do ecletismo reinante das novas cantoras brasileiras (situação que pode render tanto pérolas como equívocos), em “Idílio”, ela amplia o leque e vai mais além na mistura de ritmos, trazendo para sua obra ritmos ligados a Porto Rico, Argentina e Espanha. Ao falar de densidade, releia o poema de Pablo Neruda no alto deste texto. Ela está presente na faixa “Voy a tatuarme”, de Amaury Gutierrez, onde a letra derramada vira uma animada rumba, e que rendeu um belo videoclipe gravado em Buenos Aires.
Se em uma das melhores faixas do primeiro disco – “Ojos malignos - Marina pegou um bolero e transformou num samba, com a participação de Chico Buarque cantando com ela em espanhol, a fórmula continua em “idílio”, com a inusitada e bastante divertida versão de “Estúpido cupido”, que vira um animado mambo (!). (Isso mesmo, o clássico pop de Paul Anka, que na versão de Celly Campelo é aposta certa em qualquer festinha de casamento ou baile de debutante). O resultado é irresistível e chega ao disco no meio de uma ótima sequência cantada em português: a singela e um tanto sacana “Juracy” (de Antonio de Almeida e Cyro de Souza), aquela do “pode ser ou tá difícil, Juracy”?) e a deliciosa “Deixa que amanheça”, de Oswaldo Santiago quando o amante suplica à amada para ficar com ele até o amanhecer, somente para pedir marotamente, após a noite de amor, para ela permanecer, e “deixar que anoiteça”: “Espera um pouco//Deixa que amanheça//Aqui em meus braços//Recosta a cabeça//A noite é tão fria//A treva é espessa//Ouve o que eu te peço//Deixa que amanheça”. Segue o amante: “Se amanhã, estiver chuvoso o dia//Por favor, fique em minha companhia//E de nós dois, o tempo esqueça//Espera um pouco, deixa que anoiteça”. Aliás, uma das direções musicais seguidas por Marina é dar nova vida a clássicos populares das décadas de 1950 e 1960, fazendo com que os ouvintes mais velhos deem um sorriso e digam, “essa é do meu tempo”.
Marina começa o disco de forma um tanto melancólica, com a luxuosa participação do trombonista Raul de Souza, em “Añorado encuentro” de Piloto Bea e Vera Morua (Raul também participa das faixas “Dile por que mi tea”, de T. Smith e “Muñeca” de Eddie Palmieri). A faixa tem belos versos que se entregam ao ouvinte, como “Hoy, rompo las cadenas del silencio//Logro decirte, que te quiero//Que tu eres todo ló que anheio” “Idilio” tem um conceito por trás, que é uma seleção de canções de amores perdidos, refeitos, súplicas, tristezas e retornos. Em “Ausência”, de Vinícius de Moraes e Maria Medalha, Marina declara num arranjo quase acústico: “Eu tinha feito da saudade a minha amiga mais constante”. O disco segue com tristíssima “Assum Preto”, de Luis Gonzaga e Humberto Teixeira – se no primeiro álbum a cantora inseriu partes de canções mais animadas de Gonzaga, como o “Xote das meninas” e “Adeus Maria Fulê”, aqui temos a trágica história do pássaro que tem seus olhos furados para poder cantar melhor (“Mas Assum Preto, cego dos óio//Num vendo a luz, canta de dor”), apenas para comparar-se a ele no final da canção: “Também roubaram o meu amor que era a luz dos olhos meus”. A tristeza ganha tons mais atenuados na canção seguinte, “Canción de las simples cosas”, de Armanda Tejada Gomes e César Isella, dona de belos versos como “Por eso, muchacho, no partas ahora, soñando el regreso//Que el amor es simple y las cosas simples las depura el tiempo”.
Há um tom intimista que perpassa estas primeiras canções, como em “Como duele perderte”, gravada em ritmo de samba apenas com voz, violão e tamborim. Logo depois temos uma quebrada de ritmo em “Y”, em que Marina canta acompanhada apenas do violão de Daniel Oliva. É um dos únicos momentos do disco que não decolam, algo logo quebrado pela contagiante e já citada “Juracy”. O disco mantém a qualidade na faixa 10, “Dile que por mi no tema”, num arranjo jazzístico do pianista Pepe Cisneros, em que dá vontade de estalar os dedos junto à canção. O trombone de Raul de Souza volta a se fazer notar em “Muñeca”, em que a cantora faz confidências amorosas a uma...boneca. Aqui o destaque é a percussão, que faz a música começar lentinha, num quase bolero, para depois transformar-se numa bela salsa, enquanto Marina canta: “Ay mi muñeca, perdoname”. O clima “cubano” do álbum soa mais forte nestas últimas canções. “Idílio” é uma bela salsa que conta com a bateria de Pupilo, o sax de Thiago França e até palminhas da cantora e Ricardo Valverde. Marina canta novamente as dores de amores, enquanto o refrão diz “Soñando, contigo, querendo que se cumpla nuestro idílio”. As duas últimas canções continuam a falar de romances, arrebatada como em “Voy a tatuarme tu nombre” (“Voy a tatuarme tu nombre, em cada parte del cuerpo//Para que nadie te robe//Para que nadie te borre”) ou mais contida, como em "Voy a guardar mi lamento", cantada em português e espanhol (“Tudo acabado//Fiquei tão triste//Mas não me queixo//Ninguém vai me ver chorando//Eu vou guardar o meu lamento para quando estiver sozinha//Voy a guardar mi lamento para cuando yo esté sola”.
Após a audição deste belo álbum, uma reflexão se faz necessária. Seria Marina de La Riva capaz de angariar sucesso para além do público fiel e selecionado que já possui? Ou continuará, como naquela festinha fechada em Paraty, um privilégio para poucos, fãs de música mais sofisticada? Sabemos que a música cantada em espanhol não tem a mesma popularidade do pop internacional tocado na maioria das rádios, em sua grande maioria em inglês. Nos anos 1950 tivemos uma onda de música latina especialmente ligadas a salões de dança de salão, onde o bolero atingiu grande sucesso (pergunte a seus pais quais as músicas que eles dançavam nos bailes quando namoravam - há grandes chances de haver um bolero no meio). Boleros e outras canções derramadas, de amores perdidos e apaixonados, foram sufocados mais tarde com as canções ensolaradas da bossa nova e a alegria dos rocks da Jovem Guarda. Desde então, o sucesso de músicos “cantantes” na língua espanhola no Brasil foi cada vez mais esporádico, situação que vem mudando com a globalização e uma maior abertura a grupos pop argentinos, mexicanos e espanhóis. Marina de La Riva é a prova de que a música pop hoje não tem fronteiras, e o pop anglo-americano hoje tem que conviver com colegas latino-americanos e europeus. Com “Idílio”, ela demonstra algo também raro no pop atual: personalidade.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Minha carne é de carnaval...meu coração é igual
Uma pena que eu só fui conhecer o disco com mais de 30 anos de idade. Eu devia ter uns 20 e poucos anos e quase todo o sábado frequentava uma casa noturna perto de casa, em Bonsucesso, chamada Miro's. Havia ali uma banda que tocava sucessos do rock e pop brasileiros, e em especial um número no qual a galera sempre cantava junto: "Preta pretinha", um dos muitos sucessos daquele disco. Um dia, no centro da cidade, finalmente comprei o CD do grupo, com uma capa diferente daquela que ficou famosa - com o que parece ser o final de uma refeição, com a mesa ainda por arrumar, daquele grupo que optou por viver, no melhor estilo hippie da época (1972), em comunidade, num sítio em Vargem Grande, Rio de Janeiro. Na capa do "Acabou chorare" que tenho aqui em casa, está a turma toda dos Novos Baianos, junto com filhos e agregados, uma típica foto "família" - a qual eles realmente eram - de quem viveu todo aquele desbunde setentista.
"Acabou chorare" é hoje e sempre um dos meus "discos de cabeceira", um dos raros procutos artísticos que pego pra ouvir não só no sofá de casa, no carro, em viagens, como também pra anular qualquer baixo astral. Que o digam Marisa Monte, Lucas Santtana, China, Wado e outros talentos que em matéria especial do Segundo Caderno, do Globo, reverenciaram os 40 anos do lançamento do clássico álbum, aquele que pela primeira vez na música brasileira uniu a guitarra de Jimi Hendrix (ave, Pepeu!) ao samba de João Gilberto.
Rock n' Roll, Samba e Carnaval. Para sempre novos. Novos Baianos.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Quem deveria ganhar o "oscar canino"?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Da série lides imperdíveis - o perfil de Maria Prestes
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Ilha Grande - beleza em estado puro*

Tudo isso mudou recentemente, quando pela primeira vez pisei de verdade na maior das ilhas do litoral de Angra dos Reis. De repente, me dei conta de que deveria mudar radicalmente meu conceito. Estava fazendo um lanche numa creperia, à noite, e, afora eu e Ana, todos, ou quase todas as outras pessoas presentes, incluindo as garçonetes, eram estrangeiras. Sinal dos tempos: do antigo presídio, só restam as ruínas e pouca gente se aventura a ir até lá. Hoje, a Ilha Grande é um belíssimo território a céu aberto, movimentado pela pesca e pelo turismo em grande escala, que atrai estrangeiros do mundo inteiro.
Naquela creperia, que me fez sentir com a estranha sensação de estrangeiro dentro de meu próprio país, eram evidentes e em profusão os sotaques em espanhol e italiano. Intrigada, Ana perguntou à dona da pousada em que estávamos como era o movimento no inverno. "Bastante cheio e com muitos turistas", respondeu, para nosso espanto. E quem vem?, perguntei. "Há de tudo. Há a temporada dos italianos, dos espanhóis, dos israelenses, dos ingleses. A Ilha recebe turistas o ano inteiro", ela disse, enquanto acarinhava o belo e dorminhoco cão de guarda da pousada, Cabrón - sim, até o cachorro tinha nome gringo...
Para chegar à Ilha, há três alternativas: de barca, de saveiro ou catamarã. Pegamos a barca das 15h30 na correria, em Angra, após quase tê-la perdido - a pontualidade é uma qualidade dos serviços. Chegamos em torno das 17h à Vila do Abraão, sob um céu claro mas ainda com nuvens. Mal sabíamos que logo as nuvens se dissipariam e teríamos pela frente quatro dias de sol, sob uma temperatura deliciosa de verão carioca.
Deixamos as malas na pousada e fomos caminhar. A Vila do Abraão - de longe a área mais populosa da Ilha Grande, e que concentra a maioria dos hotéis, pousadas e campings - à primeira vista, parece uma vila de pescadores tomada por turistas do mundo inteiro. Era 20 de janeiro. Entramos na bela igrejinha bem no centro da Vila, no meio da praça, e, para minha surpresa, estavam comemorando o dia de São Sebastião, com bandinha e missa montada num palanque do lado de fora. São Sebastião, além de padroeiro do Rio, também o é da Ilha Grande. Coincidência ou não, também moro perto de uma igreja de São Sebastião, no Rio, e a profusão de pessoas vestindo vermelho, a cor do santo, me lembrou das procissões no meu bairro das quais tantas vezes vi passar.
Neste dia ainda estive na Praia Preta e passeando por trilhas, quando fomos até às ruínas do aqueduto. A Ilha Grande é próspera em trilhas e recebe gente de todos os cantos dispostos a passar o dia caminhando e admirando a beleza natural da região. Caminhe pela Ilha e verás que vale a pena: uma hora, você se depara com uma ruína histórica, de alguma edificação dos tempos do Império; em outra, dá de cara com uma bela cachoeira, quando a tentação de largar tudo e entrar n'água é grande.
No entanto, mal sabia eu que o melhor estava por vir. E este melhor atendia por um nome: Lopes Mendes. A praia paradisíaca, já eleita uma das mais belas do Brasil, tem seu acesso de barco, mas apenas até certa parte, pois qualquer embarcação está proibida de atracar por lá. Depois, continuamos numa trilha de cerca de 20 minutos a pé, quando me deparei com uma praia belíssima, de águas cristalinas e visual de tirar o fôlego. Havíamos chegado. Mergulhei e nadei para longe da areia. Ao virar-me, deparei com a Mata Atlântica em todo o seu esplendor, sem nenhum sinal de carros, casas, avenidas, prédios ou viadutos. Não dava pra acreditar: era como se eu estivesse na ilha do seriado "Lost". Apenas a natureza plena, o que me fez sentir como se estivesse num local onde a civilização ainda não se atrevera a pôr os pés e a natureza reinasse absoluta.
No dia seguinte, decidimos por um passeio de barco. Estivemos na Lagoa verde, Lagoa Azul, Praia dos Macacos e Praia da Feiticeira. Lugares belíssimos, onde o grande barato é o mergulho com snorkel, onde dá pra se sentir no fundo do mar, nadando entre peixes coloridos e admirando o fundo, com toda aquela misteriosa profusão de pedras, conchas, vegetação e seus mistérios... Passamos o dia passeando de barco e mergulhando nas águas ora mornas, ora frias daquele litoral sem igual, com paradas para comer peixe na brasa, que era feito dentro do barco...Enfim, foram momentos em que tudo deu certo.
Passei quatro dias plenos na Ilha Grande. O resto da viagem foi de caminhadas, crepes, pizzas de tomate seco, cerveja, sucos naturais, sorvetes, cafés, passeios pelo pier, lojinhas, praia do abraãozinho (com novos sotaques estrangeiros) e uma sensação de que o paraíso não deve ser tão longe.
Do antigo presídio, a única lembrança que vi por lá eu encontrei em duas fotos dentro de uma lojinha de lembranças na Vila do Abraão. Num belo álbum com imagens deslumbrantes da Ilha, havia ali uma foto antes e outra depois da implosão do local. Fotos que destoavam das outras, em sua grande maioria marcadas pela beleza.
Um dia antes de irmos embora, ao pararmos para uma cerveja num bar montado nas areias da praia do Abraãozinho, puxamos papo com nossa simpática garçonete. Não, ela não era estrangeira. Era de Petrópólis, contou. Em uma das idas à ilha, encontrara um francês, pelo qual se apaixonara e agora estava casada com ele. "Na alta temporada do verão, nem saio daqui. Depois, em abril, eu e meu marido vamos pra Europa, onde passamos nova temporada, até voltarmos novamente para a Ilha". Sobre empregos, a oferta é grande e atualmente um dos poucos problemas para turistas que se encantam pelo local e querem, digamos, prolongar todo aquele prazer de estar ali, é a falta de casas para alugar ou comprar. "Quem consegue, fica", ela dizia.
Sinceramente, não encontrei razões para discordar.
* Artigo inspirado no livro de viagens culturais de Ruy Castro e Heloisa Seixas, "Terramarear"
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
O bebê rasgando papel na propaganda do Itaú
O resultado: um viral ingênuo e inocente de um adorável garotinho na internet transformou-se em uma propaganda de banco que prega a "sustentabilidade". Tudo bem, afinal a regra hoje é pegar carona no discurso em prol do meio ambiente, mas não podemos esquecer que o interesse comercial, no caso, é bem maior. Pois ao pedir para os clientes que cancelem o recebimento de extratos pelos correios, o Itaú economizará uma grana milionária, como bem observou o blog do JJ, que, à respeito do anúncio, faz uma singela perguntinha: "ninguém fala em reduzir custos dos bancos para os clientes, fala?"
Vejamos o vídeo original...
E, abaixo, o vídeo do Itaú:
Voltando às videocassetadas. É sabido que a produção do Domingão do Faustão e de congêneres que passam estes vídeos feitos pelo público pagam um valor determinado aos responsáveis pelo envio dos vídeos. Também há casos (muitos, desconfio)de pais e mães que planejam determinada "vídeocassetada" para ser mostrada na TV e conseguir uma grana, sem o menor constragimento. Sim, people, não existe almoço grátis. Minha pergunta: será que a agência que criou o comercial do Itaú entrou em contato com a família do garotinho para pedir autorização, no intuito de transformar digitalmente a saudável brincadeira entre pai e filho em anúncio de banco?
Tomara que sim. Pois o que pode parecer excesso de zelo de minha parte ou de outros também pode ser já uma leitura influenciada pela iminência da votação da SOPA. Pra quem não sabe, a sigla (Stop Online Piracy Act) é uma lei controversa proposta pelo governo dos Estados Unidos que propõe regular os direitos autorais na grande rede. Até aí tudo bem. Mas também propõe que qualquer provedor, site de busca ou rede social seja responsabilizado pelo conteúdo publicado pelos usuários caso este seja protegidos por direitos autorais. Ou seja, punir com a lei quando o usuário de uma rede social ou de um blog publica um vídeo musical ou trecho de um filme sem autorização, de uma forma "pirata". É aí que tudo se complica. Pois, o que é conteúdo "pirata" para alguns, pode ser difusão do conhecimento para outros.
O assunto é muito sério e voltaremos a ele em outros posts. Por hora, só gostaria de fazer uma perguntinha ao Itaú: e então, vocês pagaram os devidos direitos de imagem à família do adorável garotinho rasgador de papel?
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Afasta de mim esse celular! Como assistir ao show de Chico Buarque em meio a um mar de gadgets não-convidados
A primeira vez em que notei que os telefones celulares tinham se tornado parte do ambiente em espetáculos foi em meados de 2003 ou 2004, em um show do Los Hermanos, naquela casa da Barra da Tijuca antes conhecida como Metropolitan. O show estava lotado e eu chegara tarde, ficando num lugar bem longe do palco. Em determinada canção, centenas de luzes começaram a piscar da plateia. Mostrei à minha companheira o fenômeno, mas ela se recusou a acreditar. "São isqueiros", disse. Não eram. Prestei mais atenção e então constatei: até os anos 1990, isqueiros se acendiam em determinados momentos de shows, em grande parte quando o artista ou a banda tocavam músicas românticas. Agora, no século XXI, havia poucos fumantes na plateia, e a tecnologia mudara o quadro. Vários jovens munidos de celulares que também tiravam fotos (última moda então) levantavam os aparelhos para tentar fotografar os artistas. Vistos de longe, a impressão que nos dava era a de que de fato havia um mar de isqueiros à frente.
Encarei aquilo como um sinal dos tempos. Não chegou a perturbar a fruição do show. Ontem, isqueiros; hoje, celulares. Ok.
No entanto, semana passada, no show do Chico Buarque, o que pra mim era apenas uma curiosidade virou um tormento. Se por uma lado os celulares transformaram-se em mídias poderosas, verdadeiros computadores móveis para facilitar nossa vida, por outro fez surgir um tipo singular de indivíduo incapaz de concentrar-se num bom show de música se não estiver "interagindo" com seus seguidores em alguma rede social qualquer, postando fotos no facebook ou digitando no twitter para que todos saibam onde ele está.
Prestem muita atenção neste verbo: interagir. Antigamente a única interação que havia num show de música era entre o artista e a plateia. Hoje, há cada vez mais indivíduos que não conseguem assistir a um show, ver um jogo de futebol, ou mesmo jantar num restaurante sem a ânsia patética de "registrar o momento" e "compartilhar" com seus seguidores nas redes sociais. Verdadeiros exibicionistas high-tech, para estes indivíduos o termo privacidade é algo que também ficou preso em algum momento do século passado.
No show do Chico, dei o azar de sentar bem próximo a um destes neuróticos digitais. O sujeito ficou, pelo menos até o meio do show, tirando fotos do palco com seu smartphone último tipo. Não satisfeito, o camarada ainda escrevia alguma bobagem sobre o que registrara e ficava alguns momentos para decidir qual rede social e para quem mandar o que captara. Bem à minha frente. Que situação...
Sim, hoje a mera foto não é suficiente. Não sou um radical e confesso que eu mesmo já tirei fotos com o aparelho celular em um ou outro show. Mas nada a ponto do que dá pra se ver hoje, quando a necessidade de registrar o momento é tão (ou mais) importante do que assistir ao show. Tem que ter o "recadinho" do neurótico para seus seguidores, para que eles sintam como ele é antenado e consegue compartilhar (de novo!, argh) seus momentos com todos. Tenho quase certeza de que o sujeito à minha frente não deve ter a mínima ideia de quais músicas foram tocadas enquanto ele se comprazia em compartilhar (desculpem, é a última vez que escrevo esta palavra) seus momentos.
Sobre o show. Apesar de tudo, do mar de gadgets à frente, foi um bom show, apesar do som não tão bom como deveria, já que várias canções são intimistas e requerem silêncio e ótima acústica. Há várias músicas, como no disco, dedicadas à namorada, a tqmbém cantora Thaís Gullin, e como é bom ver Chico de bem com a vida e com sua ótima banda ao vivo! Entre os ótimos momentos, destaco o novo arranjo para "Geni e o Zepelin", da Ópera do Malandro, o bloco "feminino", de canções como "Ana de Amsterdan", "Terezinha" e "Sob medida" (que fez muitas mulheres na plateia perderem a linha...), a parceria no palco com o baterista e crooner Wilson das Neves em "Sou eu" e "Tereza da praia". O bloco nordestino, com "Baioque" e "A violeira" também foi ótimo, além do final, com a já clássica "Sinhá" (de Chico com João Bosco, uma das melhores canções de 2011) e a delícia de poder cantar junto, no bis, a poesia de "Futuros amantes" e "Na carreira".
Claro que não faltou o momento surpresa, que é quando Chico resgata "Cálice", sua clássica canção com Gilberto Gil, com a nova versão feita pelo artista revelação de 2011, Criolo, a quem Chico saúda com um "evoé, jovem artista!". Trata-se de uma belo momento do velho artista consagrado saudando as novas gerações.
Chico homenageia Criolo em seu show. Este momento não foi captado por celular
Enfim, um belo momento de um show, como todos de Chico, emocionante, apesar da invasão dos smartphones exibicionistas. E confesso que, na saída, não pude deixar de, assim como Criolo, fazer minha própria nova versão para "Cálice": Pai, afasta de mim esse celular!