sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Cinco canções de amor (e críticas) ao Rio de Janeiro
Neste sábado, 1º de março, começo oficial do Carnaval, é também aniversário de 449 da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade onde eu nasci e me criei. Inspirado no post sobre SP e o show "São Paulo amor e ódio", volto ao tema, desta vez com cinco canções inspiradas na cidade do Rio de Janeiro. Não só cariocas mas artistas de todo o Brasil e de fora deixaram para a posteridade músicas lindas sobre o Rio, e foram estas, de forma bem pessoal, que descrevi abaixo. Fica como homenagem deste blogueiro carioca a esta cidade que - mesmo com todo o caos no trânsito, toda incivilidade reinante e problemas diversos - ainda é, de fato, maravilhosa
1) "Valsa de uma cidade" - Antonio Maria e Ismael Neto - Coube a um pernabucano (Maria) escrever os versos de uma das mais bonitas canções para o Rio de Janeiro. Regravada inúmeras vezes (até pela Hebe!), eu a conheci na versão de Caetano Veloso em seu disco de 1987. E desde então eu não me canso de ouvi-la.
2) "Saudades da Guanabara" - Moacir Luz, Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro. De 1960 até 1975 o Rio também podia ser identificado como Guanabara. Era uma unidade da federação separada do Estado do Rio de Janeiro, em virtude da transferência da capital para Brasília. O trio fez a música - um belíssimo samba-enredo - inspirado por um sentimento nostálgico, de que durante a época da Guanabara o Rio teria passado por suas maiores e melhores transformações. O que era nostalgia tornou-se um hino de quem luta pela grandeza de sua cidade. Qual carioca não se arrepia ao ouvir os versos "Brasil, tira as as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar"")
3) "Cidade Lagoa" - Sebastião Fonseca e Cícero Nunes. "Essa cidade que ainda é maravilhosa, tão cantada em verso e prosa desde o tempo da vovó. Tem um problema vitalício e renitente, qualquer chuva causa causa enchente, não precisa ser toró". Taí uma canção que parece ter sido composta ontem mesmo, pra quem mora no Rio e conhece o cotidiano anual de chuvas fortes na época do verão. Trata-se de um samba de breque composto em 1959 e que foi um sucesso na gravação de Moreira da Silva. Traduz a ironia e o bom humor que o carioca precisa ter para lidar com coisas bastante sérias: enchentes, descaso das autoridades, mortes anunciadas. Nos últimos anos, teve duas regravações, de Jards Macalé e Monica Salmaso.
4) "Rio 40 graus" - Fausto Fawcet., Carlos Laufer e Fernanda Abreu. Lançada por Fernanda Abreu em 1992, no álbum "SLA 2 - Be Sample", a música contagiante do trio é um rap apocalíptico sobre o Rio, no qual o amor e ódio, a beleza e a feiúra, o "purgatório da beleza e do caos" de que fala a letra estão sempre juntos nessa cidade de contrastes e delimitada por áreas prestes a explodir. Zuenir Ventura já tinha cantado a bola em seu livro "Cidade partida". Com decisão, Fernanda canta "O Rio é uma cidade de cidades misturadas". Talvez, quando estas cidades misturadas se derem conta de que são uma unidade imensa e contrastante, talvez seja tarde demais para salvá-la. Mas encontraremos um jeito.
5) "Cadê a viga?" - Cássio e Rita Tucunduva. Não poderia encerrar esta pequena lista com uma marchinha. Poderia ser a manjadíssima "Cidade maravilhosa", mas essa fala por si só e aqui é considerada hors concours. Há várias marchinhas que falam do Rio (só pra lembrar de um exemplo é só repetir a clássica "Rio, cidade quen me seduz, de dia falta água, de noite falta luz") Essas composições, muitas ingênuas e lembradas apenas na época do Carnaval, tamb ém serviram para denunciar mazelas das grandes cidades. Como na campeã deste ano do concurso de marchinhas da Fundição progresso, "Cadê a Viga": os versos "Senhor prefeito, não é intriga, aonde foi que enfiaram aquela viga? " diz respeito ao sumiço das vigas da área da Perimetral, no Centro do Rio, quando mais de uma tonelada de vigas sumiram da noite para o dia, num roubo até hoje não solucionado. Taí, enquanto não choramos nossa miséria, cantamos as músicas que falam do Rio.
E para todos que pararam por aqui, um ótimo Carnaval!!!
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Estação Botafogo - minha escola de cinema
Leio no Globo desta semana que o cinema Estação Botafogo - assim como todo o grupo Estação, formado por 16 cinemas - encontra-se em crise financeira, e corre o risco de ir à falência. Não é a primeira vez que o grupo é levado a uma crise, e torço bastante para que eles encontrem uma saída. Caso isso não aconteça, seria um golpe fatal em toda uma geração de cinéfilos cariocas (dentre os quais me incluo) que aprenderam a curtir cinema de qualidade naqueles cinemas. Tanto que até uma página foi criada no Facebook (veja aqui). Muita gente aproveitou o espaço para inserir ali suas lembranças sobre o cinema. Eu, que frequento o espaço desde os anos 1980, quando havia apenas o "Cineclube" Estação Botafogo, não poderia deixar de comentar minha trajetória como frequentador do local. Até poque foi ali que passei alguns dos momentos mais marcantes de minha bagagem cultural.
A primeira vez em que estive no cinema Estação Botafogo foi para ver o filme "Blade Runner: caçador de andróides", numa noite perdida de 1987. Lembro que estava com dois amigos, e o então "cineclube" começava a receber notas da imprensa sobre sua programação alternativa. Não era um ambiente de cinema "normal". A fauna ali era visivelmente diferente de quem frequentava cinemas de rua (ainda frequentes, mas já em decadência com a corrida aos videocassetes) ou os de shoppings. Antes do filme, chegamos a comentar que alguns dos indivíduos presentes na sala de espera bem podiam ser um dos replicantes do filme de Ridley Scott. Eram apenas apaixonados pela sétima arte.
Sim, porque há aqueles frequentadores cada vez mais ocasionais de cinema - como a maioria, já que hoje em dia, com o encarecimento dos ingressos, ir ao cinema deixou de ser um hábito semanal, como era na minha infância e adolescência -, e os cinéfilos ou apaixonados não só pelo filme em si, mas por todo o contexto da obra e do ritual cinematográficos. Para essa gente, não basta ver um filme e depois comer uma pizza. Há que se discutir o roteiro, a direção, os atores, a linguagem utilizada, além do prazer compartilhado de conferir um filme nos jornais, arrumar-se, sair de casa, pagar ingresso e aguardar o começo do filme na enorme tela em frente, tela essa que nenhuma tela de TV, por mais ultramodernas que estejam, ainda não conseguiu igualar. Para toda essa gente, o Estação Botafogo era simplesmente o cinema.
O cinema é um companheiro dos solitários, os românticos e daqueles perdidos de amor. Muitos casais deram seu primeiro beijo dentro de um cinema, e o Estação não foi exceção. Outros, fugiram para o cinema para, na falta de algum companheiro para chorar suas mágoas, acompanhar na tela toda aquela ilusão roteirizada e tentar por uma ou duas horas escapar da tristeza de uma amor não correspondido. Foi o meu caso numa tarde de sábado quando, após ter levado um "não" da garota que eu me apaixonara num cursinho de pré-vestibular, acorri ao Estação para ver "A encruzilhada", um filme sobre um músico talentoso de blues (o então famoso "karatê kid" Ralph Macchio), que vai atrás de uma canção perdida do lendário Robert Johnson. Uma frase dita por um dos personagens marcou aquela ida ao cinema: "Blues é a dor que sentimos quando a mulher que amamos vai embora". Pelo menos eu não era o único a sofrer uma desilusão amorosa naquele dia. Meu colega do outro lado da tela também estava triste.
Foi no Estação que vi pela primeira vez "Cidadão Kane", num curso ministrado pelo cineasta e jornalista Pedro Camargo, e que abriu minha cabeça. Eu estava fazendo 18 anos naquele dia, e foi realmente especial para mim. Mais tarde vieram os grandes clássicos, como "Jules e Jim", de Trufaut, "Um corpo que cai", do Hitchcock, "Noites de Cabíria", do Fellini, "Lolita", do Kubrick e vários outros, sem contar com os cult-movies, como "Depois de horas" (Scorcese), "Dublê de corpo" (Brian de Palma), "O fundo do coração" de Coppola ou "Coração Selvagem" de David Lynch. Foi no Estação que conheci a maioria destes grandes diretores, com filmes difíceis de encontrar fora dali. Em que outro cinema, por exemplo, eu poderia ter aceso a filmes de Luís Buñuel? Jamais esquecerei do impacto de filmes como "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" numa semana dedicada ao cineasta espanhol. Aliás, esse era um grande barato do Estação: promover mostras dedicadas a um cineasta ou movimento cinematográfico, homenageando diretores, atores etc.Onde mais eu teria acesso a uma pérola como "O homem do Sputnik" (Carlos Manga) numa mostra dedicada às chanchadas? Ou conferir o clássico "Rio 40 graus" no chão, com a sala completamente lotada e a presença do diretor Nelson Pereira dos Santos.
Todos estes momentos eu vi num único cinema - o Estação Botafogo - bem antes de tornar o Grupo Estação. E é por todos estes momentos especiais que ajudaram a todos nós, que frequentamos aquela sala, amantes do cinema e pessoas mais informadas, que o Estação não pode acabar. Mais que um grande empreendimento comercial, ele é parte da cultura cinematográfica carioca, que ajudou a centenas de pessoas a descobrir que, para além daquele cinema hegemônico americano, havia um enorme contingente de filmes, diretores, atores e atrizes a serem descobertos. Vou encerrar com um clichê, mas não consigo encontrar forma melhor: esse filme não pode acabar de forma triste.
A primeira vez em que estive no cinema Estação Botafogo foi para ver o filme "Blade Runner: caçador de andróides", numa noite perdida de 1987. Lembro que estava com dois amigos, e o então "cineclube" começava a receber notas da imprensa sobre sua programação alternativa. Não era um ambiente de cinema "normal". A fauna ali era visivelmente diferente de quem frequentava cinemas de rua (ainda frequentes, mas já em decadência com a corrida aos videocassetes) ou os de shoppings. Antes do filme, chegamos a comentar que alguns dos indivíduos presentes na sala de espera bem podiam ser um dos replicantes do filme de Ridley Scott. Eram apenas apaixonados pela sétima arte.
Sim, porque há aqueles frequentadores cada vez mais ocasionais de cinema - como a maioria, já que hoje em dia, com o encarecimento dos ingressos, ir ao cinema deixou de ser um hábito semanal, como era na minha infância e adolescência -, e os cinéfilos ou apaixonados não só pelo filme em si, mas por todo o contexto da obra e do ritual cinematográficos. Para essa gente, não basta ver um filme e depois comer uma pizza. Há que se discutir o roteiro, a direção, os atores, a linguagem utilizada, além do prazer compartilhado de conferir um filme nos jornais, arrumar-se, sair de casa, pagar ingresso e aguardar o começo do filme na enorme tela em frente, tela essa que nenhuma tela de TV, por mais ultramodernas que estejam, ainda não conseguiu igualar. Para toda essa gente, o Estação Botafogo era simplesmente o cinema.
O cinema é um companheiro dos solitários, os românticos e daqueles perdidos de amor. Muitos casais deram seu primeiro beijo dentro de um cinema, e o Estação não foi exceção. Outros, fugiram para o cinema para, na falta de algum companheiro para chorar suas mágoas, acompanhar na tela toda aquela ilusão roteirizada e tentar por uma ou duas horas escapar da tristeza de uma amor não correspondido. Foi o meu caso numa tarde de sábado quando, após ter levado um "não" da garota que eu me apaixonara num cursinho de pré-vestibular, acorri ao Estação para ver "A encruzilhada", um filme sobre um músico talentoso de blues (o então famoso "karatê kid" Ralph Macchio), que vai atrás de uma canção perdida do lendário Robert Johnson. Uma frase dita por um dos personagens marcou aquela ida ao cinema: "Blues é a dor que sentimos quando a mulher que amamos vai embora". Pelo menos eu não era o único a sofrer uma desilusão amorosa naquele dia. Meu colega do outro lado da tela também estava triste.
Foi no Estação que vi pela primeira vez "Cidadão Kane", num curso ministrado pelo cineasta e jornalista Pedro Camargo, e que abriu minha cabeça. Eu estava fazendo 18 anos naquele dia, e foi realmente especial para mim. Mais tarde vieram os grandes clássicos, como "Jules e Jim", de Trufaut, "Um corpo que cai", do Hitchcock, "Noites de Cabíria", do Fellini, "Lolita", do Kubrick e vários outros, sem contar com os cult-movies, como "Depois de horas" (Scorcese), "Dublê de corpo" (Brian de Palma), "O fundo do coração" de Coppola ou "Coração Selvagem" de David Lynch. Foi no Estação que conheci a maioria destes grandes diretores, com filmes difíceis de encontrar fora dali. Em que outro cinema, por exemplo, eu poderia ter aceso a filmes de Luís Buñuel? Jamais esquecerei do impacto de filmes como "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" numa semana dedicada ao cineasta espanhol. Aliás, esse era um grande barato do Estação: promover mostras dedicadas a um cineasta ou movimento cinematográfico, homenageando diretores, atores etc.Onde mais eu teria acesso a uma pérola como "O homem do Sputnik" (Carlos Manga) numa mostra dedicada às chanchadas? Ou conferir o clássico "Rio 40 graus" no chão, com a sala completamente lotada e a presença do diretor Nelson Pereira dos Santos.
Todos estes momentos eu vi num único cinema - o Estação Botafogo - bem antes de tornar o Grupo Estação. E é por todos estes momentos especiais que ajudaram a todos nós, que frequentamos aquela sala, amantes do cinema e pessoas mais informadas, que o Estação não pode acabar. Mais que um grande empreendimento comercial, ele é parte da cultura cinematográfica carioca, que ajudou a centenas de pessoas a descobrir que, para além daquele cinema hegemônico americano, havia um enorme contingente de filmes, diretores, atores e atrizes a serem descobertos. Vou encerrar com um clichê, mas não consigo encontrar forma melhor: esse filme não pode acabar de forma triste.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Tragédias marcadas pelo fogo: um ano da boate Kiss, cinco décadas do circo em Niterói
Cinquenta e dois anos separam duas das maiores
tragédias envolvendo incêndios na história brasileira. Em dezembro de 1961, às
vésperas do Natal, mais de 500 pessoas (o número exato nunca foi demarcado), em
sua maioria jovens e crianças, morreram enquanto assistiam à matinê do Gran
Circo Norte-Americano, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Em janeiro de
2013, centenas de jovens - em grande parte universitários que arrecadavam fundos
para suas festas de formatura - encontraram a morte após um dos músicos da
banda que se apresentava no interior da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio
Grande do Sul, lançar inadvertidamente um foguete (de artifício) no teto do
palco do local.
Falta de prevenção contra acidentes, descaso
das autoridades, ganância dos proprietários, ambientes com pouca segurança.
Todas estas características - presentes em ambas as tragédias - mostram que a
realidade brasileira pouco ou nada mudou em cinco décadas. O Brasil
infelizmente acostumou-se a acompanhar suas tragédias anunciadas pelos meios de
comunicação, sem que a situação melhore para os principais envolvidos: as
vítimas expostas ao fogo.
No entanto, no que concerne à cobertura dos
veículos de comunicação, podemos afirmar categoricamente que esta se
transformou bastante. Se, no primeiro caso, uma cidade traumatizada pelo
incêndio no circo acompanhou o fato pelo rádio, jornais e uma incipiente
televisão (na época, a TV contava apenas onze anos no Brasil, era ainda um
veículo caro e para poucos), em 2013, na tragédia da boate em Santa Maria o
Brasil inteiro acompanhou a cobertura jornalística por meio de diversas mídias
- muitas delas nem haviam surgido em 1961, como os portais jornalísticos e as
redes sociais da internet.
O texto acima é o começo do artigo "Tragédia em dois tempos", escrito em parceria por mim e o aluno Renan Henrique de Oliveira, da faculdade de Comunicação do UniFOA, em Volta Redonda, onde dou aulas. Inscrevi o artigo no Intercom Manaus, no ano passado. Ele foi não só aceito, como suscitou um bom debate em sua apresentação e mais tarde ensejou um convite para virar capítulo de um livro cujo conteúdo seria apenas relacionado à tragédia do incêndio na boate Kiss, que está fazendo um ano neste começo de 2014. O resultado, com textos de autores de todo o Brasil, acaba de sair em e-book, sob o título "Midiatização da tragédia em Santa Maria", organizado pela professora e pesquisadora Ada Cristina Machado da Silveira, do Grupo de Pesquisa da FACOS "Comunicação, identidade e fronteiras".
A proposta do artigo foi analisar a evolução dos
meios de comunicação entre 1961 e 2013 a partir da comparação da cobertura
midiática destas duas tragédias separadas pelo tempo. Ou seja, ressaltar as transformações que a cobertura jornalística
sofreu nestes 52 anos - o que mudou na rotina
e no perfil do jornalista desde então, como se deu a modernização da imprensa
neste período, como foi a adaptação do profissional e dos meios às novas mídias
eletrônicas e digitalizadas. Sem esquecer quais teriam sido os aspectos
similares e diferentes da cobertura entre as duas grandes tragédias.
Quem estiver interessado em ler não só o artigo mas o e-book, deixo o link para baixá-lo:
http://comunicacaoeidentidades.files.wordpress.com/2014/01/midiatizacao_da_tragedia_de_santa_maria_facos-ufsm-1-atualizado.pdf
Boa leitura!
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
No dia em que eu conheci...
No dia em que eu conheci o antropólogo Roberto da Matta, eu trabalhava na Rádio MEC Rio como bolsista do programa "E por falar em ciência", um projeto de minha professora de Jornalismo Científico na UFF à época, Érica Franziska. Soube que ele daria uma palestra no antigo campus do Valonguinho e rumei para lá com uma fita cassete estalando de nova, para pedir a entrevista e depois editá-la para a rádio. Ao fim da palestra, tentei me aproximar de da Matta, mas, pela quantidade de gente que o cercava, vi logo que a entrevista, naquele momento, seria impossível. Quando consegui chegar perto, me apresentar e pedir a entrevista, ele disse que o melhor seria que eu ligasse no dia seguinte, quando falaria comigo. Voltei pra casa e, às 8 horas da manhã, eu estava na rádio MEC, em uma sala com gravadores, telefones e outros equipamentos, pronto para efetuar a ligação. O autor de "Carnaval, malandros e heróis" atendeu um tanto quanto irritado e com voz de sono, mas acabou respondendo às questões e conversando comigo por uns bons 15 minutos. Já tenho material, pensei. Me despedi, fui correndo para a sala de edição. Meia hora depois, eu é quem estava contrariado. O gravador que eu utilizara não funcionou bem e a sonora ficou inviável de ir ao ar. Resultado: a entrevista com Roberto da Matta foi descartada.
Essa história aconteceu em meados de 1994, quando eu ainda era estudante de jornalismo. Foi inspirada na série de colunas do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, no jornal O Globo, em que ele conta histórias, causos em sua maioria divertidos sobre pessoas famosas que ele conheceu. O presente post é também uma forma de saudá-lo pela volta ao colunismo impresso, depois de estar desde maio de 2013 afastado do jornal. Na época em que eu pesquisava colunas de notas da mídia impressa para minha tese de doutorado, li muito sua coluna "Gente Boa", uma coluna social modernizada. Basta dizer que houve uma época - entre os anos 40 e 50 do século passado - em que o colunista Jacinto de Thormes (pseudônimo de Maneco Muller) chamava seus colunáveis de "gente bem", uma jocosa denominação para "bem nascidos", ou aqueles pertencentes à classe mais alta da elite brasileira. Pessoas "comuns" estavam fora deste mundo e das colunas sociais. Joaquim trocou a terminação para "Gente Boa", com a clara proposta de abraçar não só os ricos e famosos, mas também todos os anônimos que pudessem um dia virar notícia...toda aquela gente boa antes excluída do colunismo.
Agora em 2014, no começo do ano, ele voltou ao Globo, não mais como titular da "Gente Boa", hoje entregue aos cuidados de Cléo Guimarães, mas com uma coluna na última página do Segundo Caderno de volta às segundas-feiras. E eu não poderia de aproveitar este espaço para saudá-lo. Joaquim é um artesão da linguagem e um mestre na arte escrever crônicas. Basta ver este exemplo, que bem poderia estar na série de postagens "lides imperdíveis":
Sexo. São quatro letras que pingam, e espero que elas deixem molhadinha a audiência, chamem a atenção e, como não se fala de outra coisa, grudem na curiosidade de quem passar por aqui. O cacófato "por aqui" por exemplo, já cheira a sexo e, por sua sonoridade lamentável desde já me desculpo. De resto, é uma palavra que doravante será tratada sem culpa, ao estalo do chicote semântico. Eia! Avante! Tudo pelo aumento do pageview e todos os tesões da visibilidade digital. Não se diz mais "me come". A frase mais sussurada é "me compartilha".
(O Globo, janeiro de 2014)
Pois voltemos agora a uma pequena aula de jornalismo dentro da série de histórias de Joaquim envolvendo famosos. Escolhi este exemplo porque há dois grandes jornalistas envolvidos nesta história; um, literalmente, o outro, como homenagem. O primeiro, o craque Elio Gaspari, que dará uma orientação genial ao jovem repórter durante a época da ditadura. O segundo, o americano Gay Talese, que escreveu uma peculiar definição de jornalismo, bem antes que os computadores e seus buscadores virtuais relegassem grande parte dos repórteres apenas aos ambientes assépticos das redações:
No dia em que conheci o coronel Péricles Augusto Machado Neves, todo poderoso presidente do BNH na ditadura Garrastazu Médici, ele na verdade não estava em casa. Péricles presidia a caderneta de poupança, e tinha dado entrevistas dizendo que o brasileiro não sabia poupar, jogava muita coisa boa fora - e o editor Elio Gaspari me encarregou de pegar, em pleno regime militar, a lata de lixo do coronel. Eu me fiz de funcionário da Comlurb. Bati na porta dos fundos do apartamento e o filho do homem, sem estranhar, me mandou carregar o tesouro, a lata de lixo repleta de porções de arroz ainda boas, papelão que poderia ser reciclado, garrafas que podiam ser vendidas etc. A relação de desperdícios deu página inteira na revista em que eu trabalhava - e eu só estou escrevendo isso para lembrar, em plena civilização das assessorias e das entrevistas por e-mail, do tempo em que repórteres gastavam sola de sapato e contavam a História do Brasil fuçando a lata de lixo dos poderosos.
(O Globo, maio de 2013)
Em tempo: a frase memorável de Gay Talese é: "Jornalismo é a arte de sujar os sapatos". Ou, indo mais longe, sem esquecer de fuçar a lata de lixo dos poderosos.
Essa história aconteceu em meados de 1994, quando eu ainda era estudante de jornalismo. Foi inspirada na série de colunas do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, no jornal O Globo, em que ele conta histórias, causos em sua maioria divertidos sobre pessoas famosas que ele conheceu. O presente post é também uma forma de saudá-lo pela volta ao colunismo impresso, depois de estar desde maio de 2013 afastado do jornal. Na época em que eu pesquisava colunas de notas da mídia impressa para minha tese de doutorado, li muito sua coluna "Gente Boa", uma coluna social modernizada. Basta dizer que houve uma época - entre os anos 40 e 50 do século passado - em que o colunista Jacinto de Thormes (pseudônimo de Maneco Muller) chamava seus colunáveis de "gente bem", uma jocosa denominação para "bem nascidos", ou aqueles pertencentes à classe mais alta da elite brasileira. Pessoas "comuns" estavam fora deste mundo e das colunas sociais. Joaquim trocou a terminação para "Gente Boa", com a clara proposta de abraçar não só os ricos e famosos, mas também todos os anônimos que pudessem um dia virar notícia...toda aquela gente boa antes excluída do colunismo.
Agora em 2014, no começo do ano, ele voltou ao Globo, não mais como titular da "Gente Boa", hoje entregue aos cuidados de Cléo Guimarães, mas com uma coluna na última página do Segundo Caderno de volta às segundas-feiras. E eu não poderia de aproveitar este espaço para saudá-lo. Joaquim é um artesão da linguagem e um mestre na arte escrever crônicas. Basta ver este exemplo, que bem poderia estar na série de postagens "lides imperdíveis":
Sexo. São quatro letras que pingam, e espero que elas deixem molhadinha a audiência, chamem a atenção e, como não se fala de outra coisa, grudem na curiosidade de quem passar por aqui. O cacófato "por aqui" por exemplo, já cheira a sexo e, por sua sonoridade lamentável desde já me desculpo. De resto, é uma palavra que doravante será tratada sem culpa, ao estalo do chicote semântico. Eia! Avante! Tudo pelo aumento do pageview e todos os tesões da visibilidade digital. Não se diz mais "me come". A frase mais sussurada é "me compartilha".
(O Globo, janeiro de 2014)
Pois voltemos agora a uma pequena aula de jornalismo dentro da série de histórias de Joaquim envolvendo famosos. Escolhi este exemplo porque há dois grandes jornalistas envolvidos nesta história; um, literalmente, o outro, como homenagem. O primeiro, o craque Elio Gaspari, que dará uma orientação genial ao jovem repórter durante a época da ditadura. O segundo, o americano Gay Talese, que escreveu uma peculiar definição de jornalismo, bem antes que os computadores e seus buscadores virtuais relegassem grande parte dos repórteres apenas aos ambientes assépticos das redações:
No dia em que conheci o coronel Péricles Augusto Machado Neves, todo poderoso presidente do BNH na ditadura Garrastazu Médici, ele na verdade não estava em casa. Péricles presidia a caderneta de poupança, e tinha dado entrevistas dizendo que o brasileiro não sabia poupar, jogava muita coisa boa fora - e o editor Elio Gaspari me encarregou de pegar, em pleno regime militar, a lata de lixo do coronel. Eu me fiz de funcionário da Comlurb. Bati na porta dos fundos do apartamento e o filho do homem, sem estranhar, me mandou carregar o tesouro, a lata de lixo repleta de porções de arroz ainda boas, papelão que poderia ser reciclado, garrafas que podiam ser vendidas etc. A relação de desperdícios deu página inteira na revista em que eu trabalhava - e eu só estou escrevendo isso para lembrar, em plena civilização das assessorias e das entrevistas por e-mail, do tempo em que repórteres gastavam sola de sapato e contavam a História do Brasil fuçando a lata de lixo dos poderosos.
(O Globo, maio de 2013)
Em tempo: a frase memorável de Gay Talese é: "Jornalismo é a arte de sujar os sapatos". Ou, indo mais longe, sem esquecer de fuçar a lata de lixo dos poderosos.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Existe amor em SP - Parte 2
Eu me mudei para a Estação da Luz
Porque estava tudo escuro dentro do meu coração
("Augusta, Angélica e Consolação", Tom Zé)
Atravesso a Avenida Paulista e alguém lembra de uma piada
recorrente dos paulistas sobre sua tão querida e imponente avenida principal: a
Avenida Paulista é como o casamento: começa no paraíso e acaba na consolação. Desta forma, usando como exemplo as estações de metrô, muitos deles
orientam aqueles de fora, como eu, sobre como não se perder na imensidão da
avenida...e da cidade.
Uma ótima reportagem da Revista São Paulo, da Folha, dava conta
das “impressões forasteiras” que muitos estrangeiros têm sobre São Paulo. Intitulada
“Um estanho mundo em SP”, trazia declarações como “Os brasileiros adoram tomar
banho” (de um irlandês); “Cumprimentamos o outro colocando as mãos juntas em
forma de flor-de-lótus. Nada de beijinhos” (mulher tailandesa); “Comer de
maneira saudável é coisa de rico por aqui”(francês); “Esse tal de palitinho
após as refeições...” (chinês); “No Brasil, a mulher participa de reuniões da
família. Na África, ela tem de ser só bonita e calada (camaronesa). Longe de
fechar-se num bairrismo atrasado, reportagens como essa nos fazem refletir
sobre nós mesmos...às vezes o olhar de fora observa coisas que pra gente são
naturais, enquanto para outros causa espanto.
No último texto, falei que minhas lembranças da capital paulista
eram raras e...noturnas. Pois foi com espanto e admiração que percorri vários
quarteirões da Avenida Paulista numa quinta-feira, novamente à noite. Eram
vários arranha-céus convivendo com prédios residenciais, casarões do princípio
do século transformados em centros empresariais ou agências bancárias, enormes
antenas dos meios de comunicação, cafeterias chiques, pobres, ricos, perdidos,
engravatados triunfantes após um dia tenso na bolsa, desesperados confessando
seus lamentos de amor nos bares...enfim, uma fauna urbana urgente e única. “Em
São Paulo, você pode sair à noite em qualquer dia e achar o que fazer”, dizia
um estrangeiro na reportagem da Folha. Ele tem razão.
Há algum tempo, meu irmão esteve em SP visitando um amigo paulista
que fizera junto com ele faculdade, na UFF. O primeiro lugar que visitaram foi
uma feira para comer pastéis. Perguntei espantado: pastel na feira?! Segundo
nosso amigo paulistano, quem vai a SP não pode deixar de comer pastéis. Na feira, havia
fila para o pastel, de boys a engravatados, todos aguardando sua vez
de comprar um chops e dois pastel –
outro amigo meu que trabalhou oito anos na capital paulista ficara intrigado
com a mania paulista de quase não usar o plural nos substantivos, algo que ia
do menos alfabetizado ao mais instruído. Peculiaridades paulistas. O fato é que
a baixa gastronomia faz sucesso em São Paulo. Onde mais você poderia comer um
sanduíche de mortadela – um petisco considerado “pobre” por muita gente - tão
maravilhoso como no Mercado Municipal da cidade? Creio que só em São Paulo. Eu
provei não só os pastéis na Avenida Paulista como o sanduíche do mercado e digo
que valem muito a pena.
Em meu segundo dia em São Paulo, conferi o Museu do Futebol, que
fica no embaixo das arquibancadas do Estádio do Pacaembu. Moderno e interativo,
com até a brincadeira de uma bola para quem quiser chutar a gol e testar a
potência do chute, o local consegue atrair a atenção até de velhinhas pouco
interessadas no esporte, que saem de lá fascinadas com o misto de diversão,
história e cultura proporcionada pelo museu. Um destaque, para mim, foi o
espaço “Futebol de papel” – ali estão guardados e expostos dezenas, centenas de
caixinhas de fósforo, álbuns de figurinhas, cigarros antigos com estampas de
jogadores (o polticamente correto ainda não havia dado as caras...), jornais
artesanais feitos por apaixonados pelo esporte, enfim, toda uma memória
coletiva que conecta quem visita o local ao esporte mais amado dos brasileiros.
Na primeira foto, a memorabilia do esporte, depois detalhe dos álbuns de figurinhas (quem nunca colecionou um?). Por último, uma história que se me contassem eu não acreditaria...
E tome cultura, que nunca é demais. À tarde, visitei o MASP pela primeira vez (como é que esperei tanto?). Que luxo é estar numa cidade brasileira rodeado por mestres como Van Gogh, Renoir, Matisse, Picasso...e ver que eles estão reunidos em um só lugar. Pra quem gosta de arte, havia ainda no segundo andar a genial exposição temporária de Lucian Freud, com os rostos tensos de suas modelos e ex-mulheres. Sem faltar os estudos para o famoso retrato da Rainha da Inglaterra, que pediu pra ser retratada por Freud e depois detestou o resultado...
No terceiro dia, aniversário da cidade, ida à Estação da Luz, ao
Museu da Língua e à Pinacoteca. Na entrada da estação, há um piano antigo. Um
velhinho que escutava as orientações da guia rapidamente se dirige ao
instrumento, senta e toca uma linda música. Aplausos gerais. Ele agradece,
levanta e diz que a música era de sua própria autoria, feita na década de 30 e
inclusive gravada por um cantor de sucesso. Há um pequeno período para fotos e
depois nos dirigimos ao Museu da Língua, ainda mais interativo que o do futebol, e com direito à concorrida exposição temporária sobre Cazuza. Pra quem foi
adolescente nos anos 80 e cantou junto aquelas canções do poeta, primeiro com o
Barão Vermelho e depois em carreira solo, não havia como não se emocionar. Vale a visita, por Cazuza e para descobrir
curiosidades sobre a história de nossa língua, desde antes do latim até os dias
de hoje. A língua é viva e continua se reinventando sempre.
Detalhe do prédio da Estação da
Luz. Depois, um dos vários versos de Cazuza nas janelas do Museu da Língua. Uma
garota canta "Ideologia" no karaokê instalado na mostra.
Pra quem vai ao Museu da Língua, outro passeio imperdível está
praticamente em frente, atravessando a rua: a Pinacoteca do Estado. Um lugar
muito charmoso, englobando desde as pinturas
mais acadêmicas até as obras mais pós-modernas. No mais, lembre do conselho:
reserve pelo menos duas horas para cada visita a estes museus. Na correria,
acabei perdendo muita coisa da Pinacoteca, e ficou aquela sensação de quero
mais. Um dia eu volto, com calma.
Como encerrar a viagem sem prestar conta da diversidade cultural e
étnica de São Paulo? Simples: visitando na manhã de domingo a feirinha do
bairro da Liberdade, conhecido como o bairro japonês. Ali encontramos uma
cultura ao mesmo tempo tão distante e tão próxima à gente...doces de feijão,
saquês diversos, yakisobas às centenas, luminárias cinematográficas, objetos de
um design absolutamente original, tudo isso percorrido por uma multidão que
poderia estar na 25 de março paulista ou no Saara carioca, mas preferiu
conferir de perto este bairro único no Brasil.
Sim, a grana ergueu e destruiu coisas belas. Há em São Paulo prédios caindo aos
pedaços ao lado de construções incríveis. Pichações horríveis convivendo perto
de grafites sensacionais. Esse desenvolvimento marcado por contrastes reflete uma
cidade que não para de crescer e insiste em se reinventar a cada dia. Enfim, se
você gosta de cultura em suas mais diversificadas manifestações, não deixe de
inserir São Paulo em sua rota de viajante. Nem que seja, usando um termo da
moda, para dar um simples rolezinho.
Existe amor em SP - Parte 1
Na medida do impossível
Tá dando pra se viver
Na cidade de São Paulo
O amor é imprevisível
Como você
E eu
E o céu
("Lá vou eu", Rita Lee)
O dia: sexta-feira, 24 de janeiro, por volta das 22h30. O local: Sesc Vila Mariana, São Paulo. Adentra o palco o músico Curumin. Ele senta num banquinho e segura um violão. Os músicos a sua volta aguardam o momento de acompanhá-lo. Ele dedilha o instrumento, faz uma pequena pausa...aproxima-se do microfone e começa a cantar "Não existe amor em SP". A plateia vibra de satisfação e aplaude. Um arrepio corta a espinha enquanto acompanho o público cantando junto o clássico instantâneo de Criolo. Curumin está acompanhado por um time de músicos e intérpretes de primeira, selecionados pelo produtor Bid em parceria com o Núcleo de Apresentações Artísticas do Sesc Vila Mariana, para comemorar o aniversário de 460 anos da cidade. Para este show, a ideia foi selecionar músicas que representassem a relação do paulistano com sua cidade - uma relação muitas vezes amorosa; outras vezes de ódio.
Para um carioca de passagem pela cidade, como eu, o roteiro contrastante do show poderia parecer exótico. No Rio, é difícil encontrar alguém que diga "amo e odeio esta cidade com igual intensidade", como muitos paulistas repetem. Mesmo vítima de tantos governantes incompetentes, tendo que aturar o caos no trânsito com as obras para a Copa, o morador do Rio costuma poupar a cidade de tantos dissabores. Claro que há aqueles bairristas, que adoram criticar São Paulo, com a mesma alegação tosca: não tem praia. Sim, não tem praia, mas tem o Museu do Futebol, o Museu da Língua, O Parque do Ibirapuera, 6 mil pizzarias, tem o Masp, a Pinacoteca e muito mais.
Algumas destas atrações eu pude conferir de perto na semana passada, durante uma breve estada na capital paulista. Eu havia estado em SP algumas vezes na minha infância, em excursões pela finada Soletur, com meus pais e irmãos. Nos divertíamos a valer naquele programa básico: Simba Safari, Cidade das Crianças etc. Minhas lembranças da capital paulista eram muito poucas. Lembro-me de jantar com a família num ótimo restaurante e imagens da cidade à noite. Somente isso. Depois, voltávamos ao hotel, para dormir e seguir viagem no dia seguinte. Com 12 ou 13 anos, eu estava bem mais interessado em me divertir nos parques do que mergulhar na cultura da maior cidade do país.
Também àquela época eu não conhecia muitas das músicas apresentadas no espetáculo do Sesc. Para minha sorte, o tempo passou, a cidade e eu crescemos e, na qualidade de "estrangeiro" em SP, pude aproveitar e cantar junto grande parte das músicas escolhidas, músicas estas que, segundo o programa de divulgação, buscassem "expressar, por meio de um repertório eclético, as contradições da metrópole e os sentimentos provocados em seus habitantes".
O show começara com a banda de ótimos músicos - a maioria vestindo roupas nas cores branca, vermelho e preto, as mesmas da bandeira do estado - levando um número instrumental de categoria. Há até um DJ no palco, o que sugere um show em sintonia com os novos tempos. Aos poucos cada convidado vais sendo chamado para números individuais ou em dupla. São eles: Monica Salmaso, Paula Lima, Curumin, Edi Rock, Silvio Modesto e integrantes da escola de samba Pérola Negra.
Difícil dizer o momento mais emocionante. Monica Salmaso interpretando "Eugenia", de Adoniram Barbosa ("Venha ver Eugenia, como ficou bonito o viaduto Santa Efigenia") e fazendo todos cantarem juntos "Sampa", de Caetano. Paula Lima, linda, cantando "Do lado direito da rua direita" e levando um rap com Edi Rock. Curumin, além da já citada interpretação de Criolo, ensinando ao público as deixas para a deliciosa canção "Augusta, Angélica e Consolação", de Tom Zé. Silvio Modesto, ritmistas e pastoras levando um samba-enredo da Pérola Negra. Tudo até o final, com todos no palco cantando "Trem das 11", um dos maiores clássicos da MPB.
Não houve bis após o fim do show. Mas nem precisava: a plateia já tinha sido arrebatada desde que Monica Salmaso cantara ""Lá vou eu", de Rita Lee ou Curumin interpretou Itamar Assumpção, outra das infinitas traduções de SP.
Criolo cantou o labirinto místico de sua cidade com um misto de paixão e desilusão. Pois é...na medida do impossível, os paulistanos vão encontrando um jeito de se viver. Pela beleza do espetáculo apresentado, eles estão no caminho certo. Enquanto isso, os grafites gritam: mais amor, por favor.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Cervejas, ame-as ou deixe-as*
Verdade ou lenda? Conta-se que nas últimas décadas do século XIX, um imigrante alemão recém-chegado ao Brasil resolveu abrir um bar no centro do Rio de Janeiro. O homem era um mestre cervejeiro em sua terra, e esperava prosperar por aqui com a bebida. No entanto, nos primeiros dias após abrir seu estabelecimento, teve uma triste constatação. Suas cervejas não dispunham da preferência dos brasileiros e portugueses que ali passavam, que preferiam o vinho. O alemão, um sujeito forte e de grande estatura, teve então uma ideia: mandou um funcionário afixar um cartaz na entrada do bar com a oferta de cerveja grátis, com um pequeno detalhe - era grátis para todos que o ganhassem numa prosaica queda de braço. Rapidamente, a frequência de seu bar aumentou. O esperto alemão ganhava quase todas as disputas, e de vez em quando relaxava o braço para que alguém o ganhasse. Quase sempre o "ganhador" voltava no dia seguinte trazendo amigos, que se tornavam novos fregueses. Aos poucos a frequência do bar foi preferindo a cerveja ao vinho.
Sem o saber, nosso próspero comerciante alemão foi um dos primeiros homens de marketing ligado à cerveja no Brasil. No entanto, se lhe fosse permitido viajar no tempo e chegar a 2013 para uma passeada pelos bares brasileiros, ficaria espantado com a quantidade de apaixonados por cerveja que temos por aqui. e creio que ele adoraria as diversas cervejarias brasileiras que começam a abrir suas portas aos amantes da bebida.
No sábado passado, estive em Petrópolis, conferindo pela primeira vez a fábrica da Bohemia, e o Museu da Cerveja. Em mais um sábado de calor infernal no Rio, valeu a pena subir a serra para uma tarde cultural e etílica. No Brasil, estas visitas guiadas em cervejarias são uma atividade recente, feitas com muita propriedade pelo marketing ligado às cervejarias.Sou de um tempo em que as únicas visitas abertas à fábricas de bebidas alcoólicas eram aquelas que tínhamos (e ainda temos, com muito sucesso) pelas vinícolas da região o sul do Brasil. Foi lá, em Bento Gonçalves (ou seria outra cidade?, não me lembro bem), que pela primeira vez ingeri álcool. Eu devia ter entre 13 ou 14 anos. Ainda me recordo dos imensos barris de vinho que nos cercavam enquanto o guia contava histórias sobre o vinho. A cerveja até então era algo "menor", uma bebida mais comum que - pelo menos aqui no Brasil - não parecia digna de merecer uma tour.
Mas os tempos mudaram. As grandes cervejarias viram que valia a pena apostar nessa paixão do brasileiro pela bebida, e começaram a abrir suas portas para receber cada vez mais pessoas dispostas a conhecer um pouco da história, da feitura da bebida e, como não deveria deixar de ser, beber um pouco. E a tendência não é só incrementar o turismo e alavancar as vendas. De um tempo para cá, bares e restaurantes com cartas de cerveja proliferam pelas cidades brasileiras, e aos poucos vai se tornando um hábito comum reunir os amigos para degustar cervejas artesanais de qualidade.
Outro dia, estive na rua Barão de Mesquita, na Tijuca, para encontrar um amigo que escolheu comemorar seu aniversário numa cervejaria. O local se chama Cerveja Social Clube e, a julgar pela fachada totalmente discreta - nem se preocuparam em colocar o nome do estabelecimento ali - me pareceu que ali se pretende ser um local aberto para iniciados. Um clube de fãs da bebida. E que já possui até site, como diz o folheto que me deram na saída: "Um site com mais de 250 cervejas de várias partes do mundo. Entrega em 48h na cidade do Rio de Janeiro. Copos, acessórios e revistas". Na loja física, há informações sobre degustações guiadas e aulas sobre cerveja, as quais acontecem esporadicamente. Mas peraí: degustações guiadas, aulas de cerveja? Pois é. Vivemos novos tempos etílicos...
O negócio da cerveja parece ser irreversível. Na fábrica da Mistura Clássica, cerveja artesanal de Volta Redonda, que abriu um bar para seus seguidores dentro da fábrica. O bar oferece degustações de seus diversos tipos de cerveja (PIlsen, Ale, Black etc) em minúsculos copos. Feita a degustação, o freguês escolhe sua (s) preferida(s) e pede ela por inteiro numa tulipa. Mais que uma ocasião para "derrubar cervejas", o que ocorre ali é uma experiência para quem realmente aprecia a bebida.
No ano passado, Aproveitando um feriado em Pedro do Rio, na região de Itaipava, estive com amigos na visita guiada á Itaipava. A visita é com hora marcada e deve ser reservada antecipadamente, de forma um tanto burocrática: nome, cpf e identidade de quem vai, proibido levar crianças, bermudas proibidas etc. A despeito de todos esses entraves, a visita vale a pena. Guias explicam detalhadamente o processo de formatação da cerveja, Sobretudo ao final, quando do alto do imenso pátio da fábrica, vislumbramos a etapa em que máquinas-robôs engarrafam, selam e empacotam centenas de garrafas da bebida que airá dali para diversos pontos do país.
Se na fábrica da Itaipava, o processo técnico da feitura da cerveja é o primordial, no fábrica da Bohemia, graças ao Museu da Cerveja, o impacto é bem maior, e cultural. Logo na entrada ficamos sabendo do surgimento da bebida, há milhares de anos no Oriente Médio, e também das lendas que cercaram a bebida e deram-lhe notoriedade, Conhecemos uma profissão de alto nível no Egito antigo: a de provador de cerveja; o legado dos santos católicos da Idade Média que teceram loas à bebida (como Santo Agostinho) assim como o trabalho de monges trapistas que inventaram a fórmula de uma das cervejas mais famosas até hoje. Acompanhamos os percalços e a evolução da bebida do alvorecer da Idade Moderna, passando pelas grandes navegações, o capitalismo e o surgimento da fabricação em série, que tornou a bebida famosa mundialmente. Registrei e compartilho com vocês algumas imagens do local.
Nos outros andares destinados á visitação, assistimos ao processo de fabricação da bebida, a um filme sobre a criação da fábrica da Bohemia em 1863, e o grand-finale: a degustação da bebida, quando, após um suspense feito pelo guia, uma sala que estava oculta subitamente surge à frente dos visitantes, com direito a serpentina de chope, garçons e o chamado para experimentar a bebida. Difícil, muito difícil resistir.
Enfim, provar, degustar, amar as infinitas cervejas hoje á disposição tornou-se algo definitivamente profissional no Brasil. Quem bebe por prazer agradece. Agora, por favor, com licença que vou à geladeira buscar minha red ale...
*inspirado em Paulo Leminski
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